Music

Depeche Mode – ao vivo (parte 3 e final)

Apesar da forte chuva, turnê sulamericana termina em grande estilo e prova que catarse, a partir de agora, tem nome e sobrenome

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Textos de Edi Fortini e Fábio Soares

Fotos de Edi Fortini

Comprar ingressos com um ano de antecedência, esperar cinco horas debaixo de chuva e deslocar-se do outro lado do país em plena terça-feira são algumas das loucuras que alguns fãs fizeram para compensar a dor de aguardar por 24 anos para finalmente ver sua banda favorita no Brasil.

Os dias que antecederam o show de 27 de março de 2018 tiveram umas 50 horas. Mas deu tempo de conhecer gente na internet, trocar dicas e montar grupos, comprar souvenires, fazer vários planos para o grande momento. De Manaus até Rio Grande do Sul, vários fãs de todo o país (e de outros) vieram para prestigiar uma das bandas mais influentes da história da música. A noite tinha tudo para ser especial. E foi.

Em março do ano passado, quando foi anunciada a perna sulamericana da turnê Global Spirit, divulgando o mais recente álbum do Depeche Mode, uma comoção tomou conta dos devotos dos britânicos. E arrisco a dizer que a meia-noite do dia primeiro de janeiro de 2018 veio acompanhada de um “Ufa, agora só são mais três meses até o show!”.

Como nada vem fácil para apaixonados, uma chuva fortíssima caiu perto da hora de abrir os portões do estádio do Allianz Parque, na zona oeste de São Paulo, alagando alguns pontos da cidade e dificultando o acesso de muita gente. Mas nada daquilo parecia importar muito ao semblante dos que chegavam. Apenas havia um sorriso gigante da realização de um desejo antigo.

As horas que antecederam o show tiveram uns 97 minutos. Era difícil de conter a emoção, mas os fãs seguiram firmes com suas capas de chuva, que insistia em nos castigar. Mas o sangue de São Gahan tem poder: às 21h45 em ponto, foi só o vocalista aparecer no palco, logo após a intro de “Revolution”, dos Beatles, que a chuva finalmente começou a dar trela, quase que definitivamente assim que a banda iniciou sua performance com “Going Backwards”. Incrível! O momento radiante finalmente acontecia. Era real. Dave Gahan, Martin Gore e Andrew Fletcher finalmente estavam ali, em solo brasileiro, com uma energia incrível na frente de mais de 20 mil pessoas. Além do trio, também estavam com a banda Peter Gordeno (teclado e baixo) e Christian Eigner (bateria).

A noite seguiu com “It’s No Good” e “Barrel Of A Gun” e, nesta altura, o público já estava mesmerizado e completamente entregue ao show. Foi só conduzir a multidão, coisa que Gahan sempre fez com extrema maestria. Os adjetivos para descrever o show, aliás, não acabam: arranjos cativantes, projeções fortíssimas, simpatia estonteante. Logo nos primeiros minutos, banda e público eram uma só entidade, expressando o mais sublime poder da música.

Alguns dos destaques da noite ficaram com as músicas cantadas pelo Martin Gore. “Home” ficou belíssima ao vivo. “Insight” e “Strangelove” também tornaram-se poderosas e arrancaram muitas lágrimas de muitos fãs à nossa volta. “Precious”, “Useless”, “Strangelove” foram algumas das músicas incluídas na turnê recentemente e o set list se manteve o mesmo dos últimos shows nos outros países vizinhos. Obviamente não vai agradar a todos e realmente é difícil montar um repertório perfeito com mais de 30 anos de carreira, mas os fãs do álbum Ultra, de 1997, ficaram bem satisfeitos, pois ouviram cinco músicas na noite. Não reclamamos.

Entre um set com músicas ora sensuais ora românticas, o grito por mudança era claro: Depeche Mode é também uma banda muito politizada e às vezes o faz inclusive em ambas ocasiões como em “Stripped” (“Let me hear you/ Make decisions/ Without your television”), ou em “Going Backwards” e “Where’s the Revolution”. Eles clamam por revolução e só nos resta esperar que os fãs ouçam! O trio tem feito muitas ações para mudar a situação precária que o mundo se encontra atualmente – como na campanha “charity: water” que ajudou a fornecer água segura e limpa para mais de 30 mil pessoas no Nepal e na Etiópia. E ficou o recado bem claro de Gahan: “The train is coming. So get on board”. Vamos juntos? (EF)

***

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São Pedro acordou num mau humor desgraçado na última terça-feira (27 de março) em São Paulo. Castigou a cidade sem dó com uma chuva torrencial e constante, horas antes do último show do Depeche Mode da perna latino-americana da Global Spirit Tour. Cheguei com meus amigos na fila para a entrada por volta das 16h, com previsão de abertura dos portões para às 17h30. Pouco tempo depois, o tempo fechou e o “pau cantou” em matéria de chuva. Por mais de uma hora sofremos com o temporal que devastou a Zona Oeste na tarde de terça. Ponto negativo para a organização do evento, porque ninguém iria morrer se os portões fossem abertos meia hora antes do previsto. Percalços à parte, conseguimos um bom lugar, junto à grade.

Muito bacana comprovar que fãs de outros estados brasileiros vieram a São Paulo especialmente para o concerto. Conhecemos Gina e Lemirtes, que vieram de Brasília, mais uma garota de Goiânia. A maioria estava ali porque sabia que, dificilmente, Gore, Gahan e companhia voltarão ao Brasil novamente. A chuva, no entanto, não dava trégua. Ia e voltava, ia e voltava, num aporrinhamento muito chato. Só queera um show do Depeche! E vamo que vamo!

Às 19:45h, Gui Boratto abriu os trabalhos na arena do Palmeiras. Nome consagrado na cena eletrônica, botou todo mundo pra dançar sob a chuva que caía. Set denso, pesado e adequado para o aquecimento. Findada a abertura, a atmosfera na Allianz Parque se acentuava. Como esperado, o espaço não lotou mesmo com a capacidade reduzida para 25 mil pessoas. Normal. Assim, como Santiago e La Plata, o Depeche fez jus à sua pontualidade britânica e pontualmente às 21h45 os acordes de “Revolution”, dos Beatles, foram ouvidos nos alto-falantes. Era a deixa para a introdução de “Going Backwards”, primeira do set list que nenhuma alteração sofreu nos concertos da América Latina da turnê.

Após o caos registrado na Argentina três dias antes e às vésperas de desfrutar um merecido período de férias de dois meses, a banda mostrou-se relaxada durante os 120 minutos de espetáculo. Dave permanece como símbolo da identidade visual e performática do Depeche Mode. Com preparo físico invejável e sem parar um único segundo, não é exagero algum afirmar que o veterano frontman é um Mick Jagger à sua maneira: fará 60 anos, 65, 70 e continuará com a mesma jovialidade, sensualidade de energia em sua performance. Com relação a Martin Gore, ficar posicionado bem em frente ao ponto em que ele ficou posicionado no palco, causou-me emoção diferenciada. O cara que admiro há trinta anos bem ali, à minha frente. Um gênio contemporâneo dos sintetizadores. A mente cerebral por trás da máquina. Se tivesse a oportunidade de conversar com ele por um minuto, inicialmente perguntaria; “Quer dizer então que você criou o Céu e a Terra em sete dias? Como foi esse processo de criação?”.

Com relação ao público, o brasileiro superou, em muito, o chileno e argentino. Sintonia total com a banda – afinal, foram 24 anos de espera pela volta do ícone. “World In My Eyes”, “Everything Counts”, “Enjoy The Silence” e a para sempre antológica “Never Let Me Down Again”, ganharam contornos de catarse. Vi muita gente emocionada com o que via. Vi sorrisos mil serem distribuídos a torto e a direito. Vi a concretização do sonho de muitos (eu, inclusive) de ver de perto a banda que marcou nossas vidas. O símbolo máximo de um universo atemporal sem paralelos. O expoente máximo de um estilo musical que foi criado por eles, para eles e para nós, fiéis escudeiros e devotos desta religião chamada Depeche Mode.

A partir desta quarta-feira a vida voltou ao normal e não mais teremos o Depeche entre nós. E agora? (FS)

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Set List: “Going Backwards”, “It’s No Good”, “Barrel Of A Gun”, “A Pain That I’m Used To”, “Useless”, “Precious”, “World In My Eyes”, “Cover Me”, “Insight”, “Home”, “In Your Room”, “Where’s The Revolution”, “Everything Counts”, “Stripped”, “Enjoy The Silence”, “Never Let Me Down Again”. Bis: “Strangelove”, “Walking in My Shoes”, “A Question Of Time” e “Personal Jesus”.

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