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My Name Is Now, Elza Soares

Documentário desconcerta o espectador pela opção de desnudar a alma da cantora por caminhos não convencionais

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: It Filmes/Divulgação

Meu nome é agora, diz a cantora durante a série de depoimentos dados para o filme. Ela agradece a Deus por tudo o que viveu e aconteceu na sua vida, inclusive os momentos mais difíceis e as tragédias constantes que teve em família. Tudo isso, segundo ela, foi responsável por transformá-la no que ela é.

Em My Name Is Now, Elza Soares (It Filmes, 2018), a diretora Elizabete Martins Campos opta por um caminho nada convencional em se tratando de documentário. Ela dispensa uma narrativa histórica linear da vida e da carreira biografada. Tampouco quer contar a sua trajetória de fato. Sua opção é por uma estética sensorial. Imagens e sons vão se misturando e complementando. Por vezes Elza canta acompanhada de uma banda nunca vista pela câmera. Por vezes ela fala sobre seus sentimentos e um pouco do que já viveu em quase noventa anos de idade. Nascida no Rio de Janeiro no dia 23 de julho de 1930 (segundo ela mesma conta no início do filme), Elza Soares é uma mulher múltipla e vulcânica. Uma força da natureza capaz de assombrar sempre que abre a boca. Pela voz, pelo timbre, pela lucidez, pela sagacidade, pela resiliência, pela emoção. E a diretora, ciente demais de tudo isso, ainda brinca com o espectador fundindo áudio e vídeo de maneira difusa, brincando com efeitos (ecos, filtros, closes, sobreposições de música e fala).

Claro que as mais importantes informações sobre a vida de Elza estão lá. O enfrentamento da fome, a gravidez muito precoce, a perda dos maridos, o romance com Mané Garrincha (que acabou por se eternizar no inconsciente coletivo da população brasileira), seu ressurgimento para o primeiríssimo escalão da MPB nas últimas décadas. Mas nada aparece de forma tão mastigada assim. Por vezes é Elza quem relembra misturando emoções (raiva, alegria, saudade, indignação), por vezes a música que rola naquele instante (ora com letras cantadas, ora com a melodia tracejadas pelos scats inacreditáveis que ela arranca do gogó), por vezes são as imagens de arquivo (vídeos antigos, fotografias, recortes de jornais e revistas) ou uma câmera subjetiva que se apresenta como os olhos da biografada.

Ao espectador resta a condição de se conformar como um voyeur. Não se sabe onde se vai chegar, não há muitas explicações que não sejam a da memória e a do afeto. Por isso mesmo é inevitável se sentir desconcertado por este filme. E não só pela boca, mas também pelo olhar de Elza Soares. E, claro, por sua alma desnudada de maneira tão incisiva e corajosa.

Obs: My Name Is Now, Elza Soares entrou em cartaz no circuito nacional neste primeiro dia de novembro, através do projeto Circulabit (Circuito Laboratorial de Produção e Difusão do Audiovisual em multiplataformas, com os eixos LabiT – Incubadora de Criações, Prêmio Circulabit, Circuito Salas de Cinema, Laboratório de acessibilidade, Exibição ao Ar Livre e Cirucito Brasil – Exibições Gratuitas. Este projeto teve início no último mês de outubro e se estenderá até abril de 2019, com programação no Brasil e em Portugal, em diferentes formatos, plataformas e parcerias.

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