Movies

A Odisseia dos Tontos

Novo filme argentino com Ricardo Darín no elenco retrata os reflexos sofridos do povo quando planos econômicos impactam a nossa vida

odisseiadostontos2019

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Warner/Divulgação

Um plano econômico quando é adotado num país não só confisca o dinheiro da poupança, “come” os zeros e altera o nome da moeda ou limita a quantia que você deve sacar do banco. Termina, sim, por confiscar os dias, devorar a saúde do povo, principalmente a dos idosos, mudar o sentido de justiça e limitar nossas forças diante da vida. Quantos traumas e suicídios a ministra Zélia Cardoso de Melo não endossou ao anunciar, há quase três décadas, o fatídico Plano Collor, do presidente caçador de marajás? Quantos aposentados não infartaram em 2001, quando foi instalado o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários, fantasma que ainda persegue o povo argentino?

Pois este é o tema do mais recente filme estrelado pelo ator Ricardo Darín, que pela primeira vez atua ao lado do filho Chino Darín. O roteiro de A Odisseia dos Tontos (La Odisea de los Giles, Argentina/Espanha, 2019 – Warner), que estreou nesta quinta-feira no Brasil, é baseado no romance do escritor Eduardo Sacheri e feito em coautoria com o diretor Sebastián Borensztein, do fantástico Um Conto Chinês. Em vez de abordar o assunto de forma pesada, o tom da narrativa procura atenuar os reflexos sofridos pelo povo portenho com um bom humor inteligente presente em diálogos dinâmicos, repletos de ironia e palavrões colocados na medida.

Trata-se de uma comédia dramática leve, ao estilo sessão da tarde, porém sem deixar as críticas políticas de lado, como muitas citações ao peronismo e o anarquismo do russo Mikhail Bakunin. O filme usa aquela máxima de que o povo é sempre tratado como idiota, enganado pelo sistema. Como o próprio nome diz, a odisseia é a saga de moradores da província de Alsina (os “tontos”) que viram o desejo de montar uma cooperativa ir para os ares depois da crise, assim como a vida de pessoas queridas que também se esvaíram após o golpe. Mas o que desperta a grande revolta por parte dos locais é o fato de terem sido enganados pelo advogado Manzi (Andrés Parra), amigo do gerente do banco, que conseguiu informações privilegiadas e trocou, a tempo, os pesos argentinos por dólares.

Darín interpreta Fermin Perlassi, um ex-jogador de futebol que se transforma em Robin Hood e convoca os amigos fiéis a bolar um plano para recuperar o dinheiro do advogado malandro. Como todo bom argentino, faz da solidariedade o antídoto para combater a injustiça (e não a vingança, como no papel do mesmo Darín em Relatos Selvagens).

O filme traz ainda ótimas atuações de atores veteranos. Luís Brandoni, que faz um anarquista dono de uma oficina mecânica, chega a brilhar mais que próprio protagonista. Além de Rita Cortese, que aparece tímida no papel de uma empresária local.

Vale lembrar que o livro que deu origem a este longa-metragem foi escrito pelo mesmo autor da obra que originou O Segredo de Seus Olhos, que conquistou o Oscar de melhor produção em língua não inglesa em 2010. Depois disso, o trabalho de Darín alcançou outro patamar e ultrapassou as fronteiras do então país comandando por Cristina Kirchner, que volta à cena agora política como vice-presidente. Pois Darín, a prata da casa e sinônimo de cinema argentino, acertou na decisão de não se juntar aos americanos, recusando papeis secundários oferecidos por Hollywood. E, ainda, para alegria de seus fãs, inspirou o filho a trilhar a mesma profissão. Com apenas 30 anos de idade e oito de carreira, Chino já acumula um currículo extenso, tendo estrelado um punhado de excelentes filmes, entre eles As Leis da Termodinâmica (disponível na Netflix).

A Odisseia dos Tontos fica aquém de outras comédias estreladas pelo mais famoso ator do cinema argentino. No entanto, mesmo sendo um filme sem grandes pretensões, vale a pena ver o dono dos olhos azuis e cabeleira cada vez mais grisalha atuando nas telonas. A família Darín é sempre um bom convite para ir ao cinema e rir da tragédia. Pelo menos enquanto o fantasma retratado no filme está adormecido…

Movies

Kardec

Cinebiografia do “pai do espiritismo” promove reflexões a respeito do retrocesso da humanidade em tempos sombrios

kardec2019movie

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Filmes sobre o espiritismo costumam ser fenômenos de bilheteria nacional. Vide Nosso Lar, dirigido por Wagner de Assis, e a história do médium brasileiro Chico Xavier, de Daniel Filho, produções de 2010 baseadas em livros que arrastaram multidões ao cinema. Isso se explica pelo fato de que o Brasil possui a maior comunidade espírita do mundo. A doutrina de Allan Kardec surgiu na França, na metade do Século 19, e ganhou status de religião no Brasil, onde 3,8 milhões de pessoas se declararam seguidores, de acordo com o censo de 2010.

Nesta semana, mais uma produção do gênero entrou em cartaz nos cinemas brasileiros. Desta vez, é a história do pai do Espiritismo que é levada às telas numa produção ousada e detalhista ao recriar a época em que o pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, um homem cético, deparou-se com as tais “mesas girantes” e mudou a história da humanidade, unindo ciência, filosofia e religião.

Kardec (Brasil, 2019 – Sony Pictureslembra os 150 anos da morte do pai do espiritismo. Para muitos espectadores pode ser uma simples panfletagem, mas na essência é mais que uma cinebiografia. A produção que estreou na última quinta-feira nos faz refletir sobre como a humanidade caminha a passos curtos em sua incredulidade, ódio e intolerância; como somos capazes de atravessar séculos e ainda cometer retrocessos.

Wagner de Assis (que também foi roteirista de novelas Além do Tempo e Espelho da Vida) volta à temática espírita assinando a direção do longa baseado no livro Kardec: O homem que Desvendou os Espíritos, do jornalista Marcel Souto Maior. Quem incorpora o pai da doutrina é o ator Leonardo Medeiros (com vasta experiência em teatro e na televisão), cuja interpretação impecável carrega o filme do início ao fim ao lado da atriz Sandra Corvelone (Amélie-Gabi, mulher do professor).

A história começa em 1852, quase meio século depois da Revolução Francesa influenciada pelo Iluminismo e um ano após o golpe bem-sucedido do imperador Napoleão III na sequência da Revolução de 1848, também conhecida como Primavera dos Povos. O sobrinho de Napoleão I promoveu a modernização de Paris. Foi na segunda metade do Século 19 que a catedral de Notre Dame (recentemente atingida por um incêndio de grandes proporções) passou por uma grande restauração. O ensino nas escolas, porém, sofria forte intervenção da igreja.

O professor Rivail era um intelectual de quase meia idade e sem filhos, que decide abandonar o emprego de professor numa escola ao ser contrário aos dogmas da igreja católica. “A fé não deve ser imposta a ninguém”, dizia. Rivail tinha um conhecimento eclético – gramática, física, química, contabilidade, astronomia – e passou a sobreviver dando aulas particulares em casa.

Até que certo dia um conhecido lhe chamou a atenção para o fenômeno das “mesas girantes”, que flutuavam comandadas supostamente por espíritos de pessoas mortas. A moda tomou conta de Paris entre nobres e burgueses e virou até chacota no teatro.  Rivail, no início, resistia e não acreditava no que via. Para ele, tudo era magnetismo, truque. Até que participou de uma sessão restrita onde médiuns – mulheres no filme – passaram a incorporar os espíritos. Então, viveu experiências inexplicáveis como presenciar mensagens e textos inteiros psicografados e assinados por quem já havia falecido. O professor tomou a iniciativa de levar uma dessas assinaturas (de um escritor francês) para ser autenticada e quando percebeu que não se tratava de fraude, começou a desconfiar que “havia mais coisas entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”, como disse Shakespeare.

Numa dessas sessões, um espírito amigo de vidas passadas se comunicou e revelou que Rivail era a reencarnação de um druida celta chamado Allan Kardec. E conferiu ao professor a missão de “abalar e transformar o mundo”. Mas, para isso, era preciso estar preparado para enfrentar ódio e a descrença dos homens e a força contrária dos “espíritos maus”. Rivail, sempre com apoio de sua mulher, encarou o sacrifício e adotou a metodologia científica para provar os fenômenos sobrenaturais.

Sob o pseudônimo de Allan Kardec, ele publicou O Livro dos Espíritos em 1857, que marcou a fundação da doutrina. A partir daí, começou sua luta contra a igreja católica e sua “caça às bruxas”. Livros foram queimados e os médiuns, perseguidos.

O longa de Assis teve cenas rodadas em Paris e no Rio de Janeiro. A presença do catolicismo no filme é marcada pelas frequentes cenas em que a catedral de Notre Dame surge como elemento central. Aliás, nas tomadas mais amplas feitas em Paris, como em umas das pontes que atravessam o Rio Sena, são perceptíveis os efeitos de computação gráfica (a cidade está vazia!), provavelmente por conta do orçamento reduzido. A maioria das cenas são internas e valorizam os diálogos trocados entre Rivail e Gabi, como o momento de romantismo entre o casal (“é preciso olhar os céus para se inspirar em tempos sombrios”). Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência, aliás.

No Brasil

Até sua morte, em 1869, Rivail publicou outros quatro títulos sob o mesmo pseudônimo: O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. O pentateuco é a base da doutrina espírita, que não vingou na França. No Brasil, ao contrário, o número de interessados em conhecer essa filosofia de vida só cresce. Segundo o último censo, realizado em 2010, houve um aumento de 65% no número de espíritas no país. A maioria dos adeptos tem nível superior completo (31,5%). O escritor Marcel Souto Maior, autor das biografias de Allan Kardec e Chico Xavier, contou em entrevista à Folha de S. Paulo que após a morte de Kardec houve o chamado Processo dos Espíritas (1875), que ridicularizou suas obras, consideradas fraudulentas. Mas se lá os inimigos e “espíritos do mal” aparentemente ganharam a guerra, aqui os espíritas não sucumbiram e a doutrina renasceu com os médiuns Bezerra de Menezes e Chico Xavier, que psicografou mais de 400 livros.

Divaldo

Além de Bezerra de Menezes e Chico Xavier, outro nome que popularizou o espiritismo além das fronteiras brasileiras é o baiano Divaldo Franco. Em setembro deste ano, será lançado nos cinemas o filme Divaldo – O Mensageiro da Paz, com Bruno Garcia no papel do médium. Divaldo publicou 270 livros, realizou mais de 13 mil palestras em duas mil cidades e foi nomeado “Embaixador da Paz no Mundo” pela Embassade Universalle Pour la Paix, em Genebra, na Suíça. Com seus 92 anos, segue firme na divulgação da doutrina e na dedicação à caridade com os trabalhos da Mansão do Caminho, obra social do Centro Espírita Caminho da Redenção, fundada em 15 de agosto de 1952 em Salvador. Ao longo de sete décadas, retirou mais de 160 mil pessoas da miséria. Atende cerca de cinco mil pessoas por dia, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Movies

Duas Rainhas

Filme exalta a força da Rainha da Escócia (e, por direito, da Inglaterra) Mary Stuart, um dos maiores ícones da realeza britânica em todos os tempos

maryqueenscots2018

Texto por iaskara (História) e Abonico Smith (resenha)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

História

Rainha desde o berço. Mary Stuart mal nascera (8 de dezembro de 1542) e já perdera o pai, o rei James V, seis dias depois, o que a fez herdar a coroa do reino da Escócia. Uma herança sombria ser uma Stuart e herdar a coroa da Escócia, pois sempre tiveram de lutar contra inimigos de fora, inimigos do país e contra si próprios.

Logo após a morte do pai, sua mão fora pedida pelo tio avô Henrique VIII, rei da Inglaterra e tio de James V, para o filho e herdeiro Eduardo. O objetivo era unir as duas coroas em uma só e governar a Grã-Bretanha com o desejo de supremacia mundial naquele momento.

Uma cláusula secreta do contrato feito por Henrique VIII dizia que, caso a criança morresse prematuramente, todos os domínios e propriedades do reino escocês passariam a ele. Logo ele, que já havia mandado cortar a cabeça de duas esposas e rompido com a Igreja Católica para fundar a sua própria igreja e mudando oficialmente a religião de seu reino para o protestantismo, inclusive se autodeclarando o líder religioso maior desta reforma. A mãe de Mary, católica fervorosa, recusou-se a enviar a filha a Londres para que fosse educada por “hereges protestantes”. Como vingança, Henrique VIII iniciou uma guerra interna, mandando tropas em busca da menina e com a ordem de destruir Edimburgo e outras cidades, saqueando e queimando tudo o que fosse encontrado pelo caminho.

Mãe e filha foram postas em segurança em um castelo e um novo acordo se estabeleceu com o rei inglês para que Mary Stuart  fosse entregue a Londres com 10 anos de idade. Porém Henrique VIII morreu quando Mary estava com apenas 5. Apesar da exigência da entrega da pequena noiva, à força, diretamente para Eduardo, os escoceses não tinham mais interesse nesse acordo, sendo esmagados novamente em uma batalha com mãos de 10 mil mortos.

Mary foi escondida no convento de Inchmahome, na pequena ilha de Meinteth, até que a França entrou no cenário para impedir a Inglaterra de submeter a Escócia ao seu jugo. Henrique II, filho de Francisco I, rei da França, enviou uma armada forte e em seu nome pediu a mão de Mary Stuart para o filho do rei, o herdeiro do trono, Francisco II. Assim, ao invés de se tornar rainha da Inglaterra, de repente Mary foi destinada a se tornar rainha da França e, ainda aos 5 anos de idade foi enviada para Paris. Junto com ela embarcaram outras quatro meninas de nomes Mary como forma de proteção.

Mary foi recebida com pompa e como rainhazinha da Escócia (“reinette”) e assim deveria ser saudada por todas as cidades e aldeias, com as mesma honrarias de um delfim. A corte francesa era uma das mais brilhantes e grandiosas do mundo, voltada tanto para cultura como para as artes e a ciência. Mary foi educada para dominar com perfeição línguas clássicas como o grego e o latim bem como o italiano, o espanhol e o francês. Deveria dominar também a poesia, a literatura, a música e as artes. Seu desenvolvimento intelectual, além de precoce, tornou-se notável. Seu casamento foi apressado quando o delfim tinha somente 14 anos, por ele ter saúde frágil e também pelo interesse da França em assegurar o direito à coroa da Escócia e da Inglaterra, por Mary ser herdeira presuntiva deste trono. O casamento se deu em 1558, quando Francisco II recebeu, então, a coroa da Escócia e Mary, com quase 16 anos de idade, tornou-se herdeira da coroa da França.

No mesmo ano morreu Mary Tudor, primogênita de Henrique VIII e então rainha da Inglaterra. Como Eduardo já havia morrido, sua meio-irmã Elizabeth subiu ao trono, sendo que sua legitimidade era questionada, já que sua mãe Ana Bolena teve seu casamento com Henrique VIII anulado um pouco antes da decapitação desta. Isto tornava Elizabeth bastarda, restando o trono, por direito, à católica Mary Stuart. Restavam duas possibilidades: aos 16 anos de idade, Mary poderia ceder e reconhecer sua prima como legalmente rainha da Inglaterra e abdicar de seu próprio direito ou declarar que Elizabeth usurpou a coroa e determinar que exércitos da França e da Escócia derrubassem-na à força. Mas seus conselheiros escolheram um terceiro caminho e o pior deles: em vez de um golpe decidido contra Elizabeth, apenas reclamam publicamente o trono mas não o defendem. O casal real francês incluiu em seu brasão a coroa real inglesa e Mary se fez chamar publicamente de Regina Franciae, Scotiae, Angliae e Hibernae. Isso virou uma provocação. Nesse momento, Mary transforma a mulher mais poderosa do mundo em sua inimiga irreconciliável. Elizabeth passou a considerá-la sua rival e maior ameaça.

Em 1559, o rei da França se feriu mortalmente com uma lança em um torneio em Paris. Nesse momento, aos 16 anos, Mary foi coroada rainha da França. O destino foi implacável, pois Francisco II, o novo rei, estava doente e os médicos vigiavam-no dia e noite. Em dezembro de 1560, sua saúde se agravou e um infecção no ouvido levou-o à morte. Mary não perdia somente o companheiro generoso e bondoso, mas o seu grande amigo, a sua proteção na França e também a sua posição na Europa.

Catarina de Medici, sua sogra, revelou-se bastante hostil, arrogante e traiçoeira. Mary, por sua vez, com seu orgulho indomável, não quis ficar em nenhum lugar onde fosse apenas a segunda na hierarquia. Outras coroas (Espanha, Áustria, Dinamarca, Suécia) se anteciparam e enviados pediam a mão de Mary. Mas ela decidiu voltar à Escócia. Sua despedida da França foi difícil, pois esse lugar havia se tornado sua pátria nos últimos doze anos, com parentes de laços maternos e proteção. Enquanto na Escócia a esperavam duras provações.

Desde a morte de sua mãe, que como regente administrava sua herança, os lordes protestantes, seus piores inimigos, predominavam na corte e não escondiam a resistência de chamar de volta para o país uma católica seguidora de Roma. Ainda havia Elizabeth com um acordo entre escoceses e ingleses de reconhecê-la como herdeira legítima do trono. Este documento, quando levado à França, não foi assinado nem por Francisco II e nem por Mary, que colocou seu direito em segundo plano por questões políticas mas jamais renunciou ao direito à herança de seus antepassados.

Para voltar à Escócia, Mary precisava de um salvo-conduto para atravessar a Inglaterra, que fora negado por Elizabeth. Mary decidiu voltar pelo canal sem tocar na costa inglesa. Elizabeth se apressou e assinou um documento que chegou com dois dias de atraso. Mary já havia partido rumo à Escócia, chegando em Leith no dia 19 de agosto de 1561. É quando começa o filme lançado originalmente em 2018.

Para o biógrafo Stefan Zweig, o que é claro e evidente se explica por si próprio embora o mistério aja de maneira criativa. Por mais de quatro séculos, os mistérios que envolvem o drama ou a tragédia de Mary Stuart seduziu escritores e vem ocupando muitos pesquisadores, pois tudo que está difuso anseia por clareza e tudo que está escuro deseja a luz. Mistérios são descritos e interpretados de forma tão frequente quanto contraditória, não por falta de material mas pela sua abundância. Milhares de documentos, atas, protocolos, cartas e relatórios preservados. Com descreve Zweig, contra cada sim documentado existe um não igualmente documentado e contra cada acusação, uma absolvição. Até o século passado, os autores protestantes atribuíam toda a culpa a Mary Stuart; os escritores católicos, a Elizabeth. Nas narrativas inglesas, Mary quase sempre apareceu como culpada enquanto as escocesas colocavam-na como vítima. Não se pode esquecer que a História quase sempre é narrada pelos vencedores

Resenha

Toda essa explicação serve bem para contextualizar o “cenário de guerra” entre as primas que é retratado no filme Duas Rainhas (Mary Queen Of Scots, Reino Unido/Estados Unidos, 2018 – Universal Pictures). Na verdade, a história comandada pela veterana diretora teatral britânica Josie Rourke, estreando no cinema, é centrada nas lutas diárias da recém-chegada à Escócia Mary – e por isso o estapafúrdio título dado pela distribuidora no Brasil só serve para chamar a atenção do espectador para o fato de existirem duas jovens atrizes, ambas ascendentes em Hollywood, interpretando as rivais da monarquia. Este filme vai do dia 19 de agosto de 1561, quando Mary desembarca na Escócia, até a sua morte, aos 44 anos de idade, em 8 de fevereiro de 1587.

Saoirse Ronan acerta mais uma vez em cheio em papel e atuação. A jovem norte-americana descendente de irlandeses encanta com sua Mary indolente e atrevida, que chega com suas ideias e pensamentos revolucionários de uma França mais voltada às artes, à cultura e ciências. Aos poucos, contudo, vai esbarrando em vários obstáculos, entre eles a consequente insubordinação masculina diante da nova regência de uma mulher e, talvez o mais forte empecilho, a objeção do pastor protestante John Knox, ministro escocês. Assim, Mary passa a ser alvo de uma série de intrigas, mentiras e conspirações por parte de todos os lados. Da invejosa Elizabeth (aqui bem interpretada por uma coadjuvante Margot Robbie, australiana, ajudada por uma maquiagem tão belamente degradante ao longo da projeção que rendeu ao longa uma das três indicações ao Oscar da categoria neste ano) a Knox (David Tennant), passando por pretendentes a maridos e comandados da corte. O fim da história é sabido e contar aqui não vira spoiler: Mary é presa sob a acusação de conspiração ao trono e decapitada por ordem de Elizabeth.

O que importa neste longa-metragem, porém, é como Rourke e o roteirista Beau Willimon contam essa batalha íntima de Mary contra todos a seu redor. Willimon consegue encaixar momentos de ironia (como nos casos do relacionamento íntimo de Mary com o músico gay italiano David Rizzio ou na hora em que a rainha escocesa manda seu novo marido a fazer sexo oral nela) e outros de violência – a cruel execução de Rizzio pode provocar náuseas em espectadores mais sensíveis. Já Rourke brinda os olhos com belas imagens em paisagens e castelos escoceses sem se furtar a se arriscar em movimentos de câmera que possam, de vez em quando, sair do convencional.

Sem muitas pirotecnias na narrativa ou na montagem, Duas Rainhas retrata a força feminina de quase meio milênio atrás através de sua bela e ousada protagonista. Uma mulher que não teve medo de enfrentar quem estivesse pela frente justamente para reivindicar o que era seu de direito. Uma mulher cuja maior afronta era ser ela mesma diante daquilo que não lhe representava em sentimentos e ideias. Uma mulher com alma e cérebro em pleno Século 16. E, o mais importante, uma mulher preparadíssima para exercer o comando de um dos maiores reinos do mundo se tivesse a oportunidade.

Music

Garotos Podres

Vocalista e fundador Mao fala, em entrevista, sobre a volta às atividades da banda que é um dos ícones do punk rock brasileiro

garotospodres2018

Entrevista por Guilherme Motta

Foto: Laura Ciampone/Divulgação

Prestes a desembarcar em Curitiba para se apresentar em um dos mais conceituados e antigos festivais de rock independente do país, o Psycho Carnival (clique aqui para mais informações sobre o evento), os Garotos Podres celebram o bom momento da banda, que acaba de retomar as atividades depois de uma cisão que provocou disputa judicial a respeito do uso do nome e a criação de uma “identidade secreta” para durar o tempo deste imbróglio todo. Em entrevista por e-mail para o Mondo Bacana, o vocalista e fundador Mao fala sobre toda essa confusão, os novos lançamentos e ainda a confusão política que nos últimos anos rachou o país entre esquerda e direita.

Junto com os fãs tenho acompanhado toda essa treta envolvendo o nome e os integrantes do Garotos Podres. Como está sendo agora pra você saber que a banda está novamente dentro do contexto que você sempre acreditou e lutou?

Sou músico há muitos anos. Só nos Garotos Podres são 37 anos. Creio que atualmente estou vivendo a minha melhor fase enquanto músico. Estou tendo a oportunidade não só de tocar ao lado e músicos de grande qualidade técnica, mas também companheiros que compartilham uma visão de mundo que une a banda através de um ativismo político-social. Essencialmente, somos favoráveis aos princípios fundamentais da dignidade humana. Lutamos pelos direitos dos trabalhadores, das minorias e de todos os oprimidos. Somos radicalmente contra o racismo e defendemos a emancipação da classe operária através da construção de uma sociedade justa, igualitária e fraterna. Em outras palavras, somos, acima de tudo, antifascistas!

Ultimamente com essa onda conservadora que vêm crescendo no país, muitas das pessoas até mesmo as que eram próximas a nós estão saindo do armário do fascismo. Muitas vezes me deparo com comentários do tipo “Não pode misturar música (seja rock, punk, hardcore ou mesmo a arte em geral) com política”.  Temos o exemplo da banda Dead Fish, que desde o seu início em 1991 tem o posicionamento político muito bem definido e também contam com uma parcela dos fãs que se dizem de direita mas “curtem” o som da banda, mesmo as letras sendo extremamente politizadas. Como você enxerga essa questão?

Durante muitas décadas a grande mídia operou no sentido de despolitizar e alienar grande parte da população brasileira. Esta “onda conservadora” nada mais é do que uma ação planejada por parte dos setores mais reacionários da classe dominante de nosso país. Foi através deste controle de “corações e mentes” que conseguiram dar um golpe de Estado em 2016, que, em nome do “combate à corrupção”, colocou os mais corruptos políticos no poder. Em 2018, eles foram ainda mais longe. Impediram a candidatura do principal candidato dos trabalhadores e, através de uma intensa campanha de fake newse mentiras nas redes sociais, colocaram no poder um governo que se empenha em destruir todos os direitos trabalhistas, previdênciários e sociais dos trabalhadores. Estas pessoas que se dizem de “direita” são donos dos bancos? Das indústrias? São patrões ou latifundiários? Não! São apenas “trabalhadores pobres”, que acreditam ser ricos (ou potencialmente ricos, no futuro) e de “direita”! Ou seja, são vítimas idiotizadas pela grande mídia e pelas redes sociais, instrumentalizados pela classe dominante como rebanho eleitoral. São pessoas que foram capazes de votar em seus próprios carrascos.

Aproveitando o assunto sobre conservadorismo… Como você reage ao fato de que existem pessoas conservadoras, com posicionamento político voltado totalmente à direita dentro do cenário punk? Como, por exemplo, o que aconteceu ao Garotos Podres, quando integrantes com posicionamento inverso à postura do grupo durante décadas estavam levando o projeto adiante com o mesmo nome?

Creio que o movimento punk, assim como a maior parte do rock em geral, tem um espírito mais progressista e de esquerda. Acho um contrassenso a postura conservadora de algumas pessoas, principalmente aquelas que tem ligação com o punk rock. No caso dos Garotos Podres houve um racha na banda em 2012. Eu e o Cacá Saffiotti fomos para um lado enquanto o ex-baterista e ex-baixista foram para outro. Esta divisão se deu por inúmeros problemas que foram se acumulando ao longo dos anos. Mas o que foi determinante foi a aproximação de dois ex-integrantes à extrema-direita. Como exemplo disso tivemos a candidatura do ex-baixista, Michel Stamatopoulos, a vereador em São Caetano do Sul em 2016, pelo PEN. Nesta época este partido era ligado a Jair Bolsonaro. Posteriormente a agremiação assumiu o nome de Patriotas e lançou a candidatura presidencial do Cabo Daciolo em 2018. Em 2013,  apoiando-se em nosso antigo empresário, estes ex-baterista e ex-baixista criaram um grupo que passou a usar indevidamente o nome Garotos Podres. Felizmente o projeto deles não foi para frente, encerrando as atividades ainda em 2014. Entretanto, ainda hoje tentam se apoderar do nome Garotos Podres pela via judicial.

Devido ao rompimento do Garotos, você e o Cacá formaram O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos e em 2014 lançaram o álbum Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo. Pode-se dizer que esse é um lançamento do Garotos Podres disfarçado?

Quando houve o racha dos Garotos Podres em 2012, eu e o Cacá Saffiotti pretendíamos da continuidade aos Garotos Podres, com novos integrantes. Isto nos parecia perfeitamente legítimo, uma vez que eu sou o fundador da banda, além de autor de quase 90% das letras e compositor de quase 50% das músicas. Pretendíamos preparar novas músicas, lançar um novo álbum, e reiniciar as atividades. Entretanto os ex-baterista e ex-baixista, associados ao nosso antigo empresário, tentaram se apoderar do nome da banda e iniciaram as atividades no início de 2013. Eu e o Cacá ficamos diante de um dilema: corríamos o risco que ter duas bandas com o mesmo nome. A avaliação que fazíamos era que o projeto deles não iria durar muito, por ser, ao nosso ver, musicalmente muito ruim. Neste ponto estávamos corretos, uma vez que eles acabaram encerrando as suas atividades ainda em 2014. Assim, nós decidimos criar uma “identidade secreta” para darmos continuidade aos nossos trabalhos musicais: nasceu assim O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos. Sim, a “identidade secreta” dos Garotos Podres. Lançamos nosso álbum, Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo, em outubro de 2014. Começamos a fazer nossos primeiros shows utilizando este batismo e paulatinamente fomos fazendo a “transição” para começarmos a utilizar de volta o nome Garotos Podres. No final de 2017, Michel Stamatopoulos anunciou oficialmente o encerramento das atividades do projeto musical deles. A partir de então assumimos a nossa verdadeira identidade secreta. Todos os serviços de inteligência do decadente Ocidente capitalista ficaram estupefatos diante do fato de descobrirem que o “mui exelente e temível” Mao, dos Garotos Podres, e o “mui excelente e temível” Mao, de O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, eram exatamente a mesma pessoa! Hahahahaha! Enganamos todos eles!

Vocês virão para Curitiba neste carnaval, para tocar em um festival voltado especificamente ao cenário psychobilly e rockabilly. É um público para o qual vocês já costumavam tocar anteriormente? Qual a expectativa para este show no Psycho Carnival 2019?

Conhecemos o pessoal das bandas de psychobilly e rockabilly de Curitiba e já tivemos o privilégio de tocarmos juntos algumas vezes. Estamos ansiosos de encontrar não apenas os pessoal destas bandas, mas principalmente a galera que sempre vai em nossos shows em Curitiba!

Em 2018, para comemorar o retorno dos verdadeiros Garotos Podres, vocês lançaram o compacto Canções de Resistência, que contém duas faixas: “Grândola (Vila Morena)” e “Aos Fuzilados da CSN”. Como estão os planos futuros da banda. Pretendem lançar logo um álbum inteiro inédito?

Em 25 de abril colocamos a música e o clipe de “Grandola, Vila Morena” nas redes sociais. No Primeiro de Maio, lançamos uma nova versão de “Aos Fuzilados da CSN” e também o respectivo clipe. Estas duas simbólicas músicas marcaram o retorno dos Garotos Podres, através deste compacto digital intitulado Canções de Resistência. Creio que atualmente ocorreram significativas mudanças no que diz respeito ao lançamento de novos produtos musicais. É o fim do CD enquanto mídia de divulgação musical! Entretanto, acreditamos que as plataformas digitais devam substituir em parte o CD. Neste sentido, pensamos ser mais proveitoso e agil disponibilizar gratuitamente novas músicas, a partir de novas gravações. Pretendemos começar a lançar vários singles ao invés de álbuns.

Qual a mensagem que você deixaria para o pessoal que, como você, continua lutando contra essa onda de conservadorismo fazendo arte de um modo geral?

Acho que a emergência do fascismo cinde a humanidade em duas alas irreconciliáveis. De um lado está a barbárie fascista e de outro, oposto, todos aqueles defendem a humanidade. Não é necessário que você seja um radical líder revolucionário para se opor ao fascismo. Se você é contra o racismo, contra a opressão, contra os mais desfavorecidos; se coloca-se ao lado dos trabalhadores humildes; se é contra as injustiças desse mundo e se põe a favor da humanidade… Você é meu camarada!

Music

Diário de bordo: Killing Joke

Um grande fã da banda conta tudo o que viu e viveu ao lado de seus ídolos durante três dias no Brasil e na Argentina

killingjoke2018spjaz_edifortini

Texto por Guto Diaz (Secret Society)

Fotos por Edi Fortini (Edi Fortini Photography show no Brasil) e Guto Diaz (selfies no Brasil e bastidores na Argentina)

Cada data da banda não é apenas um show. Para aqueles que já tiveram a oportunidade de assistir aos ingleses ao vivo, o Killing Joke é quase uma instituição religiosa, uma congregação, uma comunhão ritualística. Ou, como eles mesmo preferem se referir as suas apresentações, “a gathering” (e a seus fãs como “the gatherers”).

A primeira vez que ouvi o termo “gathering” foi em 1994, quando tive acesso ao meu primeiro computador com internet discada. Nesta época me deparei com o mais antigo e fiel fã clube da banda, que continua em atividade. The Gathering é um mailing listdedicado exclusivamente para trocas de informações entre fãs do Killing Joke. A partir daquele momento, conheci um novo universo. Tive contato com Gatherers do mundo inteiro, Inglaterra, Estados Unidos, México, praticamente toda a Europa e também do Brasil. Neste mailing list fiz amizades que duram até hoje. A grande maioria somente virtuais, uma irmandade, que não se conhecem pessoalmente mas que compartilham a mesma admiração e respeito pelo Killing Joke.

O fã clube The Gathering sempre foi muito ativo e com integrantes muito participativos dentro do universo Killing Joke. Foram lançados através do The Gathering álbuns exclusivos para os fãs, como a coletânea dupla Unspeakable, de 1999, somente com material raro da banda nunca antes lançados; Unsignable, em 2002, somente com bandas formadas por Gatherers (minha ex-banda, Primal…, participou com a faixa “The Walk Of Ants”) e uma coletânea para arrecadar fundos para um gatherer que estava com câncer, Attack For The Benefit Of A Friend With Cancer, em 2005. Neste disco, o Primal…, participou com a faixa “Timeless Wintertime”).

Em 2007, aconteceu um fato muito triste mas também de muita união na história da banda: faleceu o baixista Paul Raven (que substituira Youth a partir de 1983). Todos os integrantes originais acabaram se encontrando no funeral pela primeira vez depois de muitos anos. Naquele encontro teve início a “nova” fase do Killing Joke. Ninguém poderia imaginar que mais de 20 anos depois eles iriam se reunir com a formação original e produzir álbuns tão significativos quanto os três últimos lançados por esse time: Absolute Dissent (2010), MMXII (2012) e Pylon (2016).

Em 2008, após a decisão de voltarem com a formação original, a banda fez uma grande turnê europeia para celebrar a reunião, tocando sempre duas datas em cada cidade. Na primeira noite eram executados na integra os dois primeiros álbuns Killing Joke (1980) e What’s THIS For…! (1981). Na segunda, Pandemonium (1994) e diversos singles e lados B.

Decidi encarar duas datas em Bruxelas nos dias 29 e 30 de setembro daquele ano, onde aconteceria uma “small gathering”. Nesta viagem, conheci pessoalmente vários gatherers, vindos de diversos pontos da Europa, como Espanha, Inglaterra, Escócia, Alemanha, França, Holanda e, claro, da Bélgica. Nessa ocasião, houve meu primeiro contato com os integrantes do Killing Joke numa festa que rolou em um pub logo após a primeira noite. Tive a honra de conhecê-los pessoalmente, tirar fotos, sentar na mesma mesa e beber junto com a banda, contar que eu tinha vindo do Brasil única e exclusivamente para vê-los pela primeira vez ao vivo. Foi memorável.

No final de 2017, eles anunciaram uma nova turnê mundial chamada Laugh At Your Peril, comemorando os 40 anos da banda e ainda divulgando o álbum Pylon. Pela primeira vez na História foram incluídas datas no México e na América do Sul. Eu nunca imaginaria que algum dia eles viriam para o Brasil. Assim que os ingressos foram colocados à venda,  fiz todo meu planejamento para assisti-los em São Paulo no Carioca Club.

Algumas semanas antes do início da turnê sul-americana recebi uma mensagem do amigo francês Stephane Frenchy Frenzy (que havia conhecido na gatheringem Bruxelas) perguntando se eu iria assistir algum outro show da turnê, além de São Paulo. Ele estaria vindo acompanhar a banda (junto com David Molyneaux, gatherer da Inglaterra) para filmar os quatro shows, agendados para final de setembro em São Paulo, Buenos Aires, Santiago e Lima. Na mesma hora decidi acompanhá-los para mais uma data e consegui agendar o mesmo voo e o mesmo hotel em que eles ficariam em Buenos Aires.

Marcamos nosso encontro para o sábado 22 de setembro em São Paulo, um dia antes do show. Fui ao encontro do Stephane no hotel em que ele estava hospedado, no bairro de Pinheiros, e saímos para almoçar. Levei-o em uma clássica churrascaria paulistana para conhecer o rodizio de carnes e também a famosa caipirinha de cachaça. Stephane adorou e enquanto estivemos lá pudemos conversar muito sobre o Killing Joke, o The Gathering, nossos vidas pessoais, trabalho, política, cultura gauchesca (sim, tentei explicar-lhe um pouco dos pampas!). Um pouco mais tarde chegaram na churrascaria, o gatherer paulista Celso Junior “N0153” (que eu conhecia há mais de vinte anos pela internet, mas nunca havia encontrado pessoalmente) e dois amigos, Marcelo e Rodrigo, também superfãs do KJ e que vieram de Brasília para assistir ao show.

Após o almoço fomos dar uma volta pela Avenida Paulista e acabamos em um bar na Augusta, onde eu havia marcado de encontrar com outro grande fã do Killing Joke,meu amigo de longa data Felipe Mattos. Conheci o Felipe há mais de quinze anos na época do Soulseek e da troca de música pela internet; ele virou um fã inveterado da minha banda na época, o Primal…, e a gente compartilhava o mesmo gosto musical por diversos grupos como Killing Joke e o Voivod. Tomamos mais uma dezena de cervejas e caipirinhas e assim terminou nossa primeira noite em São Paulo. Stephane foi embora para o hotel e eu para casa do meu primo. Marcamos de nos ver no dia seguinte logo após o almoço, David Molyneaux iria chegar pela manhã do México e iríamos todos nos encontrar em frente ao Carioca Club. Stephane e David vieram com a missão de filmar com quatro câmeras os quatro show deles na América do Sul (imagens que provavelmente serão utilizadas futuramente) e teriam de chegar mais cedo para montar o equipamento.

killingjoke2018gugugeordiekillingjoke2018bigpaulgugukillingjoke2018youthgugukillingjoke2018credencial

São Paulo, 23 de setembro

Cheguei no Carioca Club por volta das 14h e me encontrei com Stephane e David. Ficamos em frente à casa conversando e aguardando os preparativos. Logo depois chegaram os “brazilian gatherers” (Celso Junior “N0153” e seus amigos de Brasília, mais Rodrigo e Marcelo e meu amigo Felipe Mattos). Aos poucos começaram a aparecer em frente ao Carioca, outros alguns fãs ansiosos pela chegada da banda e a tensão foi aumentando.

Enquanto isso, lá dentro, a equipe do Killing Joke já deixava tudo preparado para a passagem de som. A banda veio para essa perna da turnê com uma turma bem enxuta: Christopher (tour manager), Waynne Smart (técnico de PA), Damon Head (técnico de bateria e palco) e Diamond Dave (técnico de palco, guitarra e baixo, uma figura emblemática que já acompanha a banda em viagens há mais de 15 anos), Roi Cabaret (o tecladista de apoio) e os quatro integrantes originais (Jaz Coleman, Kevin “Geordie” Walker, “Big” Paul Ferguson e Martin “Youth” Glover).

Eram mais ou menos umas 17h quando a van estacionou em frente do Carioca Club. Jaz Coleman foi o primeiro a descer já levantando os braços e fazendo a maior festa para algumas dúzias de fãs que aguardavam ansiosos. Eles todos foram muito receptivos e atenderam com fotos e autógrafos todos que ali estavam. Neste momento já pude trocar rápidas conversas com todos. Com exceção de Jaz e Geordie, que não possuem Facebook, eu já vinha falando antecipadamente com Big Paul e Youth sobre a turnê. Jaz e Big Paul foram uma simpatia, lembraram-se de mim de dez anos atrás em Bruxelas, me chamaram pelo nome (sou conhecido no The Gathering como Diaz From Brazil).

Após atenderem os fãs, pediram licença e foram para o soundcheck. Em seguida, Stephane veio até nós e, muito gentilmente, veio nos comunicar que a banda havia nos autorizado assistir à passagem de som. Fomos eu, Felipe, Celso “N0153” e os dois amigos de Brasília. Foi a meia hora mais emocionante de nossas vidas. Apenas nós cinco assistindo à passagem de som do Killing Joke. Inacreditável! Durante o soundcheck eles tocaram “Love Like Blood”, “Bloodsport” e “In Cythera” (que acabaria não sendo tocada no show). Após o soundcheck, que foi bem rápido e eficiente, aproveitamos para comprar merchandisingda banda. Eu peguei uma camiseta oficial da turnê e um quadro pintado à mão pelo baixista Youth com um retrato estilizado do Jaz Coleman, que estava sendo vendido durante a turnê.

Então os “brazilian gatherers” se posicionaram em frente ao palco colados na grade para aguardar o início do show. Abriram as portas e aos poucos o público foi enchendo a casa – pelo que soubemos mais tarde, o público foi de cerca de 900 pessoas. Um pouco antes das 20h soltaram a intro do show. As últimas turnês tem sempre sido iniciadas com a música “Masked Ball”, de Jocelyn Pook e tema do filme Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick. A banda entrou no palco e o público foi ao delírio. O show começou com o grande clássico “Love Like Blood”, do álbum NightTime, de 1985. Em seguida, veio a superdançante “European Super State” (do disco MMXII) e “Autonomous Zone” (do recente Pylon).

Uma pequena pausa para respirar e eles mandaram “Eighties”, clássico absoluto, também do álbum NightTime, que ficou anos mais tarde ainda mais famosa devido a um suposto plágio do Nirvana no riff da música “Come As You Are”. O show seguiu com “New Cold War”, também de Pylon, e “Requiem”, faixa que abre o primeiro disco do Killing Joke. Esst é uma que não pode ficar de fora de nenhum show deles. Um verdadeiro marco do pós-punk, que já foi regravada por bandas como Foo Fighters e Helmet.

A banda estava afiadíssima ao vivo. Todos demonstravam extrema alegria de estarem tocando para o público sul-americano pela primeira vez. Jaz tem carisma e presença de palco impressionantes e sabe como conduzir a plateia, sempre falando algumas frases polêmicas para anunciar a música seguinte. A próxima, “Follow The Leaders”, ele anunciou citando as eleições americanas e o new world order do presidente Trump. O show continuou com a instrumental “Bloodsport”, antes da qual Jaz comentou sobre a urgência do ser humano em caçar mais sua sede de sangue e seu instinto animal.

O ponto alto do show, na minha opinião, foi a escolha de algumas músicas não comuns no repertório. Caso de “Butcher,” de Whats THIS For…!, um de meus discos prediletos do Killing Joke (lembro até hoje quando ouvi pela primeira vez esse disco, em meados dos anos 1980, na casa da Moema, antiga empresária da minha primeira banda Epidemic; a sonoridade deste disco foi responsável pelo meu amor por essa banda e mudou completamente minha percepção musical na época). Na sequência vieram mais duas totalmente inesperadas: “Loose Cannon”, do disco sem título de 2003 (em que Dave Grohl gravou as baterias), e “Labyrinth”, de Pandemonium.

É impressionante sentir o poder da banda ao vivo. O som e o timbre da guitarra de Geordie é um show à parte, pesadíssimo, melódico e com os característicos acordes dissonantes, tirados das suas duas harpas douradas, as Gibson ES295, uma de 1952 e a outra 1953, (uma semiacústica icônica que ficou famosa por ter sido utilizada por Scotty Moore nas primeiras gravações de Elvis Presley e considerada a primeira guitarra do rock’n’roll). No baixo, o seminal produtor Youth, famoso por produzir disco álbuns e singlesde artistas como Kate Bush, U2, Siouxsie & The Banshees, James, Cult, Marilyn Manson, Art Of Noise, Erasure, Orb, PM Dawn, Dido, Verve e Charlatans, bem como ter gravado três álbuns com o projeto Fireman junto com ninguém menos que Paul McCartney. Na bateria, o mais velho dos integrantes, Big Paul, entrega batidas tribais nem um pouco convencionais, com ritmos perfeitos e com uma pegada e peso espetaculares. Jaz Coleman é o maestro bastardo, que conduz a plateia ao frenesi com suas danças e movimentos que mais parecem uma marcha para o apocalipse e seus olhos arregalados e vidrados como os de um louco.

O show seguia com “Corporate Ellect” do álbum MMXII; “Asteroid”, de 2003, na qual o público cantava em uníssono o refrão; e “The Wait”, uma das mais pesadas do show (gravada pelo Metallica em 1987, para o EP Garage Days). Fechando a primeira parte, um dos primeiros singles do Killing Joke: “Pssyche”, lado B do single Wardance, de 1979. O quarteto saiu do palco muito aplaudido e o público presente no Carioca Club começou a pedir mais, com muitos gritos de Killing Joke. Logo a banda retornou ao palco para o encorecom duas músicas do primeiro álbum (“Primitive” e “Wardance”) e mais a maravilhosa “Pandemonium”, faixa-título do disco homônimo. Eles largaram seus instrumentos e vieram todos para a frente do palco para se despedir da plateia, com seus sorrisos estampados no rosto mostrando como estavam felizes pela receptividade do público brasileiro em sua estreia por aqui.

Após o show ficamos todos em completo êxtase e alegria. A apresentação superou nossas expectativas. A banda estava em ótima forma, mas cansada, como contaram mais tarde (chegou pela pela manhã, vinda direto do México). Conversamos com outros fãs que estavam ao nosso lado e ficamos discutindo o set list, os pontos altos, a performance e o peso da banda ao vivo, etc.

Logo depois que Stephane e David desmontaram os equipamentos de filmagem, eu e Felipe fomos convidados para ir ao camarim e participar da Cheese Party. Stephane é amigo de longa data da banda e a acompanha em turnê desde 1991. Sempre que o Killing Joke toca na França, ele promove no camarim a famosa Cheese Party, regada a vinhos e queijos franceses. Eu já havia visto diversas vezes fotos deste acontecimento, mas nunca imaginei que um dia iria participar dele. Entramos no backstage supereufóricos e pudemos cumprimentar e agradecer a banda pelo excelente show. Jaz serviu uma taça de vinho para a gente e ficamos ali conversando sobre a gig. Perguntaram quais músicas foram nossas preferidas na noite e comentei que havia sido “Butcher” e “Labyrinth”, mas que faltaram algumas outras (“Change” era uma que tanto eu quanto o Felipe queríamos muito ter ouvido). Aproveitei o momento de descontração e saquei da minha mochila um pôster da banda que eu havia levado, já com a intenção de conseguir autógrafos. Este pôster oficial acompanha o livro Twilight Of The Mortals, registro fotográfico sobre o Killing Joke, lançado no final de 2017 pelo fotógrafo dinamarquês e amigo pessoal da banda Mont Sherar. Consegui pegar o autógrafo de todos os quatro. O mais curioso é que nenhum deles ainda tinha visto pessoalmente esse pôster, por isso foi muito emocionante a reação deles. Geordie, sempre o mais reservado de todos, foi muito simpático e cordial. Fez comentários sobre o pôster e sobre o livro – e eu pude elogiar sua técnica única de tocar guitarra. Mostrei para Youth o seu quadro que eu havia comprado no merchandising e ele agradeceu muito. Tive uma enorme surpresa quando Big Paul veio até mim e me presenteou com uma cópia autografada de seu recém-lançado disco solo Remote Viewing, gravado em parceria com Mark Gemini Thwaite (Gary Numan, Mission, Peter Murphy). Jaz, como sempre uma figura ímpar, mostrou-se simpático e falante e soltou sua característica gargalhada.

Como tudo que é bom acaba, a banda começou a arrumar seus pertences e o tour manager veio avisar que logo mais iriam embora, pois o voo para Buenos Aires seria às três horas da madrugada e eles não teriam muito tempo para descansar. Saímos do Carioca Club e lá ainda estavam uns 50 fãs aguardando. Como era de se esperar, eles atenderam todos com muita cordialidade. Tiraram fotos, deram autógrafos e muitas risadas; uma atitude muito bacana. Ainda acompanhei Stephane e David até o hotel para ajudar a carregar os equipamentos de filmagem e depois fui embora para casa do meu primo. O próximo encontro estava marcado para as 8h30 da manhã do dia seguinte em Guarulhos. Nosso avião para Buenos Aires sairia às 10h30.

killingjoke2018davidstephanegugu

Buenos Aires, 24 de setembro

Encontrei Stephane e David no aeroporto, fizemos o check in e embarcamos para a segunda parte de nossa aventura com o Killing Joke. Os próximos dois dias seriam emocionantes: teríamos o show na segunda e um dia inteiro livre com a banda na terça.

Chegamos em Buenos Aires às 14h30, pegamos um uber e fomos para o hotel. Deixamos nossas malas e em seguida fomos para o local do show, o pequeno e aconchegante espaço Roxy La Viola, no bairro Palermo e apenas a duas quadras de distância do nosso hotel. Ao chegarmos, encontramos com toda a equipe: Diamond Dave, Damon Head, Waynne Smart e o tour manager Christopher. Stephane e David começaram a montar os equipamentos de filmagem enquanto a equipe preparava o palco para o soundcheck.

Durante a montagem tive a oportunidade de chegar bem próximo das duas Gibson ES295 de Geordie. Como é incrível ver de perto os detalhes dessa verdadeira obra de arte. As guitarras têm mais de 65 anos cada e Geordie usa as mesmas desde 1981. Portanto, só com ele elas já estão há pelo menos 37 anos. Ambas foram utilizadas em todos os álbuns do Killing Joke desde então. Deu pra ver todos os pequenos detalhes e os desgastes das mesmas: a ferrugem que já se espalhou pelos captadores e pelas ferragens, a pintura já totalmente craquelada… Foi emocionante chegar perto destas armas de guerra, responsáveis pelo som único e característico do Killing Joke.

Tudo preparado para a passagem de som e filmagem, ficamos em frente ao Roxy aguardando a banda e aos poucos foram chegando os ansiosos fãs argentinos. Assim como em São Paulo, quando a van chegou trazendo os músicos foi a mesma festa. Eles já desceram atendendo todos que estavam em frente ao local com fotos, autógrafos, muitas risadas, altas conversas. Prestei bastante atenção na atitude da banda nesse momento e também no semblante dos fãs ao encontrarem com seus ídolos. Eles receberam todos com muito entusiasmo e cordialidade. Após atenderem os argentinos, entramos todos para o soundcheck e os testes de filmagem. Ficamos eu Stephane e David num camarote um pouco mais elevado do lado direito, bem próximo ao palco. Ali tínhamos uma posição privilegiada para assistir ao show e também para o registro das filmagens. A passagem de som foi bem rápida e tranquila: tocaram “Love Like Blood”, “SO36” (que não entrou no set de São Paulo), e novamente “In Cythera” (que só foi executada uma única vez ao vivo durante a turnê no México, mas a qual tivemos a oportunidade de ouvir ao vivo nos dois soundchecks). Passagem de som finalizada, ficamos sentados no camarote aguardando a abertura da casa. Neste momento vieram Jaz, Geordie e Big Paul e sentaram-se ali conosco. Paguei uma rodada de cerveja para todos e ficamos conversando. Como era de se esperar, eu estava com um sorriso de orelha a orelha. Jaz veio até mim e perguntou porque eu não parava de rir (por que será?). Estava praticamente vivendo um sonho acordado, acompanhando minha banda preferida e tendo esse contato mais próximo com todo o processo que envolve uma turnê, viagem, montagem, passagem de som, a espera antes de começar o show. Emocionante!

Abriram as portas do Roxy e o público começou a entrar. Eles continuaram sentados ali no camarote (apenas Youth ficara no camarim). Atenderam rapidamente mais alguns fãs para fotos e logo entraram para o backstage. Aos poucos a casa enchia e dava para sentir a emoção do público. Assim como no Brasil, era a primeira vez que o Killing Joke se apresentava na Argentina e muita gente aguardava havia anos por esse momento. Um pouco diferente de São Paulo, cuja média de público era de quarentões, em Buenos Aires a a idade aparentava ser menor. Vi vários jovens na plateia ostentando camisetas não só do Killing Joke mas também de Alien Sex Fiend, Nick Cave, Ministry, Joy Division. O local ficou abarrotado de gente. Segunda consta, o show foi sold out, atingindo a capacidade da casa, de 500 lugares.

Ansiedade aumentando, começou a intro “Masked Ball” e o público ficou eufórico. A banda entrou no palco completamente ovacionada pela plateia. O show começou com “Love Like Blood” e e o público argentino logo comprovou o porquê serem considerados um dos mais calientes das américas: todo mundo pulando e cantando junto foi de arrepiar. O set seguia praticamente igual do dia anterior em São Paulo: “European Super State”, “Autonomous Zone”, “Eighties” (nessa ninguém ficou parado; o público realmente estava de parabéns por tamanha empolgação). Consequentemente, a banda recebia essa energia do público e retribuía com uma performance eletrizante e com mais garra ainda. Teve ainda “New Cold War”, “Requiem”, “Follow The Leaders” e “Bloodsport. Novamente o ponto alto do show na minha opinião, foi “Butcher”, do álbum Whats’ THIS For…!. Esta música ao vivo é sublime. Pós-punk minimalista e pesado. O clima e a letra são de revirar o estomago. “Butcher the womb and expect her to bear”.

O show prosseguia com “Loose Cannon” (dedicada por Jaz Coleman ao “true hero” Simon Bolivar), “Labyrinth”, “Corporate Ellect”, “Asteroid”, “The Wait”. Até os quatro encerrarem a primeira parte com a melhor versão de “Pssyche” que eu ouvi na vida. Como tenho todos os discos ao vivo do Killing Joke e diversos bootlegs, posso afirmar que nunca tinha ouvido uma versão tão pesada e coesa como essa. O curioso dessa canção é que é a única na discografia da banda que tem partes distintas cantadas primeiro pelo baixista Youth (depois Jaz Coleman canta a segunda parte e ela finaliza com o baterista Big Paul). Simplesmente sensacional!

Mal a banda deixou o palco era o ouvido uníssono o público argentino gritando Killing Joke e pedindo mais. No retorno dos músicos, mais duas surpresas: a hipnotizante “SO36” (do primeiro álbum, de 1980) e “The Death And Ressurection Show”, de 2003. Ambas não haviam sido executadas em São Paulo. Em seguida, “Wardance” e “Pandemonium”, na qual Jaz já profetizava, nos anos 1990, os tempos sombrios que viriam assolar o planeta (“I can see tomorrow, I can see the world to come, I can see tomorrow, hear the pandemonium”). Novamente tenho que atestar que o público argentino foi espetacular. Não parou um minuto sequer de pular e cantar junto. Em São Paulo foi tudo bacana, mas a plateia não estava tão empolgada (dias depois fui saber através dos amigos Stephane e David, que em Santiago a recepção fora ainda mais insana do que em Buenos Aires e que a própria banda considerara o melhor show da turnê até então).

Desmontamos os equipamentos de filmagem enquanto a equipe desmontava o palco. Aproveitei para conversar com alguns argentinos sobre a crise e a falta de emprego no pais, e perguntar sobre o paro geral que aconteceria no dia seguinte (tudo iria fechar, inclusive o aeroporto, todos protestando contra o péssimo governo Macri). Pude sentir pelos comentários que lá a situação está ainda pior do que no Brasil.

Fomos até o camarim para preparar mais uma edição da Cheese Party, mas como o local era muito pequeno, ficou decidido que a festa seria no hotel onde a banda estava hospedada, o Scala, na avenida Bernardo de Irigoyen, bem no centro de Buenos Aires.

Assim como em São Paulo, após o show, a banda saiu do Roxy e atendeu todos que aguardavam lá fora, sem frescuras e extremamente sorridentes e simpáticos. Ficamos curtindo a empolgação dos fãs. A banda se despediu do público, entrou na van e foi embora. Seguimos até o nosso hotel para descarregar os equipamentos e em seguida nos dirigimos para o Scala. Chegando lá, já encontramos com o Geordie (e algumas groupies) em frente ao hotel, entornando no bico, uma garrafa de tequila. Segundo relatos da própria banda, ninguém consegue acompanhar o Geordie quando o assunto é bebida. Por isso, nem ouse tentar.

Subimos para o quarto de Jaz Coleman e lá começaram os preparativos para mais uma edição da Cheese Party. Stephane preparou uma mesa com pães, torradas e seu kitde aparatos para servir os queijos. Abrimos algumas garrafas de vinho, taças foram enchidas para todos e a festa começou. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo: festinha priva no quarto do Jaz, com a banda e equipe. Incrível! Youth entrou no quarto e colocou um som no seu celular ligado naquelas pequenas caixinhas JBL. Todo mundo numa sintonia muito bacana. Conversei bastante com todos da banda e equipe. O tour manager perguntou de onde eu era no Brasil. Quando falei que era de Curitiba, ele comentou que já havia vindo para cá diversas vezes trazendo shows de bandas como Exodus, Destruction, Grave Digger, Testament, Incubus, entre outras. Enquanto isso, Stephane ia cortando os queijos e servindo a todos um a um, sempre comentando um pouco sobre cada queijo, um melhor que o outro. Mostrei a Jaz minha tatuagem da aranha que fiz no Peru, quando estive em Nazca em 2011. É a mesma que o vocalista tem nas costas do macacão que usa no show. Contei que, assim como ele, eu havia visitado os mais importantes sítios arqueológicos da Bolívia e Peru, como Tiwanaco, lago Titicaca, linhas de Nazca, cemitério de Chauchila, e as ruínas de Olantaytambo e Macchu Pichu. Conversamos um pouco sobre as civilizações pré-Incas e todas as maravilhas e mistérios dos Andes.

Como não era permitido fumar no quarto, descemos para a área externa do hotel e fomos acompanhados por Jaz Coleman, que queria um charuto. Ficamos ali por uma meia hora conversando sobre o show, a escolha do set list e assuntos aleatórios, Ele comentou que a banda vai fazer mais uma turnê em 2019 e pretendem voltar para a América do Sul porque estavam adorando a receptividade dos fãs.

Subimos novamente ao quarto para mais uma rodada de queijos e vinhos e mais conversa e diversão. Aos poucos o vinho e os queijos foram acabando e o pessoal dispersando, cada um para seu quarto. Já eram quase 3 horas da manhã e decidimos também ir embora para nosso hotel para descansar. O dia tinha sido intenso e teríamos uma terça-feira inteira pra curtir com a banda. Nos despedimos e marcamos de encontrá-los no hotel na manhã do dia seguinte para tomarmos café juntos. Chamamos um uber e fomos embora para o nosso hotel. Demorei pelo menos uma hora para conseguir relaxar e pegar no sono. As imagens dos acontecimentos daquele dia ficavam constantemente passando pela minha cabeça como um filme. Eu estava eufórico e muito feliz, mas precisava descansar. E o dia seguinte seria ainda mais emocionante.

killingjoke2018venueargentina

Buenos Aires, 25 de setembro

Acordamos, nos encontramos no lobby do hotel, e fomos direto para o Scala. Era terça-feira em Buenos Aires, dia do paro geral. Estava tudo fechado, parecia feriado. Chegamos no Scala e fomos para a área do café. Estavam lá Big Paul e Diamond Dave e um pouco depois chegaram Jaz, Geordie e Roi. Youth não apareceu. Ficamos mais de uma hora tomando café juntos e conversando os assuntos mais variados possíveis: política, trabalhos, projetos futuros, viagens, filhos, casamentos, divórcios.

Na hora do almoço cada um foi para um lado e ficamos somente eu, Stephane, David e Jaz. Ele pediu que a gente o levasse para comer churrasco argentino. Pegamos um táxi em frente ao hotel (me sentei no banco de trás, entre Jaz e David) e pedimos que o motorista nos levasse para Puerto Madero para procurar algum lugar que estivesse aberto. Praticamente todos os restaurantes estavam fechados. Avistamos um que estava aberto e pedimos para ele nos deixar em frente. O nome do local era Rodizio. Era especializado em carnes argentinas, buffet de saladas, aperitivos e carnes servidas no rodízio. Sentei ao lado do Jaz Coleman e solicitamos a carta de vinhos, Jaz pediu que escolhêssemos o melhor Malbec que tivesse na carta, o garçom nos indicou alguns e então escolhemos o Rutini Malbec. Jaz nos contou que quando se trata de vinho ele toma somente três taças porque a quarta traz azar.

Antes de nos servirmos, ficamos ouvindo as teorias e as histórias mais absurdas que ele tem para contar. Falou muito sobre os illuminati, os Rothschild, os Rockfeller, o 11 de Setembro, UFOs e estações alienígenas no espaço, família, problemas com as antigas gravadoras e promotores da banda e o recente cancelamento do box em vinil – ele estava muito puto com os responsáveis da atual gravadora. Perguntei se estava ciente sobre a crise no Brasil e ele respondeu com muito conhecimento de causa, comentou sobre o golpe e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, apontou as grandes corporações internacionais e principalmente os Estados Unidos de serem responsáveis por instalar essa crise no país bem como em toda América Latina. Jaz viaja um pouco nas suas teorias de conspiração, mas é uma pessoa inteligentíssima e cativa a atenção quando está falando.

Decidimos nos servir no buffet e começou o rodizio, o que eu prontamente ia traduzindo do espanhol para o inglês para eles saberem o que estavam servindo. Sinceramente, esse rodizio deixou a desejar. Nós, brasileiros, que estamos acostumados com churrascarias, conhecemos e sabemos quando uma carne está bem feita. Poucas opções de carnes estavam boas, como a picanha e a costela, mas na grande maioria, as carnes que foram servidas, estavam, como eles mesmo disseram, “chewy”, duro de mastigar. Jaz não gostou!

Finalizamos nosso almoço e fomos dar uma volta a pé por Puerto Madero. Em seguida tomamos um táxi de volta para o hotel. Lá chegando fomos para a área externa para mais uma seção de charutos com o mestre Coleman. Ele trouxe um kit portátil muito bacana, com várias opções de charutos e cortadores. Nesta hora fomos acompanhados por Diamond Dave e por Maria Ekaterina, uma garota argentina que estava no show no dia anterior e também era megafã da banda. Estava uma tarde agradabilíssima em Buenos Aires e o tempo parecia que estava suspenso. O tempo todo eu refletia sobre tudo que estava acontecendo. Estava muito emocionado de ter esse contato mais próximo e mais humano com meus maiores ídolos e compreender que, ao final do dia somos todos iguais, todos temos nossas alegrias, problemas, dilemas.

Quem acompanha o Killing Joke sabe que Jaz Coleman, além do seu trabalho com a banda, é uma conceituado maestro e arranjador. Ele toca violino, piano e instrumentos de sopro. Já gravou diversos projetos solo e paralelos à banda, como Songs From The Victorious City, (álbum de world music, gravado no Cairo com a musicista Anne Dudley, do Art Of Noise) e Oceania (disco de música tradicional maori, gravado na Nova Zelândia, onde ele vive há mais de vinte anos, em parceria com a cantora Hinewehi Mohi. Uma curiosidade deste álbum: a música “Kotahitanga” foi tema da novela Uga-Uga, exibida pela Rede Globo em 2000. Com a mesma Mohi, Jaz foi o responsável em alterar o hino nacional da Nova Zelândia do inglês para a língua maori nativa. Em 2003, ele escreveu e arranjou todas as orquestrações do álbum Harem da cantora Sarah Brightman. Escreveu e arranjou os álbuns sinfónicos Riders On The Storm: The Doors Concerto, com Nigel Kennedy; Us & Them: Symphonic Pink Floyd e Kashmir: Symphonic Led Zeppelin, ambos com a produção de Youth; e Symphonic Music Of The Rolling Stones. Produziu ainda singlese álbuns de bandas como Mission, Shirad, Cechomor, Zilch, Nitzer Ebb e Front Line Assembly, além de ter lançado, em 2003, um livro superbacana chamado Letters From Cythera, que vinha acompanhado do sua mais recente obra solo orquestrada, The Island – Symphony No.2, gravada pela orquestra filarmônica de Auckland.

O próximo projeto do vocalista, previsto para o final deste ano, é o disco The Great Invocation – A Killing Joke Symphony, integralmente escrito e arranjado por Jaz Coleman e gravado pela Filarmônica de São Petersburgo na Rússia. Enquanto estávamos conversando, ele entrou nesse assunto e falou um pouco sobre o novo álbum. Contou que já havia finalizado as mixagens e masterizações e faltavam somente alguns últimos detalhes para o lançamento. De repente, ele se levantou e convidou todos que estavam ali na mesa para subirem no seu quarto para ouvir as gravações. Então lá fomos nós para mais uma aventura: eu, Stephane, David, Diamond Dave e Maria. Sentamos todos na antessala do quarto de Jaz e ele ligou o celular nas caixinhas JBL para dar início à audição, em primeira mão, do “Symphonic Killing Joke. Ficamos os seis em completo silêncio ouvindo o novo álbum, ninguém sequer respirava direito. Jaz ficou praticamente o tempo todo com os olhos fechados movimentando as mãos no ar, regendo a orquestra imaginária enquanto rolavam as músicas. Em alguns momentos ele abria os olhos e chamava nossa atenção para que atentássemos a algum detalhe da música ou alguma mudança mais drástica. A experiência foi muito emocionante. Ficamos uma hora e meia (que é a duração do álbum) juntos com o criador, ouvindo sua obra mais recente. Em tempos de era digital, na qual os discos costumam vazar na internet, é mais do que normal ouvir algo antes do seu lançamento. Mas ouvir pela primeira vez uma obra ao lado de quem criou e escreveu foi uma das coisas mais fantásticas que já me aconteceu.

Após a audição ficamos todos muito emocionados e com lágrimas nos olhos, tamanha a beleza e sutileza da obra. Elogiamos muito o trabalho, fizemos nossos comentários. Jaz perguntou a cada um de nós qual música tínhamos gostado mais e o porquê. Eu fiquei muito impressionado com as versões de “Raven King”, “Intravenous” e “Adorations”, que foram as que mais me marcaram nesta primeira audição. Disse a ele que fora o momento mais incrível que já tinha acontecido na minha vida e que nunca mais iria esquecer aquele dia e toda vez que eu ouvisse o álbum dali em diante sempre iria lembrar desta tarde memorável ao lado de pessoas maravilhosas.

Descemos novamente para a área externa do hotel para mais alguns cafés, cigarros e charutos e continuamos a conversar sobre o álbum sinfónico. Jaz comentou que pretende lançar outros no futuro e que até já começou a escrever alguns arranjos. Nos contou também sobre como foi difícil a escolha das músicas num repertório tão extenso, o processo de escrever as partituras, as escolhas de instrumentos para cada parte e sobre sua estadia na Rússia durante as gravações com a Filarmônica de São Petersburgo

Já estava começando a anoitecer quando fomos todos para o restaurante do hotel, pedimos algumas cervejas e continuamos a conversar com Jaz. Ele contou que pretende em 2019 realizar um evento especial para os gatherers. A ideia são acampamentos em locais sagrados nos Andes, onde acontecerão visitas guiadas, leituras, música, cerimonias ritualísticas. Uma verdadeira celebração entre os gatherers!

Aos poucos foram aparecendo o restante dos integrantes da banda e equipe e todos decidiram jantar ali mesmo no hotel. Dei várias dicas de lugares para se visitar em Santiago. Falei que tinham que visitar o Cerro Bella Vista para ter uma visão privilegiada da cidade de Santiago. Também sugeri que almoçassem no mercado central de Santiago, especializado em frutos do mar, para provar o delicioso King Crab e o Ceviche. O local vale a visita pois tem uma arquitetura muito bonita,  e o projeto foi desenhado por Gustave Eiffel. Espero que eles tenham tido a oportunidade de ir, já que na manhã seguinte se dirigiriam para Santiago e, assim como em Buenos Aires, teriam um dia livre na cidade.

Após o jantar, Jaz Coleman se despediu e foi para o seu quarto. Fomos então até o lobby do hotel e ficamos tomando rum e conversando bem descontraidamente com Big Paul e Diamond Dave, um pouco depois se juntaram a nós Damon Head e Waynne Smart. Todos foram muito amáveis conosco. Chegou nossa hora de nos despedir e irmos embora. Foi muito emocionante receber um abraço carinhoso de todos, banda e equipe, me desejando boa viagem, dizendo que eu era um cara muito legal e que esperavam me encontrar na próxima turnê. Big Paul me perguntou qual seria a primeira coisa que eu faria ao chegar no Brasil e eu lhe disse que seria ver minha filhinha Kali, pois eu estava com muitas saudades dela. Fomos então embora para nosso hotel. Na manhã seguinte nós também nos despediríamos: Stephane e David seguiriam a banda em Santiago e Lima, eu retornaria ao Brasil.

De todas as pessoas as que mais tenho que agradecer por esses três dias foram esses figuras, Stephane e David, dois seres extremamente cordiais, inteligentes, engraçados e muito companheiros. Apesar de nunca termos nos conhecido pessoalmente e da barreira da língua, parecia que já nos conhecíamos havia muitos anos. Os dois eram uma comédia. O tempo todo faziam piadinhas entre eles (a richa antiga entre Inglaterra e França!), tirando selfies fazendo caretas, rindo que nem palhaços – tanto é que eu os apelidei de Inspetor Clouseau e Mr Bean, de tão engraçados que eram. Ao nos despedirmos no aeroporto de Buenos Aires na quarta-feira pela manhã, ambos me convidaram para visita-los no exterior, quando eu quiser as portas estarão abertas. São esse tipo de amizade que só o Killing Joke consegue proporcionar entre os “gatherers”. Eu nunca esquecerei os momentos que passamos juntos. Foi graças a eles também que tive o acesso e contato tão próximo com a minha banda preferida.

E assim acabou minha aventura com o Killing Joke. Retornei para o Brasil e já no avião comecei a planejar escrever esse relato da viagem. Foram três dias muito intensos ao lado de pessoas bacanas e da melhor banda do mundo. All hail the almighty Joke!

killingjoke2018guitarragerodiekillingjoke2018gugujaz.jpg