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Nada Ortodoxa

Uma jovem abandona o casamento e toda a sua vida em comunidade judaica ultraortodoxa para descobrir-se em meio a um novo mundo

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação

Buscar por si mesmo é uma constante em diferentes culturas. Mas o que pode acontecer quando sua busca excede os limites de sua religião? É partindo desse princípio que Nada Ortodoxa (Unorthodox, Alemenha, 2020 – Netflix) conta a história de Esty (Shira Haas), criada em uma comunidade judaica ultraortodoxa, mas que abandona sua antiga cultura para viver uma nova vida.

Em uma ambientação exemplar, a série acompanha a jovem de 19 anos ao fugir de sua casa e de seu casamento nos Estados Unidos e seguir para Berlim em busca de liberdade. A sequência inicial é intensa e o escape da personagem é sufocante, como se ela estivesse deixando uma série de perigos para trás. Ao longo da história, entendemos que a afobação era pressa para deixar uma realidade que não convinha no passado.

Nada Ortodoxa é parcialmente baseada nas memórias de Deborah Feldman. A autobiografia da escritora serviu de inspiração para o roteiro ficcional. Os flashbacks são fiéis à sua história. Já a parte atual é fictícia. A direção e o time de criação é composto por mulheres. A visão feminina de uma história feminina faz toda diferença. As dores, frustrações, medos e conquistas de Esty são bem construídos e contagiantes.

Disposta em quatro capítulos, a minissérie é falada em dois idiomas: inglês e iídiche (língua adotada por comunidades judaicas). A produção contratou um especialista da língua para ensinar o elenco e ter certeza que erros não seriam cometidos. Curiosamente, o especialista é o mesmo intérprete do rabino. Já os cenários, as locações e os figurinos são fantásticos. Mesmo que os flashbacks não se passem anos atrás a sensação é que assiste-se a uma obra de época. Nada Ortodoxa dá a oportunidade para o público de conhecer por dentro o funcionamento de uma comunidade judaica ultraortodoxa, seus costumes, crenças, festividades, vestimentas. O trabalho de pesquisa é dedicado e reflete todo este capricho na tela.

Dentre os muitos pontos abordados na série, a sexualidade dentro da comunidade fechada é um dos mais interessantes. Mulheres menstruadas não podem dormir com seus maridos e em um ano após o casamento é esperado, no mínimo, que a esposa esteja grávida do primeiro flho. Com o objetivo de devolver ao mundo as vidas perdidas no holocausto, filhos são a parte mais importante do matrimônio na comunidade ultraortodoxa. Entretanto, Esty e Yanky (Amit Rahav) passam por problemas para consumar a união e para engravidar, muito disso por falta de conhecimento.

A religião é um dos grandes panos de fundo da história. Apesar disso, não se discute se as crenças estão certas ou erradas, mas sim a jornada de uma mulher que não se sente parte desse mundo. A mensagem da minissérie é universal e atravessa todas as culturas retratadas. O que faz de Nada Ortodoxa uma saga emocionante de uma jovem mulher em busca de si mesma e construindo um lindo arco de descoberta em meio a um outro mundo completamente novo.

Movies

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite

Diretor de Hereditário traz inovação para o gênero do horror ao apostar em rituais, traumas e uma trama clara e impactante como o sol da meia-noite

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O desconhecido e o diferente podem ser aterrorizantes sem muito esforço. Juntando esses fatores a um relacionamento arruinado e férias frustradas o aumento da adrenalina parece justo. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, EUA, 2019 – Paris Filmes), o novo filme do jovem diretor Ari Aster é um conto de horror em que o medo não se esconde atrás de portas esperando para dar um susto. Ele é claro e impactante como o sol da meia-noite.

Quando cinco jovens viajam para a Suécia para participar de um festival local de verão, inicialmente o mais estranho parece ser o sol que nunca se põe e os hábitos da pequena comunidade. Com o decorrer da história, os rituais, os maneirismos e tudo o que é desconhecido passa a ser temido. Florence Pugh vive o papel de Dani, uma jovem com uma carga de traumas passados, que embarca de última hora na viagem para acompanhar seu namorado (Jack Reynor).

O relacionamento dos dois personagens já está fadado ao fracasso e isso fica cada vez mais evidente a cada interação. Os atores conseguem passar o desconforto de duas pessoas que ainda estão juntas, mas já não se amam ou confiam uma na outra. A crise no namoro é um ponto central para o desenvolvimento da trama e alguns de seus pontos mais tensos.

O visual de Midsommar é atípico para um longa de terror. A claridade conflita com a violência gráfica, deixando tudo mais absurdo e difícil de digerir. É um filme ambicioso que se apropria de diversos elementos que se desenrolam lentamente nas quase duas horas e meia de duração. Aster já havia determinado padrão diferenciado com seu filme de estreia e agora impõe algo novo. Enquanto Hereditário (2018) continha truques tradicionais do gênero, seu mais novo trabalho distancia-se da maioria dos outros títulos, confundindo quem foi ao cinema esperando por uma história linear e recheada de momentos intensos.

A transição de Dani da sala para o banheiro do avião é um rápido e bom resumo do sentimento que o filme traz: o de confusão. Nunca dá para saber exatamente o que está acontecendo. Por partes pelo uso de alucinógenos pelos personagens e por nunca se saber quais os limites dos rituais do até então desconhecido vilarejo sueco. As belas paisagens, as lindas roupas, as flores coloridas, a estética contrasta a todo momento com os horrores vividos pelos personagens.

O terror é um gênero que costuma colocar mulheres em evidência. Aqui não é diferente. Na reta final, Midsommar surpreende (ainda mais) ao escolher um caminho diferente e catártico para sua personagem principal. Dani assume um papel de relevância no local e tem uma epifania, talvez o desconhecido não seja tão esquisito assim, até sueco descobre que consegue falar. Esse inédito sentimento de pertencimento guia a personagem a cena final do longa.

A ambição de Ari Aster é valiosa. Midsommar, que acaba de ser disponiblizado em streaming pela Amazon Prime Video, não é sua melhor obra, mas tem grande importância ao tentar quebrar barreiras de um gênero que implora por novos ares. Com seu segundo filme, o diretor consegue estabelecer um tipo de horror que amedronta. Não por dar sustos, mas, sim, por lidar com sentimentos.

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Aves de Rapina – Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Colorida trama estrelada e produzida por Margot Robbie fala sobre a emancipação feminina em um mundo governado por homens

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Warner/Divulgação

Força e feminilidade por vezes soam como duas palavras antagônicas: uma só existe se a outra não estiver presente. Entretanto, o longa Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fabulosa (Birds of Prey And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, EUA, 2020 – Warner) veio para libertar o público deste estereótipo e mostrar que é possível, sim, ser as duas coisas ao mesmo tempo. E é no meio desse amálgama de libertações que o filme toma forma.

A produção, estrelada e produzida por Margot Robbie, celebra diversas formas do feminino e – assim como explicita o título – de emancipação de um grupo de mulheres em um mundo governado por homens. Emancipação: substantivo feminino; qualquer libertação; alforria, independência. Diferente das idealizadas Mulher-Maravilha e Capitã Marvel, as personagens de Aves de Rapina têm habilidades modestas e problemas comuns, buscando a própria voz em um mundo que só tem ouvidos para a unissonância masculina. Tudo isso dá ao filme um propósito realista, que funciona muito bem para aproximar o público de uma realidade palpável, ainda que cartunesca e fantasiosa. A relação entre Harley Quinn e seu sanduíche de ovo, por exemplo, diz muito mais ao espectador do que uma luta do bem contra o mal.

Com uma nova perspectiva, o longa captura a essência energeticamente anárquica de sua protagonista. No cenário atual, vê-la sendo abusada enquanto promete seu amor ao agressor logo se torna insustentável. Ela, por sorte, deixa de lado o papel de coadjuvante em Esquadrão Suicida para reivindicar, quatro anos depois, o lugar de protagonista de sua própria história.

O longa dirigido por Cathy Yan traz inúmeras formas de emancipação para compor o arco de cada personagem. Assim, o espectador acompanha a história de Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Renée Montoya (Rosie Perez) e Cassandra Cain (Ella Jay Basco) em suas buscas particulares por liberdade e autonomia. Com o roteiro de Christina Hodson, Aves de Rapina consegue abordar assuntos complexos, como machismo e violência física e psicológica, de uma maneira descontraída. Ainda que cartunesco, com um cenário brilhante e colorido, o filme passa longe de ser infantil. Ele continua sendo sobre mulheres que precisam se libertar de alguma maneira, seja de alguma coisa ou alguém.

Entre outras tentativas de tentar fazer da produção uma extensão da embaralhada mente de Harley, que mais parece um jogo de pinball, está a narrativa não linear. Ainda que ousado como sua protagonista, com cenas de luta deslumbrantemente coreografadas, o longa perde ritmo e torna-se inconstante em algumas cenas e diálogos finais. O enredo, narrado pela agitada personagem principal, vai e volta no espaço e no tempo para preencher a história de todos. Quebrando constantemente a quarta parede, é a própria Harley quem controla o filme – e também sua cronologia – servindo como uma outra forma de emancipação. Mas, por mais prazeroso que seja assisti-la narrando sua história, as diversas idas e vindas no roteiro resultam em uma narrativa confusa. Embora a escolha tenha sido proposital, para transparecer a incompreensibilidade de Harley, tecnicamente não funciona.

Felizmente, o filme acerta ao humanizar sua extravagantemente desequilibrada protagonista, mostrando que ela é muito mais do que apenas uma subjugada do “Mr. J”. Ela é dona de sua história. A anti-heroína começa a perceber o mundo como uma mulher independente e é com esse enfoque que Aves de Rapina tem seu êxito. Sendo assim, as melhores interações da personagem são com a jovem Cassandra Cain, a primeira que enxerga a protagonista como alguém que existe por si só e não inevitavelmente ligada ao Coringa – justamente por não saber quem ele é.

Apesar de se atrapalhar no desenvolvimento da trama relativamente simples, a obra é intencionalmente um caleidoscópio de acontecimentos. Um filme com personalidade, que expõe mulheres brigando por seu espaço, evidenciando que a força, independentemente do gênero, é a luta pela própria autonomia e a compreensão de que garota nenhuma precisa de alguém para ser alguém. Aves de Rapina é mais do que uma história em quadrinhos sobre heróis e vilões, é sobre várias maneiras de se emancipar, encontrar a própria voz. Seja você quem for.

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O Homem Invisível

Clássica história de ficção científica de HG Wells ganha nova adaptação e se transforma em um thriller psicológico bastante perturbador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Se você pensa que o novo remake do clássico sci-fi de HG Wells O Homem Invisível (The Invisible Man, Austrália/EUA, 2020 – Universal Pictures) é uma história de aventura e ficção científica, está redondamente enganado. Esta versão está muito mais para um thriller psicológico moderno, oportuno e incrivelmente perturbador.

Gaslighting é uma expressão usada para designar um tipo de abuso psicológico. Surgida com o filme À Meia-Luz (Gaslight, 1944), trata-se de uma violência sutil, manipuladora, por meio da qual a autoestima e autoconfiança da mulher são consumidas a ponto de invalidá-la como pessoa, gerando confusão e dúvida sobre tudo que acontece à sua volta. Em um primeiro momento pode não ficar claro, mas é exatamente sobre isso que este novo O Homem Invisível gira em torno.

Seguindo uma linha narrativa possivelmente inesperada, o longa, dirigido e escrito por Leigh Whannell, inteligentemente foca sua história em Cecilia Kass (Elisabeth Moss), vítima de um relacionamento abusivo que está tentando seguir em frente após o suposto suicídio de seu namorado, o cientista Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). Cecilia começa a ter sérias dúvidas em relação à morte do rapaz e acredita que ele não só está vivo, mas também seus abusos atingiram níveis ainda mais brutais. Cecília começa a perder a sanidade enquanto tenta provar que está sendo perseguida por alguém que ninguém pode ver.

O Homem Invisível emprega elementos da ficção científica para retratar um tipo de abuso que não tem espaço nas pautas de discussão da sociedade. De maneira habilidosa, o diretor e roteirista não apenas aborda o horror real que mulheres vivenciam como vítimas de violência, mas também sobre o quão difícil é provar a agressão. A analogia é clara.

Enquanto outros vilões clássicos da Universal mantiveram – na medida do possível – sua capacidade de aterrorizar, o personagem de Wells foi perdendo seu aspecto ameaçador com o passar do tempo, tornando-se quase cômico, com os óculos e curativos no rosto. Já era hora de alguém inovar o enredo e torná-lo assustador novamente. Ao invés de entregar seu homem invisível como o protagonista da trama, Whannell o transformou no antagonista de sua própria história. Ao contrário das versões anteriores, este longa é contado do ponto de vista da pessoa que o homem invisível está atormentando. Colocar o espectador vivendo no lugar da vítima do personagem-título, além de aumentar a plausibilidade e ansiedade da trama, foi uma sacada genial para tornar a narrativa aterrorizante para um público contemporâneo e transformar uma história da era vitoriana recorrendo a um medo muito atual e próximo do público. O tom inovador é tão oportuno que faz com que o último remake feito nos anos 2000 pareça uma relíquia.

Este O Homem Invisível é uma representação muito mais madura e íntima da fábula original. Com uma abordagem real e moderna, Whannell cria uma obra completamente excitante, profunda e intensa, conseguindo fazer quartos e corredores vazios ficarem inacreditavelmente assustadores. O longa é tenso e angustiante do início ao fim, com momentos de suspense beirando o insuportável, como já na cena inicial, em que Cecilia tenta fugir da casa de Griffin sem acordá-lo. É também um filme de terror que se desenrola na luz, o que pode ser muito mais desesperador, uma vez que tudo está ocorrendo, ironicamente, à vista de todos.

Apesar do sucesso de Whannell, grande parte do êxito desta produção se deve ao trabalho de sua protagonista. A excepcional interpretação de Moss faz o público acompanhar o solitário e cruel declínio de uma mulher em direção à loucura, transformando a ausência física do personagem-título em algo ainda mais convincente e torturante. Mesmo perdendo um pouco da força em seu último ato, com cenas apressadas que soam como se houvesse faltado tempo na produção para desenvolver a trama, a construção e o desenvolvimento do pavor são mais do que suficientes para perturbar.

O Homem Invisível não é apenas um dos thrillers mais angustiantes dos últimos tempos, mas é também um olhar totalmente pertinente e real sobre o pânico e os estragos deixados por uma relação abusiva. O filme deixa de ser apenas mais uma história sobre monstros assustadores quando aborda uma forma de violência muito perversa, contínua e sutil, que é tão frequente quanto invisível. Apresentando o personagem-título como a materialização do gaslighting, o denuncia uma sociedade que continua sem identificar a violência quando não há agressões físicas, não entendendo que, assim como o antagonista do longa, mesmo que seja algo aparentemente invisível aos olhos não significa que ela não esteja lá.