Music

Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

Movies

Cemitério Maldito

Trinta anos depois, obra do cultuado escritor Stephen King volta a ganhar adaptação para as telas do cinema

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

A obra literária de Stephen King, para o bem ou para o mal, rende diversas adaptações na indústria do cinema. Tradicionais como À Espera de Um Milagre e Um Sonho de Liberdade se unem a eternos ícones do cinema de horror, como O Iluminado; Carrie, A Estranha e Pet Sematary. Este, no entanto, é o mais novo filme a figurar a lista de adaptações relançadas nos últimos anos – fenômeno crescente, em especial, nesta década. Utilizando o mesmo método com o qual resenhei para o Mondo Bacana a versão de Suspiria feita pelo diretor Luca Guadagnino, não tecerei comparações entre o filme de Kevin Kölsch e Dennis Widmeyer e o original de Mary Lambert, lançado 30 anos atrás.

Em Cemitério Maldito (Pat Sematary, EUA, 2019 – Paramount), Louis (Jason Clarke), Rachel (Amy Siemetz) e seus filhos se mudam para uma pacata cidade, buscando sossego da correria metropolitana em uma casa de campo com terreno gigante. É claro que o plano não sai como esperado, com o advento da morte do gato da família, Church, trazido de volta dos mortos com o auxílio do misterioso vizinho da família, Jud, interpretado por John Lithgow. Embora uma história promissora, o roteiro de Matt Greenberg e Jeff Buhler, que assinou Maligno (2019), empaca o desenvolvimento com seu ritmo moroso. Demoramos a sentir que o filme se desenvolve, gastando tempo demais com a adaptação da família à casa.

Além disso, grande parte dos primeiros atos fica na criação de subtramas sem conclusão, como a intrigante relação entre Louis e o seu falecido paciente Pascow (Obssa Ahmed), alertando o perigo que ronda o protagonista e sua família ao longo do filme. O pior gasto de tempo, no entanto, é a relação de Rachel com sua irmã, Zelda (Alyssa Brooke Levine). Ainda que o trauma resulte em uma forte característica da personagem, não merece todo o furor alucinógeno com o qual a dupla de diretores trata a história – uma desculpa para gore jumpscares.

Os jumpscares do filme, inclusive, são completamente ineficientes.  Sua previsibilidade os torna artificiais demais, além de serem estragados pelo exagero na intensidade do som. O sound design de Cemitério Maldito é convencional, mas deixa muito a desejar. Da mesma forma, a música não adiciona quaisquer camadas.

Ainda sobre a convencionalidade do longa, a dupla de diretores opera de forma eficiente, entendendo bem o gênero no qual se inserem sem mergulhar nos clichês. Eles existem, em escala maior que o esperado, mas não tomam conta da trama. No entanto, a direção não cria quaisquer marcas de estilo.

Além disso, a atuação dos protagonistas é funcional. O maior problema, no entanto, é Jeté Laurence, que interpreta Ellie de maneira extremamente superficial em seus dois “estados de espírito” ao longo da trama. No fim, o terceiro ato de Cemitério Maldito contrasta os predecessores vagarosos e é extremamente apressado, sem amarrar quaisquer nós que não sua história principal.

Desta forma, a nova adaptação desta obra literária de Stephen King não foge do convencional. Sem muitos grandes aspectos, amarga uma falta de empolgação consigo mesma. É bem produzida, com cenas bem fotografadas, porém mal dirigida e perde o potencial. Aliás, com exceção de It – A Coisa, os últimos filmes que bebem da fonte de King estão deixando a desejar.

Movies

Green Book: O Guia

Comédia dramática baseada em história verídica expõe o preconceito racial no sul dos Estados Unidos no começo dos anos 1960

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Texto por Leandro Saueia

Foto: Diamond Films/Divulgação

Uma comédia dramática sobre tensão racial passada no início dos anos 1960 não é bem o tipo de filme que seria de se esperar de Peter Farrelly em sua primeira incursão cinematográfica longe de seu irmão Bobby – com quem realizou longas mais afeitos ao besteirol como Quem Quer Ficar Com Mary ou Debi e Lóide. Mas foi nesse terreno que o diretor resolveu apostar agora, e, de maneira no geral, a experiência se mostrou bem sucedida.

Green Book: O Guia (Green Book, EUA, 2018 – Diamond Films) é um road movie baseado em fatos reais – ênfase no baseado, já que as reclamações sobre as liberdades tomadas pelo roteiro não foram poucas. O filme conta a história de Tony Vallelonga, um italiano bronco e racista, mas, claro, de bom coração, vivido por Viggo Mortensen. Ao se ver temporariamente sem o seu emprego de segurança na boate Copacabana, em Nova York, ele acaba aceitando o trabalho de ser o motorista de um músico negro, o excêntrico pianista Don Shirley (Mahershala Ali), em uma excursão pelo sul dos EUA em uma época de segregacionismo institucionalizado. O roteiro é baseado nas memórias de Vallelonga, que nos anos seguintes faria pequenos papéis em filmes como O Poderoso Chefão, Um Dia de Cão, Os Bons Companheiros e também na série The Sopranos.

O longa não escapa dos clichês típicos desse tipo de história em que dois opostos são forçados a conviver juntos e assim descobrindo que têm mais em comum do que imaginavam. Ainda assim, garante duas horas divertidas que também podem gerar alguma reflexão, mesmo que em escala bem menor do que a observada em Infiltrado na Klan, de longe o melhor filme dessa safra do Oscar.

Green Book (assim chamado em alusão a um guia com endereços para motoristas negros em viagem pelo sul não se meterem em enrascada com os brancos racistas)  é daqueles trabalhos que crescem quando visto como parte de uma plateia. O mérito maior do sucesso cabe ao par central de atores, ambos excelentes. Viggo se revela um inspirado comediante – esta é a grande razão para recomendar que ele seja assistido na tela grande.

A alma da história, entretanto, pertence a Ali, que lida com um personagem bem mais complexo. O Don Shirley que ele precisa encarnar é um homem em perpétuo estado de inadequação: um negro educado na mais alta cultura e que, por isso não tem nada em comum com a visão típica que os brancos têm dos afro-americanos (ele sequer sabe quem é Little Richard!). Ao mesmo tempo, Don jamais será aceito nas altas rodas, que só querem fazer algum uso de seu talento mas sequer estão dispostos a deixá-lo usar o mesmo banheiro ou comer em seus restaurantes. O fato dele também revelar tendências homossexuais, obviamente não facilitam em nada a sua vida.

Green Book resvala um pouco na pieguice, tem algumas saídas fáceis e não deixa de manipular as emoções do espectador, mas tudo de forma aceitável. Sabe aquela sensação de se pegar gostando de uma canção que você sabe que é brega? É um pouco por aí. Não tem mal nenhum nisso.

Music

Animal Collective – ao vivo

Representado por Panda Bear e Avey Tare grupo recria na íntegra, em Belo Horizonte, o instigante álbum Sung Tongs

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Texto por Danilo Kowalsky

Foto: Francisco Rocha/Queremos!/Divulgação

Quando ouvi o álbum Sung Tongs, do Animal Collective, pela primeira vez, em 2004, tive uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Mas já volto a este assunto.

Não havia muita coisa no cenário de bandas novas que chamava minha atenção ali em 2003/2004. As bandas estavam desesperadamente buscando de reinventar em termos de som e de formato mas ao mesmo tempo queriam voltar a agradar os ouvidos de quem gostava de shows, de canções e de refrãos. Os resultados dessa busca não estavam lá muito empolgantes. Tudo andava meio insípido. E eu, consequentemente, estava bem mais interessado nas novidades instigantes e inovadoras que vinham do cenário da música eletrônica, de selos como Rephlex e Warp, por exemplo.

Volto agora ao assunto da estranheza e familiaridade simultâneas. Ora, não seria isso algo realmente bom para motivar os interesses? A excitação e os disparos sinápticos provocados pelo inesperado, mas que não chegam chutando a porta. Chegam macio, caramelizados pelo conforto do familiar, com algo de terreno já pisado.

A estranheza de Sung Tongs deixava claro que aquele som não caminhava na mesma direção da maioria das bandas alternativas ou da cena indie rock, americanas ou europeias, da época. Apesar do violão ser um instrumento central em Sung Tongs, aquilo ali não era bem uma releitura de folk. Não era também uma releitura jovem e escolarizada do country, que costumam chamar de alt-country. A estranheza talvez tenha vindo de um certo formato, pelo menos nos arranjos e nas modalidades das canções, que me lembrava de bandas como Sun City Girls. Estavam ali a modalidade musical/harmônica, as vocalizações, as onomatopeias bucais, a aliteração, a paranomásia e outras figuras vocais não usuais na canção ocidental que evocam as línguas de outros povos e também de outras culturas musicais. Talvez daí venha o nome deste disco — numa tradução livre, “línguas cantadas”.

Mas e o familiar? O que ali naquele som me trazia a familiaridade? A estranheza foi relativamente fácil de apontar, mas o lado acalentador e confortável estava mais difícil. E assim foi se construindo a vontade de continuar a ouvir o Sung Tongs. E depois mais uma vez. De novo. Até que…

A ficha caiu! Pet Sounds. Beach Boys. Brian Wilson. Estava ali se derramando em excelentes camadas de estéreo nos meus ouvidos e eu ainda não havia percebido. Harmonias vocais construídas belissimamente. Aquele fluxo harmônico flutuando em volta dos ouvidos que quase dá pra sentir com a mão. Aquele tipo de vocalização que se tornou praticamente uma vertente na música americana. E, claro, um tipo particular de psicodelia. Tipo particular de psicodelia que talvez tenha sido mesmo inventada ali, no Pet Sounds dos Beach Boys de Brian Wilson.

Foi isso, então, o que me fez gostar tanto do Sung Tongs. Em meio a toda a insipidez da cena alternativa na época, aparecia ali um disco luminoso. Um som instigante que continha o estranho e o inesperado calçados pela harmonia acalentadora. Mesmo quando Sung Tongs fica ríspido e soturno, há sempre algo costurado, na bela mixagem do disco, que aponta antenas e radares para o longe, mas que também lança raízes no solo da era de ouro da música pop ocidental.

Por isso tudo eu estava realmente ansioso pela chegada do Animal Collective com a celebração dos 15 anos do Sung Tongs em Belo Horizonte. E apreensivo também. A possibilidade do show apareceu pelo Queremos! e já fiquei imaginando como seria a recepção a um grupo tão pouco conhecido no Brasil. Certamente deveria ser um show pequeno num lugar pequeno, imaginei. Tudo se confirmou e eu fiquei surpreso ao saber que o show seria, na verdade, em uma casa de médio porte da cidade, o Music Hall, que comporta bem mais de mil pessoas. Ingresso comprado. Agora era esperar o último dia 26 de agosto. Ansiedade deixada de lado (por enquanto).

Chegou o dia do show. Nenhuma eletricidade no ar. Nenhum burburinho. Eu — meio elétrico. Ansiedade crescia. Como seria? E os efeitos eletrônicos? E os efeitos de estúdio que são tão importantes em toda a ambiência do disco? A atração de abertura não me interessava tanto e acabei chegando ao local e fiquei ali, perto da entrada, papeando, especulando mentalmente como seria o show que estava por começar. O lugar estava vazio; já se via. Isso trazia aquela sensação de que não teríamos uma experiência com pouco calor de som e de corpos.

Panda Bear e Avey Tare entraram no palco. Eu não vi nenhum sampler e nenhum outro tipo de auxílio eletrônico. Imediatamente ficou claro que toda aquela profusão de camadas de violão e de sons e de efeitos de Sung Tongs seria executada pelos dois apenas. Em tempo real, “no braço”, ali. Menos da metade da pista estava ocupada pelo público. As alas laterais e o mezanino estavam completamente vazios. Animal Collective, certamente, não faz um som de arena para milhares, mas esse vazio de público me causava um certo desconforto.

Começou o show. E veio logo uma música que eu não reconheci (“Tuvin”). O lugar parecia estranhar os primeiros sons. Violões e vocalizações. Nenhuma letra. Nenhuma palavra facilmente inteligível. Nenhuma progressão de acordes tradicional. Fico imaginando se não estavam apresentando o Sung Tongs com um outro arranjo totalmente diferente. Mas essa possibilidade foi embora quando começou “Leaf House”, a abertura do álbum, e, na sequência, a linda “Who Could Win a Rabbit”, segunda música. Duas faixas marcantes, com ritmo mais presente (eles usavam um tambor nas músicas de batida mais forte), com os violões a palhetadas pesadas e as vozes preenchendo tudo. Ambos usavam mais de um microfone; um limpo e outro carregado de efeitos para a voz como eco e delay. O público se empolgou um pouco mais e uma certa energia entre o palco e as pessoas começou a se formar, embora alguma já manifestassem, corporalmente, um certo desinteresse. Essa energia alegre e, ao mesmo tempo, curiosa se manteve na próxima faixa, “Winters Love”. Mas foi perceptível um arrefecimento quando chegou o meio do disco com faixas mais soturnas e menos melódicas, como “Kids On Holiday”, “Sweet Road” e “Visiting Friends”. O pequeno público se dispersou um pouco mais. Alguns indo ao bar comprar mais alguma bebida. Outros se virando para conversar isso ou aquilo. Os celulares iam descendo do ar de volta para os bolsos e bolsas até que não restasse mais nenhum aparelho hasteado. Os aplausos entre as músicas não cessaram, no entanto. Continuaram.

Apesar dos pesares — do pequeno público, da dispersão e dos espaços vazios — um sentimento já emergia: a maioria dos presentes percebeu que ali, naquele palco, o trabalho musical que se desenrolava era de fôlego. Talvez não estivesse suprindo tão bem a expectativa de entretenimento de algumas pessoas. Mas era claro que possuía um conceito forte e também forte determinação artística. Essa sensação foi reforçada com a canção “College, que é uma bela peça vocal de um minuto. Todos ficaram mais silenciosos e se deixaram arrebatar pelo momento “petsoundiano-brianwilsoniano”. Na sequência veio “We Tigers”, uma faixa mais percussiva que retomava um pouco daquela alegria frugal da abertura. E os aplausos entre as músicas continuavam.

As três faixas finais (“Mouth Wooed Her”, “Good Lovin Outside” e “Whaddit I Done Brat”) foram levando o pequeno público, fosse provido de uma ou três cervejas, a manifestações mistas de uma certa descontração dançante ligeiramente ébria tipo “já que estamos aqui” ou a uma dispersão ainda maior. O vazio do lugar e o tamanho do espaço vazio estavam surtindo seus efeitos agora mais que antes.

Logo depois tivemos uma breve comunicação de Avey Tare com o público (se não me engano, Panda Bear nada disse além de “thank you!”), dizendo que ali havia se encerrado a caminhada por todas as músicas de Sung Tongs. Veio, então, um bônus de mais quatro músicas que não reconheci de imediato. Posteriormente soube que se tratavam de duas músicas de um ótimo EP chamado Prospect Hummer (“I Remember Learning How To Dive” e a faixa-título), lançado em 2005; uma ainda não gravada (“Sea Of Light”); e uma outra que está em uma compilação lançada somente em vinil, em 2009 (“Don’t Believe The Pilot”).

Tudo acabou e a pequena plateia rapidamente se pôs para fora do lugar. Em mim ficou a sensação de que uma ótima apresentação perdeu seu potencial. Ou, ainda, teve seus efeitos desvirtuados devido a uma escolha infeliz para o lugar do show.

Sunga Tongs é um álbum com muitas nuances. Cheio de microssons, cheio de camadas de efeitos, vozes, violões, samples. Cheio de onirismo e sutilezas. O lugar grande, com os ecos e ressonâncias indesejadas ocasionadas pelo vazio, só contribuiu para erodir a força de uma apresentação tão bela. Esse tipo de sonoridade pede um lugar mais compacto — em que a imersão seja mais intensa, em que a atenção ao som possa ser maior, em que o som possa ser mais preciso, com mais qualidade e menos volume, a fim de revelar tudo o que pode ser revelado e a fim de cumprir todos os efeitos (sejam eles intencionais ou não). Dessa maneira, som e ambiente adequados contribuiriam muito mais, e melhor, para o afeto do público. Para se ter uma “experiência Animal Collective”.

Voltando um pouco à segunda comunicação de Avey Tare e Panda Bear (se não me engano, houve um “good evening!” lá no início), entre a última faixa de Sung Tongs e as faixas extras (não foi um bis, pois os dois não chegaram a sair do palco): houve um momento de aplausos sinceros e calorosos, como deveria ser. Mas uma alegria não muito cintilante estava no rosto e nos lábios dos dois no palco. Essa alegria moderada talvez fosse o tom correspondente a uma apresentação que, na concepção deles, tenha sido “ok”. Como escrevo esta resenha mais de três meses depois, realmente não me lembro exatamente o que os dois disseram naquele momento final. Mas a reafirmação do motivo do show e do motivo da turnê certamente foi pronunciada: os 15 anos do lançamento de Sung Tongs. Um trabalho importante para eles, sem dúvida. E importante para mim também. Ainda não sei bem quando, nem quantas vezes. Mas sei que irei ouvir Sung Tongs novamente.

Set list: “Tuvin”, “Leaf House”, “Who Could Win a Rabbit”, “The Softest Voice”, “Covered In Frogs”, “Winter’s Love”, “Kids On Holiday”, “Sweet Road”, “Visiting Friends”, “College”, “We Tigers”. “Mouth Wooed Her”,  “Good Lovin Outside”, “Whaddit I Done”, “Prospect Hunter”, “Sea Of Light”, “Don’t Believe The Pilot” e “I Remember Learning How To Dive”.