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Sergio

Apesar da sua extrema importância na história da ONU, diplomata brasileiro ganha filme de ficção água com açúcar voltado ao romance

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Parte de um projeto pessoal de Wagner Moura, que busca ressaltar personagens empáticos da história latino-americana, Sergio (EUA, 2020 – Netflix) é derivado de um documentário homônimo (este de 2009), e discorre a respeito da vida e morte de Sergio Vieira de Mello, diplomata brasileiro e figura importante na história da política internacional da ONU. Ambos são dirigidos por Greg Barker, o que demonstra a afinidade do diretor com o material-fonte – são, no mínimo, onze anos de contato com a vida do diplomata. Contudo, por não ter assistido o documentário de 2009, limito-me a analisar o filme lançado neste ano pelo serviço de streaming. Quaisquer comentários daqui em diante se referem à ficção.

O longa-metragem, roteirizado por Craig Borten e baseado na biografia de Samantha Power sobre o diplomata, intercala o atentado que o vitimou em Bagdad, em 2003, e momentos-chave da carreira e vida amorosa do protagonista. Interpretado por Wagner Moura, Sergio de Mello é o centro deste filme em seus dois modos: ao mesmo tempo que tenta ser biográfico, Barker explora o sentimento de Vieira de Mello, tornando a fundação do filme suas motivações, sensações e conflitos.

No entanto, essa fundação não emplaca tanto quanto deveria, pois há uma aparente confusão estilística na decupagem. No início, parece que o diretor opta por uma abordagem próxima do documental, criando uma atmosfera hiperrealista, com câmeras na mão e uma fotografia aterrada e lavada. No entanto, ao longo da trama, a fotografia e a mise-en-scène tornam-se mais polidas, abraçando a superdefinição e o abuso (saudável) da estética de golden hour – como é conhecido o momento do final da tarde em que a luz solar emana uma cor quente, amarelada. Rende ótimos retratos, por sinal.

Mas essa não é a única inconsistência de Sergio. A principal delas é uma confusão de montagem, que não pode ser claramente adereçada sem a exposição de muitos pontos da trama (não cruciais): são múltiplas as vezes em que a trama alterna entre o momento pós-atentado e as muitas recolecções de momentos fundamentais da carreira do diplomata. No papel, não há evidentes problemas, tanto que esta parece uma decisão proveniente do próprio roteiro. Porém a recorrência da alternação torna as porções do “presente” repetitivas, bem como as do passado do protagonista bastante arbitrárias.

Por fim, para quem se interessa pela carreira de Sergio Vieira de Mello, a insistência no romance deste com Carolina, interpretada por Ana de Armas, incomoda. A trama decide focar nas idas e vindas e na incerteza do relacionamento amoroso ao invés de nos mostrar (e não contar) o que faz o diplomata ser tão importante para a história das Nações Unidas. Ainda, a situação torna-se mais incômoda pela falta de química entre de Armas e Wagner Moura, que têm boas atuações individuais, mas não colam um romance convincente. É uma pena que este, um filme com potencial disruptivo e até subversivo, que poderia mostrar-nos grandes momentos de líderes políticos, debates com criminosos de guerra e demais desafios da vida de Sergio, reduza-se a um romance água com açúcar.

O conjunto da obra sofre por suas inconsistências. Enquanto é possível ver o potencial que a história teria com um roteiro diferente, é frustrante ver que este insiste em afastar-se daquilo que o tornaria único. Sendo assim, Sergio se contenta em ser um filme que, em vez de trazer incríveis diálogos a seus poderosos personagens, resulta em montagem atrás de montagem de seu protagonista nadando a esmo – quando não refletindo em diversas posições diferentes nos mais variados lugares.

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O Poço

Produção espanhola suscita debates interessantes porém pouco se arrisca fora das muletas do choque por meio de fortes imagens

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

É um grande desafio prender seu filme nas amarras de uma única possibilidade de cenário. O Poço (El Hoyo, Espanha, 2019 – Netflix), que estreou recentemente e é uma das tendências da plataforma de streaming, apresenta pouquíssimas cenas fora das celas predefinidas de sua prisão (ou centro de autogestão), que alternam entre um monótono cinza azulado e um igualmente monótono vermelho onipresente. É de se imaginar que o enredo do thriller espanhol seja bom o suficiente para angariar os fãs que sua fotografia deixa de maravilhar.

Escrito por David Desola e Pedro Rivero, o roteiro acompanha Goreng (Ivan Msasagué), que, por livre arbítrio, entra no Poço por seis meses com a intenção de parar de fumar. A estrutura dessa prisão é simples: centenas de andares, cada um com duas pessoas; uma vez por dia, uma mesa repleta de comida desce do andar anterior. Ou seja, enquanto os primeiros andares têm uma farta mesa, os demais devem satisfazer-se com seus restos. O problema é igualmente simples e até óbvio, como diria Trimagasi (Zorion Eguileor), um dos personagens: em um dado momento, os andares deixam de receber comida – e, assim, devem morrer de fome ou matar uns aos outros. É comer ou ser comido.

Dadas as regras, que são transmitidas por Trimagasi assim que a trama se inicia, nossas simpatia e empatia estão com Goreng, que encara com horror o funcionamento do Poço, bem como as consequências deste. Qualquer outro comentário acerca da trama entra em território perigoso de spoiler. Então, só me resta transmitir que, por mais que a franqueza dos diálogos e a rapidez com que eles passam as informações possam incomodar, tais características diminuem e as conversas se normalizam – na medida do possível.

O filme é dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia (em seu primeiro longa-metragem) e traz consigo uma abertura para o debate de inúmeros temas. É possível explorar religião, leis, o papel estatal e assim em diante. Não muito disto, porém, provém da decupagem de Gaztelu-Urrutia, que não parece empregar muitas marcas estilísticas autorais. Tendo isso em vista, encontra problemas em uma das características mais marcantes da obra, sua utilização do grotesco para chocar a audiência. Há exemplos disto não somente na decupagem fotográfica, como também na dimensão sonora da trama – os sons exagerados ao comer, seja o que for.

Mas, principalmente, há uma arbitrariedade da utilização da capacidade de choque da imagem que só se justifica pela busca gratuita deste, a fim de prender a atenção dos espectadores. Convido ao leitor a se perguntar, a cada cena de grafismo agressor (imagens de violência), se esta é realmente necessária. Ela introduz algo novo à compreensão do filme? Provoca o espectador acerca de um tema? E, continuando, peço que faça o mesmo a cada opção por não revelar a violência em sua dimensão gráfica. Não é possível encontrar um exemplo de cena similar que teve exposta sua violência? Existe uma decisão ordenada de quais cenas têm seu conteúdo violento apresentado?

Sinto dizer que não fui capaz de positivar essa resposta. Sendo assim, a direção de Gaztelu-Urrutia oscila entre o convencional e o fetichista, mas não ofusca a funcionalidade do enredo por mérito da montagem de Elena Ruiz e Haritz Zubillaga, que introduzem um ritmo pulsante à narrativa, seja em seus momentos de diálogo ou nas várias montages que cortam a trama. É ela que, quando não ofuscada pela necessidade de gore de seu diretor, aflora o interesse temático e narrativo que a audiência tem em O Poço.

Portanto, o filme espanhol tem seus méritos e também seus deméritos. É capaz de trazer entretenimento, até mesmo servir de base para discussões sobre a natureza da humanidade. Entratanto, seu fetiche pelo gore pode afastar audiências – e suscita, por si mesmo, um debate negativo ao longa. Vale assistir, mas não há motivo suficiente para, como vi por aí, compará-lo a Parasita ou qualquer “melhor filme” dos anos recentes.

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Joias Brutas

Trama caótica, montagem tensa e Adam Sandler fugindo de suas habituais comédias estereotipadas tornam este filme uma divertida surpresa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

É relativamente fácil vermos um filme que cria tensão. Essa ferramenta de linguagem está tão incrustrada no cinema contemporâneo que a tomamos por dada. Difícil, no entanto, é um longa que o faça a todo momento – das mais variadas formas possíveis.

Joias Brutas (Uncut Gems, EUA, 2019 – Netflix) é dirigido pelos irmãos Josh e Benny Safdie, escrito por eles junto a Ronald Bronstein e montado pelos dois últimos. Essa autoralidade, que passa da cadeira da direção para inundar as diferentes etapas da produção cinematográfica, é típica da obra dos Safdie. E se paga completamente neste longa.

A trama acompanha a turbulenta vida de Howard Ratner, um joalheiro nova-iorquino que, ao mesmo tempo que deve muito dinheiro, vê a oportunidade de uma venda astronômica. Tal como sua rotina, a história é frenética. O protagonista vai e volta, num entra-e-sai de lugares, negócios e acordos que, embora bastante simples, tornam-se difíceis de acompanhar. No entanto, a história não seria a mesma – e, por consequência, não seria tão boa – caso não houvesse dois pilares: a direção e a montagem por um lado, Adam Sandler no outro.

Comecemos por aqueles. A constante câmera na mão, perdida no meio de um mar de ações do elenco, é efusiva e sinaliza bem a correria em que Joias Brutas se estabelece. Os Safdie dão bastante espaço para seus atores, porém quase nenhum para sua câmera – sempre claustrofóbica, fechada e cambaleando de quadro a quadro. A fotografia de Darius Khondji é indissociável desse estilo. Granulada, lavada e por muitas vezes fora de foco, ela constrói não somente a cidade em que Howard vive, mas suas incertezas e planos mirabolantes.

Enquanto isso, cabe aos montadores a criação de um ritmo onipresente à obra. O cinema acelerado dos Safdie, a megalomania de Howard e as constantes discussões polifônicas que montam a trama são sempre extrapolados pela constante troca de câmeras, ângulos e pontos de vista. Contudo, a preocupação em construir o ritmo não permite que se perca a coesão narrativa e a sensação de unidade do longa. É bagunçado, mas é um só. Quis ser bagunçado.

E não seria estranho, portanto, que o protagonista fosse a bagunça personificada. Howard fala demais, é canastrão e vivaz, mas autêntico e de uma certeza inabalável. Seu adultério, vício por apostas e a interminável construção de plano atrás de plano para ganhar dinheiro não são somente características externas ao personagem, dadas pela trama porém introjetadas nele mesmo por seu ator. Sandler vive Howard, numa interpretação que resgata a constante “interpretação de si mesmo”, joga-a contra a parede e propõe uma persona que não foge dos maneirismos mas é muito além disso. Vale comentar, num adendo, que não há a infame voz exagerada que o humorista faz quando tenta ser engraçado . O que é um alívio para o espectador.

A trilha sonora de Daniel Lopatin ainda é certeira. Seus sintetizadores por ora dissonantes e deixam a trama respirar (mesmo que em sua respiração ansiosa) e somente a calçam, sem perder a melodia.

Tudo isso faz de Joias Brutas um filme ansioso, que jamais perde tempo, confuso em si mesmo e capaz de desenvolver sua tensão do início ao fim. Construído em volta da melhor atuação de Adam Sandler até o momento e amparado por ótimas interpretações de Julia Fox e Lakeith Stanfield, o longa abraça o caos de sua trama e permite acompanhar Howard por uma história divertida, na qual a tensão irrompe mais num jogo de basquete que numa confusão com a máfia. Uma boa surpresa para algum desavisado que espera de Sandler um Gente Grande atrás do outro. Volta e meia ele faz um filme bom.

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O Homem Invisível

Clássica história de ficção científica de HG Wells ganha nova adaptação e se transforma em um thriller psicológico bastante perturbador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Se você pensa que o novo remake do clássico sci-fi de HG Wells O Homem Invisível (The Invisible Man, Austrália/EUA, 2020 – Universal Pictures) é uma história de aventura e ficção científica, está redondamente enganado. Esta versão está muito mais para um thriller psicológico moderno, oportuno e incrivelmente perturbador.

Gaslighting é uma expressão usada para designar um tipo de abuso psicológico. Surgida com o filme À Meia-Luz (Gaslight, 1944), trata-se de uma violência sutil, manipuladora, por meio da qual a autoestima e autoconfiança da mulher são consumidas a ponto de invalidá-la como pessoa, gerando confusão e dúvida sobre tudo que acontece à sua volta. Em um primeiro momento pode não ficar claro, mas é exatamente sobre isso que este novo O Homem Invisível gira em torno.

Seguindo uma linha narrativa possivelmente inesperada, o longa, dirigido e escrito por Leigh Whannell, inteligentemente foca sua história em Cecilia Kass (Elisabeth Moss), vítima de um relacionamento abusivo que está tentando seguir em frente após o suposto suicídio de seu namorado, o cientista Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). Cecilia começa a ter sérias dúvidas em relação à morte do rapaz e acredita que ele não só está vivo, mas também seus abusos atingiram níveis ainda mais brutais. Cecília começa a perder a sanidade enquanto tenta provar que está sendo perseguida por alguém que ninguém pode ver.

O Homem Invisível emprega elementos da ficção científica para retratar um tipo de abuso que não tem espaço nas pautas de discussão da sociedade. De maneira habilidosa, o diretor e roteirista não apenas aborda o horror real que mulheres vivenciam como vítimas de violência, mas também sobre o quão difícil é provar a agressão. A analogia é clara.

Enquanto outros vilões clássicos da Universal mantiveram – na medida do possível – sua capacidade de aterrorizar, o personagem de Wells foi perdendo seu aspecto ameaçador com o passar do tempo, tornando-se quase cômico, com os óculos e curativos no rosto. Já era hora de alguém inovar o enredo e torná-lo assustador novamente. Ao invés de entregar seu homem invisível como o protagonista da trama, Whannell o transformou no antagonista de sua própria história. Ao contrário das versões anteriores, este longa é contado do ponto de vista da pessoa que o homem invisível está atormentando. Colocar o espectador vivendo no lugar da vítima do personagem-título, além de aumentar a plausibilidade e ansiedade da trama, foi uma sacada genial para tornar a narrativa aterrorizante para um público contemporâneo e transformar uma história da era vitoriana recorrendo a um medo muito atual e próximo do público. O tom inovador é tão oportuno que faz com que o último remake feito nos anos 2000 pareça uma relíquia.

Este O Homem Invisível é uma representação muito mais madura e íntima da fábula original. Com uma abordagem real e moderna, Whannell cria uma obra completamente excitante, profunda e intensa, conseguindo fazer quartos e corredores vazios ficarem inacreditavelmente assustadores. O longa é tenso e angustiante do início ao fim, com momentos de suspense beirando o insuportável, como já na cena inicial, em que Cecilia tenta fugir da casa de Griffin sem acordá-lo. É também um filme de terror que se desenrola na luz, o que pode ser muito mais desesperador, uma vez que tudo está ocorrendo, ironicamente, à vista de todos.

Apesar do sucesso de Whannell, grande parte do êxito desta produção se deve ao trabalho de sua protagonista. A excepcional interpretação de Moss faz o público acompanhar o solitário e cruel declínio de uma mulher em direção à loucura, transformando a ausência física do personagem-título em algo ainda mais convincente e torturante. Mesmo perdendo um pouco da força em seu último ato, com cenas apressadas que soam como se houvesse faltado tempo na produção para desenvolver a trama, a construção e o desenvolvimento do pavor são mais do que suficientes para perturbar.

O Homem Invisível não é apenas um dos thrillers mais angustiantes dos últimos tempos, mas é também um olhar totalmente pertinente e real sobre o pânico e os estragos deixados por uma relação abusiva. O filme deixa de ser apenas mais uma história sobre monstros assustadores quando aborda uma forma de violência muito perversa, contínua e sutil, que é tão frequente quanto invisível. Apresentando o personagem-título como a materialização do gaslighting, o denuncia uma sociedade que continua sem identificar a violência quando não há agressões físicas, não entendendo que, assim como o antagonista do longa, mesmo que seja algo aparentemente invisível aos olhos não significa que ela não esteja lá.