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Dolittle

Nova adaptação do clássico personagem que fala com animais desperdiça ótimo elenco e oferece uma história bastante vergonhosa

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Cringe worthy é um expressão da língua inglesa usada para definir algo extremamente vergonhoso. É um bom jeito de definir a nova adaptação cinematográfica do personagem Doutor Dolittle, do escritor britânico Hugh Lofting. Dolittle (EUA/China/Reino Unido, 2020 – Universal Pictures) é uma confusa, desgastante e por vezes irritante aventura situada na época vitoriana e que não pode ser salva nem pelo elenco recheado de estrelas.

Em seu primeiro trabalho pós vingadores, Robert Downey Jr assume o papel do médico famoso por conseguir conversar com animais. Adotando um sotaque duvidável e irregular, o ator não consegue segurar o filme com seu carisma. Na primeira vez que aparece na tela, o doutor está com barbas longas e roupas sujas. Não sai de sua propriedade em anos desde que a esposa faleceu e o único contato que tem é com seus animais. Tudo muda quando duas crianças o procuram por ajuda e ele precisa sair em uma aventura para salvar a vida da rainha da Inglaterra.

A premissa é esquisita e o enredo, também. A história é narrada pelo papagaio fêmea Polly (dublada por Emma Thompson), o que faz com que detalhes importantes da história sejam perdidos ou minimizados. A inconstância da narração também incomoda. É como se ela aparecesse nos momentos em que não tivesse gravação o suficiente para suprir o tempo de tela.

Os outros animais falantes servem de alívio cômico. Ou pelo menos tentam. Chee-Chee (Rami Malek) é um gorila medroso, Dab-Dab (Octavia Spencer) uma pata atrapalhada, Yoshi (John Cena) é um urso polar friorento. As crianças pequenas podem até rir das interações e peripécias da trupe, mas muitas vezes é apenas cringe worthy. Fica pior quando um dragão é inserido e uma sequência de piadas de pum começa. O diretor e corroteirista Stephen Gaghan parece testar a inteligência do espectador a todo momento, chegando ao ápice do ridículo quando a retirada de uma gaita de fole libera mais gases.

Um filme sobre animais falantes poderia ser extremamente rico e proveitoso considerando o contexto climático e ambiental atual. A escolha de transportar a história para dois séculos atrás é uma oportunidade perdida além de um caminho ingênuo demais. Se animais pudessem falar, eles realmente estariam jogando xadrez com humanos na maior paz do universo? Com certeza não. Talvez se essa versão de Dolittle tivesse sido feita 25 anos atrás isso fizesse mais sentido. Ênfase no talvez.

Antonio Banderas também tem parte no filme, como o sogro do Doutor Dolittle e governante de uma ilha de ladrões e criminosos. Em uma sequência de cenas sem sentido para justificar uma parada antes do verdadeiro destino, o ator espanhol emprestou seu talento para um papel que poderia não existir. Tudo fica pior quando entra em cena um tigre com mommy issues (acredite se quiser!) que é atingido nas partes íntimas em uma tentativa de comédia corporal.

Dolittle desperdiça atores e possíveis enredos em uma história cansativa e embaraçosa. Não é possível saber o que fez com que as estrelas envolvidas no filme concordassem em participar, mas é certo que o arrependimento deve ter sido amargo.

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