Music

Charme Chulo

Quarteto encerra hiato de sete anos sem lançar disco e propõe uma guinada sonora rumo ao pop com as dez faixas de O Negócio é o Seguinte

Texto escrito e organizado por Antonio Carlos Florenzano

Foto: Isabella Mariana/Divulgação

O negócio é o seguinte: acabou hoje a longa espera de sete anos por um novo disco do Charme Chulo. Nesta terça-feira, dia 14 de setembro (na verdade, o dia habitual de lançamentos fonográficos é sempre uma sexta-feira, mas reza a lenda que a banda não quis ficar vinculada ao 17 e à sua maldição recente na História do Brasil!) chegam às plataformas as dez faixas que compõem o quarto álbum da banda curitibana curiosamente batizado… O Negócio é o Seguinte. O novo trabalho indica uma grande guinada rumo ao pop, ao contrário do anterior, o duplo Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014), no qual o apontamento para uma sonoridade bem difusa e multifacetada como uma espécie de grito primal para exorcizar todos os perrengues e dificuldades que quase puseram um ponto final na trajetória do quarteto nos anos anteriores.

Em O Negócio é o Seguinte (independente), a linha condutora suaviza tudo – sem descaracterizar, porém, a precisa fusão entre o pós-punk e o rock caipira que norteia a banda desde a sua fundação, em 2003 – e injeta um esmero maior na hora de burilar os arranjos vocais, as bases instrumentais e as linhas melódicas. Também pode ser vista como um resultado da maior maturidade autoral da dupla de compositores – os fundadores, primos e vocalistas Igor Filus e Leandro Delmonico (também responsável pelas guitarras, violões e violas) – durante todo este hiato. Neste longo período, vale ressaltar, Igor, Leandro, o baixista Hudson Antunes e o baterista Douglas Vicente passaram a se dedicar também a outras atividades extramusicais (mesmo porque sobreviver apenas de rock no mercado musical brasileiro é uma tarefa hercúlea e quase impossível), viu os filhos nascerem e crescerem, aproveitaram o tempo para restartar a banda.

Afinal, em quase vinte anos de trajetória muita coisa mudou. Não apenas os integrantes, as suas vidas, mas também o mercado musical. Daqueles garotos que, como muitos outros, amavam o Morrissey e o Trio Parada Dura (mas não necessariamente ao mesmo tempo) e no fim da adolescência resolveram montar uma banda, muita coisa se transformou e hoje, na casa dos quarenta anos (ou próximo dela), eles fazem uma revisão do passado sem deixar de continuar olhando e seguindo em frente. Os mesmos, porém diferentes. E a principal diferença é que desta vez quem assumiu a frente nas composições assinadas pela dupla foi Delmonico, que compôs a maior parte das letras, melodias e bases harmônicas. Igor, agora, ficou mais restrito à condição de “intérprete”, embora todas as decisões sobre a finalização de versos, tons e arranjos sejam tomadas em dupla. Leandro, mais próximo do pop e estudioso autodidata da estrutura de canções populares, é o comandante desta transição e chega, pela primeira vez, a assumir os vocais principais em uma faixa.

É exatamente destas mudanças que trata O Negócio é o Seguinte. Dez músicas novas que mantém o pezinho ali no pós-punk e a alma encharcada na caipirice mas arem o leque da diversidade sonora apontando para novos caminhos que, ao contrário da louca e desvairada profusão do disco anterior, aqui há uma espinha dorsal mais pop, formada por uma abençoada conjunção de melodias grudentas e maior aproximação com a música popular brasileira, indo do tecnobrega paraense à carioquíssima bossa nova. Já nas letras, a ironia rock’n’roll permanece bastante equilibrada naquele blend bem charme chulo com a veia sacana a la Dalton Trevisan. Os alvos da vez agora são a alta sociedade curitibana, o gabinete bolsominion do ódio, a depressão espalhada pelo mundo, a vaidade das redes sociais, o começo da banda que nunca mais voltará.

A pedido do Mondo Bacana, Leandro e Igor dissecam todas as novas músicas abaixo e ainda comentam detalhes e curiosidades sobre as gravações e os conceitos por trás do título e da capa do novo álbum, que pode ser escutado logo abaixo.

FAIXA A FAIXA

NOME DO DISCO

Leandro: “O batismo segue algo muito recorrente na banda: criamos os títulos antes das músicas e dos álbuns. Foi assim com Nova Onda Caipira (2009) e Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014). “O negócio é o seguinte” era uma expressão muito utilizada pelo meu pai. Eu a achava engraçada e pretensiosa. Como o disco é bem pop, fizemos um trocadilho com a coisa do business, o negócio. Algo do tipo “está aí o disco pra você ouvir”. Mas pode ser também uma falsa expectativa , já que o ‘negócio’ nem pode ser grande coisa (risos)… São expressões brasileiras que adoramos, né?”

A CAPA

Leandro: “A ideia partiu do Carlos Bauer, designer do disco e de uma das camisetas da campanha de crowdfundingfeita para ele. É uma miniatura de um bar. Tem poucos centímetros. Essas miniaturas são utilizadas em ferrorama, são coisa de colecionador.”

BASTIDORES DA GRAVAÇÃO 

Leandro: “A pré-produção e as gravações ocorreram entre dezembro de 2020 e março de 2021 no estúdio Arnica, em Curitiba. A escolha partiu do produtor, Rodrigo Lemos (que já tocou em bandas curitibanas como Poléxia, Lemoskine e A Banda Mais Bonita da Cidade), que já trabalha há um certo tempo com o estúdio. Ele já havia contribuído com parte da produção de Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014), mas em O Negócio é o Seguinte ele assina sozinho a produção do álbum inteiro, tendo uma participação fundamental na evolução da sonoridade. A maioria das músicas teve pouco tempo de amadurecimento, pois foram compostas poucos meses antes de entrarmos em estúdio. Portanto, tivemos que ajustar várias coisas com o Lemos.”

NEM A SAUDADE

Leandro: “Esta sempre esteve entre as mais cotadas para o posto de single de disco. Foi a música que mais chamou a atenção do Lemos no início do processo. Ele cortou a introdução (que virou o solo de saxofone) e deu mais urgência para a canção. Nos incomodava o fato dela ser muito curta e objetiva, mas com o tempo nos conformamos com isso. O refrão é realmente o grande recado dela.”

Igor: “Como evolução musical, considero a melhor composição feita pela banda. Sertanejo clássico com indie rock, nada mais Charme Chulo. Muitas histórias, muita saudade, dos amigos e amigas que fizemos na longa estrada da banda, já com quase 20 anos.”

Leandro: “Uma das nossas buscas foi equilibrar o clima saudoso daquele sertanejo clássico presente em canções singelas como ‘A Majestade, o Sabiá’ ou ‘Tocando em Frente’ com uma base roqueira. É quase, parafraseando o D2, a nossa ‘à procura do rock sertanejo perfeito’ (risos). A letra, enxuta e objetiva, versa sobre voltar ao passado e não se identificar mais com aquilo.”

TUDO QUÍMICA

Leandro: “Única composição majoritária do Igor no disco. Não passou por muitas mudanças durante o processo de pré-produção, mas ganhou em sofisticação com os arranjos do Lemos. Uma das canções que mais cresceram em estúdio. O final ficou bem grandioso com a repetição do verso “não, não me leve a mal…”

Igor: “Leandro, mentor do álbum, deu a pinta com a melodia e letra da introdução e eu uni ao um velho riff, da melodia do refrão. Bingo! A letra foi a única coisa que praticamente teve minha iniciativa no disco (fui muito mais um interprete do que letrista desta vez!) e novamente inspirada em uma conversa com o amigo Leonardo Scholz (vocalista do grupo Leis do Avesso) sobre como as pessoas hoje em dia só são tristes se querem, dada a quantidade de remédios, tratamentos, terapias e diagnósticos que existem. Então todas as músicas são felizes, coloridas, agradáveis. Essa coisa de dark, de romantismo, do desajuste, é absolutamente ultrapassado e ingênuo.”

Leandro: “A grande composição do Igor no disco, o que explica a pegada pós-punk, tão presente no começo da banda. Certamente estará entre as músicas de trabalho, principalmente por agradar aos fãs mais antigos.  Destaco o trabalho do Rodrigo Lemos na produção, que soube potencializar todo esse sentimento. Um belo dia cheguei pro Igor e mostrei à introdução que eu tinha bolado… ‘Não, não me leve a mal, só vem sem pressão’… Ele pegou aquilo e transformou nesse pequeno monstro!”

FEIO FAVORITO

Leandro: “Quem ouve essa faixa não imagina o trabalho que tivemos para arredondá-la. Quase utilizamos três tempos diferentes no registro, mas conseguimos encontrar um equilibro no final. Passou por mudança de tom na voz e ganhou alguns reforços percussivos também. Gostamos muito da letra e da proposta da música e sempre a consideramos um dos carros chefes do disco. No entanto, achei-a um tanto quanto ousada para ser música de trabalho.”

Igor: “Imagem forte, humor ácido, musicalidade perigosa, referências ousadas, brincando sem medo na linha tênue do gosto duvidoso. E tudo isso é apenas Charme Chulo. Estamos em casa: entre e sinta-se à vontade!”

Leandro: “A música mais complexa do disco, que deu mais trabalho, certamente. Buscamos misturar nossa caipirice ao pop e ao ragga. O riff de guitarra busca imitar um acordeon e foi o primeiro instrumental que compus para o disco. No entanto, sua origem era mais country rock. Com a temática da letra – um pequeno manifesto sobre os dilemas de quem sofre com o massacre vaidoso das redes sociais – buscamos um ar mais dançante e divertido.”

VOCÊ NUNCA IRÁ DANÇAR COMIGO

Leandro: “Do jeito que veio ficou. Precisamos ajustar o tom para adequar o jogo de vozes mas ela sempre foi bastante objetiva, lembrando coisas do Sistema Bruto. O grande charme foi a adição da sanfona, que deu um balanço todo especial pro som.”

Igor: “Mais uma letra esplêndida do parceiro Delmonico, também entre as melhores já feitas, de tirar o fôlego. Cavalo chucro em grande estilo! Entra fritando o pinhão! Explosão de refrão! Cozinha de Douglas e Hudson estonteante. Bem brasileira, bem atual para o nosso som, saboreando até um forrozão, mas sertanejo até a medula. E sabe o que é engraçado? O sanfoneiro do rolê, Diego Kovalski, vem gravar com a gente e ainda diz: ‘como vocês conseguem fazer esse sertanejo durão, dá pra ver que vocês são do rock. Obaaaaa!!! Deu tudo certo!”

Leandro: “Foi a primeira música deste álbum. Hoje percebemos que ela tem um pouco do clima ácido do nosso último disco Crucificados Pelo Sistema Bruto. Trata, com bastante ironia, do exibicionismo das redes sociais. Por se tratar de um modão dançante, achei que uma história de amor não correspondido poderia cair bem.”

RABO DE FOGUETE

Leandro: “Sempre botei muita fé nela como música de trabalho. Nesse ponto, Lemos foi fundamental. Ele conseguiu adicionar elementos do tecnobrega à faixa, fazendo com que ela ganhasse aquela pegada típica do Pará. O take do Igor de voz foi muito emocionante, daquelas músicas que a gente grava quase que de primeira. As guitarras funcionaram e chegue a cogitar um feat com algum cantor do Pará, mas achamos melhor esperar…”

Igor: “Na verdade eu sou o ‘amigo’ da letra, mas a emoção na hora de cantar é toda minha: “É cada bucha, rapaz!” A vida dá umas viradas, às vezes no meio do processo. A arte é o dia a dia e é pura profecia. Certeira desde o dia em que a ouvi pela primeira vez, no dia em que faleceu Moraes Moreira.”

Leandro: “Esta faixa acabou se tornando um símbolo da nossa evolução musical. Ela flerta bastante com o novo pop produzido no Brasil. O Charme Chulo sempre se apropriou da brasilidade pela música caipira, no entanto, resolvemos flertar um pouco com o clima dançante do norte e nordeste do país, fomos beber na pegada de artistas como Jaloo e Duda Beat. A letra, bastante influenciada pelo mestre Dalton Trevisan, acabou combinado bastante com o instrumental.”

QUANDO NÃO DEPENDE DA GENTE

Leandro: “Se depender da audição dos fãs apoiadores, que tiveram acesso antecipado ao disco, esta é a maior surpresa do álbum. Uma faixa lenta e existencial para dividir o disco ao meio, que acabou ganhando em sofisticação nos arranjos. Várias pessoas a destacaram na primeira audição. Ficou bem tocante mesmo.”

Igor:  “Respiro do disco, sem ser menor. Ponto alto é a mixagem de vozes inusitada para o padrão do Charme Chulo, onde as duas vozes, estão no mesmo volume, cantadas em uníssono, vislumbrando novos caminhos. Ao melhor estilo do produtor do disco, parceiro de profunda sensibilidade, conhecimento e admiração pela banda e profissionalismo, Rodrigo Lemos.”

Leandro: “Compor pensando no conceito do disco é algo imprescindível pra gente. Precisávamos de uma balada para dividir o lado A e o lado B do álbum. Esta música surpreendeu bastante, pois conseguimos levar a viola caipira para um lado bem sofisticado. Nos influenciamos por Kings of Convenience. Acho que é a primeira vez que o Charme Chulo chega perto de um clima mais bossa nova.”

BALANÇO QUALQUER

Leandro: “Surgiu de um riff teimoso que fiz há um bom tempo e se tornou um dos singles do disco.  Colocamos toda a influência do lado pop nela. Foster The People, Blur e um toque caipira na letra. No estúdio, o grande trabalho foi ajustar o groove da faixa. Lemos abusou dos efeitos eletrônicos.

Igor: “A vitória dos sabores e efeitos eletrônicos precisos do disco, com formato de canção rock sessentista, deixando o pop mais puro falar alto. Possivelmente a quarta música de trabalho.”

Leandro: “Uma das minhas letras favoritas. A canção fala sobre os dilemas da vida adulta, sobre aceitar que não dá mais pra exagerar nas coisas. O verso ‘Nego dinheiro e advogado para ser feliz’ diz muito sobre o clima da classe média alta curitibana, onde tudo se resolve com um bom advogado (risos). O riff é bastante influenciado por bandas como Phoenix e Two Door Cinema Club.  Acho que uma das minhas maiores influencias no Charme Chulo é o lado dançante. Meus instrumentais acabam puxando bastante pra isso.”

EU NÃO SEI AMAR

Leandro: “Quase morri para gravar esta viola! Foi a primeira canção que gravei no estúdio. Gosto muito do instrumental (riff e solo). É uma música que acaba surpreendendo a galera também, por ser grudenta e caipira. Minha grande intenção é usá-la para dar um dinamismo ao vivo: o famoso momento em que o vocalista sai do palco.”

Igor: “A viola volta com tudo, na primeira vez em que Delmonico aparece em vocal principal franco e desafetado, abrindo o peito na malemolência gauderio-caipiro-paraguaio da música, de letra quase pueril. Agrega de maneira emocionante, trazendo um outro colorido de vozes para o repertório e ordem do álbum.”

Leandro: “Outra música que surgiu a partir de um conceito. Eu andava com vontade de compor uma música que privilegiasse o instrumental, podendo utilizar ela nos shows para dar um ‘descanso’ pro Igor. No entanto, a canção acabou ganhando uma letra singela e um refrão que não sai da camisa. Tenho muito orgulho do instrumental de viola e continuo achando que será uma ótima música para tocar nos shows. A solução foi assumir os vocais. Outro marco, pois é a primeira faixa que canto inteira no Charme Chulo.”

PERDIDOS NA BAGACEIRA

Leandro: “O grande sentido desta música é a letra. Quanto ao instrumental, destaco a utilização de um banjo no solo e o fato da gente dividir o vocal novamente, como em outras faixas. Eu alterei a ordem dela no disco. Ela entraria um pouco antes, mas achei que ajuda no desfecho, com um recado político e tal.”

Igor: “Outra letra primorosa de Leandro, escancarando com categoria a situação esbagaçada do Estado que não é nação, maturidade no falso lado B do curto álbum, com uma musicalidade mais clássica, a agradar os fãs mais antigos.”

Leandro: “Precisávamos falar sobre o momento político do Brasil, mesmo que isso não combinasse tanto com o clima do disco. Nesse ponto acabei sendo mais passional. Aliás, cheguei a brigar com a família. Como nossa base musical veio do punk rock também, impossível não meter a boca nesse clima de ódio.  Obviamente fazemos isso de um jeito Charme Chulo. O que sinto hoje é que realmente estamos perdidos numa bagaceira e que iremos demorar pra recuperar um clima maduro no Brasil.”

MAIS ALÉM

Leandro: “Acho que conseguimos bolar uma versão razoável de disco pra ela. É complicado competir com a gravação original e os vocais do Tuyo. Precisávamos de um arranjo novo, que combinasse com a banda. Eu e Lemos ficamos algumas horas no estúdio criando uma pegada de baixo e bateria, que remete a Arcade Fire e Beach Boys. Ela acabou conversando bastante com outras faixas mais dançantes e eletrônicas do disco. Fecha bem.”

Igor: “Perfeita como fechamento, a nova versão foi bolada dentro da esteira da produção do álbum, para tentar aproveitar essa importante canção da banda, a fim de que pudesse ser tocada ao vivo, na quase impossível tarefa de resguardar a versão single de 2018, com participação especial do Tuyo.”

Leandro: “A dúvida sobre regravar ou não esta música durou até o início das gravações. A versão com o Tuyo, gravada ao vivo em 2018, é muito marcante. Mas não tem como competir com o poderio vocal das meninas, ainda mais ao vivo. Nossa ideia foi trazer a música para um universo mais indie. Criei o arranjo novo com o Rodrigo Lemos no estúdio. As pessoas que já puderam ouvir gostaram bastante do resultado final. Acho que ela não poderia ficar de fora e fecha muito bem o disco.”

Music

Charlie Watts

Conhecido por suas batidas precisas e a paixão paralela pelo jazz, integrante original dos Rolling Stones morreu hoje aos 80 anos

Textos por Marden Machado (Cinemarden) e Fábio Soares

Foto: Reprodução

Começo a escrever ao som de “Emotional Rescue”, minha canção favorita dos Rolling Stones, para falar sobre Charlie Watts, meu rolling stone favorito e baterista da banda de rock mais antiga do mundo ainda em atividade. A abertura dessa música, a oitava do álbum de mesmo nome, com o baixo de Bill Wyman e a batida precisa de Watts, sempre produziram em mim um efeito hipnótico.

Sei que a maioria das pessoas tem no vocalista ou no guitarrista a figura favorita de um grupo musical. Nada errado nisso. Talvez eu esteja errado. Afinal, meu beatle favorito é George Harrison. No Who é John Entwistle. No Yes, o Chris Squire. No Led Zeppelin, o John Paul Jones. A exceção que não foge à regra talvez seja Robert Fripp, guitarrista do King Crimson.

Charlie começou sua carreira tocando na Blues Incorporated, que sempre tocava no Ealing Club de Londres, que era frequentado por Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones. O trio que viria a formar os Stones convidou o baterista para integrar a banda e o resto é história.

De 1963, sua entrada oficial no grupo, até o dia de sua morte foram 58 anos de excepcionais serviços prestados ao rock’n roll. Paralelo a esse trabalho, que ele considerava o melhor do mundo, tinha uma outra banda, Charlie Watts Quintet, de jazz. O álbum Long Ago and Far Away, lançado em 1996, traz ele na capa, de terno e sobretudo, do jeito que gostaria de tocar nos Stones.

Watts foi diagnosticado com um câncer na garganta em 2004. Chegou a fazer um tratamento rádio e quimioterápico e, segundo anunciado na época, ficou curado. Recentemente, prestes a iniciar os ensaios para uma megaturnê mundial pós pandemia dos Rolling Stones, sua família anunciou que o baterista não participaria por razões médicas. O anúncio de sua morte – provavelmente ligado a esta questão de saúde – ocorreu nesta terça-feira, 24 de agosto, aos 80 anos de idade.

Vá em paz, Charlie Watts. E obrigado pelas inesquecíveis batidas, sempre rítmicas e precisas, de sua bateria. John Entwistle, George Harrison e Johnny Cash te aguardam para fazer parte de uma nova banda. (MM)

***

Rolling Stones ao vivo é sempre a mesma coisa? Sim, claro! Mas visitar a Mona Lisa no Louvre, o Guernica no Reina Sofia e o Cristo Redentor também são e ninguém questiona. Minha primeira aventura stoneana foi também o début de muitos brasileiros. A banda mais icônica da história, na praia mais icônica do planeta e de graça? Tô dentro! E lá rumei de São Paulo para o Rio em 18 de fevereiro de 2006 para aquele que seria o maior público da história desta instituição do rock. Um milhão de pessoas esperadas, um milhão de pessoas comparecidas, praia abarrotada, tudo para uma noite incrível, exceto por um detalhe.

Após o show de abertura dos Titãs, uma série de arrastões aconteceu na areia com vários espectadores lesados (eu, incluso). Mas não havia tempo para lamentações. Os Stones subiriam ao palco pontualmente às 21h30 e teríamos que assistir. Assistir? Bem, isso é um modo de dizer porque uma famigerada área VIP lotada de famosos que sequer sabiam dizer o título de três canções da banda separaram a realeza dos plebeus. Restava aos reles mortais contemplar a apresentação através de diversos telões instalados ao longo da orla. Fiquei tão longe do palco que devo ter visto o show lá no bairro de Madureira. Mas, tudo bem, eram os Stones, enfim!

Poderia discorrer agora sobre a performance de Jagger, Richards e Wood mas é sobre Charlie Watts que devemos falar tendo em vista que o lendário baterista faleceu na último dia 24 de agosto em Londres, aos 80 anos de idade. Vestindo calça clara e camiseta verde-limão, a lenda viva iniciou os trabalhos conduzindo a cozinha em “Jumpin’ Jack Flash”, “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like It)” e “You Got Me Rocking”. Nas parcas vezes em que as câmeras o focalizaram, sua frieza era de assustar. Nem parecia que exercia seu ofício diante de dois milhões de olhos. Sua postura deveria ser a mesma num esfumaçado clube em Londres.

Aceleração? Iniciou-se na então recém-lançada “Oh, No, Not You Again” com Watts mais preciso que um relógio. Sua discrição era assombrosa e ditava o ritmo de jogo. Mais parecia um piloto de automóveis sabendo exatamente o momento de acelerar e praticar o contrário.

Em “The Place Is Empty”, sob os vocais de Keith Richards, sua minimalista “cama” foi fundamental para o momento “isqueiros acesos”, fato que repetiu-se em “Happy”, ainda sob a voz do guitarrista. Mas foi em “Rough Justice” que a monstruosidade entrou em campo. Suas batidas marciais adquiriram ares de rolo compressor, que se seguiria em “Get Off Of My Cloud”, antes da catarse catapultada pela trinca “Start Me Up”, “Brown Sugar” e “(I Can’t Get No) Satisfaction”.

No fim, sabe-se lá como Me. Watts conseguiu vestir uma JAQUETA debaixo de calor senegalês do verão carioca para cumprimentar o público. Esses ingleses! Cada louco com sua mania…

Corta pra 2016. A quarta-feira de 24 de fevereiro amanheceu e permaneceu carrancuda pela maior parte do tempo. A turnê Olé, que percorreria estádios de futebol pelo mundo todo, desembarcava no Morumbi como uma itinerante atração turística. E chuva torrencial que caiu na zona sul paulistana permaneceu a encharcar o estádio até os indefectíveis acordes de “Jumpin’ Jack Flash”. O arrasa-quarteirão stoneano de abertura de shows jamais perdera seu punch ao longo dos anos servindo como contraponto à elegância de Charlie Watts. Como baterista de jazz, sabiamente conduzia seu carro alegórico de forma discreta, deixando a efusividade do palco a cargo de rebolado dos quadris de Mick Jagger e do desleixado modo da dupla Keith Richards e Ron Wood.

É inexato tentar chegar a um consenso sobre o que se passaria na cabeça de um discreto baterista como Watts em meio ao pandemônio do dia a dia de uma banda de rock. Talvez porque toda casa de baixo meretrício necessita de um porteiro sóbrio. Talvez porque toda “gaiola das loucas” necessita de seu porto seguro.

Ao final daquela apresentação encharcada, voltei para casa feliz. Havia visto os Stones pela segunda vez. Só não sabia que não haveria outra vez de contemplar Charlie Watts em ação. Ficam minha admiração e sua eterna timidez, protegida sob o alicerce de suas baquetas.

Sua elegância foi suprema para mim, num intervalo de uma década (2006-2016). Foram dez anos resumidos em um, aliás. Gracias, Mr. Watts! (FS)

Music, TV

Karol Conka – A Vida Depois do Tombo

Oito motivos para você não deixar de assistir à série documental da Globoplay sobre a participante mais polêmica do BBB21

Texto por Abonico Smith

Foto: Globoplay/Divulgação

Foram necessários apenas dois meses para separar a saída de Karol Conká do Big Brother Brasil 21 e a estreia de A Vida depois do Tombo, série documental em quatro episódios que acaba de estrear nas opções de streaming da Globoplay. O foco aqui é justamente mostrar o que o título já adianta: como ficou a vida – pessoal e profissional – da rapper curitibana depois de sua passagem polêmica pelo reality show mais visto e comentado dos últimos anos na televisão brasileira.

Lá dentro da casa sitiada nos estúdios do Projac, no Rio de Janeiro, ela aprontou quase que diariamente por quatro semanas. Tretou diretamente com alguns participantes, chegando a demonstrar seguidas vezes um comportamento agressivo em toda a sua verborragia, o que assustou, irritou e desagradou quase toda a audiência. Não por acaso, a cantora conquistou a maior porcentagem de votos em toda a história do programa, não só no Brasil como também no mundo. Karol obteve quase todos os votos computados, deixando para seus então dois concorrentes na ocasião a divisão de menos de 1% da escolha para a eliminação daquela rodada – vale lembrar ainda que era apenas o quarto paredão da edição deste ano. Na manhã seguinte, ao ser entrevistada por Ana Maria Braga em seu programa matinal, ela não perdeu a chance de dar uma alfinetada com seu habitual deboche, dizendo que se sentia uma Carminha ou Nazaré Tedesco lá da casa, fazendo referência a duas supervilãs de novela que até hoje, anos depois, o público ama odiar.

Desde as inacreditáveis atitudes e declarações que Karol disparou na vigésima primeira edição do BBB que a artista vem sendo alvo de uma gigantesca campanha de cancelamento. Nas redes, nas ruas, no dia a dia. De artista com respaldo suficiente para garantir sua entrada no programa no grupo dos famosos (denominado Camarote) a alvo constante de xingamentos, racismo e até mesmo ameaças de violência à família foram pouco mais de dois meses. É justamente isto o que A Vida Depois do Tombo procura mostrar: como a rapper fodona, dona de língua superafiada vem lidando com a fama e a carreira depois de ter caído em desgraça durante a experiência televisiva recente e, sobretudo, suas reações ao se deparar com uma pequena retrospectiva das barbaridades que protagonizara. 

Abaixo, o Mondo Bacana elenca oito motivos para você não deixar de assistir ao documentário seriado. Tenha sido espectador(a) assíduo do BBB ou não. Seja fã de rap ou não. Seja alguém que ama a cultura pop ou não.

Extrema rapidez de realização

Da eliminação de Karol (última semana de fevereiro) à disponibilização do documentário (últimos dias de abril) passaram-se apenas dois meses. E além do prazo bastante curto, pode-se dizer que a produção foi extremamente ágil. Afinal, já a partir do segundo dia da rapper fora da casa as câmeras já a seguiam captando tudo o que acontecia ao redor dela, ainda no calor de todas as quentes reações de rejeição quanto a ela. Do reencontro com o conforto da família ainda no hotel no Rio de Janeiro à viagem rumo à casa em São Paulo e a volta gradativa à normalidade do cotidiano com cachorro, comida caseira e o trabalho de criar e gravar canções em estúdio.  Então tudo ali se passa antes mesmo do fim desta temporada do BBB. Tudo em 25 dias consecutivos. E mais: antes mesmo de Karol ter voltado à casa na noite da final, para cantar justamente a música “Dilúvio”, com parte da letra sobre esta terrível experiência. Mais up to date com os fatos impossível!

Cancelamento que passou dos limites

Karol cometeu erros execráveis lá dentro da casa, tanto que foi eliminada com a maior porcentagem de toda a história em todas as franquias do Big Brother no mundo. Só que toda a reação de cancelamento a ela foi desproporcional, como mostra o documentário. Para começar, antes da votação maciça, ela foi “homenageada” com diversas paródias (sem um pingo de graça, aliás) com vídeos superproduzidos e upados no YouTube. Na noite do paredão, foram registradas comemorações com o estouro de fogos e muitos gritos com xingamentos para ela. Nos dias subsequentes à saída, vem o pior: o sofrimento com contínuas ameaças à família, sobretudo ao filho adolescente, na escola e na internet. Agora ficam as perguntas. Será que o ódio dado a ela não passou de todos os limites também? O que ela fez justificaria o que recebeu, tal qual a expressão “olho por olho, dente por dente”? E mais: isso aconteceria da mesma forma se não fosse ela mulher e preta?

Black Mirror mode on

A Vida Depois do Tombo é uma série documental feita já para o streaming. Então o seu público-alvo é aquele que está justamente acostumado com o maior chamariz destas plataformas: as séries. Para mostrar as reflexões de Karol acerca de seus erros mais recentes foi armado todo um circo tecnológico em um estúdio. Ela fica no meio, sentada em uma cadeira, com meia dúzia de telões gigantescos mandando mensagens escritas a ela, da forma mais direta e objetiva possível. Quando não são revividas imagens-chave de seu comportamento inadequado no BBB, aquilo ali fica piscando intermitentemente com os letreiros direcionados a ela. Passa uma sensação de pequenez a quem está no centro das atenções e recebendo um bombardeio de adrenalina. Os (bem) mais velhos podem se lembrar de um programa que a TV Record exibiu entre 1968 e 1971, chamado Quem Tem Medo da Verdade? e que submetia importantes artistas brasileiros daquela época a uma espécie de tribunal inquisidor baseado em polêmicas sensacionalistas. Já os mais jovens… bem, estes vão poder disparar “mas isso aí é bem Black Mirror, hein?”.

Flagrante durante o dilúvio

Um dos grandes acertos do documentário é justamente dar uma de BBB fora do Projac e dentro da casa da cantora. Durante uma reunião, com a câmera afastada da mesa, a assessora de imprensa de Karol é flagrada dando instruções a ela sobre como proceder durante a (temida) entrevista no Domingão do Faustão. “Fala que você surtou lá dentro”, orienta a profissional de comunicação, sem qualquer pudor. Quem também está nesta reunião é o produtor que comanda as redes e a equipe ao redor da rapper.  Ele ganha uma bronca por ter se precipitado em algumas decisões durante o dilúvio do cancelamento descomunal e dispensado gente sem o o conhecimento e o consentimento da “patroa”. Não resta a menor dúvida de que todos ali não se deram conta de que estavam sendo filmados…

Carreira no rap curitibano

Nem só de BBB vive A Vida Depois do Tombo. Outro belo acerto do documentário é deixar o passado recente de lado e mergulhar em toda a trajetória profissional de Karol e mostrar como a jovem Karoline se encontrou com o mundo do ritmo-e-poesia e decidiu focar todas as suas energias nele. Através de depoimentos do ex-marido e pai de seu filho, o rapper e produtor Cadelis, é desvendada a sua breve ascensão no hip hop de Curitiba, uma cidade outrora brindada em outras grandes cidades do país pelas suas guitarras barulhentas. Depois de um breve período de afastamento dos palcos por causa da maternidade, Karol voltou com tudo para lançar (em 2013) um primeiro álbum acachapante, adicionando doces melodias e elementos de música brasileira às batidas quebradas e ao canto falado. Daí em diante o estouro foi meteórico, chegando a fazer turnês pelo exterior e se apresentando na cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro (2016).

Trajetória pessoal x obra profissional

Se existe um gênero musical bastante transparente na história da música pop ele é o rap. Quase sempre a vida pessoal dos artistas influencia diretamente a criação das letras e ilustra a trajetória deles em discos, declarações e atitude. Com Karoline dos Santos Oliveira não foi diferente. E o documentário também vai através de rastros da infância e adolescência que moldaram a persona Karol Conká. Um dos momentos mais fortes é sem dúvida quando ela e a mãe passam a limpo a relação com o vício etílico do falecido pai e os problemas de bullying e racismo enfrentados nos tempos de colégio. A soma destes dois elementos praticamente forjaram uma Karol que sempre se obriga a ser forte emocionalmente e, sobretudo, defender-se com a língua, fazendo da fala e do discurso suas armas mais afiadas – a ponto de ferir gente e gerar um alto índice de rejeição nacional, como bem foi demonstrado em sua passagem pelo BBB.

Tretas em série

Batuk Freak, o primeiro álbum, foi um grande sucesso. Entretanto, revelou-se uma obra envolta em polêmicas durante e depois da sua concepção e gravação. No documentário, Karol revela ter se mudado para a casa do produtor artístico DJ Nave e sua esposa, a produtora executiva Drica Lara e vivido dias de extrema instabilidade emocional por lá. Depois de uma série de apresentações para a divulgação do disco, rompeu laços com a dupla, chegando às vias judiciais. Na sequência, Karol se aliou ao DJ Zegon, ex-Planet Hemp. Para seu selo gravou alguns singles com um som mais pesado, contundente e rápido. O maior hit da carreira dela, “Tombei”, foi uma destas gravações feitas para o selo eletrônico de Zegon na efêmera gravadora digital Skol Music e criadas ao lado da dupla Tropkillaz (isto é, Zegon e o beatmaker curitibano Laudz). Só que o tão esperado segundo álbum não saiu, ficou emperrado por anos – até Karol se associar ao terceiro produtor, o DJ Hadji, e assinar, enfim com a Sony Music para lançar Ambulante, em 2018, já tirando o pé do acelerador e se voltando mais a atmosferas pop. Pelo documentário, descobre-se que também houve altas tretas nos bastidores entre os dois. Tanto de Zegon, assim como Nave, proibiram o uso de sete de dez gravações no documentário, por também serem registrados como autores (à revelia de Karol, que, furiosa ao saber disso, questiona com um “mas fui eu quem escreveu as músicas”). As três composições restantes e ouvidas em A Vida Depois do Tombo, são parcerias de Karol com outros produtores. E se não bastasse serem destrinchados os desafetos com os ex-parceiros, ainda há uma boa parte dedicada à briga com outra grande rapper brasileira, a brasiliense Flora Matos. Flora se negou a gravar um depoimento. Sobre as confusões envolvendo Karol, Nave e Zegon, os três estão proibidos, por determinação da justiça, de se pronunciar sobre isso.

Operação Passa-Pano?

Assim que foi anunciado o seu lançamento, a série documental foi vista por muita gente como uma tremenda operação “passa-pano” da Globo para minimizar os danos provocados à carreira de Conka e a ela própria. Depois das quase duas horas divididas em quatro episódios, não é mesmo a impressão que ela passa. Com extrema coragem e ousadia, Karol se expõe ainda mais aqui. Muito de sua vida, carreira e suas atitudes acaba sendo escancarado e até explicado, porém não justificado. A tentativa de reconciliação com os concorrentes afetados diretamente por ela no BBB também acaba fracassando de certa forma, embora ela diga estar arrependida do que fizera e conseguir reconhecer os erros pelos quais pede perdão logo em seguida. Em uma entrevista exibida no Fantástico, a diretora Patricia Carvalho, entretanto, é muito incisiva na resposta à pergunta se a rapper iria gostar do que está mostrado na série. “Não, porque esta é a Karol diante do espelho. Durante o documentário a gente ficou em dúvida muitas vezes. Isso é falso ou é verdadeiro? Ela está sentindo isso mesmo ou está me manipulando?”, disparou.

>> Veja abaixo o clipe de “Dilúvio”, a nova música de Karol Conká, gravada logo após a saída do BBB21 e que tem parte da letra que fala sobre sua experiência no programa

Movies

Estados Unidos vs Billie Holiday

Perseguição à musa do jazz por causa de hino de protesto ao racismo traz grande atuação de Andra Day mas se perde na edição e no roteiro

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Hulu/Amazon Prime/Divulgação

Billie Holiday é uma das vozes mais marcantes da música mundial. Suas interpretações cheias de emoções são lembradas até hoje por diversas gerações. Especialmente “Strange Fruit” que  virou um hino de resistência, apesar da repressão sofrida inicialmente. Este é o cenário de Estados Unidos vs Billie Holiday (The United States vs. Billie Holiday, EUA, 2020 – Hulu/Amazon Prime), a cinebiografia da musa do jazz

Dirigido por Lee Daniels, o filme recapitula a longa perseguição do governo americano à cantora. Lady Day (apelido que ganhou de seu amigo e saxofonista) tinha problemas com drogas, o que aumentou a tensão com as autoridades. A canção “Strange Fruit” tornou-se a gota d’água. Narrando o linchamento de negros, a música-protesto foi abraçada pelo comunidade afro-americana e rejeitada pela polícia e pelo FBI.

Cinebiografias são difíceis de construir. The United States vs. Billie Holiday escolhe focar em um período da vida de cantora, mesmo que no final resolva se alongar. No filme, Billie (Andra Day) já é uma estrela que enfrenta problemas com a fama, amores e drogas. Os narcóticos, inclusive, são sua porta de entrada para o tribunal mais de uma vez. 

Daniels constrói seu filme ao redor de um romance especulado, mas jamais confirmado, entre Lady Day e o agente Jimmy Fletcher (Trevante Rhodes), da divisão de narcóticos. Mesmo após as intenções do policial serem reveladas, ele continua andando e viajando com Billie e seus músicos pelos EUA. O jogo de amor e poder cansa e tira o foco do maior vilão do filme: o racismo. 

As dúvidas e as inseguranças do personagem de Fletcher são interessantes. O momento em que ele se toca que está sendo instrumento do sistema que aprisiona negros injustamente é forte. Porém, é rápido demais. Quem pensa em ver o filme esperando algo mais voltado aos tribunais está enganado. Apesar do título, Estados Unidos vs. Billie Holiday são vários retalhos de Lady Day, que envolvem algumas idas ao tribunal. 

Billie teve uma vida difícil, precisou prostituir-se na infância, foi vítima do vício em drogas e de homens abusivos. Andra Day soube retratar essa personagem tão complexa de forma magistral. Sua atuação é de longe o ponto alto do filme. Apesar da grande entrega, o roteiro e a edição prejudicam a artista em seu primeiro papel no cinema. São cansativas as constantes adesões e sumiços de personagens e as súbitas mudanças de temporalidade cortam o clima.

A história é pesada, triste, ao final o alívio é iminente. Billie sofreu, amou, cantou e encantou. Uma figura tão icônica merecia uma cinebiografia à sua altura. Esta aqui é mediana, por vezes tediosa. A grande estrela do jazz ficou miúda na tela, engolida por um roteiro que não soube captar seu magnetismo frenético. 

>> Estados Unidos vs Billie Holiday concorre no dia 25 de abril ao Oscar 2021 em uma categoria: atriz