Music

Animal Collective – ao vivo

Representado por Panda Bear e Avey Tare grupo recria na íntegra, em Belo Horizonte, o instigante álbum Sung Tongs

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Texto por Danilo Kowalsky

Foto: Francisco Rocha/Queremos!/Divulgação

Quando ouvi o álbum Sung Tongs, do Animal Collective, pela primeira vez, em 2004, tive uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Mas já volto a este assunto.

Não havia muita coisa no cenário de bandas novas que chamava minha atenção ali em 2003/2004. As bandas estavam desesperadamente buscando de reinventar em termos de som e de formato mas ao mesmo tempo queriam voltar a agradar os ouvidos de quem gostava de shows, de canções e de refrãos. Os resultados dessa busca não estavam lá muito empolgantes. Tudo andava meio insípido. E eu, consequentemente, estava bem mais interessado nas novidades instigantes e inovadoras que vinham do cenário da música eletrônica, de selos como Rephlex e Warp, por exemplo.

Volto agora ao assunto da estranheza e familiaridade simultâneas. Ora, não seria isso algo realmente bom para motivar os interesses? A excitação e os disparos sinápticos provocados pelo inesperado, mas que não chegam chutando a porta. Chegam macio, caramelizados pelo conforto do familiar, com algo de terreno já pisado.

A estranheza de Sung Tongs deixava claro que aquele som não caminhava na mesma direção da maioria das bandas alternativas ou da cena indie rock, americanas ou europeias, da época. Apesar do violão ser um instrumento central em Sung Tongs, aquilo ali não era bem uma releitura de folk. Não era também uma releitura jovem e escolarizada do country, que costumam chamar de alt-country. A estranheza talvez tenha vindo de um certo formato, pelo menos nos arranjos e nas modalidades das canções, que me lembrava de bandas como Sun City Girls. Estavam ali a modalidade musical/harmônica, as vocalizações, as onomatopeias bucais, a aliteração, a paranomásia e outras figuras vocais não usuais na canção ocidental que evocam as línguas de outros povos e também de outras culturas musicais. Talvez daí venha o nome deste disco — numa tradução livre, “línguas cantadas”.

Mas e o familiar? O que ali naquele som me trazia a familiaridade? A estranheza foi relativamente fácil de apontar, mas o lado acalentador e confortável estava mais difícil. E assim foi se construindo a vontade de continuar a ouvir o Sung Tongs. E depois mais uma vez. De novo. Até que…

A ficha caiu! Pet Sounds. Beach Boys. Brian Wilson. Estava ali se derramando em excelentes camadas de estéreo nos meus ouvidos e eu ainda não havia percebido. Harmonias vocais construídas belissimamente. Aquele fluxo harmônico flutuando em volta dos ouvidos que quase dá pra sentir com a mão. Aquele tipo de vocalização que se tornou praticamente uma vertente na música americana. E, claro, um tipo particular de psicodelia. Tipo particular de psicodelia que talvez tenha sido mesmo inventada ali, no Pet Sounds dos Beach Boys de Brian Wilson.

Foi isso, então, o que me fez gostar tanto do Sung Tongs. Em meio a toda a insipidez da cena alternativa na época, aparecia ali um disco luminoso. Um som instigante que continha o estranho e o inesperado calçados pela harmonia acalentadora. Mesmo quando Sung Tongs fica ríspido e soturno, há sempre algo costurado, na bela mixagem do disco, que aponta antenas e radares para o longe, mas que também lança raízes no solo da era de ouro da música pop ocidental.

Por isso tudo eu estava realmente ansioso pela chegada do Animal Collective com a celebração dos 15 anos do Sung Tongs em Belo Horizonte. E apreensivo também. A possibilidade do show apareceu pelo Queremos! e já fiquei imaginando como seria a recepção a um grupo tão pouco conhecido no Brasil. Certamente deveria ser um show pequeno num lugar pequeno, imaginei. Tudo se confirmou e eu fiquei surpreso ao saber que o show seria, na verdade, em uma casa de médio porte da cidade, o Music Hall, que comporta bem mais de mil pessoas. Ingresso comprado. Agora era esperar o último dia 26 de agosto. Ansiedade deixada de lado (por enquanto).

Chegou o dia do show. Nenhuma eletricidade no ar. Nenhum burburinho. Eu — meio elétrico. Ansiedade crescia. Como seria? E os efeitos eletrônicos? E os efeitos de estúdio que são tão importantes em toda a ambiência do disco? A atração de abertura não me interessava tanto e acabei chegando ao local e fiquei ali, perto da entrada, papeando, especulando mentalmente como seria o show que estava por começar. O lugar estava vazio; já se via. Isso trazia aquela sensação de que não teríamos uma experiência com pouco calor de som e de corpos.

Panda Bear e Avey Tare entraram no palco. Eu não vi nenhum sampler e nenhum outro tipo de auxílio eletrônico. Imediatamente ficou claro que toda aquela profusão de camadas de violão e de sons e de efeitos de Sung Tongs seria executada pelos dois apenas. Em tempo real, “no braço”, ali. Menos da metade da pista estava ocupada pelo público. As alas laterais e o mezanino estavam completamente vazios. Animal Collective, certamente, não faz um som de arena para milhares, mas esse vazio de público me causava um certo desconforto.

Começou o show. E veio logo uma música que eu não reconheci (“Tuvin”). O lugar parecia estranhar os primeiros sons. Violões e vocalizações. Nenhuma letra. Nenhuma palavra facilmente inteligível. Nenhuma progressão de acordes tradicional. Fico imaginando se não estavam apresentando o Sung Tongs com um outro arranjo totalmente diferente. Mas essa possibilidade foi embora quando começou “Leaf House”, a abertura do álbum, e, na sequência, a linda “Who Could Win a Rabbit”, segunda música. Duas faixas marcantes, com ritmo mais presente (eles usavam um tambor nas músicas de batida mais forte), com os violões a palhetadas pesadas e as vozes preenchendo tudo. Ambos usavam mais de um microfone; um limpo e outro carregado de efeitos para a voz como eco e delay. O público se empolgou um pouco mais e uma certa energia entre o palco e as pessoas começou a se formar, embora alguma já manifestassem, corporalmente, um certo desinteresse. Essa energia alegre e, ao mesmo tempo, curiosa se manteve na próxima faixa, “Winters Love”. Mas foi perceptível um arrefecimento quando chegou o meio do disco com faixas mais soturnas e menos melódicas, como “Kids On Holiday”, “Sweet Road” e “Visiting Friends”. O pequeno público se dispersou um pouco mais. Alguns indo ao bar comprar mais alguma bebida. Outros se virando para conversar isso ou aquilo. Os celulares iam descendo do ar de volta para os bolsos e bolsas até que não restasse mais nenhum aparelho hasteado. Os aplausos entre as músicas não cessaram, no entanto. Continuaram.

Apesar dos pesares — do pequeno público, da dispersão e dos espaços vazios — um sentimento já emergia: a maioria dos presentes percebeu que ali, naquele palco, o trabalho musical que se desenrolava era de fôlego. Talvez não estivesse suprindo tão bem a expectativa de entretenimento de algumas pessoas. Mas era claro que possuía um conceito forte e também forte determinação artística. Essa sensação foi reforçada com a canção “College, que é uma bela peça vocal de um minuto. Todos ficaram mais silenciosos e se deixaram arrebatar pelo momento “petsoundiano-brianwilsoniano”. Na sequência veio “We Tigers”, uma faixa mais percussiva que retomava um pouco daquela alegria frugal da abertura. E os aplausos entre as músicas continuavam.

As três faixas finais (“Mouth Wooed Her”, “Good Lovin Outside” e “Whaddit I Done Brat”) foram levando o pequeno público, fosse provido de uma ou três cervejas, a manifestações mistas de uma certa descontração dançante ligeiramente ébria tipo “já que estamos aqui” ou a uma dispersão ainda maior. O vazio do lugar e o tamanho do espaço vazio estavam surtindo seus efeitos agora mais que antes.

Logo depois tivemos uma breve comunicação de Avey Tare com o público (se não me engano, Panda Bear nada disse além de “thank you!”), dizendo que ali havia se encerrado a caminhada por todas as músicas de Sung Tongs. Veio, então, um bônus de mais quatro músicas que não reconheci de imediato. Posteriormente soube que se tratavam de duas músicas de um ótimo EP chamado Prospect Hummer (“I Remember Learning How To Dive” e a faixa-título), lançado em 2005; uma ainda não gravada (“Sea Of Light”); e uma outra que está em uma compilação lançada somente em vinil, em 2009 (“Don’t Believe The Pilot”).

Tudo acabou e a pequena plateia rapidamente se pôs para fora do lugar. Em mim ficou a sensação de que uma ótima apresentação perdeu seu potencial. Ou, ainda, teve seus efeitos desvirtuados devido a uma escolha infeliz para o lugar do show.

Sunga Tongs é um álbum com muitas nuances. Cheio de microssons, cheio de camadas de efeitos, vozes, violões, samples. Cheio de onirismo e sutilezas. O lugar grande, com os ecos e ressonâncias indesejadas ocasionadas pelo vazio, só contribuiu para erodir a força de uma apresentação tão bela. Esse tipo de sonoridade pede um lugar mais compacto — em que a imersão seja mais intensa, em que a atenção ao som possa ser maior, em que o som possa ser mais preciso, com mais qualidade e menos volume, a fim de revelar tudo o que pode ser revelado e a fim de cumprir todos os efeitos (sejam eles intencionais ou não). Dessa maneira, som e ambiente adequados contribuiriam muito mais, e melhor, para o afeto do público. Para se ter uma “experiência Animal Collective”.

Voltando um pouco à segunda comunicação de Avey Tare e Panda Bear (se não me engano, houve um “good evening!” lá no início), entre a última faixa de Sung Tongs e as faixas extras (não foi um bis, pois os dois não chegaram a sair do palco): houve um momento de aplausos sinceros e calorosos, como deveria ser. Mas uma alegria não muito cintilante estava no rosto e nos lábios dos dois no palco. Essa alegria moderada talvez fosse o tom correspondente a uma apresentação que, na concepção deles, tenha sido “ok”. Como escrevo esta resenha mais de três meses depois, realmente não me lembro exatamente o que os dois disseram naquele momento final. Mas a reafirmação do motivo do show e do motivo da turnê certamente foi pronunciada: os 15 anos do lançamento de Sung Tongs. Um trabalho importante para eles, sem dúvida. E importante para mim também. Ainda não sei bem quando, nem quantas vezes. Mas sei que irei ouvir Sung Tongs novamente.

Set list: “Tuvin”, “Leaf House”, “Who Could Win a Rabbit”, “The Softest Voice”, “Covered In Frogs”, “Winter’s Love”, “Kids On Holiday”, “Sweet Road”, “Visiting Friends”, “College”, “We Tigers”. “Mouth Wooed Her”,  “Good Lovin Outside”, “Whaddit I Done”, “Prospect Hunter”, “Sea Of Light”, “Don’t Believe The Pilot” e “I Remember Learning How To Dive”.

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