Music

Ira! – ao vivo

Nasi, Scandurra e banda participam da na Virada Cultural paulistana professorando História com álbum antológico

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Texto e fotos por Fábio Soares

O palco Discos Completos sempre foi, para mim, um dos mais interessantes na história da Virada Cultural paulistana mas seu acesso era dificílimo por um fator determinante: sempre fora realizado no interior do Theatro Municipal com ingressos limitados e disputadíssimos. Em 2018, porém, migrou para o Boulevard São João, ao lado do prédio central dos Correios. E quando foi anunciado que o Ira! executaria o antológico Vivendo e Não Aprendendo na íntegra, gelei.

Era o início de 1987 e meu irmão mais velho chegou em casa com três vinis debaixo do braço recém-adquiridos: Dois (Legião Urbana), Correndo o Risco (Camisa de Vênus) e Vivendo e Não Aprendendo. Para uma criança de 10 anos de idade, a capa de Vivendo…era um deleite: os quatro integrantes representados em pinturas abstratas com fundo amarelo. Dos três foi, disparado, o que mais gostei. Decorei as letras de uma tacada só e vibrei quando “Flores em Você” tornou-se a trilha de abertura da novela global O Outro.

A madrugada de domingo, 20 de maio, em São Paulo inaugurou a temporada da “friaca”: onze graus (com vento dilacerante que proporcionou sensação térmica de menos 36) que não desanimou o público quarentão presente. Pontualmente às quatro e meia da madrugada, Edgard Scandurra, seu filho Daniel (baixo), Nasi, Evaristo Pádua (bateria) e Johnny Boy (teclados) subiram ao palco para início dos trabalhos. O riff indefectível de “Envelheço na Cidade” deu início à celebração com a plateia cantando em uníssono. “Casa de Papel”, um hino contra à inércia, segurou a peteca com seu verso poderoso: “O que vai restar ao seu filho mais novo/ Já que o aço foi trocado pelo plástico/ E sua casa é de papel?”.

O primeiro momento catártico veio com “Dias de Luta”, para mim, a melhor do álbum com sua letra de desesperança quanto ao futuro. Emocionante ver fãs na casa dos cinquenta anos cantarem “Se sou eu ainda jovem/ Passando por cima de tudo/ Se hoje canto essa canção/ O que cantarei depois?”. O duo “Tanto Quanto Eu” e “Vitrine Viva’ mantiveram a sonoridade Jam almejada pelo grupo para este álbum, fato este que culminou na histórica briga entre eles e o produtor Liminha durante a gravação do disco no Rio de Janeiro, forçando o retorno a São Paulo para finalização dos trabalhos sob a batuta de Pena Schimidt.

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Os primeiros versos de “Flores em Você” foram entoados somente pelo público a capella e anteciparam que não é necessário um quarteto de cordas da versão original quando se tem, no palco, um guitarrista como Scandurra. Com um dedilhado primoroso, ele comandou com maestria a comercialmente mais bem-sucedida faixa do disco. Mas, por ironia da História, o responsável pela ideia da utilização do quarteto de cordas na gravação foi Liminha. Já “Quinze Anos (Vivendo e Não Aprendendo)” (com vocal de Edgard) e “Nas Ruas” mostraram que a cozinha do Ira! Versão 2018 vai muito bem, obrigado. Daniel, em nenhum momento, demonstrou sentir a pressão de ser filho de um guitar hero. Pádua é um baterista coeso. Johnny, por sua vez, não limitou-se somente ao teclado, tocando violão em “Nas Ruas”.

A reta final (e mais aguardada) com “Gritos na Multidão” e “Pobre Paulista” lavou a alma dos presentes. Inseridas no álbum como gravações de um show do grupo realizado na extinta boate Broadway, em 1986, anbas causaram comoção e um final apoteótico. Mas para surpresa geral, após todo o disco ser executado, houve um “bis”.

Nasi lembrou que neste mês de maio Psicoacústica, terceiro álbum da banda, completou trinta anos e que uma série de apresentações estão programadas para celebrar o aniversário. Foi a deixa para a execução de “Rubro Zorro” (faixa que abre o álbum), curiosa homenagem a João Acácio Pereira da Costa, nacionalmente conhecido como o Bandido da Luz Vermelha, morto há vinte anos. O ponto fora da curva da apresentação foi a segunda canção do bis. “O Bom e Velho Rock’n ‘Roll”, do irregular álbum Entre Seus Rins, de 2001, poderia muito bem ter sido substituída por “Tarde Vazia”, por exemplo. Mas nada que abalasse a apresentação, que foi com chave de ouro fechada com “Núcleo Base”, do primogênito Mudança de Comportamento, de 1985.

Os primeiros raios da manhã de domingo apontavam quando a banda deixou o palco, às cinco e meia. Já se passaram trinta e dois anos do lançamento de Vivendo e Não Aprendendo. A voz de Nasi já não é a mesma dos tempos de glória mas ninguém reclamou. A quarentona plateia voltou para casa com a alma lavada e com a certeza de que Vivendo…sempre será um marco para quem nasceu nos anos 1970. Eu, inclusive.

Set List: “Envelheço na Cidade”, “Casa de Papel”, “Dias de Luta”, “Tanto Quanto Eu”, “Vitrine Viva”, “Flores em Você”, “Quinze Anos (Vivendo e Não Aprendendo)”, “Gritos na Multidão”, “Pobre Paulista”. Bis: “Rubro Zorro”, “O Bom e Velho Rock’n’Roll” e “Núcleo Base”.

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