Movies

Virgens Acorrentadas

Diretor curitibano Paulo Biscaia Filho acerta a mão na sátira à vertente slasher das histórias de horror em sua primeira empreitada norte-americana

virgincheerleadersinchains

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Moro Filmes/Divulgação

O que fazer quando você envia o roteiro de um filme para várias empresas e todas elas retornam com uma resposta negativa somada a uma desculpa esfarrapada qualquer? O jeito é se desvencilhar das expectativas e frustrações e partir para o empreendimento próprio, bancando e produzindo a própria obra. É o que faz o personagem Shane em Virgens Acorrentadas (Virgin Cheerleaders In Chains, EUA/Brasil, 2017 – Moro Filmes), produção independente americano com pitadas brasileiras que estreia hoje, de forma hercúlea, em quase duas dezenas de salas comerciais nacionais.

Na verdade, VCIC é o nome do filme que Shane, sua namorada e seus colegas começam a fazer dentro do filme. A história dentro da história. Metalinguagem. Surge de sonhos frequentes que o roteirista e agora produtor de si próprio anda tendo. Segue a vertente do slasher (também conhecida entre os fãs do horror como torture porn, por misturar imagens de sugestão sexual e violência gráfica). Então, a turma segue para uma chácara afastada, escolhida como locação. Seus moradores são gente estranha. E, claro, como não poderia deixar de acontecer em um filme de horror, a coisa toda começa a desandar quando espirram as primeiras gotas de sangue.

Só que, de uma certa forma, a história desenvolvida neste longa-metragem também é o que aconteceu ao norte-americano Gary Gannaway. Desiludido com os sucessivos não tomados diante do roteiro escrito para VCIC, resolveu ele mesmo tomar a frente da produção e financiar o projeto com a ajuda de alguns benfeitores e vaquinha de colaboradores. Para dividir a direção, convocou o curitibano Paulo Biscaia Filho, de quem havia se tornado amigo em 2012, quando os dois estiveram dando um rolê pelo NOLA Horror Film Fest, o festival de cinema de horror realizado na cidade de New Orleans. O diretor e cabeça da companhia Vigor Mortis de teatro e filmes topou a empreitada e embarcou para a cidade de Austin, no Texas, para rodar as filmagens com atores locais em um período de três semanas.

Saber que o nome de Biscaia está no projeto significa que este está longe de ser um filme slasherconvencional. Pelo contrário. Diretor e roteirista aqui afinam sua parceria para exibir um humor inteligente e mordaz. Volta e meia os diálogos satirizam o mercado cinematográfico em geral, suas batidas fórmulas comerciais (enem sempre eficazes, diga-se de passagem), as condutas de seus profissionais. Em uma hora, a namorada de Shane, a co-produtora Chloe, solta a pérola de que “o recurso da “metametalinguagem” fica algo meio impossível para ser utilizado na trama. Ao mesmo tempo, porém, brindam o espectador com algo em comum à dupla: o amor pelo cinema, algo que move alguém a fazer um filme com orçamento irrisório (segundo o próprio Biscaia, algo que não chega a uma fração representativa do budget mais barato das produções mais baratas de estúdios norte-americanos) e, ainda assim, entregar uma obra com qualidade, paixão e, o principal, inteligência para nunca subestimar o espectador.

VCIC também atira farpas nos clichês do estabilishment cultural dos Estados Unidos. Já começa pela inclusão do símbolo da cheerleader sendo preso em correntes e massacrado fisicamente – por sinal, a adaptação do título para o português tirou a palavra exatamente por esta não ter tradição no Brasil. Questões econômicas (o pai que banca o filho empreendedor), profissionais (a aspirante a atriz que, para pagar as contas, trabalha num inferninho à noite fazendo pole dance e strip tease) e das drogas (o irmão de Shane, envolvido no fumacê constante e que às vezes costuma ter sacadas melhores que o profissional da área).

VCIC é um típico representante metaslahser, capaz de entreter sem dispensar questionamentos e críticas ao subgênero do horror pelo qual o próprio enredo segue. O melhor é que o roteiro vai surpreendendo quem está sentado na cadeira da sala de projeção durante todo o desenrolar da história. Por fim, vão duas dicas importantes. Não pisque durante nenhum segundo até a cena final do filme e, sobretudo, não confie principalmente em quem mais parece ser uma pessoa ingênua e inocente ali.

PS: Sim, assim como fizera em longas anteriores (Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos e Nervo Craniano Zero), Biscaia faz uma rápida aparição em VCIC. Agora gastando o inglês na frente das câmeras apenas para esbanjar bom humor em uma reunião de executivos do mundo do cinema.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s