Movies

Origens Secretas

Produção espanhola surpreende ao misturar verve de história de quadrinhos de super-heróis com comédia e trama de policial noir

Texto por Flavio Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Netflix/Divulgação

Um assassino em série ataca Madri. Nos corpos, ele deixa pistas que indicam que seus crimes são cometidos inspirados em histórias de origem de personagens de quadrinhos. Será preciso um super-herói para descobrir quem é o assassino? Ou um policial que acha que heróis são coisas para crianças conseguirá resolver a trama misteriosa?

E assim, misturando policial, comédia e filme de super-herói somos presenteados com um dos filmes mais bacanas dos últimos tempos: Origens Secretas (Origenes Secretos, Espanha/Argentina, 2020 – Netflix) que estreou dia 29 de agosto na plataforma de streaming aqui no Brasil. A produção espanhola mistura os gêneros para nos entregar uma história que pode até cheirar a Corpo Fechado, mas que traz um ar de originalidade não muito visto no cinema.

Adaptado do livro de mesmo nome do escritor espanhol David Galán Galindo, o filme entretém sem emburrecer e ainda levanta algumas questões com relação ao preconceito contra os fãs de comic books e personagens de roupas justas. Um dos detalhes mais divertidos aqui é pescar as referências que saltam na tela todo o tempo. Mesmo se você for daqueles que “nunca leu uma revista em quadrinhos e só viu os filmes” vai entender totalmente do que se trata quando alguém disser que alguém teve os pais assassinados em um beco quando criança ao saírem do cinema.

Existem diversas formas de se assistir a Origens Secretas. Você pode ver como uma comédia que retrata um geek excluído socialmente; como um daqueles policiais de dupla improvável; pode ver ainda como um filme de origem de super-herói; ou como um policial investigativo meio noir. O difícil mesmo é não se divertir com o filme e não pensar “Se Seven: Os Sete Pecados Capitais e Kick Ass: Quebrando Tudo tivessem um filho seria exatamente assim que ele sairia”. Entretanto, esta é uma das produções à qual a Netflix Brasil não se dá nem ao trabalho de divulgar ou por um trailer em seu canal oficial no YouTube e que é muito melhor que muitas coisas que fazem questão de enfiar goela abaixo do seu público.

Music

Taylor Swift

Concebido durante a reclusão da pandemia, folklore traz reflexões, sonoridade minimalista e a maturidade tão esperada em um álbum

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Divulgação

Em 2012, Taylor Swift dava, até então, seu maior passo dentro da música pop. O single “We Are Ever Getting Back Together” foi uma mudança de tom para a artista conhecida por um trabalho com pés mais no solo country. Dois anos depois, com a faixa “Shake it Off”, a cantora consolidou-se como popstar.

Em 2020, em meio à pandemia do novo coronavírus, Swift usou o tempo livre para compor. Segundo ela, isso não estava em seu planos já que acabara de lançar um álbum em 2019, mas o isolamento social também não foi planejado. Desta maneira, de repente, sem aviso, nasceu folklore (Republic/Universal), seu oitavo álbum de estúdio, grafado assim mesmo, com todas as letras minúsculas, tal qual os nomes de todas as suas músicas. O disco mais minimalista, mas ao mesmo tempo grandioso. Um álbum que se distancia da segurança da sonoridade pop e respira novos ares.

Produzido e composto em parceria com Jack Antonoff e Aaron Dessner (integrante do National, conceituada banda alternativa americana), o disco é uma mistura de folk, indie e pop. A produção é boa, muito marcada pela presença do piano, mas quem rouba o show são as composições. Taylor é uma boa compositora, isso nunca foi a dúvida, mas havia anos que se esperava que ela fizesse um disco em que as letras fossem as maiores estrelas. Sem grandes produções sonoras, algo mais cru.

O “hey kids spelling is fun” do último álbum ficou para trás, dando lugar a reflexões, personagens e metáforas. Muitas histórias são contadas em folklore com diferentes pontos de vista: um adolescente arrependido, uma garota apaixonada, amantes proibidos. Muita coisa mudou no processo de produção desse álbum, mas algo permaneceu o mesmo: a habilidade de contar histórias, algo que Swift domina tão bem.

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Três músicas de folklore narram o desenrolar de um triângulo amoroso teenager. “cardigan” inicia a história sob a visão da personagem Betty, em um arranjo melancólico com influência de Lana Del Rey. “Tried to change the ending/ Peter losing Wendy” diz a letra, evocando a inocência da adolescência. “august” continua a história, pelo ponto de vista da outra garota. O enredo termina com “betty”, o pedido de desculpas de James, o tal garoto arrependido. Nesta, que é uma das faixas de destaque do álbum, Swift assume um lugar nem um pouco comum para suas composições e consegue criar um doce, bom e belo storytelling.

Este é um trabalho denso e extenso – são 17 músicas ao todo, se contar a edição deluxe. A perda de ritmo com tantas faixas é inevitável. “mirrorball”, “epiphany” e “hoax” distanciam-se do conjunto por conta de seus instrumentais. Porém, as composições são bonitas e acrescentam muito ao álbum, principalmente “epiphany”, inspirada pelo avô de Swift, que foi soldado, e com referências à atual situação mundial (“Holds your hand through plastic now, doc/ I think she’s crashing out”).

Nascido da reclusão, o novo disco é o mais sincero e maduro que Taylor já produziu.  Imogen Heap, com quem Swift já colaborara no álbum 1989, e Joni Mitchelll são referências que podem ser percebidas o tempo todo no decorrer das músicas. A busca por inspiração em musas que souberam detalhar sentimentos tão bem reflete-se em faixas como “my tears ricochet”. “seven”, um dos mais belos momentos de folklore, é um conto sobre a amizade entre duas crianças, uma delas vivendo em um lar abusivo. Novamente a caneta de Taylor, juntamente com Dessner, fez um lindo trabalho. A infância, um estado puro de inocência, serviu de palco para um amor igualmente puro, mas que na época não conseguia entender os medos do amigo (“And I’ve been meaning to tell you I think your house is haunted/ Your dad is always mad”).

folklore nasceu por acaso do destino e é uma grata surpresa de 2020. Taylor Swift não precisava provar que era uma boa compositora, mas conseguiu atingir novos patamares ao se distanciar das megaproduções pop. A maturidade dos 30 anos lhe caiu bem. Aquele álbum que todos esperavam que ela lançasse finalmente veio.

Movies

Judy: Muito Além do Arco-Íris

Renée Zellweger entrega uma fantástica performance em cinebiografia que retrata o conturbado último ano de vida da estrela de O Mágico de Oz

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Judy Garland continua brilhando no inconsciente coletivo mesmo após meio século de seu falecimento. É o que revela Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy, Reino Unido, 2019 – Paris Filmes), longa-metragem que aborda o último ano da vida da estrela enquanto ela fazia estadia em uma casa de shows em Londres tumultuada pela bebida e pelo vício em remédios. Além de um pedaço da história dela, o filme mostra uma estrela se apagando aos poucos.

A cinebiografia apresenta diversas faces de Judy. Tem a mãe, a artista, a ex-esposa, a garota-prodígio, a estrela decadente, a amante frágil, a mártir e, a mais marcante, a mulher que acredita que sua própria identidade era mais um de seus inúmeros personagens. Em um momento do filme, a atriz aparece dando uma entrevista na Inglaterra em que afirma que era Judy Garland por apenas uma noite, depois era uma pessoa comum com uma família e que queria ser feliz. A declaração permeia o filme como um norte. Judy Garland não queria ser estrela o tempo todo, só que precisava disso. E não apenas por dinheiro, mas porque a fama era quase como um comprimido.

Renée Zellweger encarna a protagonista em uma interpretação por vezes doce e simpática e outras conturbada e explosiva. A atriz emagreceu e dedicou-se a aprender maneirismos específicos de Garland. Por isso, entrega a melhor atuação de sua carreira e torna-se o ponto alto e absoluto do filme.

Judy não inova e segue um formato bastante quadrado. O roteiro não ajuda. Um texto mais ambicioso poderia ter tirado o filme da zona de conforto da biografias. As inserções do passado da atriz são um pouco confusas e por vezes quebram o ritmo do filme, mas a história sai da mesmice em sua linda cena final.

Uma grata surpresa é a delicada menção da importância do público LGBT na carreira de Judy Garland. Considerada o “Elvis” dos gays, a atriz se tornou um símbolo da comunidade, principalmente por conta de seu papel em O Mágico de Oz, no qual pregava o amor e aceitação às diferenças. Em épocas mais repressoras, era comum que os gays nos Estados Unidos se identificassem entre si usando os códigos “amigo da Judy” ou “amigo da Dorothy”.

Judy: Muito Além do Arco-Íris encontrou uma forma tocante e digna de contar a triste história de uma das maiores estrelas de Hollywood. O maior legado do filme, juntamente dos prêmios merecidamente vencidos de Renée Zellweger, é mostrar a luta de uma estrela infantil em sua vida adulta e como as consequências do estrelato precoce podem afetar profundamente uma pessoa. Judy Garland teve toda sua vida controlada por homens, executivos, estúdios, empresários, remédios, bebida. Muito famosa desde muito jovem, nunca conseguiu conquistar independência completa, fosse ela profissional ou emocional.