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Pokémon: Detetive Pikachu

Longa-metragem renova franquia fantástica e abre as portas para expansões do universo criado nos anos 1990

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Pokémon se iniciou em 1995, com o anime original lançado em 1997. De lá pra cá, vinte e quatro anos depois, a franquia ainda move milhões de fãs ao redor do mundo, obstinados por card games ou pela mais nova saga eletrônica. Aparentemente, com o prenúncio do sucesso de Pokémon: Detetive Pikachu (Pokémon Detective Pikachu, EUA/Japão/Reino Unido, 2019 – Warner), a horda de fãs Pokémon será transferida, também, para as salas de cinema.

A trama deste longa-metragem gira em torno de Tim Goodman (Justice Smith), um jovem adulto incapaz de conectar-se com um parceiro Pokémon. Quando seu pai morre misteriosamente, vítima de um acidente de carro, Tim deve ir para Ryme City, uma encantadora cidade onde Pokémon e humanos vivem em comunhão, para lidar com a burocracia do falecimento. Ao entrar em seu apartamento, no entanto, o protagonista se depara com um Pikachu falante (Ryan Reynolds), inteligível apenas para ele e focado em resolver a morte de seu ora parceiro Harry (pai de Tim).

A química entre a dupla é instantânea, rendendo uma dinâmica estrutural interessante. Se, por um lado, Pikachu é desenvolto e altivo, Tim é retraído e não encaixa no mundo em que pulou de cabeça. Tal é a razão para que a construção de mundo lembre muito a empregada nos primeiros filmes de Harry Potter, quando, assim como o protagonista, víamos o universo mágico de Hogwarts (aqui, Ryme City) pela primeira vez. Assim, somos imersos num universo que, à primeira vista, lembra estética e fotograficamente um Blade Runner com mais constraste e menos sujeira, homenageando o neonoir com inovadores esquemas de cores, marca registrada da era dos super-heróis. Ainda assim, a direção e a fotografia logo se anuviam, sem deixar a parcela infantil de seu público de lado. Este, inclusive, é o público-alvo da maioria das piadas e cenas de ação, mas o público adulto, embriagado na nostalgia do universo Pokémon, tem seus momentos reservados ao longo do filme.

Rob Letterman, que já havia dirigido Monstros Vs Alienígenas e O Espanta Tubarões, parece ter encontrado uma estética competente a si, imprimindo a marca Pokémon sem um esmero pelo hiper-realismo ou comicidade escrachada, orbitando entre a verossimilhança e a característica fantástica de seu universo. Parte deste crédito, no entanto, vai ao incrível departamento de CGI, que presenteia o filme com sua principal peça, e a direção de arte, que constrói e conceitua toda Ryme City e cada um das centenas de Pokémon que figuram o filme.

É uma tristeza, no entanto, que não possamos analisar este longa em sua língua original. Aqui, 90% das cópias são dubladas – o que incapacita um detalhado balanceamento de atuações e longas frases sobre o timing cômico da obra – que, em sua versão brasileira, tem momentos fracos. Ainda assim, o elenco conta com nomes de peso, como Bill Nighy no papel do visionário elo entre Pokémon e humanos, Howard Clifford.

Seu roteiro, escrito a quatro mãos, não deixa a desejar, trazendo referências aos clássicos arcos do anime sem plasticidade. A reviravolta no final do segundo ato, no entanto, surpreende massivamente a plateia. Claro, não no nível de Vingadores: Ultimato, mas esta não é uma comparação justa.

Pokémon: Detetive Pikachu é um presente aos fãs adultos da saga que, levando seus filhos ao cinema, poderão dividir a nostalgia com as novas gerações com sólidos motivos para ter amado o filme. Da música à narrativa, é uma ótima surpresa para quem não esperava muito e, ainda mais importante na indústria dos últimos anos, torna-se prato cheio para expansões deste universo. Isto sem perder, nem por um segundo, sua independência fílmica.

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O Doutrinador

Personagem de sucesso da HQ independente brasileira ganha os cinemas para combater a corrupção na política e fazer justiça com as próprias mãos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Downtown/Divulgação

Doutrina é um conjunto de princípios que servem de base a um sistema filosófico, religioso, político, social ou econômico. Estas ideias devem ser difundidas e ensinadas disciplinarmente, de modo que elas se propaguem e se mantenham ao longo do tempo.

Para o policial de elite Miguel, só existe saída em uma única doutrina: atirar para matar, sem dó nem piedade, políticos corruptos brasileiros. Para vingar todo o sentimento de desgosto e impotência diante de dois fatores fundamentais: a morte da filha pequena por uma bala perdida no meio da rua e o fato de os esforços de sua força-tarefa para prender os criminosos de colarinho branco serem praticamente em vão diante da justiça comprada e das sabotagens de seu superior imediato. A partir desta sequência de infortúnios, ele se transforma em um obstinado justiceiro, que caça implacavelmente os envolvidos em um complexo sistema de corrupção para acabar com suas vidas a sangue frio. Na bala e também na quando, se possível. Transforma-se no Doutrinador, uma figura que leva o terror a seus alvos através de uma máscara antigás com olhos vermelhos de raiva, habilidades físicas com imenso potencial e uma aliança entre rapidez e estratégia para se infiltrar nos lugares mais impossíveis.

O ilustrador carioca Luciano Cunha criou o personagem em 2008, como uma válvula de escape para suas frustrações diante do inicio da enxurrada de notícias a respeito do Mensalão e outros casos iniciais que alardeavam a corrupção alastrada nas entranhas do meio político nacional. Depois de vários contatos com editoras, que mostraram-se receosas de publicar os quadrinhos do Doutrinador, Cunha decidiu pelo do it yourself. Disponibilizou em março de 2013 na internet a obra, que rapidamente arrebatou milhares de fãs com os protestos nas ruas de todo o país naquele mês de junho. Três edições impressas bancadas pelo próprio autor esgotaram-se rapidamente. Críticas positivas também vieram de outros países. Até que o cinema e a televisão também se atraíram pela HQ.

O longa-metragem O Doutrinador (Brasil, 2018 – Downtown Filmes) chega ao circuito nacional de salas de cinema nesta semana, já como uma espécie de piloto para o seriado que ganhará a telinha no inicio do ano que vem, na programação do canal por assinatura Space. O próprio Cunha, ao lado do roteirista Gabriel Wainer, assina a transposição dos quadrinhos tanto para o filme e quanto para os episódios. O longa tem a direção de Gustavo Bonafé (que está nos cinemas com outro filme, Legalize Já) e uma trilha sonora de primeira assinada pelo coletivo paulistano Instituto – com músicas interpretadas por Karol Conká, Rincón Sapiência e Far From Alaska, por exemplo.

Nem dá para perceber que o protagonista foi ligeiramente suavizado em sua sede por vingança e justiça pelas próprias mãos. O que poderia ser um ponto negativo para os fãs trazidos do universo das HQs. Outro ponto positivo do filme é a maestria para driblar qualquer procura por tendência político-partidária ou relações entre os personagens corruptos e os figurões da vida real. Luciano e Gabriel foram bem felizes ao não deixar rastros que possam ligar à esquerda ou à direita ou as turmas do fora-isso ou do aquilo-não.

Em recente passagem por Curitiba, quando participaram do evento Geek City, Cunha e Wainer defenderam a isenção de vínculos com ideologias que andam inflamando nosso país. “Ainda não estamos acostumados, no entretenimento brasileiro, a ter inimigos que conversem com a gente, uma narrativa que está conectada com a nossa realidade. O lema que sempre carregamos é que para termos um universo de heróis nosso, eles têm que falar das nossas cidades e dos nossos problemas”, afirmou Luciano. Gabriel ainda salientou que o filme foi criado para que não surgisse um Doutrinador na vida real.  “Não é uma apologia à violência. É uma ficção que criei para externar meu descontentamento com a classe política. Sempre digo que temos que matar os políticos na urna, não os elegendo. Os corruptos, é claro”, completou Cunha.

Para interpretar o protagonista, Kiko Pissolato dispensou o uso de dublês e encarou ele mesmo a tarefa de rodar todas as cenas de ação como o Doutrinador. No elenco ainda estão Tainá Medina (a hacker nerd que dá suporte ao justiceiro em suas ações), Eduardo Moscovis (o governador corrupto que dá início às caças particulares de Miguel), Tuca Andrada (o chefe de Miguel na Divisão de Ações Especiais), Marília Gabriela (como a ministra do STF envolvida nos esquemas dos políticos e empresários), Helena Ranaldi (a opositora do debate que também concorre às eleições), Samuel de Assis (o policial amigo de Miguel) e Natália Lage (a ex-mulher de Miguel).

Apesar do roteiro se perder para algumas obviedades no final, O Doutrinador– que carrega claras inspiração e influência estética do Batman – ainda revela-se um bom filme de ação, gênero pouco explorado no cinema nacional. Justamente por seu maior trunfo ser o fato de dispensar o uso de efeitos especiais pirotécnicos e tecnológicos (algo que hoje em dia parece indispensável em obras deste filão) para apostar no fator humano.