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Ataque dos Cães

Protagonistas fogem do passado para tentar aceitar o presente ao seu redor em faroeste dirigido pela veterana neozelandesa Jane Campion

Texto por Luca Passos

Foto: Netflix/Divulgação 

Há, no cinema estadunidense atual, uma onda revivalista de diversos movimentos passados. Com o faroeste não é diferente, mesmo que este gênero seja considerado, ainda que um tanto injustamente, baluarte de um classicismo temático conservador. As paisagens semi-inóspitas, os casarões de madeira e saloons voltaram a abrigar as figuras arquetípicas que, de uma maneira ou de outra, moldaram a sociedade que agora volta seus olhos ao seu próprio passado, porém trazendo muitas questões de seu presente.

Ataque dos Cães (The Power Of The Dog, EUA/Canadá/Austrália/Nova Zelândia, 2021 – Netflix), dirigido e com roteiro adaptado do livro de 1967 escrito por Thomas Savage pela veterana neozelandesa Jane Campion se passa em Montana, estado no noroeste dos Estados Unidos, no ano de 1925. A trama retrata a relação de dois irmãos, Phil (Benedict Cumberbatch) e George Burbank (Jesse Plemons), que há 25 anos são vaqueiros e donos de um rancho no rincão de lá. A interação dos dois durante o início do filme é de uma incompreensão mútua: Phil é um homem do passado, duro, porém orgulhoso de lembrar de seu falecido mentor, “Bronco” Henry, sempre que tem a oportunidade; enquanto George é retraído, contempla soturnamente as paisagens ao seu redor e vive num entretempo de presente e futuro, um vulto que tenta ser moderno em meio à aspereza de seu ambiente.

Durante uma das conduções que a dupla faz de seu gado pelas redondezas, George conhece a viúva Rose (Kirsten Dunst), dona da estalagem em que seu grupo se abriga e que logo se casará com ele. Ao mesmo tempo, o filho de Rose, Peter (Kodi Smit-McPhee), é apresentado já em clara oposição ao “bronco” Phil: um jovem sensível e ingênuo que quer estudar medicina. O centro dramático é montado quando esse quadrado de protagonistas é forçado a conviver na casa dos Burbank durante as férias de Peter. 

Portanto, o filme se desenrola nas fraturas e possíveis adequações das diferenças dos quatro, com pontuais interações com outros personagens, que, por sua vez, fazem apenas o trabalho de moldar a psique de cada um dos protagonistas. Campion trabalha essa construção lentamente, sem, porém, deixar o ritmo cair a uma contemplação exagerada e auto-condescendente – apenas exige que o espectador preste atenção em pequenos detalhes, nas vestimentas, no uso ou não das palavras, nas reações silenciosas de cada personagem. O clima de tensão aumenta nessa soma de pequenos atritos ou enlaces entre os personagens, em conjunto com a trilha sonora ansiosa de Jonny Greenwood (integrante do Radiohead) que, por vezes, passa por cima de um intimismo que fica apenas desejado – vale lembrar que o livro-base foi uma das inspirações para outro faroeste revivalista, Brokeback Mountain.

A solidão de cada personagem, seja ela virtual ou real, é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que evita a abertura da barragem de sentimentos de forma piegas, fortemente verbalizada, também pesa sobre os atores, que devem passar emoções que, por vezes, podem até não ser captadas ou nunca expressadas em palavras. Entretanto, todos os quatro nomes principais são capazes de entregar atuações convincentes, mesmo que o casal interpretado por Plemons e Dunst tenha um tempo diminuído de desenvolvimento em relação à dupla de Cumberbatch e Smit-McPhee. Isto, aliás, acaba deixando seus problemas muito mais abstratos e impenetráveis, chegando ao ponto de haver, no ato final, uma ruptura entre a intensidade de suas ações e suas pretensas justificativas. 

É provavelmente nessa ambiguidade relacional entre os personagens, porém, que o filme se sai melhor com a dupla Peter e Phil, onde a trama caminha numa suspensão em que a flor da intimidade deles vai aos poucos sendo desabrochada. Seus espaços intocados, os passados, acabam sendo invadidos sutilmente enquanto Campion e a diretora de fotografia Ari Wegner se deleitam em captar o entorno da casa dos Burbank, com suas colinas e esparsas árvores, em composições belíssimas – evidente herança do tempo em que a diretora foi estudante de Artes Visuais.

Por fim, tomando o gancho, é a herança que faz Ataque dos Cães ser o que é. Campion tem consciência disso. Os personagens se montam a partir de sua aceitação (quase prisão) ou fuga do passado (seja num carro ou numa garrafa de bebida). Tudo remonta ao que não podemos mais ver. Um relógio de pulso, o fraquejar da mão, um olhar perdido, uma corda, uma sela, todas as coisas são símbolos. Mais que isso, são objetos que gravitam do que foi para o que é, uma presença viva do que está morto (há coisa mais viva que as cenas de Phil na floresta?). Mesmo que algumas partes fiquem enevoadas, a atmosfera está lançada e isso se reflete no próprio filme enquanto um faroeste.

Os westerns, além de um gênero altamente popular nos Estados Unidos, são o mito de criação desse país, o contar ininterrupto de uma história que mexe tanto com o passado de uma nação quanto com seu presente. E não é à toa que Campion coloca na boca de Phil a comparação dos irmãos com Rômulo e Remo, gêmeos míticos fundadores de Roma. Além de ter parte na criação de uma nação por meio da narração, também foram os faroestes que ajudaram a sedimentar uma imagem de homem que segue certos preceitos dos “machos” encapsulados por figuras como John Wayne e Gary Cooper e que atualmente vem sendo desmitificada –  processo do qual o longa-metragem de Campion faz parte, junto com outros desta mesma ainda curta década, como o fascinante Cry Macho, de Clint Eastwood, promotor central e agora desconstrutor da “imponência masculina” do oeste profundo.

O poeta Walt Whitman, orgulhoso fruto dos Estados Unidos do século 19 e que lembra o Phil de Cumberbatch por seu afastamento intencional da sociedade moderna e alto nível intelectual, comenta, muito melhor do que eu poderia, essa relação central que permeia Ataque dos Cães. “O que é o presente além do crescimento do passado?”, pergunta. O sentimentalismo do filme, com seu fascínio pelos desejos proibidos, por uma história marginal, é também um crescimento do passado, de uns certos homens e mulheres que não passaram nas telas nas décadas de 1940, 1950 e 1960, e que reclamam, por meio de relíquias, seu lugar nas criações de suas nações e do cinema. Tudo, afinal, termina com o sacrifício de um amor no momento histórico em que começarão a ser criados os mais clássicos faroestes. Um enterro duplo.

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