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O Destino de uma Nação

Gary Oldman brilha como o desacreditado Winston Churchill em suas semanas iniciais como o primeiro ministro britânico na Segunda Guerra

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Winston Churchill tinha 65 anos quando foi nomeado o primeiro ministro britânico em 1940. Era um político experiente, embora extremamente desacreditado. De perfil bonachão e apreciador incorrigível de charutos e whisky – em todas as horas, inclusive – ele vinha de uma mancada atrás da outras nas decisões tomadas em nome de comissões formadas pelo Parlamento em relação à política externa envolvendo as colônias do reino. Por isso quando seu nome foi ventilado para ser o novo ocupante do cargo máximo da casa, não foram poupadas ridicularizações e dúvidas ferrenhas quanto ao seu desempenho. Principalmente por causa dos ferrenhos discursos motivacionais que pareciam mais estar perto do nonsense do que o possível a ser feito pela sua nação.

Fato é que Churchill só teve sua candidatura lançada pelo Partido Conservador porque o navio britânico já estava afundando. Ele possuía um bom diálogo com a oposição, que poderia vir a lhe dar apoio nas decisões extremas. Este era exatamente o ponto onde seu antecessor Neville Chamberlain falhava. Por isso, Winston representou a grande aposta para que o Reino Unido enfrentasse o período da Segunda Guerra Mundial sem uma perda representativa de poder dentro do continente europeu. Enquanto as tropas aliadas à Alemanha de Hitler ampliavam seus domínios – tomando conta de países como Dinamarca, Polônia, Checoslováquia e até mesmo a França – a preocupação era a de que os nazistas não avançassem o canal da Mancha e também passassem a ocupar o território britânico. O momento pintava um futuro próximo com as cores mais sombrias possíveis para a monarquia, os políticos e a população da ilha.

O filme O Destino de Uma Nação (Darkest Hour, Reino Unido, 2017 – Universal Pictures) trata justamente desta tensão no centro político da ilha nos meses de maio de 1940. Optando pelo incisivo recorte historiográfico que vai do começo de maio ao começo de junho, o diretor Joe Wright – responsável por boas adaptações de livros como Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação e Anna Karenina – se arrisca numa cinebiografia com fortes tons literários. Humaniza Winston Churchill ao máximo, a ponto de apresentar toda a tensão política pelo viés de seu cotidiano, dividido entre a família, sempre lhe dando o máximo de apoio, apesar de várias de suas atitudes grosseiras e do ego político sempre falando mais alto em sua vida, e os bastidores do poder parlamentar, onde acaba sendo aos poucos mais humanizado pela fiel secretária Elizabeth Layton (Lily James).

No período de quatro semanas, toda a aflição para salvar as tropas britânicas confinadas pelos alemãs na praia de Dunkirk, situada no noroeste francês, é mostrada. Tentativas fracassadas de alianças internacionais, telefonemas e visitas reais fora do horário convencional e ideias vindas ao acaso e de origens nada convencionais são bons elementos que acirram ainda mais a tensão vivida por Churchill nas duas horas de filme. Nada se fala sobre o período posterior ao supesso da Operação Dynamo em Dunkirk. Nem mesmo do resto de seu primeiro mandato no poder (até julho de 1945) ou de seu retorno ao posto anos depois (entre 1951 e 1955). O Destino de uma Nação mostra tudo de forma contundente e urgente e o espectador sente na pele o que Churchill também sentiu: a pressão conferida pela velocidade dos imparáveis ponteiros do relógio. Vale salientar também a boa sacada de Wright por pouco mostrar de imagens de guerra. Aliás quanto a isso, meses antes Christopher Nolan já se mostrou de forma brilhante no épico Dunkirk, sobre o mesmo assunto.

E é esta inversão de ponto de vista de um mesmo fato histórico que possibilita ao protagonista Gary Oldman brilhar intensamente. Não é fantástica apenas a sua transformação física em Churchill com direito a um refinado trabalho de maquiagem e figurino. A atuação também salta logo aos olhos, com os gestos e entonações vocais. Que Oldman sempre foi um ator de primeira grandeza isto já não é novidade para ninguém. A questão é que como o primeiro ministro que salvou o Reino Unido do fiasco na Segunda Guerra Mundial ele entra com tudo na temporada de premiações para fazer um rapa geral. Começou, no primeiro domingo de 2018, levando um até então inédito Golden Globe na sua carreira. É o grande favorito para terminar a jornada com outros importantes troféus, inclusive o Oscar – para o qual fora indicado uma vez só e cuja estatueta também não tinha até a virada do ano.

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