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Clipe: Jards Macalé – Trevas

Artista: Jards Macalé

Música: Trevas

Álbum: Título a ser anunciado (2019)

Por que assistir: Entre 1915 e 1962, o norte-americano Ezra Pound escreveu a maior parte de seus Cantos, um poema inacabado em 116 seções e com inspiração plena na poesia épica da antiguidade, aos moldes de Homero (a quem se atribui a autoria de Ilíada e Odisseia). Muitos teóricos consideram esta obra como o mias importante livro de poesia moderna não só dos Estados Unidos como também do mundo ocidental. Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos assinaram em 1960 a versão para o português dos poemas desta obra. Nove anos mais tarde, durante os anos de chumbo da ditadura militar brasileira, Jards Macalé compôs letra e música de “Trevas”, fazendo uma livre adaptação da tradução dos concretistas para o Canto 1 mas acabou não gravando a composição, que acabou se perdendo com o tempo. Uma pesquisa feita em 2016 pelo jornalista Marcelo Froes, que toca a editora literária Sonora e o selo fonográfico Discobertas (dedicado à reedição fonográfica de pérolas esquecidas da música brasileira), revelou a existência da canção, que logo acabou reaproveitada pelo seu autor, que agora, no mês fevereiro, está prestes a encerrar um intervalo de vinte anos sem lançar um álbum de inéditas. Sob a batuta dos músicos e produtores paulistas Kiko Dinucci e Thomas Harres – que também participam da banda de apoio do disco – o velho “Maldito”, aos 75 anos de idade e recuperado após passar um período de dez dias em estado de coma no início de 2018 – mostra estar plenamente conectado com a renovação da MPB, contando com novos parceiros (tanto na composição quanto na gravação) como Ava Rocha, Tim Bernardes, Romulo Froes, Rodrigo Campos, Clima, Harres e Dinucci. E pelo que mostra em “Trevas”, Macalé vai muito bem, obrigado. A música virou uma deliciosa mistura torta de samba e rock, com claras referências à bossa nova no refrão mais ruídos e dissonâncias que flertam com a no wave nova-iorquina. De quebra, há elementos como um solo de guitarra e uma bacia com água, que serviu para que o cantor mergulhasse a cabeça nela e entoasse os versos encaixados no final do arranjo. Já o clipe, dirigido pelo cineasta Gregório Gananian e o poeta e designer Gabriel Kenhart traz uma perturbadora coreografia de Jards entre lasers e a iconógrafa de vários artistas criativamente inquietos – entre eles Oswald de Andrade, James Joyce e Hélio Oiticica. Ah, sim: versos como “Chegamos ao limite da água mais funda/ Levanto o olhar pro céu” e “Trevas, trevas/ Treva a mais negra sobre homens tristes/ Me calo” caem como uma luva para o que pode vir a acontecer nos próximos anos neste país. Mas atente para o detalhe de que, apesar desta faixa ter sido lançada agora em janeiro, a gravação deste novo álbum foi toda realizada em agosto do ano passado. Portanto, antes mesmo do início da campanha eleitoral para os cargos de presidente, senador, governador e deputados federais e estaduais. Zeitgeist?

Texto por Abonico R. Smith

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