Movies

X-Men: Fênix Negra

Longa-metragem que encerra o universo cinematográfico de duas décadas da franquia traz falhas e decepção

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Divulgação

Que o universo cinematográfico dos X-Men é confuso isso não é novidade para ninguém. Filme após filme, mais e mais discrepâncias temporais recheiam a narrativa do supergrupo. É conveniente ignorá-las, para melhor apreciar os filmes. Dito isso, X-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix, EUA, 2019 – Fox) é o último longa situado nesse universo, já que a Fox e a Marvel estão agora sob o mesmo teto, o da Disney. Como encerrar, então, uma saga, mesmo que não das melhores, de dezenove anos?

Fênix Negra não se preocupa com isso. Seus primeiros atos são extremamente similares aos de X-Men: Confronto Final (a história em quadrinhos que origina ambos os filmes é a mesma), o que torna sua narrativa um pouco cansativa. Resta ao final do segundo ato e, por consequência, ao terceiro a difícil tarefa de trazer inovação às telas. Mas, infelizmente, o sentimento de “mais do mesmo” permanece – referente ao gênero, não ao longa-metragem de 2006.

Este não é, ainda, o principal problema do roteiro. Toda fala é artificial, parte pela entrega do elenco mas principalmente por repetir jargões do cinema comercial. Além disso, diversos diálogos e monólogos poderiam ser substituídos com uma direção atenciosa e engajada – o que não parece ocorrer. Simon Kinberg parece mais cansado dos mutantes que o público, realizando uma direção que não foge do convencional. Nivelando a compreensão de seu público por baixo, o roteirista e produtor, agora elevado à categoria de diretor, insiste em repetir a estética (que falhara muitas vezes) da nova geração de filmes, transformando uma das mais aclamadas sagas de quadrinhos da Marvel em um dispensável filme da franquia, fortemente dependente de seu elenco.

Isso representa mais uma baixa significativa no filme. Jennifer Lawrence performa uma boa Raven, consistente com sua construção anterior da personagem, mas diminuída pelo roteiro. Jessica Chastain faz uma das vilãs, porém caricata e completamente unidimensional. Talvez algumas aulas com Isaac Hempstead, o Bran de Game of Thrones, possam ensiná-la uma convincente cara de pôquer. O trio inglês Michael Fassbender, Nicholas Hoult e James McAvoy (com ênfase nos dois primeiros) desenvolve novamente seus calejados personagens, mesmo que o roteiro pouco contribua para seus arcos. Já Sophie Turner, que interpreta Jean Grey, a protagonista do longa, deixa a desejar. Mal dirigida, Turner (que também atuou em Game Of Thrones) faz a maioria dos diálogos com pouca mudança em seu tom, sempre com a mesma expressão. O maior erro, no entanto, foi o desenvolvimento falho de sua personagem – algo inerente ao filme, pelo visto.

Ainda assim, com a consciência de que X-Men: Fênix Negra não se propõe a ser nada além de um costumeiro filme de herói, não se pode esperar muito de seu desenvolvimento de personagens e trama. Dos efeitos especiais, no entanto, não podemos falar a mesma coisa. Este é um incômodo grande no filme – a qualidade do CGI, sua estética e verossimilhança, oscila demais. Em algumas cenas, os efeitos são state of the art, embora algumas sequências apresentem planos dignos do início do século. Ainda pior, talvez, é a insensibilidade da direção de elenco, já que muitas “poses” dos mutantes (em especial Magneto e Jean) são absurdamente falsas. Além disso, a criação do universo beira a excelência. Uniformes, objetos de cena e locações harmonizam a referência ao passado da saga com a inovação do próprio lançamento.

Por fim, é preciso mencionar que a montagem também oscila – inclusive dentro de uma mesma cena. A mais memorável cena de ação do filme, um embate cuja trama é spoiler puro, inicia de maneira bagunçada, mas termina primorosamente. Esta característica da montagem coaduna com a edição de som, embora a trilha sonora seja completamente dispensável.

Desta forma, X-Men: Fênix Negra não mantém a decrescente estipulada por X-Men: Apocalipse, mas não subverte quaisquer possíveis expectativas baseadas em seu predecessor. Com o elenco aquém do esperado, o filme oferece um encerramento modesto para a saga. Com seu atestado de óbito assinado antes mesmo de seu lançamento, o último filme dos X-Men fora do MCU decepciona.

Music

Belgrado – ao vivo

Banda de Barcelona com raízes no pós-punk promove interação comovente com plateia paulistana

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Texto e foto por Fábio Soares

É muito fácil cair na tentação de comparar o Belgrado com o Vive La Fête, já que o binacional quarteto (composto pelos poloneses Patrycja Proniewska e Jonathan Sirit e os venezuelanos Fernando Márquez e Renzo Narváez) radicado em Barcelona, carrega pesado, em certos momentos, nas pitadas eletropop tão presentes no repertório do duo belga. Porém, a sonoridade da banda não se restringe a qualquer redoma de estética clubber, ao que o segundo se propõe. O Belgrado bebe da fonte do pós-punk e não nega, sobretudo em seu segundo trabalho Siglo XXI, lançado em 2013.

O Centro Cultural São Paulo ainda é uma das melhores opções para assistir a shows na capital paulista mas ainda padece de uma debilidade histórica: quem vê as apresentações da plateia superior da pequena arena sofre com a baixa qualidade e má equalização do som oferecido. Durante os  sessenta minutos da apresentação do Belgrado na última noite de 23 de maio, a voz de Patrycja atingiu patamares ininteligíveis. Sua presença de palco, porém, compensava em parte ao incômodo técnico. As ultradançantes “Dalej” e “Wiatr”, do mais recente álbum Obraz, evidenciaram o entrosamento dos músicos, com destaque para a performance do baterista Jonathan, alterando, por mais de uma vez, a condução do instrumento.

Reservadas ao bis ficaram as duas melhores faixas de Siglo XXI. “Automatyczny Swift” remetia ao Gang Of Four em sua melhor fase. Já a arrasa-quarteirão “Jescze Raz” fez o CCSP tremer com a plateia do piso inferior literalmente invadindo a área reservada aos músicos. Foi comovente ver a bela vocalista pulando e cantando em meio aos fãs, concebendo um ar de apoteose a uma apresentação irregular (mas que foi longe de ser decepcionante).

Deixando aquele gostinho de quero mais, o Belgrado se despediu de São Paulo com uma base sólida de fãs. Fica agora a torcida para que retornem em melhores condições técnicas, justamente porque este combo multinacional ainda tem muito a nos oferecer.

Music

Érika Martins

Cantora fala sobre os diversos projetos, sua entrada nos Autoramas, a carreira solo, o passado na Penélope e o que ainda está por vir

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Entrevista por Fábio Soares

Fotos: Léo de Azevedo/Divulgação (Érika) e Divulgação (Autoramas)

Ela é um dos mais famosos rostos femininos do rock brasileiro e vive o melhor momento de sua longeva carreira de pouco mais de duas décadas, iniciada com a banda Penélope e seguida de período solo. Há quatro anos, integra (ao lado do marido Gabriel Thomaz, o baixista Jairo Fajer e o baterista Fábio Lima) o “conglomerado” Autoramas, a mais bem sucedida banda independente brasileira, que no próximo mês de maio viajará à Europa para a sua décima sexta turnê internacional. Não sem antes finalmente tocar no festival Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Ou depois subir ao palco Sunset, no próximo Rock In Rio, para ser uma das convidadas especiais dos Titãs.

Antes de uma apresentação na capital paulista, Érika Martins recebeu o MONDO BACANA em seu camarim para uma entrevista. Na pauta, a música como filosofia de vida, a objetificação da mulher no rock e projetos que estão por vir.

No início de sua carreira, nos anos 1990, você teve contato com dois grandes produtores que, infelizmente, não estão mais entre nós: Tom Capone e Carlos Eduardo Miranda. Atualmente, essa figura do superprodutor anda ausente no cenário por uma série de fatores. Na sua opinião, a presença de um grande nome assinando a direção artística de um trabalho ainda é preponderante ou a possibilidade de lançar um trabalho de forma independente não a torna tão necessária assim?

Acho que isso independe da época em que vivemos e que cada década teve o seu grande nome em produções musicais. Não que isso também seja algo primordial na gravação de um disco. No meu caso, tive a sorte e o privilégio de trabalhar com esses dois grandes nomes. Na época das gravações do primeiro disco da Penélope, Mi Casa, Su Casa, a Sony Music nos disponibilizou um grande orçamento para realizá-lo. Para se ter uma ideia, a verba nos possibilitou que o grande Eumir Deodato fizesse os arranjos de cordas do disco. Enfim, tínhamos infinitas possibilidades ao nosso alcance.

Como chegaram ao Tom Capone?

Por indicação do Marcio Melo, artista baiano que tinha, nos anos 1980, uma banda com a Lan Lanh, ex-percussionista de Cássia Eller, e com a Érika Nande, que foi nossa baixista na Penélope. Junto com ele, veio o Antoine Midani, filho do “messias” André Midani, que eu já admirava por seus trabalhos de arranjos de voz com a Marisa Monte.

Imaginei que você tivesse conhecido o Tom Capone através da Constança [Scofield, tecladista da Banda Penélope e viúva do produtor]…

Não! Aí é que vem a história que é sensacional: nosso primeiro encontro com o Tom foi no estúdio para a pré-produção do disco. Quando os dois trocaram olhares, eu já senti a faísca! Se apaixonaram! Assim, Mi Casa, Su Casa foi gravado em meio a uma bolha de amor maravilhosa!

Então você é testemunha de que amores à primeira vista realmente existem!

Sim! Presenciei! E a Constança sempre foi mais séria e cética… Quando a vi apaixonada daquele jeito perguntei a mim mesma: “o que tá acontecendo com minha amiga?” (risos)

E como você conheceu o Miranda?

Com o sucesso da repercussão do Mi Casa… fui convidada para gravar uma participação no disco Só No Forévis, dos Raimundos [Érika participou da faixa “A Mais Pedida”, grande sucesso do grupo e que foi amplamente executada nas rádios]. Recebi o convite em Salvador, sem ter a mínima ideia de como seria minha participação. Fui ao Rio, cheguei no estúdio para gravar e dou de cara com quem? O Miranda! Que já era ídolo de todos nós havia muito tempo. Pra você ter uma ideia, em 1995 saí de Salvador e vim a São Paulo distribuir algumas fitas-demo da Penélope e uma das pessoas que eu já tinha em mente para entregar era o Miranda. Ele foi muito receptivo e disse “pô, já estava esperando esse material faz tempo!”. Quase cinco anos depois estava eu ali, em estúdio com ele. Apesar de ter passado três meses com o Tom na gravação do Mi Casa…, eu era muito jovem e ainda muito verde em gravações. Mas aí veio o Miranda, com toda a paciência do mundo para me ensinar o caminho das pedras. Uma generosidade ímpar. Olhava para ele e pensava: “caramba, é o Miranda… que pressão e responsabilidade!”. Tudo correu bem e foi sensacional. Era um grande produtor.

Quais eram as diferenças mais evidentes entre os dois? Ou eles eram muito parecidos no modo de trabalhar?

O Tom era mais “mão cheia”. Tocava e timbrava os instrumentos como ninguém. Metia a mão na massa de verdade. Já o Miranda tinha o dom de saber extrair do artista o que ele tinha de melhor. Além de ser uma espécie de olheiro de primeira. Tinha uma capacidade surreal de descobrir novos artistas. Um curador de verdade.

Certa vez, vi o Miranda dizer numa entrevista que pesquisava novos artistas de uma maneira quase compulsiva.

Sabe o que era legal no Miranda? Ele ia aos shows! Cheguei a encontrá-lo uma vez num festival em Belém do Pará. Em outra, fiz um show solo em Porto Alegre e quem estava na plateia? O Miranda! Acho que isso está em falta atualmente. Hoje dificilmente você encontra produtores em shows algo que acrescentaria em muito no trabalho deles. Sacar o que está rolando sem beber exclusivamente da fonte da internet.

Já que tocamos no assunto, com pouco mais de vinte anos de carreira, você já pensou em produzir outros artistas? 

Agora faria sim. Antes não me sentia segura o suficiente mas neste momento adoraria pegar um trabalho do zero e colocar meu toque pessoal. Estou mais à vontade.

O que falta é tempo…

Nem me fale! Às vezes acordo e nem sei por onde começar. Tenho os Autoramas, minha carreira solo, Lafayette & Os Tremendões [projeto de Érika e Gabriel Thomaz para releituras de clássicos da Jovem Guarda com a participação de Lafayette Coelho, tecladista e grande nome do movimento], o Chuveiro In Concert [projeto de karaokê ao vivo com banda, realizado na maioria das vezes em eventos corporativos]… É muita coisa! Imagina ter que parar tudo isso pra assinar a produção de um disco! (risos) Depois ainda temos que ouvir que artista não trabalha.

Pegando o gancho dessas diversas atividades que você exerce, em seu pouquíssimo tempo livre ainda há disposição para descobrir novas bandas e artistas?

Sim! Sempre! Até porque recebo quase diariamente em minhas redes sociais muito material de novas bandas. Claro que não dá para ouvir tudo de uma vez mas sempre procuro fazer isso e dar o feedback depois. Nisso acabo descobrindo muita coisa boa e quer saber? Tenho preferência para ouvir o que ainda não está na mídia. É muito prazeroso ouvir artistas em início de carreira e dar força e atenção a eles é o mínimo que posso fazer. E, intimamente, agradecer ao universo por ter tido o privilégio de viver de música.

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Libido é o oitavo álbum dos Autoramas e foi muito bem recebido pela critica especializada, inclusive fora do país. A banda é praticamente uma unanimidade no cenário independente brasileiro. Uma prova disso, foi o recente lançamento da coletânea A 300 Km Por Hora, na qual 41 artistas estão reunidos para homenageá-los. No meio dessa louca rotina que levam, já caiu a ficha de que vocês são um expoente da cena e, por tabela, um exemplo a serem seguidos? Ou então relaxam com relação a isso para que tudo flua naturalmente?

Tenho uma visão mais destacada com relação a este assunto. Estou na banda há quatro anos e convivo com o Gabriel há mais de quinze. Quando a Penélope fez shows no Rio para lançar o Mi Casa…, a gravadora nos pediu uma indicação para banda de abertura e não pensei duas vezes: Autoramas, que eu já adorava desde aquela época. Quando eu casei com o Gabriel passei a “respirar” os Autoramas mais ainda. Mais até do que os próprios integrantes. Lembro de uma vez o Gabriel precisar de um cenário para um show e, como sempre gostei dessa parte de cenografia, eu mesma costurei o cenário. Fora isso, já compúnhamos juntos e eu participava dos discos e shows. Então, mesmo eu não fazendo parte da banda, tinha esta visão destacada do respeito que o público tinha pelos Autoramas e de que sua obra nunca teria um conteúdo raso. Via ao vivo e pensava: “é uma banda para a História, criativa, original, única e com tudo muito inspirado!”, Lembro-me de assistir a documentários de bandas que amo, como Ramones ou Cramps… Quando vejo os Autoramas hoje, logo penso que no futuro ela será lembrada como estes artistas. Exponencial. Por isso me sinto privilegiada. Por ter vivido os dois lados: de fã e integrante.

Sua carreira solo estava muito bem encaminhada e você ainda colhia os frutos do sucesso do álbum Modinhas quando foi integrada à banda. Houve algum momento de hesitação de sua parte em dar este hiato ou aceitou de imediato?

Não pensei duas vezes! Mas isso foi um processo mais que natural tendo em vista que eu já participava da banda de uma forma ou outra. E o convite veio num momento muito apropriado porque eu já havia divulgado muito bem o Modinhas na imprensa. Fiz shows nas principais capitais e no exterior, inclusive. Então, minha entrada nos Autoramas não gerou nenhum tipo de confronto de datas, por exemplo. Eu já estava numa fase de parar e pensar em um próximo projeto. Mas minha carreira solo não acabou não, hein? (risos) Há um novo projeto a caminho que só não está em andamento por conta da grande demanda de nossa agenda. Mas o que queria dizer é que estar nos Autoramas vai muito além da questão artística pura e simplesmente: tem a ver com vida. Tem a ver com o que escolhi para mim. Adoro viajar, conhecer gente, lugares novos, outras culturas e os Autoramas me propiciaram tudo isso. Além, é claro, o fato de poder viajar com o Gabriel, que é meu marido. Antes de meu ingresso na banda, viajávamos pouquíssimas vezes juntos. Era cada um para um lado. Mas, agora, não. Fazemos tudo juntos, viajamos o mundo juntos e tocamos numa banda sensacional. Realmente, me sinto privilegiada em viver tudo isso.

Tocarei num assunto polêmico agora: objetificação da mulher na música. Agora, em 2019, completam-se vinte anos de sua participação no álbum Só No Forévis, dos Raimundos. Uma dúvida paira no ar quando surge a questão se os Raimundos fariam o sucesso hoje em dia devido ao conteúdo de algumas de suas letras, tendo em vista que a questão do feminismo final e merecidamente está em voga nos dias de hoje. Gostaria de saber como você se sentia na época com relação a este assunto. Isso já te incomodava há vinte anos?

Sempre procurei ser um exemplo de ir contra esse tipo pensamento. No início da Penélope, uma de minhas maiores preocupações era justamente peitar essa coisa machista de que “para se fazer rock era necessário ter uma postura masculinizada”. Sempre fui contra isso! Com relação ao convite dos Raimundos, deixei bem claro que não colocaria minha voz ou emprestaria minha imagem ao clipe de uma faixa que tivesse palavrão, putaria ou algo pejorativo do tipo porque meu perfil não é esse. Tanto é que a temática de “A Mais Pedida” é totalmente outra. Sobre o conteúdo de algumas letras dos Raimundos que, por ventura, seriam muito mal vistas hoje em dia, sempre achei meio papo de “turma de fundão”, sabe? Mesmo não concordando, estava lá. Existia. O que sempre pensei com relação a qualquer coisa era: temos que ocupar os espaços! Se o espaço é machista, temos que ocupá-lo sendo a referência do contrário. Muitas meninas me procuravam na época e diziam odiar essa coisa do machismo no rock e viam, na minha figura, alguém que dizia o discurso que elas queriam ouvir. Mas olha só: eu fui projetada pelos Raimundos! O disco da Penélope estava engavetado, na geladeira. Só foi lançado porque “A Mais Pedida” foi o sucesso que foi. Os Raimundos foram a ponte para que eu chegasse a algum lugar. E chegar a esse lugar sendo um exemplo do que é legal. Ser mulher e ter atitude! É preciso ocupar e preencher os espaços. Na divulgação do Mi Casa… fomos convidados para o Faustão e choveram críticas do tipo “que queimação de filme!”. Nem ligamos para isso. Tínhamos de aparecer e levar nosso discurso ao maior número possível de pessoas e levo esse pensamento até hoje. Não concorda com o conteúdo de programa X ou emissora Y? Vá lá e mostre o contrário. Mostre a esse público que só consome X ou Y que há um mundo de outras possibilidades. E se conseguir a fazer com que alguém absorva sua mensagem e se interesse pelo seu trabalho, já terá valido a pena.

Você já tocou em duas edições do Rock In Rio. Neste ano, o Lollapalooza, em sua oitava edição, finalmente convidou os Autoramas para o line up. No festival dos sonhos da Érika, quem tocaria no mesmo dia dos Autoramas?

Cara, tanta banda! Os B-52s, com certeza! Encontramos a Cindy Wilson no ano passado no Festival South by Southwest e foi um sonho! O Cramps também estaria. Dos nacionais, sem dúvida, a Gang 90 com a formação original, com as Absurdettes, seria lindo! Adoraria ter conhecido o Júlio Barroso. Acho que tá bom, né?

Está ótimo! Vocês sempre tiveram uma relação de muito afeto com a Jovem Guarda. Além do Lafayette, vocês recentemente tiveram contato com o Silvio Brito. Elocubração do entrevistador aqui: uma parceria entre Autoramas e Erasmo Carlos. Já pensaram em algo a respeito?

Ele é maravilhoso! Superaberto! Recentemente assistimos à sua biografia no cinema. Ficamos muito emocionados. Mandamos uma mensagem e ele respondeu “muito obrigado, meu casal lindo!”. Sempre foi muito carinhoso conosco e sempre fomos apaixonados por ele. Fazer algo juntos seria mágico! Sempre tivemos muito respeito com o pessoal da Jovem Guarda. A Wanderléa participou do segundo álbum da Penélope (Buganvília, na faixa “Não Vou Ser Má”). Com relação ao Silvio Brito, já temos um projeto em andamento e com o qual estamos ensaiando. Muito respeito por essa turma mais antiga e que nos ensinou e continua nos ensinando demais. Amo escutar as histórias. Certa vez, o Lafayette e o Jerry Adriani ficaram horas contando histórias e ficamos ali, assistindo a isso de boca aberta.

Em maio, os Autoramas embarcarão para mais uma turnê europeia. Quando retornarem, a divulgação de Libido prosseguirá ou vocês darão mais atenção a estes novos projetos?

Libido seguirá a todo vapor, até porque foi lançado há pouquíssimo tempo. Estou louca para que saia logo o clipe de “No Futuro”, minha faixa favorita do álbum.

Creio que seja a favorita de todo mundo!

Pois é! (risos) Estou sonhando com esse clipe mas, como não paramos nunca, um milhão de coisas acontecerão paralelamente. Lançarei o áudio do especial que fiz para o Canal Brasil. Já o Gabriel lançará o disco de seu projeto instrumental, o Gabriel Thomaz Trio. Enfim, não pararemos.

E qual é o limite dos Autoramas?

Não há limite! Trezentos quilômetros por hora são pouco… (risos) Bota trezentos quilômetros por hora nisso!

Movies

Albatroz

Trama marcada por um misterioso crime e protagonizada por Alexandre Nero mira alto demais e soa pretensioso

Albatroz

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Downtown Filmes/Divulgação

Bráulio Mantovani é, atualmente, um dos roteiristas mais prestigiados do país. Daniel Augusto dirige seu primeiro longa, enquanto Fernando Garrido estreia coassinando o roteiro. Estes são os nomes que realizaram Albatroz (Brasil, 2019 – Downtown Filmes), protagonizado por Alexandre Nero e Andréa Beltrão e que chega às salas de todo o país nesta quinta-feira.

A trama é tecida em volta do sinestésico Simão Alcóbar (Nero), cujo estranhamento em relação aos eventos do filme lembra Mr Nobody, de Jaco Van Dormael. Simão, ex-fotógrafo com premiações no currículo, é obrigado por Alicia (Beltrão) a viajar para Albatroz, cidade onde seu antigo relacionamento se iniciou, para salvar sua esposa, Catarina (Maria Flor). A partir daí, flashbacks e pulos temporais se intercalam com um interrogatório policial – há um homem morto no escritório de Alicia e seu livro se torna objeto de investigação. Conveniente razão para que haja narrações em voice over, aliás. Sem entregar muitos spoilers, a história de Albatroz ainda conta com uma neurocientista, Dra. Weber (Andréia Horta).

Enquanto trabalha com realidades confusas, a trama disserta sobre sonhos e conflitos morais envolvendo a morte e religião. Talvez pela constante dualidade Israel-Palestina ou nazi-israelita que permeia a obra que Albatroz contém uma maioria assombrosa de nomes e sobrenomes gringos – fator que distancia o longa do ideário brasileiro. Sobrenomes como Henricksehn e Weber são antagonistas, enquanto uma desnecessária cena explicando a origem judia do sobrenome de Simão se faz presente para anunciar a dicotomia.

Por mais que exprima tais diálogos morais, Albatroz não se excede nos mesmos. Pode-se dizer, porém, que não mergulha neles. A plasticidade de certos fragmentos do roteiro produz certa plasticidade em todo o subtexto da trama. E é por tal artificialidade que o filme é repleto de meias-atuações. Andréia Horta e Marcelo Serrado, que faz uma ponta, não induzem quaisquer sensações, enquanto a constante face assustada de Andrea Beltrão cansa na metade final. Maria Flor, por sua vez, tem pouco espaço para brilhar, embora traga maior peso à personagem que as atrizes citadas anteriormente. Nero cambaleia, mas performa de forma sólida, entregando um bom protagonista, cujas cenas mais naturais são diálogos com Renée, interpretada pela ótima Camila Morgado.

O grande mérito do filme fica a cargo da direção, em seus aspectos mais conceituais, e da montagem de Fernando Stutz. O ótimo uso narrativo de elipses e da sinestesia de Simão fazem Albatroz fluir em seus primeiros momentos, recheando a trama de mistério. A constante sobreposição de imagens – fotografias do protagonista – bebe da fonte do laureado Cinema Novo (como bem apontou um colega crítico), tornando-se ostensiva após o segundo ato. A utilização de flashes brancos e coloridos em momentos de tensão traz dinâmica à montagem, que tem suficiente espaço para brincar com a compreensão fílmica do espectador.

Assim, Albatroz até empolga em certos momentos, mas a pretensão de Mantovani em buscar a criação de uma obra transcendental não se paga, criando uma trama “espertinha” e pouco orgânica. Por sorte, a direção e a montagem criam dinamismo e induzem o espectador, com certo mistério, a acompanhar o filme sem se cansar.

>> Atenção: este filme pode causar em incômodo em pessoas com epilepsia e fotossensibilidade