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O Primeiro Homem

Menino-prodígio de Hollywood, Damien Chazelle volta a assombrar na cinebiografia do primeiro homem a pisar na lua

firstmanmovie2018

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Damien Chazelle Chegou em Hollywood metendo o pé na porta. Nos últimos quatro anos, o diretor e roteirista – atualmente com apenas 33 anos – fez dois filmes e conquistou a condição de menino-prodígio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Em 2014, fez Whiplash – Em Busca da Perfeição, um filme de suspense sobre música e a dedicação intensa de um baterista (tal qual ele havia sido para ser o melhor do mundo em sua profissão). De cara, o filme levou cinco indicações para o Oscar, incluindo a de melhor longa-metragem, e arrebatou três estatuetas. Dois anos depois voltou às telas com La La Land: Cantando Estações, musical sobre o sonho de atores, músicos e cantores iniciantes de entrar para a indústria do entretenimento e ganhar a fama em suas carreiras. Concorreu em treze categorias ao Oscar, igualando o recorde de A Malvada (1950) e Titanic(1997). Perdeu a principal, mas ganhou em seis delas. Já no Globo de Ouro, ganhou todos os sete prêmios aos quais concorria.

Normal que, depois de tanto hype e celebração, muitos se perguntassem para onde iria a carreira do jovem cineasta depois desta arrancada inicial fenomenal. A resposta não tardou a vir. Dois anos depois ele entrega um terceiro filme tão sensacional quanto os anteriores. E diferente. E criativo.

O Primeiro Homem (First Man, EUA, 2018 – Universal Pictures) é baseado no livro homônimo sobre a vida de Neil Armstrong, astronauta da Nasa e o primeiro homem a pisar na lua. Poderia ser adaptado às telas do cinema como tantas outras cinebiografias produzidas incessantemente pelos grandes estúdios hollywoodianos: com narrativa histórica linear, escalando bons atores para viverem seus protagonistas na esperança de abocanhar algo na temporada de premiações e apostando na instigação ou memória afetiva provocada por estes mesmos retratados no coração de quem assiste aos filmes. Contudo, O Primeiro Homem vai muito além disso. Não se prende ao convencional. Tudo porque é o nome de Chazelle quem está por trás da condução das quase duas horas e meia de projeção.

Damien, agora se restringindo apenas à direção, fez a escolha de colocar a câmera na mão, como um personagem no local da ação, com muitos travellings trepidantes e zooms. Deste modo, ora ela faz a função subjetiva de ser os olhos do protagonista ora convida o espectador a se sentir in loco junto com Armstrong, sua família, seus colegas de trabalho na Nasa e ainda na imensidão do espaço. A questão de voltar a trabalhar com Ryan Gosling – com quem fizera La La Land – também traz outro ponto positivo. A tão ressaltada falta de expressividade facial do ator cai como uma luva para as cenas que exigem um Armstrong frio diante de situações adversas ou ainda sem saber muito o que fazer diante de algo novo em sua vida ou que pode vir a dar errado. Também tem quem interprete a carência de Gosling neste quesito como uma chance para que quem esteja assistindo ao filme possa projetar as suas próprias emoções em sua cara de nada.

O recorte temporal foi outro acerto. Todo mundo já conhece o ápice da história: no dia 20 de julho de 1969, a nave Apollo 11 finalmente pousa em solo lunar e o primeiro tripulante a sair dela é Armstrong. A cena dele descendo a escada e fincando a bandeira no chão virou um ícone da cultura pop e transformou-se até em logomarca de vinhetas da MTV e troféus do Video Music Awards, promovido todo ano pela emissora norte-americana. Só que isso é o que menos importa – embora Chazelle consiga fazer o espectador se sentir o próprio Armstrong na cena. O que vale, no roteiro assinado por Josh Singer (ganhador do Oscar pelo trabalho em Spotlight – Segredos Revelados) é toda a trajetória vivida por ele, desde os tempos em que era piloto de caça, nos anos 1950, até a fama mundial pelo feito. Assistimos ao início da transformação em astronauta, provocado pela morte da filha pequena, até os perrengues passados em testes e posteriormente malfadadas tentativas do programa aeroespacial dos EUA pra fazer o ser humano pousar no satélite natural da Terra. Paralelamente à obstinação profissional, o roteiro mostra ainda a vida em família, sobretudo as tentativas da esposa Janet (a atriz britânica Claire Foy, em excelente atuação) de se manter equilibrada entre o apoio à nova carreira do marido e os abalos emocionais ao entender que, a qualquer momento, um erro pode ser fatal e fazê-la ficar viúva.

Os estímulos auditivos também se agigantam no decorrer do filme. A trilha sonora original, assinada por Justin Hurwitz, também parceiro em La La Land e vencedor do Oscar por este trabalho, é espetacular e se dá ao luxo de usar até um inusitado theremin. O Primeiro Homem também, desde já, surge como favorito para o Oscar da categoria Mixagem de Som (na qual ruídos e efeitos sonoros são colocados na pós-produção, depois de gravadas e montadas as cenas).

Por tudo isso, resta sair do cinema com uma nova pergunta martelando a cabeça. Afinal, até onde irá Damien Chazelle?

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