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O Irlandês

Martin Scorsese reflete sobre o tempo em obra extensa e que traz o brilho de atores como Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Anna Paquin

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Martin Scorsese é, para muitos, um dos maiores cineastas vivos. Maturando a nova Hollywood nas décadas de 1970 e 1980, o nova-iorquino que nunca deixou de fazer filmes com relativa constância agora aterrissa em seu mais recente primeiro em parceria com a Netflix – e numa onda de títulosaclamados, como O Lobo de Wall Street e Silêncio. Mas O Irlandês (The Irishman, EUA, 2019 – Netflix) é divisor dessas boas águas para muitos, em especial por sua duração.

O roteiro de Steven Zaillian, adaptado do livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, traz o assassino da máfia Frank Sheeran (Robert De Niro), já em avançada idade, rememorando seu tempo na ação e sua amizade com Russel Bufalino (Joe Pesci) e o mítico líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). Para tal, o filme abusa das clássicas narrações de Scorsese e de três momentos temporais, que ficam evidentes graças aos efeitos especiais, mas também pelo costumeiramente incrível trabalho de Thelma Schoonmaker na montagem. É nela, no entanto, que temos o “grande problema” deste filme.

Sim, porque três horas e meia é muito, em especial quando o ritmo da trama não é a efusão de explosões do cinema comercial de ação. Por outro lado, não há parte da trama que não esteja em O Irlandês por um motivo – Scorsese e Schoonmaker amarram a trama do começo ao fim, o tornando um filme bastante coeso e tonalmente constante. No entanto, servindo à trama ou não, a duração por vezes exagerada das cenas (o que não é uma questão da montagem, mas do roteiro) torna inescapável a sensação de que, por mais que possamos aproveitar o longa-metragem em sua completude, poderíamos, enquanto audiência, aproveitá-lo ainda mais se uns 40 minutos se perdessem na sala de montagem.

O filme é belíssimo, com a direção de fotografia de Rodrigo Prieto criando a suja e escusa metrópole americana que é tão distinta na filmografia de Scorsese. Ele ainda  aplica a movimentação da câmera, sempre muito suave, de forma a garantir que o ritmo que Schoonmaker constrói não caia em vagarosidade. O filme é longo e lento (o que não é, em si, ruim, vide o movimento do slow cinema), mas é fotografado lindamente e muito dinâmico.

Esse dinamismo também se dá pela atuação dos quatro personagens principais: De Niro, Pesci e Al Pacino são acompanhados pela Peggy Sheeran de Anna Paquin, que, mesmo com pouquíssimas falas, rouba todas as cenas em que aparece. É de um mérito extremo da atriz ser capaz de tanto em tão pouco tempo em tela. Por outro lado, os três “sêniores” gozam de muito tempo em tela, cada um entregando um papel belíssimo, desenvolvendo mais nuances com o passar dos anos da história.

O Irlandês é um filme muito bom no fim do dia. Um Scorsese apenas mediano, mas um destes é muito melhor que a maioria dos títulos que vemos durante o ano. O diretor ainda aproveita o último terço da trama para divagar numa espécie de aceitação da idade – e de toda a história que uma carreira no crime (ou no cinema) carrega. Autoconsciente, Martin Scorsese aproveita uma obra que se aproxima do fim de sua carreira (por mais que esperemos que ela dure o máximo possível!) para, em conjunto com artistas com tanta história como ele próprio, engajar num longo caminho de rememoração.

Com um roteiro melhor, que explorasse mais as batidas emocionais do incrível elenco à disposição, e menos uma construção calma da intimidade de Hoffa e Sheeran, poderíamos ter um dos melhores lançamentos do ano passado. Ele é, de certa forma, entretanto somente se esticarmos a lista um tanto.

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