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A Forma da Água

Oito motivos que farão a obra-prima de Guillermo del Toro nunca mais sair da sua memória nem do seu coração

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Treze indicações ao Oscar 2018 e o grande favorito da noite para várias categorias, inclusive a principal. Prêmio de melhor filme no Festival de Veneza, no ano passado, quando foi exibido publicamente pela primeira vez. Escalado para abrir o Festival do Rio, uma das mostras fílmicas mais cultuadas de todo o Brasil. Críticas de cinco estrelas fluindo aos borbotões em toda a imprensa especializada.

Tudo isso não veio ao acaso. A Forma da Água (The Shape Of Water, EUA/México, 2017 – Fox) é um dos filmes mais tocantes já produzidos na Hollwood do Século 21. Emociona lá no fundinho das entranhas. Faz qualquer um vibrar e torcer, mesmo o ser mais comedido sentado nas poltronas da sala de projeção.

Eis aqui oito motivos para a nova obra(-prima, aliás) de Guillermo del Toro não sair mais da sua memória. Nem do seu coração.

Declaração de amor aos monstros

Que o diretor mexicano sempre foi apaixonado pelo universo fantástico de seres bizarros e considerados aberracionais perto da humanidade isso todo cinéfilo já sabe. Agora ninguém pode ter um pingo de dúvida de que esta não seja a sua declaração de amor definitiva a eles. Revivendo os ares do filme cult de terror O Monstro da Lagoa Negra (de 1954), aqui ele mostra um ser enigmático capturado das águas amazônicas e levado para os Estados Unidos do começo dos anos 1960 como um possível trunfo para ser usado pelos militares na Guerra Fria contra os inimigos soviéticos. E a tal criatura não cativa somente o espectador. Ele ganha o coração da protagonista Elisa Esposito, que faz tudo para tentar salvá-lo de um destino nada feliz.

I’m a loser, baby

O poderoso refrão criado por Beck para seu hit-mor “Loser” pode ser o slogan que permeia todo o longa-metragem de Del Toro, assim que ele vai apresentando seus principais personagens no decorrer da história. Eles não se encaixam no padrão “normal” da sociedade. Têm algo que parece castigá-los para sempre com o selo da diferença perante o padrão asséptico imposto pelo mundo ocidental, em particular, os poderosos Estados Unidos da América, sempre baseados no mérito, na vitória, na perfeição. Elisa (Sally Hawkins) é muda. Em contrapartida, sua colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer) fala mais do que a “Mulher da Cobra” no calçadão da Rua XV, no Centro de Curitiba. Seu vizinho Giles (Richard Jenkins) é um velho desenhista fracassado em seus sonhos e ridicularizado por seus trabalhos. E, claro, tem o tal monstro. Mas não pense você que este “quadrado mágico” se limita a fazer pose de coitadinho para ganhar a piedade. Pelo contrário: suas limitações os fazem superar todos os obstáculos nem que para isto também precisem alavancar pequenas doses de ironia e vilania.

Homenagens à sétima arte

Del Toro vai muito além de prestar reverência a O Monstro da Lagoa Negra. Pelas duas horas de seu filme ele também rende homenagem a clássicos de uma Hollywood em seus áureos tempos. Diversos musicais – resgatando inclusive o sapateado e a estrela brasileira Carmen Miranda – pipocam aqui e ali, sobretudo quando Elisa faz suas visitas ao amigo Giles. Em outros momentos, o deslumbre visual de A Forma da Água o transforma em um excitante filme noir colorido – para depois desembocar em uma misteriosa trama de ação, com direito a muitos tiros e sangue escorrendo sob a chuva pesada que encharca as ruas. Já os ambientes secreto laboratório onde Elisa e Zelda trabalham como faxineiras remetem a deliciosas produções B de ficção científica dos anos 1950 e 1960. E, claro, há todo um sarcasmo em ligar o “casal” principal ao mito de A Bela e a Fera. Só que aqui a bela não é nada bela e a fera não é nada fera.

Interpretações certeiras

Elisa é muda e só se comunica com o mundo pela linguagem de sinais. Apenas isso bastava para Sally Hawkins dar um show na pele da faxineira solitária durante quase duas horas com gestos e olhares que dizem muito mais que um turbilhão de palavras pronunciadas. Contudo, ela ainda arranca segredos mágicos da manga. Ou melhor dos pés, já que ainda dá conta de vários passos de sapateado E não é só ela que entrega uma performance arrebatadora. Richard Jenkins, como o desenhista menosprezado Giles, complementa a dose de sensibilidade entregue por del Toro desde o início, primeiro narrando a história da amiga e depois acompanhando-a em suas investida tão idealista quanto apaixonada até o final. Octavia Spencer, por sua vez, arrebata qualquer um com suas tiradas bem-humoradas, servindo de alívio cômico ao filme. Micahel Shannon, na pele do fanático (religioso, de direita) chefe de segurança do laboratório também merece palmas entusiasmadas.

Poesia em forma de imagens

A Forma da Água é aquele filme de fantasia capaz de grudar na sua cabeça e dela nunca mais sair. Não bastasse ter uma coleção de grandes personagens, Guillermo del Toro imprime uma poesia visual no uso das cores de figurinos e cenografia, nos movimentos de câmera de cada tomada, na direção dos atores, na cena de masturbação da mocinha na banheira estrategicamente colocada logo nos primeiros minutos da montagem. Se não sair do Oscar com o prêmio de melhor diretor será uma tremenda injustiça a todo o trabalho demonstrado nas duas horas de projeção

Trilha de sonora de primeira

Fábula visual que se preze também pede uma trilha sonora tão fantástica quanto. Aqui os ouvidos do espectador são massageados pelo trabalho primoroso de Alexander Desplat, um dos nomes mais disputados pelos diretores hollywoodianos nos últimos anos. Desplat ajuda a pontuar as surpresas e reviravoltas flutuando entre o cômico e o tenso, o romântico e o melancólico. Usa acordeon, assovio, arpejos, arranjos orquestrais e uma veia autoral capaz de retransformar pérolas pop alheias, como “You’ll Never Know” (apresentada originalmente em 1943, no filme Aquilo, Sim, Era Vida!, pelo qual ganhou o Oscar de melhor canção original)

Edição de som

Terreno fértil para os linguistas é a comunicação que se dá entre Elisa e o monstro capturado pelo governo norte-americano. Se Elisa é muda, o monstro não é. Ele emite sons. A maneira como eles se dão é a grande surpresa de todo o trabalho de criação feito pela dupla Nathan Robitaille e Nelson Ferreira.

Atualíssima crítica social

Por mais conto-de-fadas que seja toda a história de A Forma da Água, ela cai como uma luva no papel de crítica social ao atual momento dos Estados Unidos e o governo do presidente Donald Trump. Mesmo ambientada mais de meio século atrás. Mesmo ficando distante do realismo impresso pelos outros grandes filmes desta temporada de premiações.

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