Music

Cocteau Twins

Trinta anos de Heaven Or Las Vegas, o sexto álbum da carreira do trio escocês que traduziu com perfeição a representação musical dos sonhos

Texto por Fábio Soares

Foto: 4AD/Divulgação

No ano de 2017, em programa apresentado na rádio inglesa BBC 4, os cientistas Adam Weir Rufherford e Hannah Fry receberam uma pergunta curta e grossa de uma ouvinte de apenas nove anos de idade: “Por que sonhamos?”, indagava Mila O’Dea, panamenha da cidade de Gamboa.

O secular questionamento vindo da jovem caribenha fazia todo o sentido, tendo em vista que milhares de estudos sobre o fenômeno transpassam décadas sem receber um definitivo “martelo”. A mais famosa delas foi desenvolvida pelo fisiologista Eugene Aserisnky, da Universidade de Chicago, em dezembro de 1951. Ele conectou seu filho de apenas oito anos a um aparelho de eletroencefalograma. A partir do disparo frenético da agulha do maquinário, Aserisnky percebeu que os olhos do garoto também eram estimulados por uma espécie de frenesi interno. Este fenômeno foi batizado por Eugene com uma sigla: R.E.M. (Movimento Rápido dos Olhos, em português). O resto é história.

Mas teria o sonho uma trilha sonora que o traduzisse à sua quase totalidade? Sim! Em setembro de 1982, um trio escocês daria ao mundo Garlands, uma bolacha que vinha mais para confundir do que explicar. Com atmosfera assustadora e afinações de baixo longe do convencional, os Cocteau Twins traziam um quesito a mais: a linha vocal de Elisabeth Fraser, que fugia (e muito) do lugar-comum. Fraser não cantava, mas, sim, conduzia um bólido sonoro por caminhos tortuosos. Tamanha indentidade chamou a atenção do lendário radialista britânico John Peel. Dois anos depois, no antológico disco Treasure, a voz de Liz atingia o patamar de inimaginável. Suas nuances e curvaturas vocais lhe renderam a alcunha de “Voz de Deus” por parte da crítica especializada inglesa. Estava solidificado, portanto, o termo dream pop. Gênero específico, inacessível porém, sublime. Mas ainda faltava algo. Um álbum para as massas. E coube ao ano de 1990 o papel de recorte temporário a um inevitável ápice.

Reza a lenda que o clima do trio durante as gravações de Heaven Or Las Vegas não era dos melhores. O casamento de Fraser com o guitarrista Robin Guthrie, não estaria bem, mesmo após o nascimento da única filha do casal, Lucy Belle, em 1989. Somado a isso, o vício de Guthrie em álcool e drogas levou a união de ambos à beira de um colapso. Alheio a este turbilhão, o baixista Simon Raymonde era o fiel da balança para fazer a coisa andar. E ela andaria nem que fosse na marra.

Heaven Or Las Vegas, já o sexto álbum da carreira, lançado em 17 de setembro de 1990, nasceu GIGANTESCO – a caixa alta ao defini-lo é plenamente justificável a partir de sua faixa de abertura. O vocal de Fraser, mais seguro como nunca, jamais soou tão avassalador. Aos 27 anos de idade, a soprano parecia atingir seu ápice técnico. A linha de baixo de Raymonde nunca soou tão segura como base para a genialidade de Guthrie. Arranjos estrelados mantém o nível em altíssimo patamar. Tente ficar indiferente à marcial batida de “Cherry-Coloured Funk” e falhe miseravelmente. O leque harmônico da banda parecia ser infinito. Como um sonho, claro. Propositalmente? Difícil saber. Prefiro acreditar que um liquidificador emocional foi ligado no estúdio e as sobreposições de camadas vocais, instrumentais e o raio que o parta veio para disparar nosso rápido movimento dos olhos acentuado na dobra de “Pitch The Baby” e “Iceblink Luck”.

A atmosfera de sonho atinge o nível máximo do sublime na faixa-título. O vocal de Liz conduz o ouvinte a um sobrevôo sobre a paisagem que melhor lhe convier. O céu de brigadeiro está ali e cabe a você, reles mortal, gratuitamente aproveitá-lo. O slide guitar de Guthrie é o trem de pouso. Você demorou demais para aproveitar. Portanto, volte a faixa para o início e decole novamente.

O voo termina com “Frou-Frou Foxes In Midsummer Fries” com a voz de Liz nos lembrando de que já é hora de acordar. Nos lembrando também de que Heaven Or Las Vegas, trinta anos após seu lançamento, permanece inabalável. Uma catedral sonora tão generosa que fica ali, de portas abertas para quem quiser adentrá-la. Afinal, Deus estava certo ao enxergar em Liz Fraser sua perfeita mensageira.

Entendemos a mensagem, Senhor. Mas, por favor, nos deixe sonhar mais um pouco. E que assim seja, por mais múltiplos de trinta…

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