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A Odisseia dos Tontos

Novo filme argentino com Ricardo Darín no elenco retrata os reflexos sofridos do povo quando planos econômicos impactam a nossa vida

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Um plano econômico quando é adotado num país não só confisca o dinheiro da poupança, “come” os zeros e altera o nome da moeda ou limita a quantia que você deve sacar do banco. Termina, sim, por confiscar os dias, devorar a saúde do povo, principalmente a dos idosos, mudar o sentido de justiça e limitar nossas forças diante da vida. Quantos traumas e suicídios a ministra Zélia Cardoso de Melo não endossou ao anunciar, há quase três décadas, o fatídico Plano Collor, do presidente caçador de marajás? Quantos aposentados não infartaram em 2001, quando foi instalado o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários, fantasma que ainda persegue o povo argentino?

Pois este é o tema do mais recente filme estrelado pelo ator Ricardo Darín, que pela primeira vez atua ao lado do filho Chino Darín. O roteiro de A Odisseia dos Tontos (La Odisea de los Giles, Argentina/Espanha, 2019 – Warner), que estreou nesta quinta-feira no Brasil, é baseado no romance do escritor Eduardo Sacheri e feito em coautoria com o diretor Sebastián Borensztein, do fantástico Um Conto Chinês. Em vez de abordar o assunto de forma pesada, o tom da narrativa procura atenuar os reflexos sofridos pelo povo portenho com um bom humor inteligente presente em diálogos dinâmicos, repletos de ironia e palavrões colocados na medida.

Trata-se de uma comédia dramática leve, ao estilo sessão da tarde, porém sem deixar as críticas políticas de lado, como muitas citações ao peronismo e o anarquismo do russo Mikhail Bakunin. O filme usa aquela máxima de que o povo é sempre tratado como idiota, enganado pelo sistema. Como o próprio nome diz, a odisseia é a saga de moradores da província de Alsina (os “tontos”) que viram o desejo de montar uma cooperativa ir para os ares depois da crise, assim como a vida de pessoas queridas que também se esvaíram após o golpe. Mas o que desperta a grande revolta por parte dos locais é o fato de terem sido enganados pelo advogado Manzi (Andrés Parra), amigo do gerente do banco, que conseguiu informações privilegiadas e trocou, a tempo, os pesos argentinos por dólares.

Darín interpreta Fermin Perlassi, um ex-jogador de futebol que se transforma em Robin Hood e convoca os amigos fiéis a bolar um plano para recuperar o dinheiro do advogado malandro. Como todo bom argentino, faz da solidariedade o antídoto para combater a injustiça (e não a vingança, como no papel do mesmo Darín em Relatos Selvagens).

O filme traz ainda ótimas atuações de atores veteranos. Luís Brandoni, que faz um anarquista dono de uma oficina mecânica, chega a brilhar mais que próprio protagonista. Além de Rita Cortese, que aparece tímida no papel de uma empresária local.

Vale lembrar que o livro que deu origem a este longa-metragem foi escrito pelo mesmo autor da obra que originou O Segredo de Seus Olhos, que conquistou o Oscar de melhor produção em língua não inglesa em 2010. Depois disso, o trabalho de Darín alcançou outro patamar e ultrapassou as fronteiras do então país comandando por Cristina Kirchner, que volta à cena agora política como vice-presidente. Pois Darín, a prata da casa e sinônimo de cinema argentino, acertou na decisão de não se juntar aos americanos, recusando papeis secundários oferecidos por Hollywood. E, ainda, para alegria de seus fãs, inspirou o filho a trilhar a mesma profissão. Com apenas 30 anos de idade e oito de carreira, Chino já acumula um currículo extenso, tendo estrelado um punhado de excelentes filmes, entre eles As Leis da Termodinâmica (disponível na Netflix).

A Odisseia dos Tontos fica aquém de outras comédias estreladas pelo mais famoso ator do cinema argentino. No entanto, mesmo sendo um filme sem grandes pretensões, vale a pena ver o dono dos olhos azuis e cabeleira cada vez mais grisalha atuando nas telonas. A família Darín é sempre um bom convite para ir ao cinema e rir da tragédia. Pelo menos enquanto o fantasma retratado no filme está adormecido…

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A Vida Invisível

Com extrema sensibilidade, Karim Aïnouz emociona ao retratar a invisibilidade feminina na sociedade brasileira de algumas décadas atrás

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Textos por Janaina Monteiro e Leonardo Andreiko

Fotos: Sony/Divulgação

Quando A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) termina e surgem os letreiros, a sensação é de que acabamos de vivenciar uma profunda imersão na vida secreta de nossas avós, principalmente para os espectadores – como eu – cujo sangue português corre nas veias. É bem possível que você fique atônito, perplexo, abalado, devastado ou se renda a qualquer outro sentimento que talvez provoque lágrimas, como ocorreu à plateia de críticos do último festival de Cannes, onde o filme do diretor Karim Aïnouz ganhou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar. Em agosto, o título também foi escolhido pelo país como o seu candidato a uma possível vaga ao Oscar de filme em língua não inglesa em 2020, superando o também premiado, badalado e cultuado Bacurau.

Martha Batalha, autora do livro que inspirou o filme e cuja história retrata a vida de duas irmãs separadas primeiro pela paixão, depois pelo pai e então pelo destino, já adverte na introdução: as personagens Eurídice e Guida foram, sim, baseadas “na vida das minhas e das suas avós”. Eurídice, Guida e todo o núcleo feminino são retratos da mulher que teve de abandonar – ou pelo menos adiar – os sonhos para se dedicar à família, aos próprios filhos ou aos filhos dos outros. Elas são o espelho da mãe solteira e da mulher que era chamada de biscate caso ferisse os bons costumes. É sinônimo da mulher invisível, que tinha como dever obedecer às regras sociais, ser refém do marido. Sua frustração era combatida com esperança, convertida em forma de netos em vez de diplomas pós-doc.

O melodrama tropical (como fora rotulado o filme) nos remete à tradicional família de imigrantes portugueses na época pré-pílula anticoncepcional, quando a mulher era feita para ser mãe e ainda precisava, sim, trabalhar fora. Para adaptar a história às telas, o diretor Aïnouz e os roteiristas Inês Bortagaray e Murilo Hauser (este, um curitibano da gema) trabalharam por três anos a fim de extrair a essência da obra de Martha e conseguiram retratar a sociedade patriarcal daquele tempo com uma verossimilhança impressionante.

O cenário é a cidade do Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, o bairro de Santa Tereza. Eurídice (Carol Duarte) mora com os pais e a irmã mais velha Guida (Julia Stockler) numa casa em São Conrado. A jovem, de 18 anos, é um talento nato no piano, sonha em ser concertista e sempre dá cobertura à Guida, interpretada no final do filme pela magnífica Fernanda Montenegro. Dona de um temperamento extrovertido, Guida se apaixona e decide fugir com o namorado grego sem ao menos saber dizer uma palavra do idioma. De mala e cuia, ela deixa a casa, rumo ao porto, onde embarca de navio para sua aventura amorosa.

Com o sumiço da irmã, Eurídice fica à deriva e se apega ao brinco perdido por Guida. Carol exterioriza essa condição de desorientação de forma surpreendente, com seu olhar sempre perdido, tentando encontrar alguma resposta no horizonte. Quando Guida volta ao Brasil, pouco tempo depois de terminado o romance, ela é expulsa de casa e as duas se separam. O restante do filme é sobre a busca de Eurídice em rever a irmã, que para seu marido Antenor Campelo, funcionário dos Correios e amigo da família, já está morta. Gregorio Duvivier, ator dedicado à comédia e que até surpreende no teatro, tenta convencer ao interpretar o estereotipo do marido dos anos 1950, porém se perde no meio do caminho. Fica caricato, ora exagerando na veia cômica, ora se esforçando no drama.

Guida consegue sobreviver sozinha na capital do país. Toma um rumo que nunca sonhou e paga o preço por ter fugido de casa. Enquanto vive à procura de Guida, Eurídice também toca a vida: engravida e adia o sonho de ser musicista.

Enfim, A Vida Invisível é uma obra que retrata estereótipos e costumes da metade do século passado, revirando a memória afetiva do espectador. Mostra o pai português severo, a mãe que vive na cozinha trabalhando e cuidando da casa, a família que se reúne ao redor da bacalhoada e da rabanada na ceia de Natal. O realismo e a naturalidade como o diretor trabalha essas figuras são surpreendentes. Nada fica de fora, seja o suor de seus corpos, o sangue pós-parto, as relações sexuais não consentidas. Aliás, as cenas de sexo, sem cortes e explícitas, nos remetem a muitos títulos dos anos 1970 e 1980 que hoje são exibidos de madrugada no Canal Brasil. Assim como a textura e proporção de tela escolhidos por Aïnouz que costuma ser comparado a Pedro Almodóvar. Isso porque ele consegue imprimir uma visão feminina da história, ao dar corpo a personagens com atitude feminista, no limiar da segunda onda do feminismo. Os saltos temporais também são executados com maestria. Apenas os erros de continuidade prejudicam a perfeição do filme.

Depois de A Vida Invisível certamente vamos olhar para essas senhoras de cabelos brancos com mais curiosidade e atenção. Mulheres podem, agora, ter o canudo que quiser, escolher o parceiro ou parceira, decidir pela maternidade. Somos fruto de cada Eurídice e cada Guida, as irmãs que resistiram ao fardo de pertencer a uma sociedade conservadora. Sociedade que, ainda hoje, guarda o ranço do machismo. (JM)

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Karim Aïnouz é um autor. Seu forte estilo de direção, bastante focado em seus personagens, como ele próprio definiu, angariou fãs dentro e fora do Brasil, além de diversos prêmios. No entanto, ele confidenciou ao espectador curitibano durante a pré-estreia do filme, na noite de 24 de outubro no Cine Passeio, que A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) surgiu da vontade de alçar voos mais próximos do público, distanciando-se do estigma do cinema arte de salas vazias e lançamentos modestos, antes mesmo da crescente – e absurda – desvalorização da indústria audiovisual brasileira.

Seu melodrama ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, corroteirizado por Murilo Hauser e Inés Bortagaray, revolve em torno da relação de duas irmãs, Eurídice e Guida Gusmão, cada uma de espírito fortemente distinto da outra, separadas pelas circunstâncias da vida e desejando o reencontro. Tanto o roteiro quanto a direção de Aïnouz propõem um rumo diferente da tomada por Martha Batalha no romance que inspirou a obra – portanto, comparações se tornam ainda menos necessárias que de costume.

O título anterior da obra (quando venceu a mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes, em maio, o filme se chamava A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, assim como o livro) trazia, a princípio, um foco maior nesta, interpretada por Carol Duarte. O longa, porém, trata Guida e sua irmã como protagonistas, ambas seguindo suas histórias, enormemente distantes e distintas. Este, talvez, seja um forte trunfo da obra. Pois tanto Duarte quanto Julia Stockler têm seu respectivo espaço para construir suas personagens, cujos contrastes dão tom à trama, ao mesmo tempo que são muito aproveitados metaforicamente. Enquanto Guida é altiva e senhora de si, Eurídice é contida e, embora tão forte e sonhadora quanto sua irmã, acaba envolvida na opressora máquina da família tradicional, cujo vigor era ainda maior na época. Assim, a audiência é capaz de torcer para que ambas se reencontrem, ainda que torça para que suas tramas individuais deem certo.

A cumplicidade de A Vida Invisível com suas personagens é outro amplificador à imersão da obra. A câmera de Aïnouz e da diretora de fotografia Hélène Louvart as acompanha e, numa instância mais poética, torna-se parte delas. Sentimos o que elas sentem, desde as emoções transpassadas pela maravilhosa atuação até as emoções mais abstratas, como o constante desfoque que sequestra os quadros de Eurídice. Ampliada pela belíssima direção de arte e ambientação, a fotografia é capaz de evocar naturalismo fotográfico e, num plano subsequente, flertar com o imaginário e figurar os fortes vermelhos característicos da filmografia de seu diretor.

No entanto, o longa-metragem sofre de um problema, no mínimo impactante. Ao retratar algumas cenas com intensidade maior que a necessária, Aïnouz passa do ponto, o que pode causar fortes desconfortos a audiências com gatilhos envolvendo abusos sexuais. A sensibilidade que permeia os momentos introspectivos da obra se perde na noite de núpcias de Eurídice com Antenor, interpretado muito bem por Gregório Duvivier – que não perde seu jeito característico no humor e, mesmo assim, desenvolve um personagem distante de sua figura porta-dos-fundesca, por assim dizer. Fica aqui o alerta de gatilho, portanto.

Ainda assim, a obra é repleta de acertos, que se aglomeram e transformam A Vida Invisível numa história emocionante e envolvente. Quando imaginamos que tudo já poderia acabar, é claro que estamos enganados. Fernanda Montenegro tem a sensacional – ou terrível, caso precise escrever sobre sua atuação – mania de transcender, em seu ofício, quaisquer elogios, adjetivos ou análise que possa ser feita. Em poucas palavras e muitos olhares, a nonagenária atriz amplifica a já belíssima personagem de Carol Duarte. A Eurídice Gusmão de Fernanda, já calejada de uma vida inteira, emociona do primeiro ao último olhar. Aïnouz soube dirigi-la com maestria e, assim, amarrar com finesse a trama que constrói em seu filme.

Capaz de argumentar sobre a invisibilidade das mulheres na sociedade, o machismo estrutural e suas vítimas em ambos gêneros e a perda da esperança, o longa não se esforça em desenvolver quaisquer destes temas. Antes do tema, vêm as personagens. Essa é a história de Eurídice e Guida, mas poderia e deveria ser a história de muitas mulheres. Nossas bisavós, avós e mães. (LA)

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O Pintassilgo

O amadurecimento de um menino que perdeu sua mãe em um atentado no museu e a sua paixão por uma pintura holandesa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

John Crowley propõe, baseado no livro homônimo por Donna Tartt, a derivar seu filme em torno de Theo, um rapaz cuja mãe faleceu num atentado terrorista a um museu e que, como forma de lidar com o luto, rouba a lendária pintura O Pintassilgo, do holandês Carel Fabritius. Acompanhando seu crescimento a partir do evento traumático, o roteiro almeja estabelecer a transição entre as personagens de Oakes Fegley e Ansel Elgort, respectivamente Theo criança e adulto.

Com uma narrativa alinear, o filme oscila seu foco entre a adaptação de seu protagonista quando criança a uma série de eventos, iniciando pelo acolhimento por uma abastada família e o impacto que esta parte de sua vida, que se desenrola com o passar do tempo, teve quando ele entra em sua maturidade. Neste sentido, tanto o roteiro de Peter Straughan quanto a direção de Crowley desenvolvem um paralelo interessante, iniciando o filme num bem-vindo suspense. No entanto, o enfoque de sua história muda drasticamente com a chegada do segundo ato, por assim dizer.

Assim, acompanhamos Theo, já adaptado à primeira grande dificuldade, vivendo sua vida, de forma que o filme abandona sua premissa inicial e, despindo-se de todo mistério, passa a abordar a relação do personagem, interpretado aqui por Fegley, com seus amigos e parentes. O infeliz resultado é uma narrativa empacada, um filme que parece esquecer-se da história que quer contar. As constantes cenas cotidianas de Theo esfriam gradualmente o ritmo de O Pintassilgo – problema que poderia facilmente ser resolvido com a supressão de algumas cenas que adicionam pouco (ou nada) à trama.

No fim, isso não é de todo mal, sobretudo para fãs da fotografia de Roger Deakins, que transforma cada plano do longa-metragem em uma obra de arte à parte. Peca-se um pouco, no entanto, na construção da identidade estética desta fotografia, afinal Crowley decide “reaproveitar” composições que imortalizaram o trabalho de seu diretor de fotografia – uma interessante e válida homenagem, porém, ao mesmo tempo, uma indicação de preguiça da produção, ou até de dedo podre da produtora.

É importante ressaltar a qualidade da atuação de grande parte do elenco, principalmente da dupla de protagonistas. Oakes Fegley tem uma sensibilidade muito bonita ao conduzir Theo por seu coming of age traumático, enquanto Ansel Elgort consegue, sem que o roteiro o obrigue a explicitar tudo, transmitir perfeitamente a ansiedade causada por seu passado. Nicole Kidman, Jeffrey Wright e Luke Wilson também interpretam extremamente bem as figuras paternais que seus personagens representam a Theo, para bem ou para mal. O elo fraco, no entanto, é a atuação de Finn Wolfhard como o melhor amigo de Fegley. Seu adolescente russo é caricato e (mais de uma vez) o ator esquece de seu sotaque e pronuncia uma ou outra palavra com sua fonética canadense. Sua contraparte adulta, Aneurin Barnard, também entrega uma atuação caricata – o que pode indicar que o problema jaz no roteiro ou na direção que Crowley decidiu levar os personagens.

Ainda que tenha pontos bons, principalmente técnicos, O Pintassilgo vence sua plateia por nocaute, cansando-a com seu desenvolvimento, despido do conflito que, a princípio, regeria a trama que constrói. Tecido por boas atuações e uma fotografia completamente dentro do que se espera de um diretor consagrado, o filme é um tropeço de John Crowley muito menor do que, levando em conta seu problema de ritmo, poderia ter sido.