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Não Olhe Para Cima

Nova sátira de Adam McKay fica presa nas amarras de um discurso que só pode ser escutado por quem já o toma como verdade

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Se há um filme recente que se tornou fenômeno nas discussões da crítica e nas redes como um todo, é Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up, EUA, 2021 – Netflix). As reações divisivas são, muitas vezes, por questões externas ao filme, porém intrinsecamente ligadas a ele. É sintomático do poder do cinema que um cometa fictício cause mais reações na população mundial que as crises ambiental e sanitária que vivemos.

O roteiro de Adam McKay e David Sirota apresenta os cientistas Kate Dibiaski (Jennifer Lawrence) e Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), aluna e professor que descobriram que um meteoro mortal colidirá com a terra em seis meses. Ignorados pela presidente, uma espécie de Donald Trump interpretada por Meryl Streep, eles vão à mídia para espalhar a devastadora notícia. Claro que a iminência do fim do mundo é menos importante para a grande mídia e seus espectadores (a sociedade como um todo) do que picuinhas românticas, memes e intrigas entre artistas famosos.

O tom de sátira política é evidente. McKay conduz o circo do absurdo com a devida ansiedade e inquietude: A câmera desfoca, balança e enquadra os rostos aflitos de suas personagens, cujo desespero é um que todos nós já sentimos no enfrentamento da pandemia de coronavírus ou da crise climática. A decisão de linguagem da direção funciona muito bem, até insistir em não explorar conflitos para além dos que apresenta de cara, tornando seus personagens caricaturas de si mesmos.

Essa hipersimplificação temática e psíquica das personagens e conflitos funciona politicamente (pois é impossível analisar essa obra sem levar em conta sua sombra política imensurável) mais como um tiro que saiu pela culatra que uma estratégia de ampla assimilação e aceitação do filme pelo grande público. Além de reduzir a crise apresentada (clara metáfora para a iminência do colapso climático em nosso mundo) a um “nós versus eles” que carrega consigo uma significação quase dogmática, o serviço à trama faz com que personagens ajam com pouco sentido ou seus conflitos não nos pareçam tão aterrorizantes – afinal, mal conhecemos Dibiaski, Mindy ou as poucas personagens secundárias que teriam alguma dimensão além da caricatura, ao contrário do escracho unidimensional dos antagonistas, como a presidente Orlean (Streep), seu filho “Carluxo” Jason (Jonah Hill) ou o bilionário Isherwell (Mark Rylance).

Contudo, McKay é aguçado na comédia política e nos presenteia com belos momentos, muito bem ancorados nas belíssimas atuações de Streep e Hill. Se seu discurso político não parece minimamente capaz (ou interessado) em discutir a condução da crise climática num debate sincero entre, para ilustrar com elementos do próprio filme, os simpatizantes de Orlean e aqueles que escutam a ciência (percebe como fica claro o moralismo prejudicial ao longa?), Não Olhe Para Cima é um diagnóstico assolador do impacto de uma das figuras mais centrais à política contemporânea nos últimos anos. Não é Trump, muito menos Bolsonaro.

As comparações entre personagens da ficção e do circo do absurdo próprio à política brasileira e à gestão do presidente atual que viralizaram nas redes sociais, inclusive, são sintomáticas. A sátira da política americana de McKay ressoa tão bem (à primeira vista) com nossa realidade por um elemento comum às duas: Steve Bannon. Seu efeito na operacionalização das fake news; do discurso negacionista e divisivo; e do espetáculo como cortina de fumaça são as armas de Orlean para minimizar a importância do meteoro até que se prove politicamente relevante. A relativização dos impactos ao ambiente e à vida humana em virtude das “oportunidades econômicas” são, também, artifícios da antagonista de Não Olhe Para Cima e dos políticos de orientados por Bannon desde sua ascensão como marqueteiro-mor da extrema direita.

Claro que, sendo esta a peça política que é, deve-se questionar o resultado prático dessa leitura da realidade tornada sátira. Se A Grande Aposta (2015) e Vice (2018), empreitadas anteriores de Adam McKay no campo da política, acertaram muito na condução de histórias cuja narrativa sempre lhes favoreceu nos Estados Unidos, não se pode dizer o mesmo de Não Olhe Para Cima. A característica unidimensional de sua trama cansa, o diretor parece se engessar nas amarras de um discurso que só pode ser escutado por quem já o toma como verdade. Por mais divertida a piada – e há várias dessas nesse longa-metragem – pouco importa a chuva de aplausos se nenhum deles pode ser ouvido de fora das paredes em que o show está rolando. Não importa a intensidade do barulho se quem precisa escutá-lo jamais o fará.

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