Movies

Um Crime Para Dois

Comédia com protagonistas de ascensão meteórica na carreira traz personagens caricatas e falta de humor funcional

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Este é um daqueles filmes motivados pela projeção meteórica de seu(s) protagonista(s), geralmente atuando na comédia. Nesse caso, as estrelas são Kumail Nanjiani – que recentemente teve um roteiro indicado ao Oscar, o de Doentes de Amor – e Issa Era, cuja série Insecure supostamente conquistou até Donald Trump. A dupla, então, assina a produção executiva desse filme, acompanhada pela direção de Michael Showalter e o roteiro de Aaron Abrams e Brendan Gall.

A trama de Um Crime Para Dois (The Lovebirds, EUA, 2020 – Netflix) revolve em torno de um casal em crise, Leilani (Rae) e Jibran (Nanjiani), que acaba por testemunhar um homicídio com seu próprio carro. Acusados por um casal de transeuntes, os protagonistas fogem por medo de retaliação policial e decidem desvendar a conspiração por trás deste assassinato. Para o bem da premissa, as personagens insistem em linhas de raciocínio ilógicas, conclusões sem pé nem cabeça e rompantes de coragem que nada condizem com suas personalidades. Como se isso já não distanciasse suficientemente o espectador, momentos climáticos são constantemente interrompidos por uma boba discussão entre o casal, a título de alívio cômico e o que acaba por neutralizar toda e qualquer sensação de ameaça que poderia existir na cena.

Nesse mar de personas caricatas, parte pela má construção de personagem, parte pela insuficiência dos atores em trabalhar as camadas do material, a narrativa perde sua noção de realidade passo a passo, embarcando num mundo de suspensão completa das inconveniências de seus protagonistas a bel prazer. Em outras palavras, é mais um daqueles filmes que presumem a burrice de sua audiência e falha em entregar humor funcional. Além disso, a mise-en-scène de Showalter é despida de qualquer personalidade, em poucas variações de planos médios e abertos iluminados basicamente pela cinematografia de Brian Burgoyne, um especialista em iluminação de televisão que trouxe as técnicas de planificação da imagem para o cinema-Netflix.

Desinteressante, Um Crime Para Dois é um daqueles filmes para ser esquecido. Ou, melhor ainda, um dos que não vale nem sentar pra ver. É curto, com certeza, mas nada dinâmico e muito maçante. Mesmo com 1h26min, minha primeira (e única) leve risada assistindo veio quando por volta de uma hora e dez minutos. Isso já é indicativo suficiente da qualidade de um filme de comédia, certo?

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Você Não Estava Aqui

Diretor Ken Loach escancara a uberização da sociedade e as falsas ideias trazidas aos trabalhadores pela ilusão da ideia de meritocracia

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Em 2020 é difícil encontrar alguém que não use os serviços de Uber, iFood, Amazon e outros apps de entrega baixados no celulares. A comodidade de conseguir o que deseja diante de alguns cliques tem um preço invisível aos olhos do consumidor. Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You, Reino Unido/Bélgica/França, 2019 – Vitrine Filmes), mais recente trabalho do diretor britânico Ken Loach, aborda a chamada uberização da sociedade e como esse movimento pode afetar pessoas que buscam sair de dívidas e melhorar de vida.

Ricky (Kris Hitchen) é um pai de família que embarca no desafio de tornar-se trabalhador informal, com a ilusão de que terá mais liberdade e facilidade em ascender. Sua esposa Abby (Debbie Honeywood) espreme seus horários como cuidadora de idosos e enfermos em uma agência que pouco se preocupa com os clientes. Enquanto isso, os filhos do casal, um adolescente problemático e uma garotinha sentimental, sentem na pele a ausência e a crise da família.

Já na cena inicial o filme mostra a que veio. O novo chefe de Ricky explica o modelo de trabalho (entregas) e romantiza a profissão dizendo que ele não estará trabalhando para a empresa e sim com a empresa e não terá contrato. O que está nas entrelinhas é que o protagonista está iniciando um emprego sem direitos trabalhistas. Para poder começar as entregas, vende o carro da família para adquirir uma van e passa a trabalhar longas horas.

O roteiro é simples e cru. Tem uma aura de documentário, como se houvesse câmeras escondidas acompanhando as dificuldades de uma família real. É fácil esquecer que se está assistindo a um produto fictício, até porque não é necessário usar a imaginação para saber que o que se passa na tela é real.

Ken Loach, em entrevista promocional desta obra, disse que uma das maneiras de frear a extrema direita é acabando com as inseguranças trabalhistas. Os subempregos relatados no filme são fontes de frustração e infelicidade para os personagens e tantos outros trabalhadores que se iludem com falsas promessas de independência.

Você Não Estava Aqui (o título em português é uma ligeira adaptação da mesma frase em inglês utilizada em um bilhete oficial quando o destinatário não é encontrado no momento da entrega da encomenda) é um soco no estômago para todos que utilizam aplicativos e serviços para facilitar a vida. O diretor é certeiro ao optar pela simplicidade do cotidiano. Isso já o suficiente para atingir o público. Nada neste longa é por acaso. Todos os elementos apresentados, mesmo que sutilmente, tem lugar na trama, sejam eles chaves, porta-retratos ou garrafas plásticas.

Se em Tempos Modernos Charlie Chaplin criticou a mecanização do trabalho proposta pelo fordismo, Loach, em Sorry We Missed You, denuncia o tratamento desumano ao qual o proletariado se submete quando enganado pela ideia de meritocracia. A uberização da sociedade é cruel. Como nas palavras do próprio diretor, “não é mais necessário que um patrão use o chicote, porque o trabalhador explora a si mesmo”.

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Um Lindo Dia na Vizinhança

Na pele de um famoso e carismático apresentador de programa infantil da TV americana, Tom Hanks rouba a cena mesmo como coadjuvante

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Tom Hanks é conhecido por ser um dos caras mais legais de Hollywood. O papel de Fred Rogers parece ter sido feito sob medida para ele. O apresentador conhecido por seu programa infantil, que deu nome a este filme, não é protagonista da história, mas Hanks e seu carisma criam a sensação de que o filme gira em torno apenas dele.

A história de Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day In The Neighborhood, China/EUA, 2019 – Sony Pictures), acompanha o cético jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) na missão de entrevistar o astro Mr. Rogers. Cheio de conflitos internos, o repórter acaba passando por uma transformação ao conhecer mais a fundo o sempre doce apresentador.

Um Lindo Dia na Vizinhança ganha, (e muito) pela presença de Hanks no elenco. Certeiro, o ator consegue cativar em um personagem de muitas nuances. As conversas entre Lloyd e Rogers são delicadas e humanas, de longe os pontos altos do filme. Destaque especial para quando os dois dividem uma refeição em um restaurante sob olhares curiosos.

O filme apropria-se do cenário do programa infantil para realizar transições e inclusive uma cena de epifania do jornalista. Esse artifício rico traz dinâmica a história, inserindo quem está do outro lado da tela ao mundo colorido e lúdico construído por Mr. Rogers.

Tom Hanks segura o quanto pode, mas a história água com açúcar acaba por perder o embalo por vezes. Quando o ator ganhador do Oscar não está na frente das câmeras, nem sempre dá paral manter o foco. Lloyd não é carismático o suficiente para prender em seus momentos solo. É fácil entender sua raiva e sua dor, mas é mais fácil ainda entendê-la quando Mr. Rogers o auxilia.

Dirigida por Marianne Heller, a história cai em um lugar comum ao render-se a um dramalhão nas partes derradeiras. Claro, é bonito ver o desfecho do protagonista, mas e Mr. Rogers? É possível ver o final feliz de um personagem secundário? O filme, principalmente em sua última cena, atiça a curiosidade de entender mais sobre a vida e os sentimentos de Fred e não de Lloyd. Por isso, Um Lindo Dia na Vizinhança torna-se uma agridoce reflexão sobre a beleza e a complexidade dos sentimentos. Não é culpa do ator escalado para ser o protagonista, mas nesse caso competir com Tom Hanks não foi justo.