Music

Johnny Hooker + Mulamba – ao vivo

Pernambucano encerra turnê em Curitiba fazendo deliciosa sessão de resistência cultural, desbunde e exorcismo de desilusões amorosas

johnnyhooker2019cwb01janaina

Johnny Hooker

Texto e fotos por Janaina Monteiro

Vingança, ódio, raiva são sentimentos comuns e completamente compreensíveis entre aqueles que já levaram o famoso pé na bunda. Afinal, quem nunca tomou um fora nessa vida? Comum também é extravasar toda essa revolta ouvindo aquela playlist “Especial Fossa” no último volume. Sair pela sala, como uma pessoa doida, berrando versos de dor de cotovelo que são campeãs do Spotify. Quem canta seus males espanta. Ou quem canta a depressão espanta.

A raiva faz parte do processo de esquecimento desses seres egoístas e covardes que vagam pelo mundo espalhando o desamor. Mas há quem sinta tanto, tanto ódio no coração partido que pensa em fazer macumba para se vingar, como Johnny Hooker. Se você já sofreu uma desilusão amorosa certamente já ouviu esse “hino do rejeitado” escrito pelo cantor pernambucano: “Eu Vou Fazer Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”. Assim mesmo, com ponto de exclamação, é a faixa que dá nome ao primeiro álbum de Hooker, o cantor da vida. O pernambucano, que já fez novelas e programas na Globo, também sofreu na pele a dor de ser abandonado subitamente. E essa foi uma das canções mais aguardadas durante o show de Hooker na Ópera de Arame, no último dia 7 de junho, para celebrar o aniversário da festa curitibana Brasilidades.

Hooker soube, como ninguém, dar uma reviravolta na situação, e lançou o segundo álbum, Coração, em 2017. O trabalho tem a faixa “Touro” que representa o fechamento do ciclo coração partido: “Viver, morrer, renascer/ Firme e forte como um touro”. Foi assim como um touro que Hooker aterrissou no palco da Ópera de Arame imponente – num figurino preto e dourado, com maquiagem impecáveis – e levando a plateia ao delírio ao tascar um beijo na boca do guitarrista de joelhos. Esse primeiro ato já foi o suficiente para o público se aquecer do frio de bater o queixo. De queixo caído fiquei eu, que até então pouco conhecia obra de Hooker, um artista híbrido, plural.

O pernambucano é um misto de Caetano Veloso, Ney Matogrosso e David Bowie. O performer-cantor-ator-compositor consegue transitar pelos mais diferentes estilos musicais sem muito esforço: axé, forró, samba, pop, rock, rumba, ska, bolero, jazz, blues, soul. E seu discurso é atual, potente, que representa as minorias. Com sua voz rasgada e debochada ao extremo, Hooker entoa hinos sobre amor marginal e a falta de amor. Assim como Liniker, como As Bahias e a Cozinha Mineira, como a banda curitibana Mulamba e como outros artistas que são resistência e contrariam o modus operandi brasileiro, Hooker é o desbunde em pessoa. Veio para escandalizar.

E bem ao estilo Bowie camaleônico de ser, o astro continuou o show de encerramento da turnê de Coração, com o público fiel e totalmente derretido pelos seus encantos. Os presentes, aliás, cantavam todas, mas TODAS as canções de cor. De coração. Algumas já foram temas de novela, como “Alma Sebosa”, incluída em Geração Brasil (na qual Johnny interpretou o músico Thales Saltado) e “Amor Marginal”, de Babilônia. O tecnobrega “Corpo Fechado” ( “Se depender do seu ódio, eu não morro mais/ Se depender da sua inveja, eu não morro mais/Se depender do seu veneno, eu não morro mais”), dobradinha com Gaby Amarantos, foi indicado na categoria de featuring do ano no MTV MIAW 2019 .

A apresentação é uma sessão de exorcismo de sensações e gestos. Todos pulam, se confraternizam, gritam contra os opressores. No set list não podem faltar homenagens aos mestres, como a deliciosa “Caetano Veloso”, que reverencia o baiano tropicalista, e “Beija Flor”, aquele axé contagiante da Timbalada (“Eu fui embora/meu amor chorou”). Antes de cantar “Poeira nas Estrelas”, Hooker explica que fez a canção para seu ídolo maior no dia em que ele morreu. Trata-se de “um réquiem sobre a morte de David Bowie e sobre a perda de uma maneira geral. É meu pedido para que aquele homem das estrelas não nos deixe aqui sozinhos sem uma luz para nos guiar”, tuitou o artista um dia sobre a obra.

A tal canção da macumba – que transforma a Ópera num terreiro – chega na metade do show. E todos na plateia se descabelam com ele, soltando o grito que estava preso na garganta. Com direito a fazer stories e mandar para ex. “Te desejo uma vida de desilusão/ Não desejo afago nem o perdão/ E que seja feliz com quem encontrar/ Mas, nunca mais volte aqui/ Profane o meu lar”. É como um Cee-Lo Green cantando “Fuck You”.

mulamba2019cwbjanaina

Mulamba

O discurso que levanta a bandeira do protesto contra a homofobia também se fez presente no show de abertura, com a banda curitibana Mulamba, formada por seis mulheres de atitude rock’n’roll numa clara homenagem a Cássia Eller. Assistir ao show das “mulambentas” dá um certo orgulho de ser curitibana (eu nasci na Bahia, mas vivo aqui há muito tempo!). A sonoridade é potente. Os vocais, vigorosos. E a mensagem, crítica, atual. Como em “P.U.T.A”, que fala sobre violência e feminicídio: “Por ser só mais uma guria/ Quando a noite virar dia/ Nem vai dar manchete/ Amanhã a covardia vai ser só mais uma que mede, mete e insulta/ Vai, filho da puta”.

O convidado principal da noite também usa o intervalo entre as canções para discursar. “Equidade de diferenças é o que importa”. “Ser artista no Brasil  é um ato de resistência”. “Podem matar uma rosa ou duas, mas não podem deter a chegada da primavera”. Foram algumas das frases proferidas pelo pernambucano. E para arrematar o show-protesto, Hooker canta “Flutua” que gravou com Liniker. Com as mãos para o alto, todos entoam o refrão: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Assim ocorre a transformação de toda a ira, ódio, sentimento de vingança em um ato de liberdade.

Set list Johnny Hooker: “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, “Você Ainda Pensa?”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Boato”, “Beija-Flor”, “Escadalizar/Desbunde Geral” e “Flutua”.

Set list Mulamba: “Provável Canção de Amor Para Estimada Natália”, “Interestelar”, “Tereshkova”, “P.U.T.A”, “Mulamba” e “Espia, Escuta”.

Music

Courtney Barnett – ao vivo

À frente de seu power trio, australiana dá aos brasileiros duas raras oportunidades de ver um artista tocando no auge da carreira

courtneybarnett2019sp_fabiosoares

Textos por Fábio Soares (São Paulo) e Luiz Espinelly/Josephines (Porto Alegre)

Fotos por Fábio Soares (São Paulo) e Mayra Silva (Porto Alegre)

Como é bom presenciar in loco um artista independente no auge de sua forma!

Foi este presente o que cerca de mil sortudos tiveram na noite da última quinta-feira (21 de fevereiro de 2019) muito chuvosa em São Paulo. Courtney Barnett estava entre nós e um acontecimento desses, havia de ser celebrado. A abertura desta Popload Gig ficou por conta do quarteto goiano BRVNKS. Com o vocal de Bruna Guimarães, o grupo desfilou, por meia hora, seu indie lo-fi agradável aos ouvidos da audiência. Com três anos de carreira, o que se viu foi uma banda muito segura no palco e sem sentir o peso de abrir o show para alguém do quilate de Barnett. Pouco tempo depois, Courtney surgia no palco da Fabrique ladeada apenas do baterista Dave Mudie e do baixista Bones Sloane. E foi com essa formação de power trioque os primeiros acordes de “Hopefulessness” (do aclamado Tell Me How You Feel, álbum de 2018) foram ouvidos. Com andamento marcial do início ao fim, a balada é uma síntese confessional da australiana em sua letra (“Pegue seu coração partido e o transforme em arte/ Eu não quero/ Eu não quero saber”).

Muito tímida ao microfone e, em certos momentos econômica nos movimentos (o cansaço e o jet lag devem ter pesado após apenas 72 horas de sua apresentação em Houston, no Texas), Courtney parecia estar em transe quando pluga sua guitarra. Declaradamente influenciada por Nirvana, tem em Kurt Cobain seu mentor intelectual e o “encarna” sem cerimônia em algumas passagens em cima do palco. Em “Need a Little Time”, por exemplo, fechava os olhos e refletia sobre sua depressão (“Você parece ter o peso do mundo sobre seus ombros ossudos/ Aguente firme”). Em “Are You Looking After Yourself”, a veia folk e o sarcasmo (“Eu deveria arrumar um emprego, ter um cachorro, casar, ter filhos e assistir a todos os telejornais”) eram extravasados num dos momentos mais descontraídos da noite.

Mas é com sua guitarra distorcida que Barnett sente-se mais à vontade. Isso foi presenciado mais uma vez em SP. Ninguém ficou parado durante a execução de “Pedestrian At Best”, com seu refrão matador (“Me coloque em um pedestal e te decepcionarei/ Diga que sou única e irei te explorar”) em volume altíssimo. Neste momento, a plateia já estava entregue antes do triunvirato do bis: a belíssima “Let It Go”, lançada no álbum Lotta Sea Lice (concebido em 2017, parceria com Kurt Vile); “Kim’s Caravan”, na qual Courtney reafirmava que sua guitarra é sua melhor parceira com as microfonias jogando a seu favor; e a derradeira “History Eraser”, de final apoteótico e as seis cordas tocadas no mais alto volume.

Barnett se despediu e rapidamente saiu do palco. Para ela, mais um capítulo de sua extensa turnê do mais recente álbum. Para nós, a certeza de que são raros nos momentos em que, aqui no Brasil, podemos ir a shows de artistas no auge da carreira e que oportunidades assim não devem nunca serem desperdiçadas. (FS)

***

courtneybarnett2019poa_mayrasilva

O rock morreu? Vida longa ao rock!

Apesar do forte calor, o show de Courtney Barnett pela Popload Gig em Porto Alegre (22 de fevereiro de 2019) levou um bom público ao Opinião, tradicional casa noturna da capital gaúcha. A anedota corrente antes do show, na banquinha de merchandising, era que a australiana estava tão bem ambientada em Porto Alegre que estavam vendendo camiseta de “I ❤ CB” – que todos locais leem como “I love Cidade Baixa” (o bairro boêmio de Porto Alegre).

Gauchices à parte, Barnett entrou no palco pontualmente às 21h, sem banda de abertura. O chapéu meio Cachorro Grande do baterista foi o único mau presságio da noite, rapidamente dissipado nos primeiros acordes de “Hopefulessness”, faixa de Tell Me How You Really Feel, um dos melhores álbuns de 2018. A bela canção, de começo suave com andamento marcial, conduziu banda e plateia em um crescente arrebatador, sob luz vermelha como a capa do disco e apresentando as credenciais da banda, com o baterista Dave Mudie e o baixista Bons Sloane fazendo uma cozinha competente para Courtney brilhar na guitarra e no microfone.

Na plateia, a maior parte parecia de jovens saídos da série Sex Education, mas também estavam presentes aquele pessoal com cara de quem vai em loja de disco todo sábado pela manhã. Ou seja, Courtney Barnett jogava em casa e com torcida a favor. No palco, o power trio tocou um pouco mais de uma hora. Com uma estrutura simples, sem telão e apenas com luzinhas tumblrfazendo a decoração, Courtney apresentou suas canções de forma crua, despindo-as dos truques batidos do universo pop e apostando na essência de seu lirismo. Enquanto a banda alternava dinâmicas e dava espaço para longos solos distorcidos, Courtney tocou os principais sucessos do primeiro e do segundo disco – além do bis com uma canção de seu álbum com Kurt Vile. Sem palheta, solando na ponta dos Martens, ela tocou suas Fender (alternou entre vários modelos de Jaguar, uma Strato e uma Tele) como uma guitar heroine, subiu na estrutura da bateria, cantou alto letras confessionais e olhou nos olhos do público, sorrindo com cumplicidade.

Com o mesmo set list do show de São Paulo e sem covers, a australiana apresentou suas músicas de forma menos polida que nos discos. Com um punch extra e alguns momentos de pegada mais forte da banda, Barnett abusou das distorções, evocando microfonias e longos solos, entregando que andou ouvindo Neil Young & Crazy Horse. O que combina bem com sua verve Lou Reediana e deu um sabor diferente aos sucessos indie registrados de forma mais contida nos álbuns.

Pontos altos: o começo com a dobradinha “Hopefulessness” e “City Looks Pretty”; “Nameless, Faceless” e “Depreston”, cantadas em coro pela plateia; e o bis com “Kim’s Caravan”, dos versos “so take what you want for me”, repetido também em coro pelo público enquanto Courtney entregava justamente o que os fãs queriam: uma catarse através do rock’n’roll. (LE)

 Set List de São Paulo e Porto Alegre:  “Hopefulessness”, “City Looks Pretty”, “Avant Gardener”, “Small Talk”, “Need a Little Time”, “Nameless Faceless”, “Small Poppies”, “Depreston”, “Are You Looking After Yourself”, “Sunday Roast”, “Lance Jr”, “Charity”, “Pedestrian At Best”. Bis: “Let It Go”, “Kim’s Caravan” e “History Eraser”.

Music

L7 – ao vivo

Duas aulas de feminismo e resistência, performances juvenis arrebatadoras mais aquela certeza do eterno caráter transgressor do rock alternativo

L7portoalegre2018_fernandohalal

Suzi, Jennifer e Donita em Porto Alegre

Texto por Fernando Halal (Porto Alegre) e Abonico R. Smith (Curitiba)

Fotos de Fernando Halal/FHF (Porto Alegre) e Priscila Oliveira/CWB Live (Curitiba)

Um quarto de século após a histórica apresentação no Hollywood Rock, onde ofuscaram até mesmo um tal de Nirvana, as musas do L7 voltaram ao Brasil para uma disputada turnê que percorreu cinco capitais. Mas este é um cenário bem diferente daquele encontrado em 1993. O grunge perdeu vários de seus heróis para as drogas e a depressão. Chris Cornell, Layne Staley, Scott Weiland, todos deixaram uma lacuna difícil de preencher. Kurt Cobain virou mártir absoluto. E o rock, como todos sabemos, jamais teve um movimento de renovação tão forte quanto aquele.

E quanto ao L7 de hoje? Haveria ainda espaço para as notórias excentricidades do quarteto, como jogar absorventes na plateia ou mostrar a bunda para a TV em horário nobre, como na última vez delas por aqui?  Obviamente não. Até porque, no mundo pós-grunge, o politicamente incorreto é uma lembrança remota. Mas não se engane: em Porto Alegre, a noite de 4 de dezembro de 2018 teve peso e sujeira transbordantes. As atrações de abertura do Morrostock Vênus em Fúria seguiram o clima e também se destacaram pela representatividade: teve o dínamo punk Replicantes (da irrequieta vocalista Julia Barth) e, antes deles, Bloody Mary Una Chica Band, o projeto garage noise da multi-instrumentista Marianne Crestai (ex-Pullovers). Em suma, distorção girl power foi o que não faltou.

As cortinas reabriram para a atração principal. No palco, as pioneiras do movimento riot grrrl continuam velozes, lisas, empilhando riff em cima de riff – elas só estão mais sorridentes, e acredite, isso é muito bom. O grupo voltou em 2015 na sua formação mais clássica, após o hiato de quase uma década e meia. Donita Sparks (voz/guitarra), Suzi Gardner (guitarra), Jennifer Finch (voz/baixo) e Dee Plakas (bateria) seguem entregando um show vigoroso e que não evidencia qualquer marca do tempo. O repertório passeia por todas as fases, com destaque para os álbuns Bricks Are Heavy (1992) e Smell The Magic (1990), sempre com uma energia absurda. A chance de testemunhar ao vivo petardos como “Fast And Frightening”, “Pretend We’re Dead” e “Everglade” era o sonho molhado de qualquer jovem espectador da MTV dos anos 1990, e o L7 não decepcionou. Ainda houve espaço para a clássica “Shitlist”, que figurou na trilha sonora de Assassinos por Natureza (1994), além de faixas mais recentes, como “Come Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”.

Definitivamente, a idade não chegou para a banda; não é todo dia que se pode testemunhar quatro mulheres na faixa dos 55 anos batendo cabeça, ajoelhando até o chão e fazendo air guitar sem soar datado ou ridículo. Sorte que o L7 nunca foi uma banda qualquer. Muito mais que um show de rock feito para tiazinhas pagarem suas contas, o que se viu foi uma celebração à vida e ao barulho, ao poder feminino, a envelhecer com desprendimento e amor próprio. Não é pouco, mesmo. (FH)

***

l7curitiba218_prioliveira

Donita e Jennifer em Curitiba

O neoliberalismo é uma doutrina opressora, tanto social quanto economicamente. Vamos começar a sentir isso na pele logo a partir da virada do ano. Os britânicos sabem muito bem o que foi o regime mão-de-ferro da primeira ministra Margaret Thatcher entre 1979 e 1990. Já os americanos experimentaram uma versão um pouco menos severa durante os oito anos (1981-1989) em que o republicano Ronald Reagan esteve à frente da Casa Branca.

E o que isso tem a ver com o rock’n’roll? Simplesmente, muito. Afinal, não fosse a apatia geral da juventude do país naquela época talvez não houvesse surgido em torno dos principais centros universitários do país uma geração inconformada que uniu música e atitude e revolucionou o rock daquela época. Esta turma consolidou, com muito punk e hardcore na veia e uma boa dose de um heavy metal mais desacelerado, o que viria a ser chamado posteriormente pela indústria de “alternativo” e mais tarde ficaria conhecido no Brasil sob a alcunha geral de indie.

E quais eram as melhores armas para se enfrentar os tempos bicudos de opressão socioeconômica somada a pessimismo, depressão e desesperança? Um caldeirão de ativismo político repleto de elementos como cinismo, deboche, tosqueira, improvisos, quebra de paradigmas e sobretudo o eterno desafio ao estabilishment. Foi nos porões, muquifos e vans pela estrada afora por todo o país que aquela geração gerou uma série de ícones underground. Uns tornaram-se muito populares, mesmo não sabendo trabalhar direito com os percalços trazidos pela fama, como foi o caso de Nirvana e REM. Outros chegaram a flertar com o sucesso de massa por um curto intervalo de tempo. Vários outros construíram uma carreira consolidada e respeitada e até hoje, ainda na ativa ou não, conquistaram o direito definitivo de morar no coração de uma devotada legião de fãs.

O L7 se equilibra nestas duas últimas categorias. De volta aos palcos e estúdios após um longo hiato que durou de 2001 a 2015, o quarteto prepara aos poucos um novo disco – duas canções já foram apresentadas, “I Came Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”, a última um tapa na cara do presidente Donald Trump tal qual faz o Batman no Robin naquele famoso meme. Enquanto isso, Donita Sparks (guitarra e voz), Suzi Gardner (guitarra e voz), Jennifer Finch (baixo e voz) e Dee Plakas (bateria e vocais) continuam espanando a poeira circulando pelos palcos alternativos dos EUA e do mundo. No final de 2018, deram uma circulada por Chile e Brasil, fazendo seis shows em sete dias, no melhor esquema “banda em início de carreira”, apenas trocando a van por aviões em virtude das grandes distâncias do lado de baixo do Equador.

Na noite de 5 de dezembro a banda passou por Curitiba, como headliner da segunda edição do festival Coisarada, realizado no Hermes Bar. E por lá mostraram que continuam com seu teen spirit imutável. O que poderia significar percalço – como gripe, doença e o peso da idade (que hoje varia dos 52 aos 58 anos) – foi tirado de letra durante quase uma hora e meia de show, com muita garra, vontade e alma rock’n’roll. A dupla Sparks-Finch, então, é um caso à parte em sua performance: não faltaram as tradicionais balançadas de cabeça, poses para fotógrafos e tiradas bem-humoradas ao microfone.

O repertório ficou dividido entre os quatro clássicos álbuns lançados entre 1990 e 1997: Smell The Magic, Hungry For Stink, The Beauty Process: Triple Platinum e Bricks Are Heavy, com ligeira tendência preferencial para o último, de onde saíram sete faixas para o set list. A sonoridade, claro, torna-se bem mais crua ao vivo. Sem muitas sutilezas, tal como um monolítico bloco de riff se pequenos solos em bases que trafega entre o punk e o heavy e a adição de melodias pegajosas mais versos curtos, diretos e sem firulas líricas. E, claro, com os tradicionais erros seguidos da parada da banda inteira para começar a mesma música de novo. A beleza da imperfeição.

O começo foi arrasador, com a ousadia de engatilhar quatro clássicos logo de cara (“Deathwish”, “Andres”, “Everglade” e “Monster”). Do meio para o final foi mais um show para fãs de carteirinha, aquelas pessoas que cantam as letras todas, que esperavam ouvir também as duas novidades na noite, que se encatam com o resgate de pérolas “lados B” dos discos. Para o bis foram reservados um cover de heróis delas (neste caso, “American Society”, do obscuro grupo punk de uma early eighties Los Angeles Eddie & The Subtitles) mais o hit “Pretend We’re Dead” (até hoje presente nos playlists de rádios brasileiras de perfil rock) e a cult “Fast And Frightening” (o verso “Got so much clit she don’t need no balls” será sempre um irresistível slogan da banda).

Terminado o show do L7 ficou a feliz sensação de que, mais uma vez, esta mesma geração põe a cara a tapas para mostrar o quão nocivo, transgressor e perigoso o rock ainda pode ser, sobretudo diante de pretensões autoritárias e opressivas de se governar o mundo e controlar a vida das outras pessoas. Sorte que bandas como estas fizeram muitos discípulos por aí. Em Curitiba, as duas atrações de abertura provaram isso: o Shorts, com seu misto de blues, noise e psicodelia; e o ruído/mm, com suas várias ambientações instrumentais que muitos chamam de post-rock. Garanto que, ao sair de um Hermes Bar lotado e plenamente satisfeito com a trinca da noite, ninguém pensou que o rock está morto ou ainda precisa ser salvo. Pelo contrário, aliás. Quem precisa ser salvo são os outros. Pessoas e gêneros musicais. (ARS)

Set list Porto Alegre e Curitiba: “Deathwish”, “Andres”, “Everglade”, “Monster”,  “Scrap”, “Fuel My Fire”. “One More Thing”, “Off The Wagon”, “I Need”, “Slide”, “Crackpot Baby”, “Must Have More”, “Drama”, “I Came Back To Bitch”, “Shove”, “Freak Magnet”, “(Right On) Thru”, “Dispatch From Mar-a-Lago” e “Shitlist”. Bis: “American Society”, “Pretend We’re Dead” e “Fast And Frightening”.

Movies

As Herdeiras

Longa sobre mudança de paradigmas na vida de protagonista sexagenária faz o Paraguai ter destaque no cinema sul-americano de gênero

lasherederas

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

Destaque em vários festivais recentes – dentre eles os Berlim e Gramado, ganhando prêmios em ambos – o filme As Herdeiras (Las Herederas, Paraguai/ Alemanha/Uruguai/Noruega/Brasil/França, 2018 – Imovision) enfim joga luz sobre o cinema paraguaio, escondidinho aqui do lado (sobretudo para quem mora no Paraná) mas ainda pouco conhecido e divulgado no próprio território sul-americano. E quem quiser se iniciar por aqui não terá do que se arrepender.

Escrito e dirigido por Marcelo Martinassi, As Herdeiras é mais uma obra recente do cinema latino a confirmar a tendência de um forte cinema de gênero. A história trata acerca da mudança de comportamento de Chela (Ana Brun), uma pintora herdeira de uma rica família e hoje em decadência financeira e entregue completamente à depressão. É antissocial ao extremo – chegando até a ser agressiva verbalmente – e torra indiscriminadamente a fortuna deixada pela família em mobiliário, quadros e utensílios de casa para manter um estilo de vida não mais compatível, como a manutenção de uma empregada doméstica e a mais completa despreocupação com a inexistência de uma fonte de renda fixa mensal. Para completar, está casada há décadas com uma outra mulher de temperamento bem diferente do dela. Que quer sair, gosta de cantar, encontrar as amigas, fuma à beça e não pensa duas vezes antes de cometer pequenos atos financeiros ilícitos.

A mudança radical na vida de Chela começa quando Chiqui (Margarita Irun) passa uns meses forçados na prisão para cumprir pena de sonegação de impostos. Sem a companheira, ela se vê forçada a afastar a depressão e o baixo astral e embarcar em um cotidiano de sociabilidade, fazendo bico como motorista particular em seu próprio carro e aturando as outras mulheres que carrega como passageiras.

Até que a mão do destino se encarrega de Chela conhecer Angy (Ana Ivanova), uma atraente mulher de quase metade de sua idade, que a faz abrir os olhos e conhecer novas realidades. Então, um mundo de descobertas cai no colo da protagonista, o que a faz rever conceitos, opiniões e atitudes. Algo do tipo road movie espiritual, com uma jornada interior tocante permitindo o deslocamento – tanto geográfico quanto na alma – e um passado recente nebuloso (a fotografia bastante sombria ainda ajuda na primeira metade do filme) para um bravo mundo novo de interesses, sentimentos e sensações (sob a luz do sol).

E é justamente isso que faz valer todo o filme. Com bastante sensibilidade, Martinassi constrói mais uma forte protagonista feminina (tendo como apoio duas coadjuvantes com não menos força) para esta década de ouro do cinema de gênero da América do Sul.

Music, Videos

Clipe: Suede – Life Is Golden

Artista: Suede

Música: Life Is Golden

Álbum: The Blue Hour (2018)

Por que assistir: Este novo clipe do Suede – o segundo já feito para o novo álbum que chega às lojas físicas e virtuais em 21 de setembro – pode muito bem ser resumido em três palavras: drone, travellings e Chernobyl. Durante todo o vídeo, a câmera viaja no espaço da localidade ucraniana em voos lentos e profundos. Nas imagens, uma cidade fantasma, entregue aos deus-dará, inabitada desde que um catastrófico acidente na usina nuclear local ocorreu em 1986, quando a União Soviética ainda existia. Uma explosão seguida de incêndio lançou na atmosfera uma enorme quantidade de partículas radioativas, que chegaram as se espalhar por boa parte do continente europeu e do território asiático da URSS. Este foi o pior desastre nuclear de todos os tempos. Trinta e uma pessoas morreram na ocasião. Entretanto, o resultado da contaminação provocada – que leva até hoje ao câncer e a deformidades físicas – foi e ainda é incalculável. Toda a região, passadas mais de três décadas, foi desocupada, sem previsão de quanto tempo os perigos ainda permanecerão espalhados pelo ar de Chernobyl. As imagens do clipe do Suede tratam justamente disso. De como a vida vale ouro. Os versos melancolicamente por Brett Anderson – que é acompanhado por sua banda e ainda pela orquestra filarmônica da cidade checa de Praga – não servem apenas para ilustrar todo o horror acontecido e herdado pela cidade localizada na região de Kiev, na Ucrânia. Caem como uma luva para os tempos difíceis de doenças mentais que assolam boa parte da população mundial no Século 21. A letra, direta, simples e bastante eficiente, pode servir de consolo e estímulo para quem tem ansiedade, depressão, borderline, pânico e outras coisas. Servem para acender uma luzinha sobre a cabeça de uma destas pessoas para que ela perceba que não está sozinha no mundo, que fique calma e procure ajuda, que saiba o quanto é valiosa e o quanto poderá muito bem, em breve, vivenciar a sua ressurreição. Seja ela social, física, financeira, amorosa…