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Jogador Nº 1

Steven Spielberg celebra o cinema pipoca que ajudou a inventar com filme-videogame que celebra a vasta cultura nerd criada nas últimas décadas

readyplayerone

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

A) Leitura superficial

Depois de ser o caçula da turma do cinema marginal que transformou Hollywood entre as décadas de 1960 e 1970, Steven Spielberg se transformou no grande Rei do cinema pipoca. Depois de E.T. – O Extraterrestre (1982), volta e meia ele tem entregue para a plateia de gosta de entretenimento com qualidade uma série de filmes juvenis de ação exatamente isso: histórias magníficas que despertam o teenager herói que existe na alma de cada um.

Com Jogador Nº 1 (Ready Player One, EUA, 2017 – Warner), adaptação do livro escrito por Ernest Cline, não é diferente. Em um futuro distópico não muito distante de nós (a trama se passa no ano de 2045), as pessoas regulam a sua vida inteira de de acordo com a realidade virtual. Tudo o que é feito gira de acordo com a percepção fornecida por uma geringonça que, acoplada à cabeça, simula uma realidade que só existe graças à tecnologia. Ali você pode ser quem você quiser, viver como quiser, fazer o que quiser, da maneira que quiser. E para os mais novos quem manda nesta second life é um mundo paralelo chamado Oasis, criado por um geek antissocial que já morreu e deixou como o legado não só a sua genialidade criativa como também uma espécie de desafio – um jogo com fases progressivas que dará a quem encontrar três chaves escondidas um tesouro mais do que especial: o controle majoritário das ações da empresa à qual pertence o Oasis. Isto significa não só a fortuna incalculável do excêntrico James Halliday (Mark Rylance, em mais uma excelente atuação sob o comando do cineasta) como também a possibilidade de fazer o que quiser e ser como quiser na realidade “de carne e osso”.

Então uma turma de adolescentes – amigos virtuais mas que nunca estiveram face a face – encabeça a corrida de três etapas para desvendar o intrincado quebra-cabeça criado por Halliday. À frente deste “videogame live action” estão o garoto Wade (Tye Sheridan) e a garota Samantha (Olivia Cooke), que, ao lado dos amigos, seguem toda a estrutura banal e corriqueira de um filme de ação deste tipo. Com direito a um supervilão a ser confrontado, claro. Nisto, o longa acaba prestando reverência a muitos dos populares videogames que tornaram-se itens cult da criançada e juventude das últimas quatro décadas.

No fim, chega a recompensa pelo esforço feito durante a jornada do herói, toda a tensão sexual vivida entre eles se dissipa do modo mais shipado possível e todos acabam felizes para sempre. Personagens e espectadores. Como em toda e qualquer Sessão da Tarde, elevada à categoria de blockbuster depois que a assinatura de Spielberg tornou-se grife nos anos 1980. E ainda há uma liçãozinha de moral na última cena.

B) Leitura intermediária

A história bolada por Cline (que também assina como um dos roteiristas) e levada às telas por Spielberg faz uma critica atroz à dependência tecnológica viva pelos seres humanos nas últimas décadas. Nada do que é feito sem as máquinas tem qualquer importância. O que vale mesmo é o que é vivido através de nossos avatares, sempre ligados, conectados e ávidos pelo consumo imediato de qualquer informação zero um que vier pela frente.

O mundo pode estar na maior decadência – aliás o conceito steampunk de favela apresentado logo no início é de um assombro visual só. A nossa vida pode estar na mão de megacorporações – uma delas é justamente comandada pelo principal antagonista da trama. Tais empresas gigantes como esta IOI (Innovative Online Industries) travestem seus reais objetivos através de “espelhinhos mágicos dados aos índios para eles se verem pela primeira vez”. Estão interessada apenas em rios de grana e seguir a velha cartilha capitalista de escravizar e sugar o sangue de seus funcionários, transformados em servos lobotomizados.

Cabe, porém, a qualquer ser humano decidir até onde vai a extensão tecnológica de sua reles vidinha mortal. E distinguir as reais vantagens e desvantagens de todo e qualquer negócio novo que é ofertado.

C) Leitura profunda

Além de ser uma bela homenagem à cultura pop dos anos 1980 para cá, Jogador Nº 1 é um megafestival de easter eggs proporcionados não só pela muleta do mundo virtual no qual os personagens passam a maior parte do tempo da trama, como também nas poucas cenas em que o espectador os vê em suas próprias vidas. Seja em primeiro plano na narrativa ou secretamente escondidos durante a história, o que rola nas quase duas horas e meia de projeção é uma torrente de referencias a jogos, filmes, quadrinhos, animes, cartoons e personalidades que construíram o universo nerd que hoje dá as cartas na indústria mundial do entretenimento. Até mesmo as canções pop parecem ter sido escolhidas a dedo para pontuar com seus versos a temática de determinadas cenas.

Como a grande brincadeira de um easter egg é achar pistas escondidas pelos criadores no meio de sua criação, nem vale a pena ficar citando estas referências. A graça é justamente a de ficar atento para encontrá-las na hora em que elas aparecem. O que pode mostrar o grau de nerdice que existe em cada espectador e depois ficar discutindo e apresentando aos amigos que não perceberam o que você já descobriu. Outro estímulo desses easter eggs (bingo para a indústria, aliás!) é estimular a mesma pessoa a consumir várias vezes o mesmo produto. Só isso vai garantir ao filme uma bela bilheteria ao longa nos cinemas de todo o mundo e depois sua sobrevida nos formatos e suportes posteriores.

Toda esta questão faz de Jogador Nº 1 um filme bastante excitante a quem não se prende pelo fascínio visual de videogame/tecnologia de última geração que gruda nas telas tanto os olhos dos mais novinhos como os gamers viciados e convictos. Amantes inveterados da cultura pop em seus mais variados níveis não correm o menor risco de se decepcionar com a história, já que este jogo criado por Cline e Spielberg também foi feito a el@s.

E viva à diversidade, celebrada, aliás, desde o início da história. Racial, social, étnica, sexual e – por que não? – nerd e geek.

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