Music

Sisters Of Mercy – ao vivo

Andrew Eldritch e sua banda vivem de um passado cada vez mais distante mas os fãs nem ligam para a ausência de qualquer novidade

sistersofmercy2019cwb01mb

Textos de Abonico Smith e Fábio Soares

Fotos: Abonico Smith

A discografia do Sisters Of Mercy é extremamente curta. Primeiro foram lançados dois EPs entre 1983 e 1984. Depois vieram três álbuns entre 1985 e 1990. Nos anos seguintes alguns singles e, enfim, duas coletâneas em 1992 e 1993. Depois mais nada. Neca de pitibiriba. O modelo de negócios do mercado da música mudou do vinil ao compact disc e depois à compressão digital do MP3 e nada de Andrew Eldritch se animar em compor algo novo.

Em 2016, um pouco antes da banda desembarcar pela primeira vez em Curitiba para uma apresentação, ele me disse por telefone que se sentia confortável com essa questão. Não havia planos de lançar material inédito. Três anos se passaram e o Sisters Of Mercy veio de novo à capital paranaense como uma das escalas de nova turnê pela América do Sul. E tudo continua da mesma maneira, com o repertório ao vivo passeando pelos dez anos fonográficos por uma hora e meia de show.

O que muda de tempos em tempos são os integrantes que o acompanham. Agora, na mesma Ópera de Arame, Eldritch trocou um dos guitarristas – o australiano Dylan Smith faz dobradinha com o veterano Ben Christo nas seis cordas. Um cara fica mais recuado comandando os computadores que detonam as bases pré-gravadas de baixo e bateria e lá atrás da plateia, junto ao operador das mesas de som e luz, um quinto músico incógnito se divide entre mais um computador e um teclado de cor laranja (?!?!) e de pendurar nos ombros que parece ter saído da uma típica banda tecnopop dos anos 1980.

Como já faz quase três décadas que Eldritch não faz a mínima questão de desovar material inédito do Sisters Of Mercy, todo o repertório é calcado em cima de velhos conhecidos do público. Não chegam a ser exatamente hits, mas para os fãs cada música que compõe o set list é um clássico. Recebido com urros, cantado em uníssono a plenos pulmões. A voz de Eldritch é bem grave. Não há backings, apenas o acompanhamento de todos os versos pela plateia. As guitarras de Ben e Dylan somente tecem camadas e mais camadas de riffs e harmonias que se somam ao peso dançante da cozinha que já vêm alto e direto dos computadores.

Com os músicos todos de preto e fazendo jogos coreográficos que aproveitavam-se da penumbra como o único elemento cênico, o som que o Sisters Of Mercy despejou na Ópera de Arame foi o convite perfeito para uma festa na antessala das trevas, com uma pista de dança exorcizando em passos lentos todas as suas angústias, melancolias e (por que não?) desejos ardentes e flamejantes.

O que, naquela noite em especial, tornou-se algo ainda mais curioso porque exatamente do lado da Ópera, na Pedreira Paulo Leminski, acontecia um evento cristão. Mais precisamente um concerto de canções de louvor e adoração sob o comando do grupo Hillsong United, formado há duas décadas pela união dos ministérios de uma gigantesca congregação carismática australiana chamada Hillsong. Enquanto a luz estava ali pertinho, Andrew Eldritch fazia nas sombras uma nova celebração gótica tão aguardada havia três anos. Para almas aflitas e torturadas não era preciso ter qualquer ineditismo. Vampiros, afinal, vivem por séculos e séculos e não fazem lá muita questão de novidades. (ARS)

***

sistersofmercy2019cwb02mb

O que esperar de um show do Sisters Of Mercy em 2019? Quanto a você, eu não sei. Mas para mim um mínimo de dignidade a este expoente do dark não seria de todo mal. E foi com este ceticismo que me dirigi ao Tom Brasil no último sábado (9 de novembro). A plateia “quarentona” – como era de se esperar – não lotou o espaço por completo. Também é inexato rotular os fãs do Mercy com a simples alcunha de “gótico”. São seguidores fiéis. Um exército vestido de preto que acompanhará a banda tantas vezes ela pisar por aqui.

Calcado na onipresente figura de seu decano Andrew Eldritch, o grupo retornou a São Paulo com uma econômica formação com o eterno escudeiro Ben Christo e o novo guitarrista Dylan Smith. Para os efeitos de baixo e bateria, esqueça a seminal aura da Doktor Avalanche, histórica drum machine imortalizada pela banda nos anos 1980. O Sisters Of Mercy versão 2019 conta com um par de iBooks operados por um anônimo quarto integrante e que nem de longe faz lembrar o peso da engenhoca sisteriana.

“More” abriu os trabalhos na noite paulistana e o etéreo clima de um show dos Mercy mostrou que permanece com o passar dos anos: muita fumaça, iluminação à contraluz e Eldrich fazendo seu peculiar jogo de gato e rato com a plateia. Surge no centro do palco e desaparece. Ressurge no lado direito para novamente sumir em meio à fumaça no lado esquerdo. A dupla de guitarristas também procura preencher o resto como dá. Porém a proposital falta de iluminação do palco que deveria evidenciar a voz do frontman ressalta o óbvio. Com 60 anos de idade recém-completados, Eldritch tem extrema dificuldade em sustentar os tons graves de voz que os clássicos da banda exigem. Dificuldade esta explicitada em “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, na maravilhosa (no disco!) “Dominion” e na quase constrangedora interpretação de “Marian”. O público pouco importou-se para tal e tratou de reverenciar a figura do pai do dark enquanto pôde. Porém, a falta de punch nas programações de baixo e bateria trouxe um ar taciturno a cada canção. Uma chatíssima execução instrumental beirando os sete minutos e de nome desconhecido marcou a reta final da primeira parte da apresentação.

Parafraseando Mauro César Pereira, comentarista dos canais ESPN, o bis teve um início pífio, pragmático e resultadista com “Lucretia My Reflection” sendo executada sem a sua histórica linha de baixo. É isso mesmo o que você está lendo. “Lucretia My Reflection” sem a sua indefectível linha de baixo é o mesmo que Buchecha sem Claudinho. E cá estava eu a xingar três gerações antepassadas da Família Eldritch quando o par de ases final salvou a apresentação de um naufrágio histórico. “Temple Of Love” e “This Corrosion” foram executadas como se deve: com peso, batidas marciais e atmosfera de catarse coletiva. Ao final de noventa minutos, houve quem saiu de alma lavada, houve quem achou mais ou menos e teve este aqui que vos escreve. No fim das contas, esta apresentação só serviu mesmo para eu dizer que, um dia, vi um show dos Sisters of Mercy. Nada mais, nada menos… (FS)

Set list (SP e Curitiba): “More”, “Ribbons”, “Crash And Burn”, “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, “No Time To Cry”, “Alice”, “Show Me”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Better Reptile”, “First And Last And Always”, (Unknown), “Something Fast”, “I Was Wrong”, “Flood II”. Bis: “Lucretia My Refletion”, “Vision Thing”, “Temple Of Love” e “This Corrosion”.

Music

Brujeria

Letras altamente politizadas, humor negro e zoações com Trump: oito motivos para não perder o show da banda em Curitiba

Brujeria2019

Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Divulgação

A banda Brujeria está em turnê pelo Brasil e vai se apresentar em Curitiba nesta sexta-feira de feriado (15 de novembro) no Jokers Pub (mais informações sobre o concerto estão aqui). Conhecido até por quem não costuma apreciar música extrema, o Brujeria – que está celebrando trinta anos de existência – tornou-se uma das mais conhecidas formações do grindcore mundial.

Para quem ainda não conhece, aqui vão oito motivos para não perder uma apresentação da banda, em especial a desta noite na capital passagem, onde o Brujeria toca pela segunda vez.

Humor negro

Tudo começou como uma piada, reunindo músicos amigos de várias bandas conhecidas como Napalm Death, Faith No More e Fear Factory. A brincadeira unia vocais guturais em espanhol (por conta de Juan Brujo, um dos poucos membros que restaram da formação original), instrumental brutal e letras que faziam referência a cultura mexicana subversiva, narcotráfico e até satanismo – além do mistério em torno das identidades dos músicos, que usam pseudônimos. Imagine agora tudo isso potencializado em seu álbum de estreia Matando Gueros, de 1993, que teve capa censurada em vários países por ter uma foto tirada de um jornal sensacionalista com a imagem de uma cabeça decepada em um suposto ritual (até hoje há controvérsia sobre a tal notícia, mas a cabeça se tornou um personagem apelidado de Coco Loco, que é referenciado em várias artes da banda). A intenção era chocar e ela foi cumprida. A fama da banda ganhou o mundo.

Virada sócio-política

A partir de 1995, com o lançamento do segundo álbum Raza Odiada, a banda adquiriu um tom mais denunciativo, partindo para uma pegada sociopolítica, abordando a partir de então seguintes questões sobre preconceito sofrido pelos latinos. Nisso sobrou para políticos americanos dos mais estúpidos, que não tinham a menor vergonha de latir suas ideias retrógadas. Exemplos? Pete Wilson, ex-governador da Califórnia, e o hoje presidente estadunidense Donald Trump.

Trolando Gueros 

Quando aparece alguém fazendo ou falando baboseiras dignas de receber o selo “inimigo dos mexicanos”, pode esperar que, mais cedo ou mais tarde, o Brujeria vai compor algo a respeito para zoar o sujeito. E esta vai ser com um senso de humor negro peculiar da banda. O ex-governador da Califórnia Pete Wilson ganhou duas músicas (“Raza Odiada” e “California Uber Aztlan”). Donald Trump, ainda quando estava em campanha para eleição presidencial, foi homenageado em “Viva Presidente Trump”. Neste ano, já em campanha extraoficial para a reeleição, voltou a ser fonte de inspiração para a banda na letra e na capa do single “Amaricon Czar”. Em tempo: no último álbum, Pocho Aztlan (2016), uma das imagens presentes é do vergonhoso muro mexicano erguido na fronteira entre os Estados Unidos e México, onde está pichado o sobrenome do republicano que hoje ocupa a Casa Branca.

Set list de clássicos

O cartaz da turnê brasileira informa que o show contará com os clássicos dos quatro álbuns. Se repetirem o mesmo repertório que já tocaram nas primeiras cidades da turnê brasileira, o público será contemplado com diversas faixas dos álbuns Raza Odiada e Brujerismo (2000), somadas a algumas poucas do trabalho de estreia (“Matando Gueros” e “Desperado”) e do mais recente Pocho Aztlan (“Satongo” e “No Aceptan Immitaciones”), além de músicas de duas músicas novas (“Amaricon Czar” e “Lord Nazi Ruso”). Só é uma pena que não haja espaço para muitas do último disco, talvez por ele não ter sido muito marcante na carreira do grupo. Mas ainda assim lá estão suas pérolas. Se o público pedir a plenos pulmões, quem sabe eles não tocam o hino “Mexico Campeon” (feito para a última Copa do Mundo) ou a releitura “California Uber Aztlan”?

Juan Brujo

Todos os integrantes têm outras bandas. Menos o vocalista, que integra o Brujeria com exclusividade. Vários músicos são americanos de origem hispânica. Mas Juan Brujo é mexicano de fato. Ele sempre se apresenta com o rosto coberto por um lenço com a bandeira do México, mantendo sua identidade em sigilo por décadas. Boa parte do universo do Brujeria é escrito por Brujo nas letras da banda. É uma figura icônica.

Choke

A noite de 15 de novembro no Jokers não se resume apenas ao show do Brujeria em Curitiba. A produção caprichou na escalação de bandas de abertura, trazendo ao palco um verdadeiro trio de ferro da música extrema de Curitiba. Isso inclui o Choke, que conta com vocais e letras do também escritor e filósofo Ottavio Lourenço (se você já esteve na Biblioteca Pública do Paraná e foi atendido por um bibliotecário que vinha trabalhar todo dia com uma camiseta do Brujeria, pode ter certeza que era ele). A banda teve início em 1998 e de lá para cá já fez nada menos do que quinze turnês levando seu metal crossover para países da América do Sul. A discografia conta com seis álbuns lançados, além de um split.

Jailor

Há quem diga que esta é a reserva moral do thrash metal de Curitiba. Aliás, um thrash devastador, diga-se de passagem. Assim como o Choke, também iniciou atividades em 1998, chegando em 2005 ao primeiro álbum Evil Corrupts. Dez anos depois, o grupo lançou o segundo, intitulado Stats Of Tragedy. Ambos possuem produções dignas das bandas do primeiro escalão do gênero no Brasil, com um cuidado precioso tanto nas músicas quanto nas gravações. O Jailor já abriu shows de grandes nomes do metal mundial, como Destruction, Exciter, Exodus, além de tantas outras estrangeiras e nacionais.

Necrotério

Provavelmente o maior representante do metal extremo paranaense. Sua temática é splattergore. No ano passado completou 25 anos, acumulando no currículo três álbuns, um DVD e duas turnês europeias (tendo tocado na Alemanha, Bélgica, França, República Tcheca, Croácia, Eslovênia, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Itália). Ainda nos primórdios, seu nome repercutiu pelo Brasil quando o grupo gravou um videoclipe comandado pelo diretor de filmes trash Peter Baiestorf.

Music

Scott Walker (1943 – 2019)

Quem foi o cara que misturou tristeza e posicionamento político em suas canções e foi influência suprema de David Bowie e o britpop

scottwalker

Texto por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop)

Foto: Reprodução

Certas notícias a gente torce para nunca escrever. A morte de Scott Walker, ocorrida no último dia 25 de março, por exemplo, é uma delas. Certamente quase um desconhecido por aqui, Scott era um desses artistas que expandiu as fronteiras da música popular no século 20. Em alguns momentos, sua carreira esteve em pé de igualdade com Beatles e Rolling Stones em termos de influência e até mesmo popularidade. Sua obra foi responsável por influenciar centenas de outras bandas e cantores e seu estilo de cantar e compor transformou para sempre o rock. Entre seus herdeiros musicais estão David Bowie, Jarvis Cocker, Marc Almond, Richard Hawley, Suede, Radiohead, Blur, Last Shadow Puppets e todo vocalista ou banda pop que resolveu subir num palco cantando as agruras da vida.

Sim, porque Scott se tornou notório a partir de uma combinação improvável de vocais operísticos/barítonos com capacidade de evocar referências literárias/artísticas que lhe permitiam cantar sobre a questão política da Primavera de Praga em pleno 1968, fazer referências a filmes cult como O Sétimo Selo, do diretor sueco Ingmar Bergman – muito antes desta ideia atual de cultsequer existir – e, ao mesmo tempo, forjar um padrão de pop orquestral e belo, versando sobre amor não correspondido, arrependimento, tristeza, solidão. Além disso, suas canções abriam espaço para suicidas, ressentidos, drogados, vagabundos noturnos. Scott Walker tinha a capacidade de colocar pra baixo o mais esfuziante ser e escrevo isso sem tom pejorativo.

Scott era americano, nascido Noel Scott Engel em 9 de janeiro de 1943. Saiu da improvável cidadezinha de Hamilton, Ohio, para fazer fama na Inglaterra, em meados dos anos 1960. Formou com John Maus e Gary Leeds o Walker Brothers. Claro, não eram irmãos, muito menos se chamavam Walker. Fizeram sucesso arrebatador na Inglaterra, especialmente com versões de clássicos como “Make It Easy On Yourself” e “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore”, canções belíssimas e tristíssimas. Seu registro vocal característico misturava influências operísticas e mesmo do teatro japonês – algo impensável para a época. Tal fato virou a cabeça de um iniciante David Jones, que se chamaria David Bowie em seguida, que deve sua marca vocal registra a Scott.

Com o fim dos Walker Brothers em 1968, Scott impôs-se como artista solo. Ele já vinha lançando sua série de álbuns homônimos/numerados, que culminou com Scott 4, em 1969. Deste período vêm pérolas próprias e de outros compositores, como “Montague Terrace (In Blue)”, “Jackie”, “The Girls From The Streets”, “Windows Of The World”, “It’s Raining Today”, “Copenhagen”, “The Seventh Seal” e até a inacreditável “Old Man’s Back Again (Dedicated To The Neo Stalinist Regime)”, que, como o título diz, fala sobre a política da URSS em relação ao mundo em 1969. A preferida pessoal deste que vos escreve, no entanto, é a lindíssima e cortante: “The Lights Of Cincinatti”, com os versos:

“And I can see them shining
Through the willows and the pines,
The lights of Cincinatti
Oh, so many miles behind,
I could build myself a new life
And make it on my own,
But the lights of Cincinnati
Will keep calling me back home.”

Escrever e gravar sobre estes temas, buscando expandir fronteiras musicais não são traços de um popstar, certo? Scott tornou-se um artista recluso, quase uma lenda. Seus álbuns posteriores à quadrilogia Scott são menos inspirados, ainda que tragam momentos impressionantes. Os anos 1970, no entanto, foi mais das crias estéticas de Scott do que dele mesmo. O grande acontecimento para ele foi o retorno dos Walker Brothers originais em 1978, a bordo do disco Nite Flights, que apenas marcou a reunião do trio inicial, enquanto o mundo estava ouvindo disco music e punk rock.

Scott ressurgiria por algumas vezes lançando discos. Em 1984, com Climate Of Hunter e, onze anos depois, com Tilt, trabalhos que já podem ser entendidos sob o ponto de vista “alternativo”, algo que Walker fez na maioria das vezes que lançou álbuns. Mais recentemente, viriam The Drift, em 2006; Bish Bosch, em 2012; e Soused, colaboração com o grupo americano Sunn O))), lançado em 2014. Walker permanecia oculto, nas sombras, local onde sempre pareceu sentir-se mais adequado e confortável. Seu último trabalho foi a trilha sonora do filme Vox Lux, estrelado por Natalie Portman, em cartaz no Brasil.

Não há mais espaço na música pop para gente como Scott Walker. Se um equivalente seu surgisse hoje, seria desencorajado a seguir carreira na música. Referências literárias? Desejos instrumentais e operísticos? Canções fora dos padrões? Poucas visitas em perfis de redes sociais? Scott é reflexo de um tempo em que havia possibilidade da arte menos popular impregnar outros campos – populares – gerando cultura e novas abordagens. Sem ele, a música pop seria incrivelmente mais pobre e mais óbvia. Que seu talento seja reconhecido por mais e mais pessoas.

Music

Érika Martins

Cantora fala sobre os diversos projetos, sua entrada nos Autoramas, a carreira solo, o passado na Penélope e o que ainda está por vir

erika martins

Entrevista por Fábio Soares

Fotos: Léo de Azevedo/Divulgação (Érika) e Divulgação (Autoramas)

Ela é um dos mais famosos rostos femininos do rock brasileiro e vive o melhor momento de sua longeva carreira de pouco mais de duas décadas, iniciada com a banda Penélope e seguida de período solo. Há quatro anos, integra (ao lado do marido Gabriel Thomaz, o baixista Jairo Fajer e o baterista Fábio Lima) o “conglomerado” Autoramas, a mais bem sucedida banda independente brasileira, que no próximo mês de maio viajará à Europa para a sua décima sexta turnê internacional. Não sem antes finalmente tocar no festival Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Ou depois subir ao palco Sunset, no próximo Rock In Rio, para ser uma das convidadas especiais dos Titãs.

Antes de uma apresentação na capital paulista, Érika Martins recebeu o MONDO BACANA em seu camarim para uma entrevista. Na pauta, a música como filosofia de vida, a objetificação da mulher no rock e projetos que estão por vir.

No início de sua carreira, nos anos 1990, você teve contato com dois grandes produtores que, infelizmente, não estão mais entre nós: Tom Capone e Carlos Eduardo Miranda. Atualmente, essa figura do superprodutor anda ausente no cenário por uma série de fatores. Na sua opinião, a presença de um grande nome assinando a direção artística de um trabalho ainda é preponderante ou a possibilidade de lançar um trabalho de forma independente não a torna tão necessária assim?

Acho que isso independe da época em que vivemos e que cada década teve o seu grande nome em produções musicais. Não que isso também seja algo primordial na gravação de um disco. No meu caso, tive a sorte e o privilégio de trabalhar com esses dois grandes nomes. Na época das gravações do primeiro disco da Penélope, Mi Casa, Su Casa, a Sony Music nos disponibilizou um grande orçamento para realizá-lo. Para se ter uma ideia, a verba nos possibilitou que o grande Eumir Deodato fizesse os arranjos de cordas do disco. Enfim, tínhamos infinitas possibilidades ao nosso alcance.

Como chegaram ao Tom Capone?

Por indicação do Marcio Melo, artista baiano que tinha, nos anos 1980, uma banda com a Lan Lanh, ex-percussionista de Cássia Eller, e com a Érika Nande, que foi nossa baixista na Penélope. Junto com ele, veio o Antoine Midani, filho do “messias” André Midani, que eu já admirava por seus trabalhos de arranjos de voz com a Marisa Monte.

Imaginei que você tivesse conhecido o Tom Capone através da Constança [Scofield, tecladista da Banda Penélope e viúva do produtor]…

Não! Aí é que vem a história que é sensacional: nosso primeiro encontro com o Tom foi no estúdio para a pré-produção do disco. Quando os dois trocaram olhares, eu já senti a faísca! Se apaixonaram! Assim, Mi Casa, Su Casa foi gravado em meio a uma bolha de amor maravilhosa!

Então você é testemunha de que amores à primeira vista realmente existem!

Sim! Presenciei! E a Constança sempre foi mais séria e cética… Quando a vi apaixonada daquele jeito perguntei a mim mesma: “o que tá acontecendo com minha amiga?” (risos)

E como você conheceu o Miranda?

Com o sucesso da repercussão do Mi Casa… fui convidada para gravar uma participação no disco Só No Forévis, dos Raimundos [Érika participou da faixa “A Mais Pedida”, grande sucesso do grupo e que foi amplamente executada nas rádios]. Recebi o convite em Salvador, sem ter a mínima ideia de como seria minha participação. Fui ao Rio, cheguei no estúdio para gravar e dou de cara com quem? O Miranda! Que já era ídolo de todos nós havia muito tempo. Pra você ter uma ideia, em 1995 saí de Salvador e vim a São Paulo distribuir algumas fitas-demo da Penélope e uma das pessoas que eu já tinha em mente para entregar era o Miranda. Ele foi muito receptivo e disse “pô, já estava esperando esse material faz tempo!”. Quase cinco anos depois estava eu ali, em estúdio com ele. Apesar de ter passado três meses com o Tom na gravação do Mi Casa…, eu era muito jovem e ainda muito verde em gravações. Mas aí veio o Miranda, com toda a paciência do mundo para me ensinar o caminho das pedras. Uma generosidade ímpar. Olhava para ele e pensava: “caramba, é o Miranda… que pressão e responsabilidade!”. Tudo correu bem e foi sensacional. Era um grande produtor.

Quais eram as diferenças mais evidentes entre os dois? Ou eles eram muito parecidos no modo de trabalhar?

O Tom era mais “mão cheia”. Tocava e timbrava os instrumentos como ninguém. Metia a mão na massa de verdade. Já o Miranda tinha o dom de saber extrair do artista o que ele tinha de melhor. Além de ser uma espécie de olheiro de primeira. Tinha uma capacidade surreal de descobrir novos artistas. Um curador de verdade.

Certa vez, vi o Miranda dizer numa entrevista que pesquisava novos artistas de uma maneira quase compulsiva.

Sabe o que era legal no Miranda? Ele ia aos shows! Cheguei a encontrá-lo uma vez num festival em Belém do Pará. Em outra, fiz um show solo em Porto Alegre e quem estava na plateia? O Miranda! Acho que isso está em falta atualmente. Hoje dificilmente você encontra produtores em shows algo que acrescentaria em muito no trabalho deles. Sacar o que está rolando sem beber exclusivamente da fonte da internet.

Já que tocamos no assunto, com pouco mais de vinte anos de carreira, você já pensou em produzir outros artistas? 

Agora faria sim. Antes não me sentia segura o suficiente mas neste momento adoraria pegar um trabalho do zero e colocar meu toque pessoal. Estou mais à vontade.

O que falta é tempo…

Nem me fale! Às vezes acordo e nem sei por onde começar. Tenho os Autoramas, minha carreira solo, Lafayette & Os Tremendões [projeto de Érika e Gabriel Thomaz para releituras de clássicos da Jovem Guarda com a participação de Lafayette Coelho, tecladista e grande nome do movimento], o Chuveiro In Concert [projeto de karaokê ao vivo com banda, realizado na maioria das vezes em eventos corporativos]… É muita coisa! Imagina ter que parar tudo isso pra assinar a produção de um disco! (risos) Depois ainda temos que ouvir que artista não trabalha.

Pegando o gancho dessas diversas atividades que você exerce, em seu pouquíssimo tempo livre ainda há disposição para descobrir novas bandas e artistas?

Sim! Sempre! Até porque recebo quase diariamente em minhas redes sociais muito material de novas bandas. Claro que não dá para ouvir tudo de uma vez mas sempre procuro fazer isso e dar o feedback depois. Nisso acabo descobrindo muita coisa boa e quer saber? Tenho preferência para ouvir o que ainda não está na mídia. É muito prazeroso ouvir artistas em início de carreira e dar força e atenção a eles é o mínimo que posso fazer. E, intimamente, agradecer ao universo por ter tido o privilégio de viver de música.

autoramas2018

Libido é o oitavo álbum dos Autoramas e foi muito bem recebido pela critica especializada, inclusive fora do país. A banda é praticamente uma unanimidade no cenário independente brasileiro. Uma prova disso, foi o recente lançamento da coletânea A 300 Km Por Hora, na qual 41 artistas estão reunidos para homenageá-los. No meio dessa louca rotina que levam, já caiu a ficha de que vocês são um expoente da cena e, por tabela, um exemplo a serem seguidos? Ou então relaxam com relação a isso para que tudo flua naturalmente?

Tenho uma visão mais destacada com relação a este assunto. Estou na banda há quatro anos e convivo com o Gabriel há mais de quinze. Quando a Penélope fez shows no Rio para lançar o Mi Casa…, a gravadora nos pediu uma indicação para banda de abertura e não pensei duas vezes: Autoramas, que eu já adorava desde aquela época. Quando eu casei com o Gabriel passei a “respirar” os Autoramas mais ainda. Mais até do que os próprios integrantes. Lembro de uma vez o Gabriel precisar de um cenário para um show e, como sempre gostei dessa parte de cenografia, eu mesma costurei o cenário. Fora isso, já compúnhamos juntos e eu participava dos discos e shows. Então, mesmo eu não fazendo parte da banda, tinha esta visão destacada do respeito que o público tinha pelos Autoramas e de que sua obra nunca teria um conteúdo raso. Via ao vivo e pensava: “é uma banda para a História, criativa, original, única e com tudo muito inspirado!”, Lembro-me de assistir a documentários de bandas que amo, como Ramones ou Cramps… Quando vejo os Autoramas hoje, logo penso que no futuro ela será lembrada como estes artistas. Exponencial. Por isso me sinto privilegiada. Por ter vivido os dois lados: de fã e integrante.

Sua carreira solo estava muito bem encaminhada e você ainda colhia os frutos do sucesso do álbum Modinhas quando foi integrada à banda. Houve algum momento de hesitação de sua parte em dar este hiato ou aceitou de imediato?

Não pensei duas vezes! Mas isso foi um processo mais que natural tendo em vista que eu já participava da banda de uma forma ou outra. E o convite veio num momento muito apropriado porque eu já havia divulgado muito bem o Modinhas na imprensa. Fiz shows nas principais capitais e no exterior, inclusive. Então, minha entrada nos Autoramas não gerou nenhum tipo de confronto de datas, por exemplo. Eu já estava numa fase de parar e pensar em um próximo projeto. Mas minha carreira solo não acabou não, hein? (risos) Há um novo projeto a caminho que só não está em andamento por conta da grande demanda de nossa agenda. Mas o que queria dizer é que estar nos Autoramas vai muito além da questão artística pura e simplesmente: tem a ver com vida. Tem a ver com o que escolhi para mim. Adoro viajar, conhecer gente, lugares novos, outras culturas e os Autoramas me propiciaram tudo isso. Além, é claro, o fato de poder viajar com o Gabriel, que é meu marido. Antes de meu ingresso na banda, viajávamos pouquíssimas vezes juntos. Era cada um para um lado. Mas, agora, não. Fazemos tudo juntos, viajamos o mundo juntos e tocamos numa banda sensacional. Realmente, me sinto privilegiada em viver tudo isso.

Tocarei num assunto polêmico agora: objetificação da mulher na música. Agora, em 2019, completam-se vinte anos de sua participação no álbum Só No Forévis, dos Raimundos. Uma dúvida paira no ar quando surge a questão se os Raimundos fariam o sucesso hoje em dia devido ao conteúdo de algumas de suas letras, tendo em vista que a questão do feminismo final e merecidamente está em voga nos dias de hoje. Gostaria de saber como você se sentia na época com relação a este assunto. Isso já te incomodava há vinte anos?

Sempre procurei ser um exemplo de ir contra esse tipo pensamento. No início da Penélope, uma de minhas maiores preocupações era justamente peitar essa coisa machista de que “para se fazer rock era necessário ter uma postura masculinizada”. Sempre fui contra isso! Com relação ao convite dos Raimundos, deixei bem claro que não colocaria minha voz ou emprestaria minha imagem ao clipe de uma faixa que tivesse palavrão, putaria ou algo pejorativo do tipo porque meu perfil não é esse. Tanto é que a temática de “A Mais Pedida” é totalmente outra. Sobre o conteúdo de algumas letras dos Raimundos que, por ventura, seriam muito mal vistas hoje em dia, sempre achei meio papo de “turma de fundão”, sabe? Mesmo não concordando, estava lá. Existia. O que sempre pensei com relação a qualquer coisa era: temos que ocupar os espaços! Se o espaço é machista, temos que ocupá-lo sendo a referência do contrário. Muitas meninas me procuravam na época e diziam odiar essa coisa do machismo no rock e viam, na minha figura, alguém que dizia o discurso que elas queriam ouvir. Mas olha só: eu fui projetada pelos Raimundos! O disco da Penélope estava engavetado, na geladeira. Só foi lançado porque “A Mais Pedida” foi o sucesso que foi. Os Raimundos foram a ponte para que eu chegasse a algum lugar. E chegar a esse lugar sendo um exemplo do que é legal. Ser mulher e ter atitude! É preciso ocupar e preencher os espaços. Na divulgação do Mi Casa… fomos convidados para o Faustão e choveram críticas do tipo “que queimação de filme!”. Nem ligamos para isso. Tínhamos de aparecer e levar nosso discurso ao maior número possível de pessoas e levo esse pensamento até hoje. Não concorda com o conteúdo de programa X ou emissora Y? Vá lá e mostre o contrário. Mostre a esse público que só consome X ou Y que há um mundo de outras possibilidades. E se conseguir a fazer com que alguém absorva sua mensagem e se interesse pelo seu trabalho, já terá valido a pena.

Você já tocou em duas edições do Rock In Rio. Neste ano, o Lollapalooza, em sua oitava edição, finalmente convidou os Autoramas para o line up. No festival dos sonhos da Érika, quem tocaria no mesmo dia dos Autoramas?

Cara, tanta banda! Os B-52s, com certeza! Encontramos a Cindy Wilson no ano passado no Festival South by Southwest e foi um sonho! O Cramps também estaria. Dos nacionais, sem dúvida, a Gang 90 com a formação original, com as Absurdettes, seria lindo! Adoraria ter conhecido o Júlio Barroso. Acho que tá bom, né?

Está ótimo! Vocês sempre tiveram uma relação de muito afeto com a Jovem Guarda. Além do Lafayette, vocês recentemente tiveram contato com o Silvio Brito. Elocubração do entrevistador aqui: uma parceria entre Autoramas e Erasmo Carlos. Já pensaram em algo a respeito?

Ele é maravilhoso! Superaberto! Recentemente assistimos à sua biografia no cinema. Ficamos muito emocionados. Mandamos uma mensagem e ele respondeu “muito obrigado, meu casal lindo!”. Sempre foi muito carinhoso conosco e sempre fomos apaixonados por ele. Fazer algo juntos seria mágico! Sempre tivemos muito respeito com o pessoal da Jovem Guarda. A Wanderléa participou do segundo álbum da Penélope (Buganvília, na faixa “Não Vou Ser Má”). Com relação ao Silvio Brito, já temos um projeto em andamento e com o qual estamos ensaiando. Muito respeito por essa turma mais antiga e que nos ensinou e continua nos ensinando demais. Amo escutar as histórias. Certa vez, o Lafayette e o Jerry Adriani ficaram horas contando histórias e ficamos ali, assistindo a isso de boca aberta.

Em maio, os Autoramas embarcarão para mais uma turnê europeia. Quando retornarem, a divulgação de Libido prosseguirá ou vocês darão mais atenção a estes novos projetos?

Libido seguirá a todo vapor, até porque foi lançado há pouquíssimo tempo. Estou louca para que saia logo o clipe de “No Futuro”, minha faixa favorita do álbum.

Creio que seja a favorita de todo mundo!

Pois é! (risos) Estou sonhando com esse clipe mas, como não paramos nunca, um milhão de coisas acontecerão paralelamente. Lançarei o áudio do especial que fiz para o Canal Brasil. Já o Gabriel lançará o disco de seu projeto instrumental, o Gabriel Thomaz Trio. Enfim, não pararemos.

E qual é o limite dos Autoramas?

Não há limite! Trezentos quilômetros por hora são pouco… (risos) Bota trezentos quilômetros por hora nisso!

Movies

Chorar de Rir

Fugindo das triviais comédias que dominam o cinema nacional, Leandro Hassum aborda a difícil arte de fazer rir em tempos sombrios

chorarderir2019

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

É preciso muito esforço para chorar de rir depois de uma série de eventos trágicos, como o massacre em Christchurch (Nova Zelândia) e o atentado em Suzano (grande São Paulo). Na mídia, as notícias ruins estavam lá, nos sugando para um mundo onde o drama parece despontar como gênero dominante. Mas eis que surge o contraponto da comédia e o poder do cinema em nos transportar para uma realidade paralela a esse sofrimento todo.

Chorar de Rir (Brasil, 2019 – Warner), filme estrelado pelo humorista Leandro Hassum e que estreia nesta quinta-feira em todo o país, é mais que uma simples comédia com intuito puramente comercial. A história nos convida a refletir sobre vários aspectos: a difícil arte de fazer rir em tempos sombrios, como o gênero da comédia é tratado com inferioridade (“levar a comédia a sério”) e a dicotomia entre televisão-teatro.

As comédias vêm dominando produções cinematográficas nacionais com grandes bilheterias e Hassum se beneficia disso emendando um trabalho após o outro. Recentemente, estrelou as continuações O Candidato Honesto 2 e Até Que a Morte Nos Separe 3 e, numa entrevista, disse que “faz comédia para o povo poder rir”.

E a proposta de Chorar de Rir vai além de mandar um punhado de boas piadas para estimular a endorfina em nosso cérebro. O diretor Toniko Melo (o mesmo de VIPs, com Wagner Moura) pretende fazer uma homenagem ao gênero e, para isso, conta com a ajuda de um roteiro cheio de indiretas assinado por nada mais nada menos que José Roberto Torero (roteirista de Pelé Eterno e Pequeno Dicionário Amoroso, jornalista, colunista esportivo e escritor premiado com o Jabuti).

A narrativa faz uso de metalinguagem (ator que interpreta ator) e o papel de Hassum é explicitamente autobiográfico, como na piada citada pelo personagem dele. “Todo gordinho é mais engraçado. Como eu, magro, fui ser comediante?”. Aliás, o ator parece ter ficado mais simpático e cômico após ter feito a cirurgia bariátrica.

Hassum desencarna o candidato honesto João Ernesto e se transforma em Nilo Perequê (palavra que significa barulho, discussão). Nilo é o humorista mais famoso do país que estrela um programa de televisão de grande audiência e acumula uma legião de fãs nas redes sociais. Ele parece ter tudo: dinheiro, fama, sucesso. Mas aparentemente não está feliz. Ao ouvir um comentário negativo nos bastidores de uma premiação, menosprezando o ator de comédia, ele se vê diante de um dilema existencial: ser ou não ser um comediante?

O protagonista embarca num momento a la Cartola (“preciso me encontrar”) e decide, então, se reinventar. Muda radicalmente a carreira, buscando um sentido na vida. Lembra-se do tempo em que encenou Hamlet, a grande tragédia de Shakespeare, durante a escola de formação de atores com seu primeiro amor, Bárbara (Monique Alfradique, numa atuação mediana e que deixa explícito em algumas cenas que se segura para não rir diante de Hassum). Perequê, então, abre caminho para seu rival Jotapê Santana (Rafael Portugal) e procura Tulio Ferro (Felipe Rocha) para montar a peça. Tulio é um diretor de teatro que não dirige carros.

Chorar de Rir ainda conta com participações de Otávio Muller (cunhado e empresário de Nilo), Natália Lage (irmã de Nilo), Fulvio Stefanini, Caíto Mainier (Choque de Cultura), Sérgio Mallandro e até mesmo Sidney Magal, que volta a trabalhar como ator de cinema agora fazendo um mago cujo bordão é “Quero vê-la sorrir” (a frase inicial que alavanca o famoso e irresistível refrão do hit “Sandra Rosa Madalena”).

A narrativa se mantém dinâmica e atinge o ápice quando Nilo encena Hamlet. Até que a história atinge seu turning point e passa a ficar um tanto monótona rumo ao desfecho. A trilha sonora também é usada para marcar esse momento de virada: se antes a “Despacito” instrumental é animada, depois ela fica melancólica.

No final, Chorar de Rir consegue transmitir a ideia contida no trocadilho do título e na música de Cartola (“rir pra não chorar”) – que, por sinal, não aparece na trilha sonora – e transmite mensagens positivas: nós, como senhores do nosso destino, podemos escolher entre rir e chorar; e como a comédia (em seu sentido aristotélico) se faz importantíssima ao usar a sátira no combate à hipocrisia.