Movies

Luta por Justiça

Hollywood volta a escancarar o racismo estrutural na sociedade norte-americana com cruel história verídica

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Warner/Divulgação

Não é de hoje que o cinema escancara a profunda discrepância social decorrente do preconceito. Filmes como Histórias Cruzadas (2011), Eu Não Sou Seu Negro (2016) e Infiltrados na Klan (2018), são exemplos de produções audiovisuais iluminando questões que as pessoas preferem esquecer. Baseado no livro autobiográfico de Bryan Stevenson, este longa soa como algo que já foi feito antes. Longe de ser inovador, o drama jurídico Luta por Justiça (Just Mercy, EUA, 2019 – Warner) pode não passar a sensação de algo inédito, mas é urgente e mais necessário do que nunca.

Dirigido por Destin Daniel Cretton, Luta por Justiça é silenciosamente comovente e em nenhum momento esconde para que veio: escancarar o racismo estrutural enraizado em um sistema socioeconômico fomentado desde a escravidão, que ainda carrega as consequências do passado. Não é agradável, não foi feito para ser. Seu objetivo é justamente deixar o espectador desconfortável, revoltado, impotente e muitas vezes com vergonha, e é muito bem sucedido em passar sua mensagem. Reativa a discussão sobre a pena de morte nos EUA que, assim como todos os problemas, afeta, principalmente, os menos favorecidos.

A história acompanha a vida de Bryan (Michael B. Jordan), um advogado idealista recém-formado em Harvard que chega ao Alabama no final dos anos 1980 com o sonho de mudar o mundo. Seu objetivo é amparar prisioneiros condenados à pena de morte que jamais receberam a devida assistência legal. Junto à ativista social Eva (Brie Larson), ele funda uma organização que fornece representação legal a prisioneiros que possam ter sido erroneamente condenados e garante a defesa de qualquer pessoa no estado num caso de pena de morte. Nesse contexto, Stevenson não está apenas desafiando uma única concepção, mas também o profundo legado que a escravidão deixou no país. Um de seus primeiros casos é o de Walter McMillian (Jamie Foxx), condenado pelo assassinato de uma jovem branca de 18 anos. Conhecido pela família como Johnny D, ele, a princípio, recusa o auxílio de Stevenson, desesperançoso porque vários advogados prometeram a McMillian coisas que nunca cumpriram.

Mesmo o advogado sendo um dos protagonistas da história, por sorte essa não chega a ser uma cinebiografia. Ainda que inevitável a admiração pela coragem e dedicação de Stevenson, os espectadores não necessariamente sentem que o conhecem. Jordan o interpreta como um homem de postura heróica, cujas motivações e caráter jamais serão questionados. Mas esse tipo de personagem vem com restrições. Como resultado da clássica jornada do herói hollywoodiano – em que o personagem principal, honrável, passa por grandes dificuldades até alcançar o reconhecimento e prestígio –, o foco da história acaba permanecendo muito no advogado “salvador da pátria” e pouco em quem talvez merecesse mais atenção. Para além da falta de representatividade efetiva de papéis femininos na produção (como Eva, que não só carece de um arco próprio como parece que entra em cena com o único objetivo de enaltecer o protagonista) e os conflitos pessoais de Minnie (a esposa de Johnny D, interpretada por Karan Kendrick), que, por sua vez, não são abordados ou desenvolvidos em um certo ponto da narrativa, é Stevenson quem recebe consolo de Johnny D e não o contrário. Além disso, ele nem sempre é marcante. Todos seus conflitos internos são anunciados por meio de discursos por vezes exagerados e momentos carregados de trilha sonora.

O roteiro propositalmente acessível de Cretton e Andrew Lanham deixa clara a denúncia contra as injustiças institucionalizadas na sociedade norte-americana e a real emergência no combate ao racismo enraizado em um país que se autoproclama “país de oportunidades iguais”. Seus momentos mais notáveis – além da excepcional atuação de Jamie Foxx e Rob Morgan como Herbert Richardson, outro preso à espera da execução – está nos toques poéticos mais sutis, nos silêncios que permitem com que a dor e o sofrimento quebrem a quarta barreira e cheguem até o espectador como um soco no estômago. O longa é salvo de ser um drama burocrático de tribunal quando sua vitalidade aparece, ironicamente, nas cenas do corredor da morte, quando é aprofundado pelas fortes performances de Foxx e Morgan, ainda que fraqueje na abordagem dos supostos crimes de Herbert e Anthony (O’Shea Jackson Jr). Mesmo que Foxx pareça subutilizado, o ator transmite a vulnerabilidade do personagem, sua essência, sua raiva, com pequenos e sutis gestos, deixando as cenas emocionais ainda mais marcantes. Mas é Morgan que causa maior comoção. Seu personagem é um veterano de guerra com TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) que não nega seus atos e a mistura de dor e sofrimento que ele sente é devastadora. 

Tentando manter-se fiel aos fatos reais, Cretton opta por permanecer dentro de limites bastante convencionais, com planos e estratégias narrativas comuns. A obra não pode ser considerada uma produção tecnicamente impressionante. É o clássico case de quando a mensagem se sobressai à forma. O cineasta decide-se pelo seguro, mas consegue apresentar um filme forte e comovente por conta da brutalidade de sua história verdadeira. É uma narrativa admirável, mas cinematograficamente limitada. Se tivesse sido mais ousada, mantendo a complexidade das cenas do corredor da morte, o resultado poderia ter sido uma obra extraordinária em todos os sentidos.

Luta por Justiça é construído para reter o público dentro de uma história que seria cruel demais para lidar. Felizmente, o filme não é uma simples declaração de que o racismo deve acabar. É uma sufocante e brutal representação, profundamente comovente, do trauma vivido pelas vítimas e praticantes desse preconceito. Mais do que constatar um fato ocorrido na história, confronta posições e ideais sociais. Nunca se fez tão necessário falar sobre os tabus que a sociedade quer esquecer. É no silêncio que a intolerância se torna normal. Por mais que a produção retrate um episódio do passado, infelizmente ela encontra diálogo direto com a nossa atualidade.

Music

KT Tunstall – ao vivo

One girl band britânica esquentou a noite dominical de garoa em Curitiba com simpatia, bom repertório e talento

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Texto por Leandro Delmonico

Foto: Janaina Monteiro

Em sua primeira passagem por Curitiba, a cantora e talentosa instrumentista KT Tunstall cumpriu a tarefa de esquentar uma noite de garoa em pleno domingo à noite. Para isso, só precisou contar com o cenário da Ópera de Arame e seu imenso carisma.  A escocesa, dona de um dos grandes hits dos meados dos anos 2000, “Suddenly I See”, subiu ao palco pouco depois das 20h do último dia 10 de novembro, com um grato sorriso no rosto e energia de sobra pra comandar sozinha uma apresentação pra cerca de duas mil pessoas.  Com sua “banda”, formada pelo próprio violão e vários pedais de looping (diretamente de Taiwan, como costuma brincar), KT chutou a porta com duas faixas do seu primeiro álbum Eye To The Telescope (“Miniature Disasters” e “Other Side Of The World”).

De imediato, demonstrou contato com a plateia. Leu diversas frases em português e contou sobre os pedidos diários dos brasileiros para que ela retornasse ao país – o que só acabou acontecendo onze anos após sua estreia por aqui. A cantora voltou para divulgar seu último álbum Wax (lançado em 2018 e o segundo de uma trilogia sobre corpo, mente e alma), que deu as caras em “Little Red Thread”, logo a terceira canção do set. Tunstall continua trabalhando firme em novas canções, embora seja árdua a tarefa de repetir o sucesso comercial dos primeiros anos da carreira. Isso, aliás, é algo com o que ela realmente parece não se preocupar.

A qualidade da cantora pôde ser comprovada com a distribuição dos seus álbuns pelo repertório. As baladas “Made Of Glass” e “Fell I All” relembram o disco Invisible Empire//Crescent Moon (2013), que ainda teve boa presença nas paradas britânicas. Do penúltimo trabalho, Kin (2016), apenas uma música “It Took Me So Long To Get Here But Here I Am”.

O show também serviu para reafirmar o ótimo domínio de palco da artista. Na metade final da apresentação ela que o início da carreira ocorreu no improviso das ruas,  tanto que até hoje se surpreende pelo alcance mundial das suas canções. KT brincou com o riff de “Seven Nation Army” (White Stripes) e demonstrou sua paixão pela música dos anos 1980, lembrando o sucesso “Walk Like An Egyptian” (Bangles).  No discurso ainda sobrou espaço para comentar o momento caótico do planeta e pedir atenção com a Amazônia. A cantora disse acreditar no amor e no poder das futuras gerações, além de ter prometido voltar em breve ao país.

Para bater o martelo, concentrou várias faixas do dois primeiros álbuns no final, como “Saving My Face” e “Hold On” (foi um pecado não tocar “If Only”!). Claro que o grande hit “Suddenly I See” foi reservado para a saideira. Afinal, a canção inspirada em Patti Smith ajudou a levar mais uma mulher forte ao topo da música.

Set list: “Miniature Disasters”,  “Other Side Of The World”, “Little Red Thread”, “It Took Me So Long To Get Here But Here I Am”, “Black Horse And The Cherry Tree”, “Invisible Empire”, “Made Of Glass”, “Heal Over”, “Feel It All”, “Another Place To Fall”, “The River”, “Hold On”, “Stopping The Love”, Bis: “Funnyman”, “Saving My Face”, “Universe & You” e “Suddenly I See”.

Music

Philippe Zdar (1967 – 2019)

Integrante do duo Cassius e produtor de discos de bandas como Phoenix e Franz Ferdindand deixa belo legado à música do Século 21

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Texto por Hermes Pons

Foto: Reprodução

A história da música é cheia de heróis anônimos ou pouco conhecidos. Nascido Phillippe Cerboneschi, o produtor Philippe Zdar já era um jovem talentoso no fim dos anos 1980, quando produzia faixas para o rapper MC Solaar com seu parceiro Hubert Blanc-Francard. Sua paixão pelo techno de Detroit e a house de Chicago levou à criação com Étienne de Crécy do projeto Motorbass (que mais tarde daria nome ao seu estúdio de gravação), e do duo Cassius com Blanc-Francard, responsável pelos hinos de pista “Feeling For You” e “1999”, do álbum também chamado 1999. Esses projetos foram fundamentais para o surgimento do french touch, movimento da house francesa que se utilizava de elementos do funk e do hip hop e trouxe ao mundo artistas como Daft Punk e Air – para ficar em apenas dois exemplos megaconhecidos.

Mas a habilidade de Zdar como produtor ia além da música eletrônica. Ele foi o responsável por consolidar o trabalho do grupo Phoenix, oferecendo conselhos e seu estúdio ainda em construção para os ensaios do primeiro álbum da banda, United, em 2000. Dez anos mais tarde, Phillipe e Phoenix ganhariam o Grammy de melhor álbum de música alternativa por Wolfgang Amadeus Phoenix (que gerou ao mundo os hits “1901” e “Lisztomania”). A lista de trabalhos dele não para aí: entre produção, mixagem e remixes, Zdar trabalhou com Beastie Boys, Chromeo, Rapture, Justice, Fatboy Slim, Cut Copy, Sebastien Tellier, Two Door Cinema Club, Franz Ferdinand (no álbum Always Ascending, lançado no início de 2018 e que marca uma guinada dos escoceses em direção à incorporação oficial de sonoridades eletrônicas), Cat Power, Hot Chip, Jay-Z, Kanye West e Pharrell Williams.

O perfeccionismo técnico não era a única característica do seu trabalho. Phillippe fazia questão de tornar tudo um prazer e não abria mão da conexão humana com os artistas com quem fazia as coisas. Ele recusou a produção de um álbum para Madonna apenas porque a cantora mandou seu agente fazer a proposta ao invés de fazê-la pessoalmente, como contou em uma entrevista para a revista The Fader.

Zdar faleceu na última quarta-feira, 19 de junho, aos 52 anos, ao cair acidentalmente da sacada em um prédio no centro de Paris. Seu último álbum como Cassius, Dreems, foi lançado dois dias depois, como já estava previsto bem antes da tragédia. Outro trabalho com a mão do francês também chegou às plataformas de streaming e lojas físicas e virtuais no mesmo dia: A Bath Full Of Ecstasy, o primeiro disco em que os ingleses do Hot Chip convidaram produtores para criar e gravar em conjunto com o quinteto em estúdio. Duas tristes coincidências.

Movies

Obsessão

Oito motivos para ir ao cinema ver a obra que marca a volta do diretor Neil Jordan ao formato de longa-metragem

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

O mês de junho, normalmente, é dominado pelos blockbuster snos cinemas. Pudera. Os grandes estúdios de Hollywood, de olho no início do período de férias escolares do Hemisfério Norte (quando a primavera passa o bastão para o verão no ciclo das quatro estações), bombardeiam o espectador com opções de histórias fáceis ou com apelo popular, que podem preencher o tempo vago de crianças, adolescentes, jovens e adultos e significar bom alcance nas bilheterias. Somente nas últimas semanas já estrearam o live action de Aladdin, Rocketman, X-Men: Fênix Negra e o novo Homens de Preto. Para o início de julho está sendo aguardado o retorno do Homem-Aranha às salas de projeção. Portanto, é justamente nesse período que ficam mais reduzidas as opções para quem gosta de um cinema mais alternativo, que ofereça algo além da possibilidade de entreter o espectador.

Meio sem chamar muita atenção, Obsessão (Greta, Irlanda/EUA, 2018 – Galeria Distribuidora) acaba de estrear no circuito comercial brasileiro. Não deve durar muito tempo em cartaz por questões de bilheteria. Então, a gente dá uma ajudinha e lista oito motivos para você ir correndo assistir ao filme se ele estiver programado em algum cinema de sua cidade.

Neil Jordan

Diretor, roteirista e produtor irlandês de prestígio nos anos 1980 e 1990, assinou clássicos como A Companhia dos Lobos, Traídos Pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro. Sabe envolver o espectador num suspense como ninguém, criando reviravoltas que trabalham como uma montanha-russa nas emoções de quem assiste suas obras. Andava afastado dos longas-metragens nesta última década, reservando suas atividades quase somente a séries.

Nova York

A história de Obsessão se passa em Nova York. Para quem gosta da megalópole como cenário, é um prato cheio ver as cenas todas rodadas fora de estúdios, em ruas, locações e apartamentos da cidade. Aliás, isso faz relembrar a época áurea do cinema alternativo, quando uma turma de diretores criativos – como Scorsese e Coppola – souberam como ninguém se utilizar do cotidiano nova-iorquino para fazer grandes filmes nos anos 1970 e salvar a indústria cinematográfica americana.

St Vincent

Um dos turning points mais significativos do filme é regido ao som de uma grande faixa lançada pela cantora e compositora dez anos atrás. Incluída no álbum Actor, de 2009, a música “The Strangers” soa um tanto psicodélica se comparada com o repertório mais recente e, talvez, por isso mesmo, soa tão impactante junto com a cena escolhida para ilustrar no filme de Jordan. Enquanto Annie Clark entoa uma frase que fica martelando na cabeça do espectador (“pinte o buraco negro ainda mais preto”), a sequência de imagens surge distorcida na tela, fazendo todo mundo pensar se seria verdade o que está acontecendo ali ou então simples alucinação ou projeção de expectativa ou um mero sonho.

Stalker tecnológica

Filmes de stalker sempre rendem ótimos subterfúgios para que se faça a perseguição. Nos dias atuais, há um elemento bem poderoso que pode ser incluído no rol das possibilidades: o celular. E a solitária sexagenária Greta sabe usá-lo muito bem para levar terror e pânico à jovem Frances. Tira proveito da instantaneidade de mensagens e fotografias, sem falar no cruzamento de informações após ter acesso a rastros e particularidades do passado no telefone de sua vítima. Em tempos de big brotherhackers e espionagem militar internacional, isso cai como uma luva para apimentar a aflição da trama.

Isabelle Huppert

Bastante famosa na Europa, a francesa só passou a ser badalada nos EUA após concorrer ao Oscar de melhor atriz pela atuação em Elle há dois anos. Obsessão é seu primeiro filme com coprodução norte-americana após o feito. Lógico que Huppert volta a dar show de interpretação. Na pele da imigrante europeia e enfermeira aposentada Greta, ela é uma das responsáveis pela constante alteração de adrenalina de quem está vendo o longa na poltrona do cinema. A princípio, mostra ser uma amável e solitária professora de piano, que parece encontrar na sempre disposta e moralmente correta Frances a substituta ideal para sua jovem filha. Aos poucos vai se transformando na tela, fazendo a doçura virar maldade mas ainda colocando dúvidas a respeito de tudo isso na cabeça do espectador.

Chloë Grace Moretz

Ela só tem 22 anos de idade mas vem se revelando uma das mais poderosas jovens atrizes reveladas por Hollywood, por conta da extrema versatilidade e da aposta em papeis não muito comuns para uma então adolescente. Chloë tem em seu currículo participações elogiadíssimas em filmes como Suspíria: A Dança do Medo (2018), O Mau Exemplo de Cameron Post (2018), Lugares Escuros (2015), Acima das Nuvens (2014), A Invenção de Hugo Cabret (2011) e Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010). Obsessão entra nesta lista por causa de sua crédula Frances, que cai na armadilha de Greta e, quando se dá conta, percebe que é tarde demais para escapar. Contar mais do que isso sobre a garçonete vira spoiler.

Maika Monroe

Aos 26 anos, sua atividade principal não é a de atriz, mas sim de atleta – Maika é uma competidora profissional de kiteboard. Mas, nos últimos anos, vem conciliando seu tempo com papéis coadjuvantes em filmes, especialmente de horror. Por ser fã assumida do gênero e ter como filmes de cabeceira clássicos como Halloween: A Noite do Terror (1978), O Iluminado (1980) e A Hora do Pesadelo (1984), tem propriedade e feeling suficientes para entregar atuações convincentes a ponto de, depois de trabalhar em O Hóspede e Corrente do Mal (ambos de 2014), despertar a atenção como potencial nova scream queendo cinema adolescente. Em Obsessão, mostra química na tela com Moretz como a melhor amiga Erica, com quem divide um descolado apartamento. Ambas já trabalharam juntas antes, na distopia teen A 5ª Onda (2016).

Stephen Rea

Também irlandês, Stephen Rea é parceiro constante dos filmes de Neil Jordan. Volta e meia atua em seus filmes. Em Obsessão, ele só aparece em cena na parte final, mas nem por isso sua pequena participação deixa de ser notável. Aqui ele faz o investigador Brian Cody, contratado pelo pai de Frances quando este percebe que a filha pode estar em apuros. Só que o detetive, apesar de perspicaz, acaba se atrapalhando quando justamente vai checar a possibilidade de Greta ter a ver com o sumiço da garçonete.

Music

Aurora

Oito motivos para você não perder a passagem da cantora por Curitiba em sua nova vinda ao Brasil

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Divulgação

Revelação do pop feminino dos últimos anos, Aurora está percorrendo várias cidades do país com sua banda. Ela já se apresentou em três cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte) e nesta quarta, 22 de maio, passa por Curitiba (saiba mais informações sobre o show na Ópera de Arame clicando aqui). Conhecida por ter regravado a música folk tradicional “Scaborough Fair” especialmente para a faixa de abertura da novela Deus Salve o Rei, exibida no ano passado pela Rede Globo, a cantora e compositora de pele muito branca, cabelos naturalmente platinados e aquela clássica beleza nórdica não costuma incluir esta canção no repertório de suas apresentações ao vivo. Para quem ainda não a conhece além desta releitura, o Mondo Bacana apresenta oito motivos pelos quais você não pode perder de maneira nenhuma a sua passagem pela capital paranaense.

Noruega

A culpa é do A-ha. Não fosse o trio ter tomado a MTV e, de quebra, o planeta todo de assalto lá em 1985 com o megahit “Take On Me”, talvez a produção de artistas noruegueses dos segmentos pop e rock não tivesse assim lá tanta importância posteriormente. Sondre Lerche, Ida Maria, Ane Brun, Jenny Hval, Royksopp, Kings Of Convenience/Erlend Oye, Datarock, Casiokids, Todd Terje, Turbonegro… Isso sem falar em toda uma peculiar cena de black, doom, gothic e outras subvertentes afins do metal (Burzum, Dimmu Borgir, Darkthrone, Gorgoroth, Mayhem, Ragnarok, Emperor, Tristania entre tantos outros nomes) ficando famosa não apenas pela sua música como também por atos como incendiar igrejas e assassinar a sangue frio companheiros de banda. Aurora Aksnes nasceu em 15 de junho de 1996 em Stavanger, a terceira maior cidade do país, e cresceu em Os, município do sul do país, próximo ao grande centro urbano de Bergen, localidade com número de habitantes inferior apenas à capital Oslo, onde ela reside atualmente.

Extensão vocal

Aurora é soprano, mas a elasticidade de sua extensão vocal certamente arrebata corações e expressões surpresa para quem ainda não conhece seu trabalho. Vai com muita naturalidade de oitavas mais graves a notas bastante altas.

Intimidade musical

Desde cedo Aurora sempre encontrou na música um refúgio para canalizar seus sentimentos. Sem a própria família saber, começou a ter aulas de piano aos 6 anos de idade, já experimentando compor as primeiras melodias. Aos 9 estendeu os estudos e treinamentos à voz. Na adolescência, fez sua primeira apresentação em público na escola, que a levou a fazer sucesso em programas locais de TV e sites de streaming musical. Isso a levou a assinar contrato com uma grande agência nacional de gerenciamento de carreira artística e ofertas de lançamento pelas gravadoras Glassnote e Decca. Não por acaso, o primeiro álbum da carreira saiu quando ela tinha apenas 19 anos, em março de 2016, reunindo registros feitos e compostos da infância a época de então.

“Runaway”

Se você quer ter o primeiro contato com a obra de Aurora e precisa escolher uma música para fazer isso, não tenha dúvidas: vá de “Runaway”, faixa incluída em All My Demons Greeting Me As Friend (o primeiro álbum) e também no EP de estreia, Running With The Wolves (de apenas quatro faixas, lançado em 2015). O conselho é dado pela própria artista, sempre que a perguntam sobre sua principal composição até aqui. “Como esta é uma das primeiras composições que eu fiz, torna-se uma maneira muito lógica de iniciar uma jornada pelo meu mundo”, declarou a artista em uma entrevista para a Billboard americana. Os versos falam sobre a fuga do mundo real para um local onde sentimentos e abstrações se encontram envoltos em um misto de paz, sossego e pertencimento. Assim, na verdade, podem ser descritas as letras escritas por Aurora: um universo particular e sensorialmente etéreo.

“Churchyard”

Estrategicamente escalada no início dos shows da atual turnê, esta faixa já empolga desde o início, com a cantora sendo acompanhada pelos músicos de sua banda em versos do refrão entoados a capella. Sexta faixa do segundo disco da cantora, Infections Of A Different Kind, “Churchyard” fala, segundo ela, sobre alguém que, em uma posição muito superior, utiliza seu poder na atual situação de uma forma completamente errada. Muita gente pode ter ligado isso, na época de lançamento do EP, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas a própria Aurora tratou de afirmar que este é um simbolismo mais generalizado, embora isso aconteça o tempo todo na política mundial. Explicações à parte, o fato é que não tem como não se deixar levar pelo refrão poderoso e o arranjo percussivo que permeia toda a música.

“Queendom”

Outra faixa de destaque de Infections…, “Queendom” é o libelo feminista da norueguesa. Empoderamento, alegria e igualdade são três dos sentimentos que a cantora que passar diante de um mundo que vem aprendendo, mesmo que ainda a duras penas, a ser menos machista e patriarcal. Mas não apenas as mulheres são festejadas nestes versos, segundo ela. Há também espaço para as crianças, os animais e aquela parcela masculina que se sente deslocada da representatividade usual do gênero, como as pessoas mais introvertidas e quietas. Décimo single da carreira e talvez o maior hit de Aurora, a música vem disposta no encerramento do show.

Novo disco

O repertório da atual turnê costuma se equilibrar as atenções de modo igual entre All My Demons…e Infections…Porém, contempla ainda novidades para os fãs, acrescentando três ou quatro faixas do próximo disco, o quarto em quatro anos de trajetória profissional. A Differet Kind Of Human está previsto para chegar às lojas físicas e virtuais no comecinho de junho (mais precisamente no dia 7) e traz um conjunto de onze faixas que servem como complemento para as oito anteriores de Infections Of A Different Kind. Três singles já foram lançados desde o início deste ano e dois deles são presença certa no set listdos atuais shows: “The Seed” e “The River”. O terceiro, “Animals”, costuma aparecer em alguns concertos, assim como a ainda inédita “In Bottles”.

Peso no palco

A sonoridade de Aurora contempla o ecletismo de suas influências e referencias musicas. Enquanto ela diz carregar muito consigo de nomes díspares como Leonard Cohen e Enya, os arranjos dos discos unem orquestrações, programações eletrônicas e a herança da folk music escandinava. Quando se transporta para o palco, contudo, a artista norueguesa se revela muito mais pesada do que nas gravações de estúdio. Sua banda conta com um baterista, dois tecladistas (sendo uma sua vocalista de apoio para dobrar vozes e realizar contracantos) e um guitarrista (que às vezes faz a função do baixo nas cordas mais graves do instrumento). Já funcionou em local aberto anteriormente por aqui (o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, quando fez parte da programação do Lollapalooza Brasil de 2018) e em espaços menores, onde ela fica mais próxima da plateia, tem tudo para colocar ainda mais fogo do começo ao fim do repertório.