Movies

The Old Guard

Charlize Theron encabeça a diversidade na formação de uma equipe de heróis em filme certeiro de ação e com bom potencial de franquia

Texto por Flávio Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Netflix/Divulgação

Não tem como assistir a The Old Guard (EUA, 2020 – Netflix) e não pensar em um filme da Marvel. Por outro lado, não tem como comparar a obra com um filme da Marvel. Sim, é isso mesmo. A ação envolta em superpoderes remete imediatamente a um dos filmes de herói da franquia. Mas, ao mesmo tempo, o filme não poderia ser mais distante de qualquer longa do MCU.

A adaptação da HQ de Greg Rucka que estreou na Netflix em julho tem coragem de fazer algo que a casa do Homem de Ferro nunca teve: colocar à frente da batalha como protagonistas duas mulheres (uma delas, negra) e um casal de homens gays. Se em mais de vinte anos de MCU isso nunca aconteceu, The Old Guard vem para reparar um erro. Além de, claro, dar mais profundidade a seus cinco personagens principais que a de todos os heróis da Marvel juntos.

Na história, Charlize Theron lidera um grupo de “supersoldados” que são imortais. Ao longo dos séculos, eles vêm travando batalhas para salvar povos e (dizem!) a humanidade. Quando uma nova supersoldado aparece, eles terão de se unir contra uma megacorporação que quer replicar seu DNA.

O roteiro não é dos mais complicados e, ainda assim, é bem acima da média dos filmes de ação em geral: diverte sem emburrecer e é inteligente sem filosofar demais. Uma coisa entre Velozes e Furiosos (que não requer cérebro pra ser assistido) e Interestelar (que você não entende completamente mesmo após ver pela décima oitava vez).

The Old Guard consegue ainda algo que parece impensável no cinema: agradar a todos os públicos. Desde o cara hétero fã de pancadaria (e que ovula ao ver duas mulheres lutando), até a mulher que consegue se ver representada como heroína, passando pelos gays, negros e até mesmo o povo mais metido a cult.

O elenco é de primeira. Além de Theron (vencedora do Oscar por Monstro e indicada outras duas vezes, por Terra Fria e neste ano por O Escândalo), tem Chiwetel Ejiofor (indicado ao mesmo prêmio por 12 Anos de Escravidão), Kiki Layne (de Se a Rua Beale Falasse) e Marwan Kenzari (o Jafar da versão live action de Aladdin). Não bastasse este time, The Old Guard consegue entregar ainda uma das declarações de amor mais lindas dos últimos tempos.

Ação na medida certa, elenco certeiro, bons personagens (é fácil imaginar spin-off de qualquer um deles), potencial de franquia, boa história… The Old Guard é um dos filmes mais bacanas do ano, principalmente em um ano tão estranho no cinema como estamos vivendo. Aliás, já que Mulan acabou indo diretamente para streaming, fica a pergunta: quando será que veremos Mulher-Maravilha 1984 Viúva Negra?

Movies

Wasp Network: Rede de Espiões

Elenco de consagrados atores latinos está em trama que aborda as redes de espionagem contra Fidel Castro depois da dissolução da União Soviética

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação 

Após a queda da União Soviética, no final dos anos 1980, muito especulou-se sobre o que aconteceria com Cuba. As redes anticastristas se fortaleceram em Miami, chamando atenção de Havana com seus salvamentos de balsas e atentados terroristas. É justamente neste contexto que Wasp Network: Rede de Espiões (Wasp Network, França/Brasil/Espanha/Bélgica, 2020 – Netflix) acontece. Dirigido e escrito por Olivier Assayas, baseado em um livro do brasileiro Fernando Morais e com elenco talentoso, o filme abocanha mais do que consegue digerir em uma trama de espionagem fora do convencional.

A trama começa com René González (Édgar Ramírez) fugindo de Cuba e refugiando-se em Miami. No processo, ele deixa a esposa (Penélope Cruz) e a filha para trás. Em solo americano, junta-se a um grupo antirrevolucionário. Ainda no primeiro ato, o filme mostra Juan Pablo Roque (Wagner Moura) desertando do exército cubano e pedindo asilo nos EUA. Roque também tornaria-se envolvido com grupos contrários ao governo de Fidel Castro.

Assayas tenta cobrir muita coisa em duas horas de filme. São fatos, reviravoltas, burocracias – o que resulta em uma trama truncada e por vezes cansativa. A premissa é interessante, mas abrangente demais. O personagem de Gael García Bernal, por exemplo, é de extrema importância para entender o que de fato é a “Rede Vespa”, mas aparece apenas no segundo ato para conservar um tipo de plot twist, fórmula que, se não tivesse sido usada, teria favorecido a fluidez da história. 

Em mais um trabalho internacional, Wagner Moura entrega uma ótima performance. Seu personagem torna-se um dos mais interessantes e é uma pena quando ele simplesmente some de cena. Penélope Cruz também faz um belo trabalho como Olga, mulher cubana fiel à revolução e protetora de seus filhos.

O roteiro é o maior problema aqui. Ambicioso, tenta manter segredos por tempo demais, prejudicando o andar do enredo. A transição entre o primeiro e o segundo ato, feita com narração, é prova de que perdeu-se muito tempo com coisas menos importantes. Entretanto, o filme acerta ao optar pela espionagem da maneira menos óbvia ao contrário de outros longas hollywoodianos. Nesse caso, os espiões estão em cena, sem o espectador saber e (fazendo jus à verdade) não portam bugigangas hipertecnológicas como um 007.

Ao contrário do que sugere nos primeiros minutos, o longa não é uma crítica ao regime castrista, mas isso também não é um elogio. Em Wasp Network: Rede de Espiões é apresentada ao público a realidade difícil da vida em Cuba, mas também que uma das razões para isso é o embargo econômico americano. São mostradas pessoas fugindo do país em busca de uma vida melhor, mas também pessoas dispostas a dar a vida pelo ideal revolucionário. Esta nova empreitada do francês Assayas tenta ser grande, mas com tanto terreno para cobrir não consegue alcançar tal feito. Entre idas e vindas no tempo, pontas soltas e pequenas confusões, o filme se escora nas boas atuações e na história, que por si só já é interessante.

Music

Taylor Swift

Concebido durante a reclusão da pandemia, folklore traz reflexões, sonoridade minimalista e a maturidade tão esperada em um álbum

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Divulgação

Em 2012, Taylor Swift dava, até então, seu maior passo dentro da música pop. O single “We Are Ever Getting Back Together” foi uma mudança de tom para a artista conhecida por um trabalho com pés mais no solo country. Dois anos depois, com a faixa “Shake it Off”, a cantora consolidou-se como popstar.

Em 2020, em meio à pandemia do novo coronavírus, Swift usou o tempo livre para compor. Segundo ela, isso não estava em seu planos já que acabara de lançar um álbum em 2019, mas o isolamento social também não foi planejado. Desta maneira, de repente, sem aviso, nasceu folklore (Republic/Universal), seu oitavo álbum de estúdio, grafado assim mesmo, com todas as letras minúsculas, tal qual os nomes de todas as suas músicas. O disco mais minimalista, mas ao mesmo tempo grandioso. Um álbum que se distancia da segurança da sonoridade pop e respira novos ares.

Produzido e composto em parceria com Jack Antonoff e Aaron Dessner (integrante do National, conceituada banda alternativa americana), o disco é uma mistura de folk, indie e pop. A produção é boa, muito marcada pela presença do piano, mas quem rouba o show são as composições. Taylor é uma boa compositora, isso nunca foi a dúvida, mas havia anos que se esperava que ela fizesse um disco em que as letras fossem as maiores estrelas. Sem grandes produções sonoras, algo mais cru.

O “hey kids spelling is fun” do último álbum ficou para trás, dando lugar a reflexões, personagens e metáforas. Muitas histórias são contadas em folklore com diferentes pontos de vista: um adolescente arrependido, uma garota apaixonada, amantes proibidos. Muita coisa mudou no processo de produção desse álbum, mas algo permaneceu o mesmo: a habilidade de contar histórias, algo que Swift domina tão bem.

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Três músicas de folklore narram o desenrolar de um triângulo amoroso teenager. “cardigan” inicia a história sob a visão da personagem Betty, em um arranjo melancólico com influência de Lana Del Rey. “Tried to change the ending/ Peter losing Wendy” diz a letra, evocando a inocência da adolescência. “august” continua a história, pelo ponto de vista da outra garota. O enredo termina com “betty”, o pedido de desculpas de James, o tal garoto arrependido. Nesta, que é uma das faixas de destaque do álbum, Swift assume um lugar nem um pouco comum para suas composições e consegue criar um doce, bom e belo storytelling.

Este é um trabalho denso e extenso – são 17 músicas ao todo, se contar a edição deluxe. A perda de ritmo com tantas faixas é inevitável. “mirrorball”, “epiphany” e “hoax” distanciam-se do conjunto por conta de seus instrumentais. Porém, as composições são bonitas e acrescentam muito ao álbum, principalmente “epiphany”, inspirada pelo avô de Swift, que foi soldado, e com referências à atual situação mundial (“Holds your hand through plastic now, doc/ I think she’s crashing out”).

Nascido da reclusão, o novo disco é o mais sincero e maduro que Taylor já produziu.  Imogen Heap, com quem Swift já colaborara no álbum 1989, e Joni Mitchelll são referências que podem ser percebidas o tempo todo no decorrer das músicas. A busca por inspiração em musas que souberam detalhar sentimentos tão bem reflete-se em faixas como “my tears ricochet”. “seven”, um dos mais belos momentos de folklore, é um conto sobre a amizade entre duas crianças, uma delas vivendo em um lar abusivo. Novamente a caneta de Taylor, juntamente com Dessner, fez um lindo trabalho. A infância, um estado puro de inocência, serviu de palco para um amor igualmente puro, mas que na época não conseguia entender os medos do amigo (“And I’ve been meaning to tell you I think your house is haunted/ Your dad is always mad”).

folklore nasceu por acaso do destino e é uma grata surpresa de 2020. Taylor Swift não precisava provar que era uma boa compositora, mas conseguiu atingir novos patamares ao se distanciar das megaproduções pop. A maturidade dos 30 anos lhe caiu bem. Aquele álbum que todos esperavam que ela lançasse finalmente veio.