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Rocketman

Musical surrealista aborda os intensos conflitos por trás da persona que tornou-se astro do rock sob o nome de Elton John

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

O nicho das cinebiografias sofreu um baque recentemente, pro bem ou pro mal, com Bohemian Rhapsody. Dexter Fletcher, o diretor chamado para apagar o incêndio de Bryan Singer no “filme do Queen”, também é responsável pela realização de Rocketman (Reino Unido/EUA, 2019 – Paramount), a ficção em torno da história do cantor e compositor Elton John. Talvez por isso os filmes compartilhem muitas similaridades.

A estrutura narrativa é, de certa forma, muito parecida. Elton conta sua história para um grupo de reabilitação, rememorando situações boas e ruins de sua trajetória. A infância difícil, o estrelato meteórico e o abuso de drogas e sexo são grandes temas da trama, todos tratados com maior densidade do que em Bohemian Rhapsody. Ainda assim, as comparações desta resenha não passam daqui – Rocketman é uma obra completamente independente de Bohemian Rhapsody e deve ser tratada como tal.

O surrealismo com o qual Fletcher trata a construção de camadas do filme é uma surpresa ótima. Artista e plateia flutuando; extensas e bem coreografadas cenas musicais; devaneios em tela, quase como alucinações. Estes são meros exemplos, dos quais o mais divertido é, por sua metalinguagem, Elton John transformando-se num foguete. Desta forma, o longa se propõe a adentrar a história do astro tornando clara sua capacidade ficcional – a inspiração na vida dele não faz deste um filme puramente factual. Assim, o roteiro de Lee Hall tem maior abertura para seu dinamismo. Hall trafega por diversos momentos da história de Elton, explorando principalmente a relação entre astro e mero humano (Reginald Dwight, seu eu anterior à fama), com fluidez. Ainda assim, o filme parece por vezes ter pressa em alcançar seu ponto de maior conflito, o fundo do poço do artista, ainda que funcione.

O principal vetor, no entanto, que conecta os episódios temporais do longa com eficiência é seu elenco, com atuações de tirar o chapéu. Matthew Illesley e Kit Connor interpretam Reggie em sua infância e pré-adolescência, ambos satisfazendo o personagem, mesmo com pouco tempo em tela. Resta a Taron Egerton transmitir os traços mais desafiadores de Reginald/Elton. E ele o faz com maestria. Sua ótima atuação torna-se ainda melhor quando contracena com Jamie Bell (que interpreta brilhantemente o parceiro letrista Bernie Taupin injetando camadas de maneira muito verossímil) ou com Richard Madden (que performa o subaproveitado empresário/namorado John Reid, extraindo do personagem um vilão satisfatório). Bryce Dallas Howard e Gemma Jones, o núcleo familiar do filme (fazem a mãe e avó de Reggie, respectivamente), também entregam majestosamente suas personagens.

Porém, por conta da já mencionada inquietação do roteiro, o longa-metragem é musical demais e, evitando comparações, torna-se cansativo ao apresentar montagens “inventivas” somente para avançar a trama temporalmente. Ou seja, existem poucos momentos de diálogos entre uma peça musical e outra – todas as montagens citadas são mescladas nelas. Claro, a música é de Elton John, o que torna o ritmo repetitivo menos entediante.

Rocketman insiste em apresentar o lado humano de Elton John (ou o Reginald Dwight por trás da persona criada pelo astro), transparecendo todas as facetas do personagem em suas duas horas de duração. Seu protagonista borra a linha cinza entre o certo e o errado, fato que o filme entrega sem moralismo algum. Dessa forma, a excelente trilha sonora embala a apressada história, que por sua vez se sustenta pela majestosa atuação de todo seu elenco, acompanhada de uma boa dose de surrealismo, para desprender o filme de seu inspirador. Ficção é ficção. A “história como de fato aconteceu” não protagoniza nem documentários, quem dirá este Rocketman.

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Cemitério Maldito

Trinta anos depois, obra do cultuado escritor Stephen King volta a ganhar adaptação para as telas do cinema

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

A obra literária de Stephen King, para o bem ou para o mal, rende diversas adaptações na indústria do cinema. Tradicionais como À Espera de Um Milagre e Um Sonho de Liberdade se unem a eternos ícones do cinema de horror, como O Iluminado; Carrie, A Estranha e Pet Sematary. Este, no entanto, é o mais novo filme a figurar a lista de adaptações relançadas nos últimos anos – fenômeno crescente, em especial, nesta década. Utilizando o mesmo método com o qual resenhei para o Mondo Bacana a versão de Suspiria feita pelo diretor Luca Guadagnino, não tecerei comparações entre o filme de Kevin Kölsch e Dennis Widmeyer e o original de Mary Lambert, lançado 30 anos atrás.

Em Cemitério Maldito (Pat Sematary, EUA, 2019 – Paramount), Louis (Jason Clarke), Rachel (Amy Siemetz) e seus filhos se mudam para uma pacata cidade, buscando sossego da correria metropolitana em uma casa de campo com terreno gigante. É claro que o plano não sai como esperado, com o advento da morte do gato da família, Church, trazido de volta dos mortos com o auxílio do misterioso vizinho da família, Jud, interpretado por John Lithgow. Embora uma história promissora, o roteiro de Matt Greenberg e Jeff Buhler, que assinou Maligno (2019), empaca o desenvolvimento com seu ritmo moroso. Demoramos a sentir que o filme se desenvolve, gastando tempo demais com a adaptação da família à casa.

Além disso, grande parte dos primeiros atos fica na criação de subtramas sem conclusão, como a intrigante relação entre Louis e o seu falecido paciente Pascow (Obssa Ahmed), alertando o perigo que ronda o protagonista e sua família ao longo do filme. O pior gasto de tempo, no entanto, é a relação de Rachel com sua irmã, Zelda (Alyssa Brooke Levine). Ainda que o trauma resulte em uma forte característica da personagem, não merece todo o furor alucinógeno com o qual a dupla de diretores trata a história – uma desculpa para gore jumpscares.

Os jumpscares do filme, inclusive, são completamente ineficientes.  Sua previsibilidade os torna artificiais demais, além de serem estragados pelo exagero na intensidade do som. O sound design de Cemitério Maldito é convencional, mas deixa muito a desejar. Da mesma forma, a música não adiciona quaisquer camadas.

Ainda sobre a convencionalidade do longa, a dupla de diretores opera de forma eficiente, entendendo bem o gênero no qual se inserem sem mergulhar nos clichês. Eles existem, em escala maior que o esperado, mas não tomam conta da trama. No entanto, a direção não cria quaisquer marcas de estilo.

Além disso, a atuação dos protagonistas é funcional. O maior problema, no entanto, é Jeté Laurence, que interpreta Ellie de maneira extremamente superficial em seus dois “estados de espírito” ao longo da trama. No fim, o terceiro ato de Cemitério Maldito contrasta os predecessores vagarosos e é extremamente apressado, sem amarrar quaisquer nós que não sua história principal.

Desta forma, a nova adaptação desta obra literária de Stephen King não foge do convencional. Sem muitos grandes aspectos, amarga uma falta de empolgação consigo mesma. É bem produzida, com cenas bem fotografadas, porém mal dirigida e perde o potencial. Aliás, com exceção de It – A Coisa, os últimos filmes que bebem da fonte de King estão deixando a desejar.

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Aquaman

Filme-solo tira de fundador da Liga Justiça o estigma de super-herói inútil e lhe devolve o crédito perdido após frequentes zombarias na internet

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Texto por Andrizy Bento

Foto: Warner/Divulgação

Membro-fundador da Liga da Justiça, durante anos o Aquaman foi subestimado pela cultura pop e tornou-se alvo de zombaria de produtores de memes pela internet afora. Talvez sua representação na famigerada animação Superamigos, exibida na TV aberta entre as décadas de 1970 e 1980, tenha contribuído para que o personagem fosse relegado à condição de super-herói inútil, com os poderes mais “estúpidos”, e apontado constantemente como a grande piada do universo dos super-heróis. Uma grande injustiça, convém dizer. Quem realmente teve contato com o personagem em sua mídia original sabe que ele protagonizou arcos de qualidade nas HQs e que, neles, o Aquaman representava muito mais do que um mero objeto de sátira de South Park. Eis que, agora, o cineasta James Wan lhe devolve a dignidade perdida com uma adaptação cinematográfica empolgante e que resgata o clima épico das aventuras protagonizadas pelo herói nos quadrinhos.

Primeiramente, é necessário esclarecer que Aquaman (EUA, 2018 – Warner) não se trata de uma obra-prima das telas. O fato é que depois de pesar a mão em filmes pretensamente grandiosos, sombrios, carregados de seriedade, de frases de efeito e sequências em slow motion – procurando desesperadamente fugir com da condição de “filme para toda a família”, em uma resposta aos longas coloridos, bem humorados, dinâmicos e mais calcados na ação, produzidos pela Marvel Studios – como foi o caso de O Homem de Aço (2013) e Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (2016), a DC/Warner resolveu mudar de tática. Uma vez que os filmes não pareciam encontrar seu tom e nem satisfazer qualquer tipo de público – fosse o infanto-juvenil ou o mais adulto – os longas da marca investiram em mais ação, fantasia, leveza e bom humor, sem abandonar a aura de épico. Um exemplo bem-sucedido é Mulher Maravilha (2017); outro não tão bem recebido foi Liga da Justiça, lançado no mesmo ano. Felizmente, Aquaman se aproxima mais do primeiro e acerta no equilíbrio entre os elementos narrativos, conferindo grandeza à origem e mitologia do herói, ao mesmo tempo em que proporciona uma trama ágil (a despeito das mais de duas horas de duração), agradável, divertida e até romântica, encontrando seu tom e cumprindo exatamente o que promete. E o melhor: tornando atraente e até mesmo instigante tudo aquilo que já foi considerado ridículo pelos haters do personagem – seja o visual, repleto de escamas pelo corpo, ou a habilidade de se comunicar com peixes e outros animais aquáticos, dentre outras de suas clássicas características.

Nascido Arthur Curry, um híbrido de atlante com humano, o Aquaman é filho de Atlanna, uma poderosa rainha do reino submerso de Atlântida, com Tom Curry, um faroleiro. Ambos se conhecem ao acaso, durante uma terrível tempestade noturna que leva Atlanna para o farol em que Tom trabalha. Obviamente, um desperta no outro sentimentos que superam as diferenças entre suas raças e eles dão à luz um filho, fruto dessa união. Algo bem clichê, mas que funciona nas HQs – onde o herói teve sua história recontada diversas vezes, sendo essa a versão mais atual – e, para surpresa dos mais céticos em relação ao personagem, funciona na tela também. Sob as ameaças de seu reino que a reivindica e orquestra até mesmo um ataque ao homem que ama e seu filho, Atlanna se vê forçada a abandonar a família que acabara de construir na Terra, retornar à Atlântida e tomar parte em um casamento arranjado com o rei Orvax por questões exclusivamente políticas. Sua origem é contada de maneira rápida, sem muita embromação, o que torna o início do longa um tanto quanto acelerado; no entanto, favorece o polo principal, que é a disputa entre o mestiço Aquaman e Orm, o filho legítimo concebido por Atlanna e Orvax, ao trono de Atlântida. A jornada de um relutante Arthur Curry que, a princípio, nem mesmo se acha digno do trono, atravessa céu, terra e mar, incluindo o deserto do Saara, Sicília (na Itália) e outros reinos distantes no fundo do mar, onde o mestiço coleta pistas, conhecimento, inimigos e diversas lutas corporais em busca do tridente de Atlantis.

Trata-se de uma narrativa simples e bem fundamentada, que jamais perde o senso de diversão e fantasia. De exuberante temos os cenários e o excelente emprego do CGI aliado à fotografia e à paleta cromática assertiva em seus tons vibrantes. As sequências que se passam no fundo do mar são primorosas, além de criativas. O grande destaque de Aquaman é justamente o design de produção acurado, que garante cenas visualmente impressionantes mesmo carregadas de reverência. No entanto, até isso é funcional, pois dá uma ideia mais precisa da imensidão daquele universo subaquático, repleto de criaturas fabulosas e composto de diferentes reinos e raças que corroboram a construção da mitologia do personagem no cinema, ofertando inúmeras possibilidades para futuras continuações.

A ação é turbinada com tiros, explosões, perseguições e sequências de lutas intermináveis que agradam em cheio aos fãs do gênero, enchendo os olhos daqueles que curtem um bom espetáculo pirotécnico. O elenco, além de afinado, mostra competência, levando a sério seus papéis mas, ao mesmo tempo, mostrando o quão divertido é estar na pele dos personagens. Jason Momoa, intérprete do protagonista, esbanja carisma e presença de cena. O ator divide a tela, durante a maior parte do tempo, com a destemida Mera, vivida por Amber Heard. A química entre o duo principal é certeira. Completam o elenco o sempre ótimo Willem Dafoe, como Vulko; Nicole Kidman, como Atlanna; e Patrick Wilson, interpretando Orm.

Dentre os deméritos estão o excesso de flashbacks acompanhados de voice-oversexpositivos de modo a elucidar a história (um recurso infalível porém enfadonho e para o qual o cinema, infelizmente, ainda não encontrou substituto); além da música incidental e a trilha sonora como um todo que, apesar de temas marcantes e algumas excelentes canções, é mal pontuada, excessiva e até mesmo artificial em determinadas sequências.

Ainda que fique aquém de Mulher-Maravilha, a melhor produção da DC/Warner até agora, o longa que leva o nome do herói fez muito mais por Aquaman do que apenas lhe devolver seu crédito perdido. O filme dirigido por James Wan é uma perfeita combinação de ação e fantasia, com um estilo até old fashion, envolvente e divertido. Com certeza, vale o ingresso.