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Diários de Andy Warhol

Série da Netflix apresenta um ícone que anteviu o culto às celebridades de hoje e que brincava na tênue fronteira entre a arte e consumo

Texto por Tais Zago

Foto: Netflix/Divulgação

Essa série em seis episódios do canal de streaming Netflix é baseada no livro homônimo de 1989 da escritora Pat Hackett. Após ser baleado em 1968 por Valerie Solanas, Andy passou a “escrever” um diário. Escrever, no caso, entre aspas pois as confissões e impressões de Andy consistiam em telefonemas para Pat, que de forma remota – e muito eficiente – datilografou as memórias do artista que se estenderam por quase duas décadas, até sua morte. Somente após o falecimento de Andy, em virtude de uma operação de vesícula, em 22 de fevereiro de 1987, Pat resolveu publicar o livro.

Com produção executiva de Ryan Murphy e direção de Andrew Rossi, as impressões e sentimentos de Warhol recebem pela primeira vez uma biopic documental para o grande público. Cada episódio de Diários de Andy Warhol (EUA, 2022 – Netflix) aborda uma fase da vida do artista, começando em sua infância e seguindo por sua fase universitária, o encontro com a arte em Nova York, a Factory e o desenvolvimento do personagem Andy – com a peruca branca, os óculos e o constante ar blasé entediado, que muito definiu a sua presença na cultura pop norte-americana e mundial.

Sim, a própria presença de Andy era uma performance de sua arte. Assim como o simbolismo de suas obras como reflexo do capitalismo e do consumismo em todos seus aspectos. Warhol tornou celebridades populares em arte e a arte em tema popular. Difícil existir alguém que não tenha tido contato com algum de seus trabalhos. A forma quase viral, muito antes desse fenômeno receber uma pecha, como sempre trabalhou, ficou impressa no subconsciente coletivo das futuras gerações como a caixa do sabão Brillo, a lata da sopa Campbell’s ou as serigrafias de ícones como Elvis, Marilyn, Liz Taylor ou Jackie O.

Andy transformou arte em consumo, em produto. Aceitou inúmeras encomendas de retratos para a alta sociedade americana, lucrou muito ainda em vida. Foi onipresente em todas as mídias – de jornais e revistas, na cena musical,  em filmes e até na (M)TV. Ele tinha uma sede enorme pelo novo, pela vanguarda, pelos novos veículos de comunicação em massa que surgiam. Se hoje fosse vivo, certamente, teria contas em todas as redes sociais, desenvolveria seu próprio canal no YouTube e venderia sua arte em forma de tokens não fungíveis (NFTs). E ainda faria tudo isso antes que virasse moda. Warhol era visionário e também um grande provocador na nossa sociedade baseada no consumo volátil de ídolos que assim como aparecem logo somem no esquecimento.

No seu formato netflixiano, os tais diários de Andy são um bombardeio estético de todas as fases conhecidas do artista. É tudo lindo de se assistir, apresenta mais referências do que nosso cérebro é capaz de absorver e, ao mesmo tempo, nos entristece ao mostrar o universo íntimo de uma pessoa com muitas inseguranças e dúvidas e que tinha uma visão extremamente ácida da sociedade. Em suas confissões mais íntimas conhecemos um Warhol frágil, carente, solitário e torturado pelos seus medos, principalmente o medo da intimidade. Conhecemos um pouco sobre seus parceiros, os quais ele nunca assumiu publicamente apesar de jamais fazer segredo a respeito de sua homossexualidade.

A reserva também era a sua carapaça contra o boicote e o assédio homofóbico da época em que viveu. Ele era o homossexual “comportado” e praticamente assexuado, que não oferecia risco aos padrões da boa conduta da família tradicional americana. E ele sabia bem de tudo isso. Foi oportunista, sem dúvida alguma, mas também foi um sobrevivente de décadas muito difíceis em questões como a libertação e aceitação sexual. A sua sobrevivência foi uma das maiores obras de arte que Andy Warhol nos deixou. Agora temos o registro visual de seu diário para apreciarmos.

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