Books, Comics

Lourenço Mutarelli

Oito motivos para ler Capa Preta, a recém-lançada antologia que resgata quatro clássicas HQs feitas pelo autor nos anos 1990

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Lourenço Mutarelli sofreu um duro golpe emocional em 1988, quando colegas resolveram pregar-lhe uma peça de gosto duvidoso. Planejaram uma festa surpresa de aniversário mas, para levá-lo até o local, chamaram uns amigos para forjar um sequestro. A ação, entretanto, saiu como um tiro pela culatra. Ele, então, uma grande crise depressiva, com direito a ansiedade, síndrome do pânico e um longo período de quase reclusão em casa. Como terapia para superar as adversidades, começou a fazer suas próprias histórias em quadrinhos.

Quatro destas obras produzidas neste período bem barra-pesada acabaram ganhando nos seus respectivos anos de publicação o troféu HQ Mix, premiação criada para o reconhecimento dos melhores trabalhos de cada temporada do mercado da arte sequencial brasileiras. Transubstanciação (1991), Desgraçados (1993), Eu Te Amo, Lucimar(1994) e A Confluência da Forquilha (1997) começaram a pavimentar todo o caminho de culto ao então quadrinista, que depois acabaria ganhando fama também escrevendo livros em prosa. Até então fora de catálogo, estes títulos agora voltam às livrarias na antologia Capa Preta.

Como sempre, Mutarelli escolhe Curitiba para ser a segunda cidade de lançamento de uma obra, após o pontapé inicial em São Paulo, onde mora. Nos últimos dias 15 e 16 de dezembro, ele esteve na Itiban (fotos do evento aqui), onde conversou com o Mondo Bacana, que agora lista oito motivos para você não deixar de ler Capa Preta.

Veia underground

Lourenço reconhece que as obras compiladas em Capa Preta refletem um período muito denso de sua vida, no qual ele enfrentou uma forte depressão que refletia bastante em seu estado de espírito.  “Não estava bem comigo mesmo. Levava sempre as coisas muito a sério. Meu humor não era para distrair ou divertir, mas algo vingativo, feito para machucar”. Por isso, temas como decomposição do corpo e a libertação através da morte de quem você ama podem ser encontrados nestas histórias.

Desenhos impactantes

Com Lourenço Mutarelli não existe meio termo. Ele mesmo admite que não faz concessões e nem possui filtros. Por isso seus desenhos adicionam ainda mais impacto às histórias já fortes por natureza. Sua mulher Lucimar Mutarelli, também quadrinista, designa como “fantástica” a união entre texto e desenho no texto de apresentação que abre o livro. São muitos detalhes convertidos em símbolos integrados nas páginas de cada história.

Morte no museu

A primeira das quatro histórias de Capa Preta é Transubstanciação. Nela Lourenço conta a história de Thiago. Enquanto todo mundo o acha louco, ele diz ser poeta. Thiago costuma sempre procurar significados em seus sonhos e trazê-los para o cotidiano. Até que seus delírios o levam para uma ida volta rumo a um dia de fúria e ele acaba perdendo a cabeça de vez dentro de um museu. Nesta hora, um quadro de página inteira chama a atenção: o quadro O Grito, do norueguês Edvard Munch, exprime uma reação bastante irônica frente à barbárie provocada por Thiago na hora da invasão intempestiva.

Decálogos de Kiezlowski

Quando fez a HQ Desgraçados, Mutarelli estava bastante influenciado por Decálogos, série de filmes em média-metragem do diretor e roteirista Krzysztof Kieslowski feita para a televisão. Nela, em dez episódios com histórias independentes mas que sempre no final de uma apresentavam o personagem de outra, Kieslowski leva o que seria uma reflexão inicial sobre os Dez Mandamentos de Deus para a decadência dos valores de uma Polônia em decadência no século 20, marcada pelos rastros do nazismo e do ateísmo. Aqui, o quadrinista leva as questões para o simples fato da existência. “Entre o nascer e o morrer existe algo, um momento efêmero, único, de um fascínio estúpido, que se chama vida”. Ao mostra a vida com toda a sua brevidade e estupidez, Lourenço se questiona: “por que sinto tanto prazer com a dor?”. No caso, a dor de existir.

Temática do duplo

Quem acompanha a obra literária de Mutarelli sabe o quanto ele é fascinado com a ideia do duplo e joga com o tema em suas histórias. Na HQ Eu Te Amo, Lucimar ele já trabalhava com esta ideia. No caso, os irmãos gêmeos Cosme e Damião em uma trajetória que vai desde a gestação no útero da mãe até o post-mortem. Aliás, este é o contraponto com a história anterior: se uma falava sobre existência e vida, esta gira em torno da finitude e da decomposição material.

Maldição do artista

O protagonista de A Confluência da Forquilha chama-se Matheus. Ele largou um emprego sólido numa fábrica de brinquedos para tentar viver de vez das artes plásticas. Só que ele sempre pinta o mesmo quadro há anos e nunca vendeu unzinho sequer. Faz sempre o mesmo rosto de uma personalidade artística. Na primeira fase, pintava somente o compositor e pianista erudito Ludwig Van Beethoven. Na segunda, Larry Fine, pseudônimo do ator Louis Feinberg, integrante dos Três Patetas. Na terceira e atual, produz incessantemente a mesma cara do poeta e ensaísta crítico Charles Baudelaire. Até que se sente afrontado pelo fato de pela primeira vez ter uma venda. E não foi só uma venda: um homem comprou de uma vez só todas as suas obras. Isso o leva ao desespero e a querer ajustar as contas com o seu “rival”.

Nova editora na área

Criada em parceria entre o youtuber Thiago Ferreira e o escritor e ativista  Ferréz, a nova editor Comix Zone! é uma extensão do canal homônimo da internet. O primeiro lançamento da casa foi em junho, com a HQ A Canção de Roland, do canadense Michel Rabagliati, cuja história compartilha uma experiência pessoal do autor sobre a perde de um ente querido. Em outubro veio o segundo título: a trama sci-fi argentina O Eternauta, com argumento de Héctor Germán Oesterheld e arte de Alberto Breccia. Esta antologia das HQs de Lourenço Mutarelli ajudam a compor a trinca das novidades de 2019. No prefácio, Ferréz se assume como um grande fã de primeira hora do quadrinista desde o tempo destes lançamentos originais. Detalhe: os livros têm acabamento caprichado e capa dura. De fato, são especialmente produzidos para colecionadores e aficionados pela arte sequencial.

Artista múltiplo

Lourenço Mutarelli tem a versatilidade artística como uma de suas marcas registradas. Começou desenhando HQs – antes de lançar suas graphic novels autorais trabalhou por um tempo nos estúdios Maurício de Sousa. Depois partiu para a literatura de prosa, onde acabou se encontrando mais do que na arte sequencial – terreno para o qual vive prometendo nunca mais retornar. Nestas duas últimas décadas, escreveu oito romances, entre eles O Cheiro do Ralo, O Natimorto, Jesus Kid e A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, todos eles já adaptados para cinema. Também escreveu algumas peças de teatro e começou a atuar, seja no palco ou nas grandes telas, onde volta e meia integra o elenco de alguma produção alternativa nacional fazendo coadjuvantes ou alguns porém interessantes papéis – como o segurança de O Cheiro do Ralo, o pai da família classe média alta de Que Horas Ela Volta? e o insano jardineiro de O Escaravelho do Diabo. Em 2020, Lourenço estará em dois novos longa-metragens: Música Para Ninar Dinossauros (adaptado da peça escrita pelo amigo Mario Bortolotto, de cuja primeira montagem também participou) e Sem Seu Sangue. Também assinará as ilustrações a nova edição brasileira de A Colônia Penal, de Franz Kafka, além de ter outras duas suas relançadas pela Companhia das Letras: o livro Jesus Kid (originalmente de 2004) e a HQ A Caixa de Areia ou Eu Era Dois em Meu Quintal (2006). Nova obra inédita somente em 2021: uma história surreal que promete causar polêmica e será pincelada com alguns tons autobiográficos cujo nome provisório é O Filho da Burra. “Já tenho cerca de cem páginas escritas até agora. Sei que já passei da metade mas não tenho a menor ideia de onde ela vai parar”, antecipa para o Mondo Bacana.

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