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X-Men: Fênix Negra

Longa-metragem que encerra o universo cinematográfico de duas décadas da franquia traz falhas e decepção

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Divulgação

Que o universo cinematográfico dos X-Men é confuso isso não é novidade para ninguém. Filme após filme, mais e mais discrepâncias temporais recheiam a narrativa do supergrupo. É conveniente ignorá-las, para melhor apreciar os filmes. Dito isso, X-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix, EUA, 2019 – Fox) é o último longa situado nesse universo, já que a Fox e a Marvel estão agora sob o mesmo teto, o da Disney. Como encerrar, então, uma saga, mesmo que não das melhores, de dezenove anos?

Fênix Negra não se preocupa com isso. Seus primeiros atos são extremamente similares aos de X-Men: Confronto Final (a história em quadrinhos que origina ambos os filmes é a mesma), o que torna sua narrativa um pouco cansativa. Resta ao final do segundo ato e, por consequência, ao terceiro a difícil tarefa de trazer inovação às telas. Mas, infelizmente, o sentimento de “mais do mesmo” permanece – referente ao gênero, não ao longa-metragem de 2006.

Este não é, ainda, o principal problema do roteiro. Toda fala é artificial, parte pela entrega do elenco mas principalmente por repetir jargões do cinema comercial. Além disso, diversos diálogos e monólogos poderiam ser substituídos com uma direção atenciosa e engajada – o que não parece ocorrer. Simon Kinberg parece mais cansado dos mutantes que o público, realizando uma direção que não foge do convencional. Nivelando a compreensão de seu público por baixo, o roteirista e produtor, agora elevado à categoria de diretor, insiste em repetir a estética (que falhara muitas vezes) da nova geração de filmes, transformando uma das mais aclamadas sagas de quadrinhos da Marvel em um dispensável filme da franquia, fortemente dependente de seu elenco.

Isso representa mais uma baixa significativa no filme. Jennifer Lawrence performa uma boa Raven, consistente com sua construção anterior da personagem, mas diminuída pelo roteiro. Jessica Chastain faz uma das vilãs, porém caricata e completamente unidimensional. Talvez algumas aulas com Isaac Hempstead, o Bran de Game of Thrones, possam ensiná-la uma convincente cara de pôquer. O trio inglês Michael Fassbender, Nicholas Hoult e James McAvoy (com ênfase nos dois primeiros) desenvolve novamente seus calejados personagens, mesmo que o roteiro pouco contribua para seus arcos. Já Sophie Turner, que interpreta Jean Grey, a protagonista do longa, deixa a desejar. Mal dirigida, Turner (que também atuou em Game Of Thrones) faz a maioria dos diálogos com pouca mudança em seu tom, sempre com a mesma expressão. O maior erro, no entanto, foi o desenvolvimento falho de sua personagem – algo inerente ao filme, pelo visto.

Ainda assim, com a consciência de que X-Men: Fênix Negra não se propõe a ser nada além de um costumeiro filme de herói, não se pode esperar muito de seu desenvolvimento de personagens e trama. Dos efeitos especiais, no entanto, não podemos falar a mesma coisa. Este é um incômodo grande no filme – a qualidade do CGI, sua estética e verossimilhança, oscila demais. Em algumas cenas, os efeitos são state of the art, embora algumas sequências apresentem planos dignos do início do século. Ainda pior, talvez, é a insensibilidade da direção de elenco, já que muitas “poses” dos mutantes (em especial Magneto e Jean) são absurdamente falsas. Além disso, a criação do universo beira a excelência. Uniformes, objetos de cena e locações harmonizam a referência ao passado da saga com a inovação do próprio lançamento.

Por fim, é preciso mencionar que a montagem também oscila – inclusive dentro de uma mesma cena. A mais memorável cena de ação do filme, um embate cuja trama é spoiler puro, inicia de maneira bagunçada, mas termina primorosamente. Esta característica da montagem coaduna com a edição de som, embora a trilha sonora seja completamente dispensável.

Desta forma, X-Men: Fênix Negra não mantém a decrescente estipulada por X-Men: Apocalipse, mas não subverte quaisquer possíveis expectativas baseadas em seu predecessor. Com o elenco aquém do esperado, o filme oferece um encerramento modesto para a saga. Com seu atestado de óbito assinado antes mesmo de seu lançamento, o último filme dos X-Men fora do MCU decepciona.

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Vingadores: Guerra Infinita

Terceiro longa do grupo prepara o terreno para o encerramento de um grandioso ciclo cinematográfico produzido pela Marvel

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Marvel/Disney/Divulgação

Orçamento estimado em 300 milhões de dólares. Total de 22 super-heróis na tela. Mais de 70 personagens Marvel juntos em uma mesma história. Duração de 2 horas e 36 minutos. Encerramento da fase 3 de um ciclo que já contabiliza 19 longas-metragens nos últimos 10 anos. Exibição em mais de 4 mil salas somente nos Estados Unidos, o que levou à maior estreia da História no país (250 milhões de dólares). Arrecadação de 640 milhões de dólares em todo mundo – exceto a China, onde o filme só chegará no do 11 de maio. Presença garantida entre as 10 maiores bilheterias em todos os tempos já a partir das próximas semanas.

Todos estes são dados referentes ao furacão cinematográfico chamado Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinite War, EUA, 2018 – Marvel/Disney). Muito se especulava sobre este épico da Marvel desde o início do ano. Só se fala no filme desde a última semana, quando a nova obra com a assinatura dos diretores e irmão Anthony e Joe Russo (que já haviam assinado os dois mais recentes filmes da saga de três do Capitão América) fez a nerdarada toda unida tomar de assalto os cinemas ao redor do planeta. Uma coisa impressiona de cara nesta terceira obra sob a grife dos Vingadores na já extensa saga do Universo Cinematográfico Marvel instituído em 2008. São exatamente os números. Números, números e mais números. Que saltarão ainda mais aos olhos a partir da segunda semana do filme em cartaz.

Independentemente de entrar na questão qualitativa do longa, chegar a esta conclusão é um melancólico retrato do que se tornou o cinema. Executivos ligados aos estúdios Marvel e Disney podem estar dando pulos de alegria. Fãs do mundo dos super-heróis – conquistados desde os áureos tempos das HQs da editora, devem estar satisfeitos pela chegada do maior épico do gênero – e aqueles que ainda não saíra de casa para assistir muito provavelmente tentam conter a ansiedade extrema até chegar a hora H. Entretanto, o extremo sucesso obtido por Vingadores: Guerra Infinita em seus números coroa a vitória do CGI na sétima arte. Imagens geradas por computação. Isto é, qualquer coisa que possa vir a passar longe da realidade pode acontecer diante de seus olhos (e óculos 3D) na poltrona das salas de projeção. Com certeza, uma conquista possibilitada pelo avanço tecnológico das últimas décadas. Mas que passa longe de quem procura entretenimento com um mínimo de humanidade (e todas as suas limitações, imperfeições e erros) na junção de imagem, som e movimento. É hiperrealismo em demasia para quem ainda acredita que a imaginação ainda possa servir para alguma coisa.

Já quanto ao filme em si, Vingadores: Guerra Infinita realmente entrega toda a grandiloquência majestosa que os fãs estavam esperando. É uma bela história, repleta de momentos de ação intercalados com doses de humor, suspense e dramas pessoais. Também traz novidades a um filme do UCM, como o fato da trama estar centrada em um vilão, sendo os heróis os “coadjuvantes” da vez. Aliás, também pudera… Com tanto super aparecendo, de fato fica difícil de destacar somente um ou dois ou dar um bom espaço de tempo para que todos eles apareçam de modo satisfatório. No trecho final, inclusive, quase nenhum grande integrante original dos Vingadores é visto lutando em cena. Aliás, durante toda a trama pouco se vê dos três personagens principais (Capitão América, Thor e Homem de Ferro), protagonistas dos principais filmes “solo” anteriores produzidos pelos estúdios Marvel. Muito provavelmente seja pelo fato do contrato assinado lá atrás com os respectivos atores (Chris Evans, Chris Hemsworth, Robert Downey Jr) estar chegando perto ao seu encerramento.

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O mote é inspirado na trilogia da Saga do Infinito, conhecida pelos fãs dos quadrinhos por ter sido publicada nos anos 1990. Guerra Infinita recebe o mesmo nome da segunda parte e leva às telas o que foi lido até ela. O titã Thanos (Josh Brolin), envolto por sua sede de conquista, flerte com a morte e o objetivo de destruição de boa parte da população interplanetária, embarca no intento pessoal de conseguir as seis joias do universo. Uma de cada cor, todas para serem acopladas à sua manopla – objeto que lhe garante indestrutibilidade. Para obter os objetos, viaja para todos os planetas e lugares sem tomar conhecimento de quem possa tentar a vir impedir o seu feito. Sobra para todos. Até o gigantesco Hulk (Mark Ruffalo, desta vez aparecendo quase todo instante como o alter-ego Bruce Banner) é massacrado. Nem mesmo a filha Gamora (Zoe Saldaña) é poupada pelo pai irado.

O final, como já era de se esperar, é enigmático e engata uma montanha de teorias a respeito do próximo longa dos Vingadores, previsto para 2019 e que deve encerrar de vez este ciclo grandioso da empreitada da Marvel como um estúdio produtor de filmes blockbuster. Aficionados pela arte sequencial e colecionadores de longa data já traçam suas expectativas para que o que venha a ser apresentado esteja relacionado à conclusão da Saga do Infinito, embora não haja qualquer informação oficial a respeito da obra que logo chegará às telas. O que se sabe, mesmo, é que a próxima heroína a entrar em cena deve ter participação importante na história. Afinal, a sequência pós-créditos já introduz no Universo a personagem da atriz Brie Larson chamada Miss Marvel – e que também ganhará um filme “solo” programado para estrear alguns meses ates desse novo longa dos Vingadores.

Enfim, tudo isso se transformou em um negócio altamente calculado. E que – independentemente de sua qualidade – continua passando longe do que se convencionou a ser chamado de cinema.