Music

Nirvana – ao vivo

As “bodas de prata” da ópera do horror que foi o histórico show da banda na noite de 16 de janeiro de 1993 em São Paulo

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Textos por iaskara e Fabio Soares

Fotos de iaskara

Na última terça, dia 16 de janeiro, fez 25 anos do histórico show do Nirvana no Morumbi em São Paulo.

Sim, eu estava lá, com uma credencial de fotógrafa (uma longa história!), com uma câmera fotográfica analógica diga-se de passagem (estávamos numa outra era geológica!) em punho, experiência alguma nesse negócio, numa fila imensa de fotógrafos “profissionais” querendo me comer por eu ter chegado antes no portão de acesso ao palco. Um bando de selvagens, imbecis e truculentos perguntando de qual veículo eu era pra me dar o tom de que eu tava no lugar errado. “Ahhhhh, foda-se!!!!”, pensei. Minha treta com essa caterva começou nesse dia, certeza!

Dada a autorização pra subir no pit à frente do palco, corri feito louca. Me joguei com tudo e me posicionei um pouco antes do microfone do Kurt. Aprendi nesse dia que é o melhor lugar pra fotografar, sobretudo quando você não vai poder se mover, pois você fotografa sem o microfone na frente do rosto do fotografado. É o lugar mais disputado pela corja, mas isso ninguém vai te contar (por isso anotem!!!). Enfim, com a caterva toda se acotovelando ao meu redor disputando o mesmo metro quadrado, levei pancada de tudo quanto foi jeito. Saí com algumas marcas roxas, mas estava tão determinada a ficar naquele lugar e que ninguém estragaria aquela experiência que não me importei.

Não queria saber de nada. Só queria viver aqueles poucos momentos na frente da maior/menor banda do mundo, no auge da carreira, que saiu de um shithole pra dar uma rasteira na indústria da música e mudar os rumos da História. Mas, antes disso, eu só queria olhar de perto o Kurt mais uma vez. Eu estava pouco me lixando com as fotos, com o registro histórico, etc.

Quando ele subiu no palco só me lembro que fiquei congelada diante dele de novo, pois já tinha passado por isso no dia anterior no Maksoud Plaza. Enquanto isso a selvageria, tanto de fotógrafos, quanto no estádio, estava comendo violentamente! Todo o resto do show é história!

Foi uma experiência arrebatadora para uma menina que amava aquela banda e nem sabia direito como tinha ido parar ali, de forma inesperada e por acaso.

Ok, minhas fotos ficaram uma bosta! Lembrando que filme sempre custou caro, tinha 36 “poses” e custava o rim pra revelar e ampliar. A brincadeira não era barata na época pra mim. Foi feito apenas um “copião” no laboratório do jornal e escolhida uma ou outra pelo Abonico Smith e publicada apenas uma se não me engano para ilustrar a resenha dele sobre este show na Gazeta do Povo. Guardei os negativos para todo o sempre. Após a morte do Kurt, quinze meses depois, não podia nem pensar em ver estas imagens. Não queria, não conseguia, num ato de negação completa. Mas o Jonathas Formagio (administrador do grupo no Facebook sobre o Hollywood Rock de 1993) quem me fez abrir essa caixa. Acabei digitalizando esse material em fevereiro do ano passado. Sim, 24 anos depois eu fui ver o resultado! Foram publicadas algumas lá somente pelo registro quase inédito desta experiência que foi extremamente importante pra mim.

Sobre meu encontro com o Kurt (muito bonitinho, aliás!), ele está relatado em uma matéria feita pelo Abonico e publicada em 2004 no Mondo Bacana. O link está aqui caso alguém tenha curiosidade e tempo.

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Fazia um calor etíope e senegalês em São Paulo naquele sábado (16/01/1993) mas não era um sábado qualquer: a quarta edição do extinto Hollywood Rock (ao lado do também finado Free Jazz, o único benefício que o cigarro trouxe às nossas vidas) aportava no Morumbi tendo como headliners os Red Hot Chilli Peppers (promovendo o antológico álbum Blood Sugar Sex Magik) e três expoentes do movimento grunge: Alice In Chains, L7 e a maior (sim, era a maior mesmo e aceita que dói menos!) banda do mundo no momento. O Nirvana estava entre nós! Os caras que tocaram o terror no VMA, da MTV, no ano anterior. Os caboclos que expulsaram Michael Jackson e Madonna do topo das paradas. As cabeças por trás de Nevermind, a bolacha que pôs 3/4 do mundo pra chacoalhar o pescoço no biênio 1991/1992. Depois de muito tempo, o Brasil veria uma banda no auge e seria naquele sábado. Portanto, era a brecha que o sistema queria… AVISA O IML, CHEGOU O GRANDE DIA!

Por volta das 21h quase não cabia mais ninguém no Panetone… (ops!) no Morumbi. As arquibancadas (setor em que fiquei) estavam tão lotadas como num Palestra x Oitava Força nos anos 1980 e na pista não era diferente: pouquíssimos “buracos” eram vistos. Havia uma atmosfera diferente no ar e a ansiedade de todos ali estava a mil. E cadê o Nirvana, porra? Não sei porque cargas d’água João Gordo entrou no palco para ler um pedido de desculpas de Krist Novoselic. “Quem quer saber?”, pensei, antes de ouvi-lo anunciar. “Com vocês, a maior banda underground de todos os tempos: NIRVANAAAA!”.

Um barulho ensurdecedor tomou conta do “Morumba” quando Dave Grohl, Krist Novoselic e Kurt Cobain surgiram em cena, evidenciando o óbvio: a diminuta formação da banda era pequena demais para aquele palco gigantesco. Imagine a sala da mansão de Chiquinho Scarpa contendo apenas uma estante (Novoselic) uma poltrona (Grohl) e uma TV de 14′ (Cobain). Agora não imagine mais nada porque toda essa impressão foi para o escambau de Madureira quando Kurt iniciou o show com o matador riff de “School”, minha predileta de Bleach, primeiro álbum dos caras. Um verdadeiro pandemônio se instalou no estádio e a visão das arquibancadas para a pista era estarrecedora: o “mar” de gente parecia estar de ressaca com todo mundo se espremendo na vã tentativa de se aproximar da grade.

No palco, algo fora do normal acontecia: Novoselic e Grohl a 120 km/h e Cobain a 60 km/h. Um desencontro para o qual ninguém ligou. Afinal de contas, o que veio a seguir passou por cima da audiência como um rolo compressor: “Drain You”, seguida da inacreditável linha de baixo de Novoselic em “Breed”, a espetacular bateria de Grohl em “In Bloom”, além de “Sliver” não deixaram pedra sobre pedra. A arrasa-quarteirão “Dive” (desconhecida até então) preparou o terreno para “Come as You Are” com o estádio inteiro cantando a letra em uníssono. Em “Lithium”, uma cena que jamais sairá de minha memória: durante o refrão, (aquele em que Cobain esgoela-se num “iêiêêiêêê” interminável) 20 mil pessoas na pista pulavam e giraram suas camisetas acima de suas cabeças, levantando uma nuvem de poeira que mais parecia uma tempestade noturna no Saara. Nas arquibancadas, outras 50 mil faziam o mesmo. A estrutura do estádio começou a balançar assustadoramente e as antigas torres de iluminação dançavam mais que bonecos de Olinda no carnaval pernambucano. “Essa porra vai cair!”, gritaram alguns (eu, incluso). Que momento! Daqui pra frente, será um “showzão da porra”, pensaram todos. Mas foi aí que o caldo começou a entornar.

Reza a lenda que horas antes da apresentação, Kurt encheu a cara no bar do Maksoud Plaza (hotel em que a banda estava hospedada) e se entupiu de comprimidos. Chegando ao estádio, alguém teria dito a ele que o festival era patrocinado por uma marca de cigarros (dã!) e que isso o teria deixado puto. Se é verdade ou não é difícil saber mas o fato é que a segunda metade do show foi uma autossabotagem explícita. Antes de iniciarem “Smells Like Teen Spirit”, chamaram ao palco Flea, baixista dos Chilli Peppers, para tocar trompete substituindo o solo de guitarra da canção. Porém, o resultado foi esquisito demais. “Smells…” ficou praticamente irreconhecível e o constrangimento de Flea era evidente diante da presepada.

Daí em diante, a coisa desandou de vez. A banda iniciou um festival de covers com versões que em quase nada se pareciam com as originais. Pior: Cobain (doidão de pedra) encasquetou que o trio deveria trocar instrumentos entre si. É isso mesmo o que você tá lendo: a estante virou TV de 14′ (Novoselic na guitarra), a poltrona virou estante (Grohl no baixo), a TV de 14′ virou poltrona (Cobain na bateria) e o que se viu dali por diante foi difícil de engolir. Foi um espetáculo de horrores! “Run To The Hills” (Iron Maiden), “Rio” (Duran Duran), “Should I Stay Or Should I Go” (Clash) e até “We Will Rock You” (Queen) foram tocadas com essa formação e o que se viu durante a execução das mesmas jamais esquecerei: a pista se esvaziou! Inacreditável foi presenciar milhares de pessoas dirigirindo-se aos portões de saída tais quais muçulmanos numa peregrinação à Meca. Nas arquibancadas não foi diferente (vi um fulano, sentado num canto, gritar “acaba, ‘pelamor’ de Deus!”) e a debandada foi geral.

Confesso que quase fui embora também mas não sei por qual motivo fiquei. Fiquei para presenciar a maior banda do mundo pisar no tomate. Fiquei para ver uma trinca “responsa” de canções finais: “Territorial Pissings”, “Heart Shaped-Box” (que jamais havia sido executada ao vivo) e a hecatombe nuclear chamada “Scentless Apprentice”. Fiquei pra ver Kurt Cobain destruir sua guitarra, descer do palco e distribuir os pedaços da coitada para poucos sortudos e corajosos que ainda permaneciam junto à grade. Fiquei, enfim, para ser testemunha ocular de uma tortura sonora que durou quase três horas regada a muito cansaço e letargia exacerbados. Uma experiência esquisita demais e que mesmo hoje, tanto tempo depois, ainda me faz procurar por respostas. O que foi aquilo?Teria sido aquela horror story um marco na carreira da banda? Teria Cobain agido como um moleque dono da bola que de repente diz “se eu não jogar, ninguém mais joga”? Estaria o Nirvana a um passo da dissolução bem ali, diante de 70 mil pessoas?

Saí do Morumbi naquela noite com a quase certeza de que a resposta viria depois de algum tempo, numa segunda vinda do Nirvana ao Brasil. “Farão um show num local fechado e será bem melhor”, pensei. Não deu. Quinze meses depois, Kurt estourava os próprios miolos em Seattle e o resto da história vocês já sabem.

Fiquei puto na época mas este sentimento não carrego mais. Trago comigo a certeza de que hoje, exato um quarto de século depois, presenciei um fato histórico. Uma banda no auge fazendo um show ruim. A maior banda do mundo promovendo uma ópera do horror.

Nirvana em São Paulo: há exatos 25 anos eu estava lá… e eu lembro muito bem.

Fabio Soares

Set List: “School”, “Drain You”, “Breed”, “Sliver”, “In Bloom”, “About a Girl”, “Dive”, “Come As You Are”, “Molly’s Lips”, “Lithium”, “(New Wave) Polly”, “D-7”, “Smells Like Teen Spirit”, “On a Plain’, “Negative Creep”, “Something In the Way”, “Blew”, “Run To The Hills”, “Heartbreaker”, “We Will Rock You”, “Seasons In The Sun”, “Kids In America”, “Should I Stay or Should I Go”, “867-5309/Jenny”, “Rio”, “Lounge Act”, “Territorial Pissings”, “Heart-Shaped Box” e “Scentless Apprentice”.

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