teatro

Salomé By Fausto Fawcett

Criador de Kátia Flávia se une a companhia teatral curitibana em uma provocativa experiência multicultural e multissensorial

salomebyfaustofawcett2018

Texto por Abonico R. Smith

Foto de iaskara

Apesar de todo o espectro ainda reminiscente dos anos de chumbo da ditadura militar que governava o país, quem viveu a infância e a adolescência a partir da segunda metade da década de 1970 pode ter uma ampla formação cultural que, mesmo sofrendo com todo o atraso de conexão com o eixo Europa-EUA e os poucos canais disponíveis para a troca e obtenção de informações. Imagine se isso, então, aconteceu em um dos maiores centros urbanos brasileiros, uma cidade efervescente de ideais, um caldeirão de linguagens culturais.

Fausto Fawcett não só é um produto deste tempo, como todo este fascínio por arte e informação veio a marcar o seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos 1980. Transitando entre a faculdade de Comunicação Social e as noites e madrugadas pelas ruas da Zona Sul carioca (em especial as do bairro de Copacabana, espécie de refúgio artístico que encontrou para basear as suas criações), desenvolveu um trabalho performático todo especial unindo uma verve particular de ritmo e poesia misturando várias linguagens absorvidas das artes (música, cinema, teatro) e da comunicação (sobretudo a oriunda das palavras faladas, da cultura do rádio, veículo com muita força durante, justamente, a sua criação no Rio de Janeiro).

Com seguidas apresentações impactantes no circuito local, Fausto transformou-se em um dos grandes nomes da cultura underground carioca graças as frenéticas narrações canto-faladas (sempre acompanhadas por uma banda tocando um punhado de temas funky e extremamente dançantes) ambientadas nas ruas de Copa. Suas protagonistas, mulheres endiabradas, loiraças lascivas e no mais completo domínio de toda e qualquer situação. As história, sempre inundadas de alto teor de ação, futurismo, sexo, violência e, sobretudo, referências sociais, políticas, econômicas, culturais e comportamentais da atualidade. A narrativa, com as palavras sendo cuspidas como rajadas de metralhadora, sem deixar qualquer tempo e possibilidade de reação para o ouvinte.

No final de 1987, a história de Kátia Flávia, a Godiva do Irajá, catapultou ao sucesso o primeiro disco de Fausto e sua banda, batizada Robôs Efêmeros. Foi apenas a porteira aberta para um estrondoso sucesso que rendeu ainda outros dois álbuns com mais hits (“Santa Clara Poltergeist”, “Básico Instinto”) e homenagens a musas da vida real (as atrizes brasileiras Silvia Pfeiffer e Regininha Poltergeist, a deputada-pornô italiana Cicciolina), livros (romances e contos) mais alguns roteiros de filmes e seriados conduzidos como as suas letras.

Em 2016, Fausto recebeu o convite da curitibana Companhia de Teatro do Urubu para escrever uma peça teatral. Escrever, não. Adaptar. A clássica tragédia Salomé, de Oscar Wilde. Claro que à sua maneira. Então, revisitou a clássica histórica bíblica da jovem que, para o desgosto do tetrarca Herodes e deleite de sua sua mãe Herodíade pede a cabeça de João Batista em uma bandeja de prata, como prêmio por ter feito a dança dos sete véus. Apimentou tudo com bombas verbais de volúpia intensa e ainda adicionou elementos de tecnologia cibernética (o personagem, por exemplo, ganhou o novo nome de João Aplicativo Batista), a guerra sem fim entre judeus e palestinos, a questão dos refugiados sírios e, lógico, pitadas e mais pitadas da lamentável situação política na qual chafurda o Brasil nestes últimos anos.

O texto utilizado no verso do cartaz promocional da montagem, batizada Salomé By Fausto Fawcett, afirma que a encenação da Cia do Urubu é uma bricolagem de linguagens teatrais que se configuram a partir da relação dos personagens com seus contextos, formando um caleidoscópio existencial do homem humano e suas lógicas. Então, os seis atores em cena (entre eles a diretora do espetáculo, Carolina Meinerz) constroem relações entre o individual e o coletivo  enquanto travam uma luta para sobreviver perante a um festival de ironias e barbáries transformado em megaexperiência sensorial para os espectadores. Texturas, cheiros, gostos, cores, sons, luzes, projeções, músicas/batidas, atitudes e atos sexuais se confundem como interferências benvinda ao jorro libidinoso do texto assinado por Fawcett.

Encenada pela primeira vez em outubro de 2016, temporada de um mês pela qual abocanhou sete dos dez prêmios no qual concorria no Gralha Azul (premiação anual destinada aos melhores da dramaturgia paranaense), Salomé By Fausto Fawcett voltou rapidamente a estar em cartaz por duas noites (28 e 29 de abril) na recém-finalizada edição 2018 do Festival de Teatro de Curitiba. O novo local, a garagem do Guairinha, combinou bem com o espírito steampunk da cenografia (baseada em estruturas de aço, latões, restos de bonecas, lâmpadas de neon) e figurino (muito preto em sapatos de couro e roupas justas, makesobrecarregado). Já o horário, próximo da meia-noite, também foi mais apropriado à temática e à narrativa underground.

O resultado não poderia ser outro. Ingressos esgotados antes da primeira sessão para mais duas efusivas apresentações de Carolina, Michelle Pucci, Anderson Caetano, Igor Kierke, Gustavo Gusmão e Muhammad Chab se dividindo em vários personagens (e ainda recebendo a plateia dançando freneticamente ao som das canções gravadas por Fawcett, no diminuto espaço cênico). Espectadores saindo atônitos depois de quase duas horas da performance-encenação-exocet da companhia. Prova de que, muitas vezes, o teatro pode ousar, expandir-se, surpreender e provocar bastante.

Mais de três décadas depois de Fausto Fawcett  provocar furor no underground cultural do Rio de Janeiro ele volta com tudo na capital paranaense com uma montagem grandiosa de um texto inédito – diga-se de passagem, precedida pelo relançamento de dois livros seus pelo selo curitibano Encrenca (em 2015). Em breve ainda chegará aos cinemas a história dramatizada de Kátia Flávia. Sua obra continua sendo atemporal e altamente explosiva.

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