Music

David Byrne – ao vivo

Trazida ao Brasil antes de quase todo o resto do mundo, nova turnê eleva o ex-Talking Heads ao panteão dos maiores gênios da arte contemporânea

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Texto por Abonico R. Smith

Foto de iaskara

Foram catorze anos sem lançar um trabalho solo – shows, músicas e álbuns feitos neste intervalo de tempo foram em parceria com Fatboy Slim, Dizzee Rascal, Brian Eno e St Vincent. Até que neste início de março o silêncio musical de David Byrne foi interrompido. E em grande estilo, com um novo disco (American Utopia) e a turnê mais ambiciosa de sua carreira. São quase cem datas marcadas e uma megabanda composta por onze músicos de apoio.

Depois de apenas uma semana, Byrne interrompeu a turnê pelos Estados Unidos para já dar uma escapada rumo ao Brasil (Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte) que ele gosta tanto, com uma pequena adição de outras capitais sul-americanas (Montevidéo, Buenos Aires, Santiago). Privilégio nosso. Afinal, quase antes do que todo mundo – sobretudo as grandes cidades norte-americanas e os países europeus – nós pudemos vê-lo em ação no palco. E que sorte! Afinal, esta não é somente uma turnê convencional de um show convencional de música pop.

Para começar, Byrne fez o que ninguém havia pensado (ou, ao menos, se arriscado a faze até agora: ele descontruiu a ideia de uma banda de rock. Para começar desmembrou os kits de bateria e percussão e dividiu os instrumentos para serem tocados, um de cada vez, por seis pessoas (sendo três brasileiros, que chegam a tocar três berimbaus de uma vez só). A eles somou outros cinco (baixista, guitarrista, tecladista, um casal de backing vocals). À frente desta turma David ainda aplicou uma segunda ideia de desconstrução: a de posições fixas no palco. Cada músico carrega o próprio instrumento no corpo, assim como um microfone grudado à cabeça para que todos também possam engrossar os coros.

Isto leva à primeira das palavras-chave da atual turnê de David Byrne: mobilidade. O que justifica uma boca de cena completamente vazia, ausente de pedestais, amplificadores, praticáveis. O que leva a um incrível trabalho de precisão na coreografia criada para cada músico em cada uma das 21 músicas que compõem o set list da turnê. Isto é, uma verdadeira comissão de frente tirada das avenidas do samba e levadas a teatros e festivais. Isso tudo também facilita a inclusão de um trabalho de cenografia minimalista/iluminação artística, com direito a lâmpadas móveis e estrategicamente colocadas no palco para fazer um belíssimo jogo claro/escuro e o uso do reflexo de sombras gigantescas como novos personagens durante a encenação.

Por ser uma apresentação extremamente ágil, com os doze músicos no palco cantando, dançando e se movendo toda a hora, a resposta positiva do público é imediata. Em Curitiba, no show realizado em plena noite de segunda-feira (quando nada acontece na cidade inclusive até postos de combustível e restaurantes ficam fechados), Byrne quebrou todo o protocolo solene do Teatro Positivo. Bastou apenas um punhado de músicas para toda plateia se levantar e dançar. Logo todo mundo correu para a frete do palco, causando a maior concentração de pessoas não-sentadas, pulando e dançando freneticamente já vistas em um evento no local. Como diz a lei da ação e reação que todos nós aprendemos nas aulas de Física no colégio, a alegria que contagia bate e volta. Então, é impossível deixar de se contagiar de novo com a alegria (a segunda palavra-chave!) estampada nos olhos e bocas de Byrne e sua trupe.

Criatividade, a terceira palavra-chave, está acima de tudo no atual turnê de David Byrne. Ele não se prende apenas ao território da música e expande a apresentação para outras expressões artísticas. Ali se cruzam dança contemporânea, moda (o que são os ternos-uniforme azul-acinzentado especialmente construídos com um artifício secreto para poder movimentar sem dificuldade os braços?), artes visuais, literatura (a ordem do set desenha toda uma história, sem falar nos poemas canto-falados resgatados dos tempos de Talking Heads), teatro (o início é marcado por um cérebro apresentado pelo frontman sentado atrás de uma mesa no meio do palco) e performance (com direito a dribles e uma bola de futebol rolando de um lado a outro do palco durante o bis).

Por falar no repertório, o set list se equilibra em um tripé. As doses são iguais. Da antiga banda do vocalista não vieram as faixas mais populares, mas aquelas bastante percussivas e com melodias que permitem o vocal em coros, cantos e contracantos, no melhor estilo “todo mundo” – aliás, o nome da atual pessoa jurídica (selo, produtora) de Byrne. Do álbum American Utopia, que nada deia a dever a outros cultuados discos lançados nos anos 1970, 1980 e 1990. Da somatória de outros trabalhos anteriores seus mais covers escolhidas a dedo, como “Toe Jam” (gravada em 2010 pelo coletivo Brighton Port Authority, do qual o artista também fez parte) e “Hell You Talmbout” (grito de protesto de Janelle Monáe contra o assassinato “nunca devidamente explicado” de negros, por parte do poder e de policiais nos Estados Unidos). Durante a passagem pelo Brasil, nesta última canção, estrategicamente reservada para o “bis do bis” e executada pelos onze coadjuvantes com o acompanhamento de apenas instrumentos de percussão, os nomes dos negros americanos foram trocados por vítimas brasileiras. Teve Amarildo no meio e, claro, Marielle Franco começando e encerrando a lista, sendo gritada a plenos pulmões pela banda toda. O adjetivo comovente é algo raso para descrever o impacto provocado disto na plateia.

Findada “Hell You Talmbout”, com a saída dos dez artistas do palco, restou apenas a impressão de que David Byrne não precisa e nunca precisou se apoiar na muleta dos Talking Heads em sua carreira solo. Como todo respeito aos sus três ex-companheiros da banda da geração punk nova-iorquina que ajudou a projetá-lo para a fama mundial, mas Tina Weymouth, Jerry Harrison e Chris Frantz nunca passaram de apenas ótimos instrumentistas, um apoio para a genialidade entregue por Byrne através de palavras, trabalhos visuais e demais ideias trazidas para cada trabalho da antiga banda. Mais do que uma “cabeça falante”, o vocalista e guitarrista era a verdadeira “cabeça pensante” do quarteto. Grandes músicos – como todos que o acompanham nos dias de hoje – são importantes para a criação sonora mas não respondem por todo o conceito de arte. E o escocês radicado desde a infância em Nova York sempre foi muito além da música. A turnê de American Utopia prova isso: David Byrne faz arte contemporânea em cima de um palco. Existe alguém capaz de duvidar disso?

Set List: “Here”, “Lazy”, “I Zimbra”, “Slippery People”, “I Should Watch TV”, “Dog’s Mind”, “Everybody’s Coming To My House”, “This Must Be The Place (Naïve Melody)”, “Once In A Lifetime”, “Doing The Right Thing”, “Toe Jam”, “Born Under Punches (The Heat Goes On)”, “I Dance Like This”, “Bullet”, “Everyday Is A Miracle”, “Like Humans Do”, “Blind”, “Burning Down The House”. Bis 1: “Dancing Together”, “The Great Curve”. Bis 2: “Hell You Talmbout”.

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