Music

Amy Winehouse

Seis meses antes de sua morte, que completa exatos dez anos, cantora procurou a paz no Brasil mas encontrou o inferno em seu lugar

Texto por Fábio Soares

Foto: Divulgação

O ano de 2011 não começou nada fácil para este que vos escreve: simultâneos golpes financeiros em minha conta bancária e cartão de crédito. Um par de bólidos de amigos enviados a UTIs automotivas após barbeiragem causada por minha pessoa, problemas com o álcool e infindáveis crises existencias. Enfim, o fundo do poço materializado.

Dois meses antes destes infortúnios acontecerem, um negativo fato marcou-me naquele fatídico ano de “zero onze”. O festival caça-níquel Summer Soul, realizado no Anhembi em 15 de Janeiro, tinha um confuso line up mas um nome de respeito para encerrá-lo. Com 27 anos completados quatro meses antes, Amy Winehouse atravessava irregular momento em sua carreira. Com o psicológico abalado, vilipendiado e torturado por seu atual-ex-atual-ex-namorado-marido-namorado-namorido, queria apenas encontrar a paz em sudacas terras tropicais. Encontrou o inferno em seu lugar.

Formado em sua grande maioria por um público arrogante, acéfalo e inebriado com os recém-chegados smartphones ao Brasil, o público da pista premium do festival (setor para o qual adquiri ingresso) estava pouco se lixando para o que acontecia no palco. A coletiva imbecilidade era tanta que grande parte dos presentes não se ateve ao fato de que uma estrela do r&b estava ali, materializando-se diante dos olhos de todos. Antes da apresentação de Amy, Janelle Monáe fez uma apresentação impecável, apresentando ali o rumo que a nova safra da soul music tomaria dali para a frente. Mas ninguém percebeu. Noventa por cento do público estava preocupado em registrar selfies, tomar cerveja quente e gargalhar em rodinhas de bate-papo. Muitos, inclusive, de costas para o palco. Tão irritado fiquei que quase fui embora. Mas ainda havia um motivo para que eu aguentasse aquela tortura à minha volta. Ainda havia Amy.

Perto da meia-noite, Amy surgiu ao palco lindíssima, num vestido preto com detalhes brancos. Sua cabeça, no entanto, estava longe dali. Executando as canções numa obrigação digna de uma funcionária de cartório às quatro da tarde de uma sexta-feira, visivelmente encontrava-se fora de sintonia com sua excelente banda de apoio. O público da pista premium, por sua vez, teve um comportamento NOJENTO ao vibrar (como se fosse um gol!) a cada vez que a cantora levava uma das mãos ao nariz ou bebericava algo em sua caneca. Resumindo: o nojento público da pista premium daquele maldito festival não estava ali para presenciar o talento de Amy. Estava ali apenas para vibrar com sua auto e pública destruição. A poucos metros de mim, observei a cantora Pitty visivelmente indignada como eu com o imbecil comportamento daquele bando ali instalado. Amy não merecia, Pitty não merecia, eu não merecia. Era uma noite para esquecer.

Corta pra 23 de julho de 2011. O time do qual eu era fundador, manager e técnico tinha apenas sete anos de vida mas uma gloriosa história de títulos e memoráveis apresentações nos campeonatos de futsal de nossa empresa. Estávamos num período de jejum e aquele dia poderia representar nossa volta aos tempos áureos. Semifinal do campeonato interno contra um tradicional rival interno. O conglomerado Cachaçamba era a pedra em nosso sapato há algumas temporadas mas naquele 23/07 seria tudo diferente e carimbaríamos nosso passaporte à final do torneio. Certo?

Não! O dia já havido começado mal. Acordei deprimido e sem vontade de levantar da cama. Tinha, porém, uma missão a cumprir. Trinta minutos de trajeto separavam minha residência do Nacional Atlético Clube, na Barra Funda. Naquele momento, eu não precisava de uma trilha sonora que me botasse “para cima” mas, sim, uma trilha sonora que me entendesse sem julgamentos. E na busca de meu velho iPod, nada poderia ser mais adequado ao momento: o álbum era Back To Black e sua intérprete sabemos muito bem quem era.

A ida ao ginásio, local da partida, foi triste, modorrenta e de certa forma premonitória. Jogo iniciado e eu, como comandante, fui um completo FRACASSO. Decisões erradas tomadas por mim levaram nossa equipe a um completo naufrágio. Tomamos um vareio de bola e a tão sonhada vaga à final estava reduzida a uma humilhante goleada sofrida. Após o jogo, não quis falar com ninguém, limitando-me a ficar sozinho nas arquibancadas do ginásio.

Com a cabeça pesando uma tonelada, iniciei meu retorno para casa, não sem antes acessar os portais de notícias pelo celular. Quase em uníssono todos eles reproduziam a mesma manchete: “Amy Winehouse é encontrada morta em Londres”.

Naquele momento, fui invadido por um misto de tristeza e revolta. Revolta por saber que Amy deu seu último suspiro Camden Town. Eu havia pisado por aquelas bandas da capital inglesa dez meses antes e sabia muito bem que ali era o PIOR LUGAR DO MUNDO para um adicto em álcool residir. Em Camden há um pub em cada esquina prontos para abrigarem celebrações marciais de autodestruição. É um convite à loucura, à perda da sobriedade. A literal tradução de “sentença de morte” para um alcoólatra. A morte de Amy quis me arrastar para o fundo do poço… mas eu já estava lá.

Esta sexta-feira 23 de julho de 2021 marca exatos dez amos que Amy Winehouse nos deixou, aos 27 anos de idade. Gata garota que cometeu o hediondo crime de querer ser feliz. Um talento gigantesco a flutuar por um hermético espaço. Mais uma indefesa vítima de poderosos interesses que enriquecem em cima de corpos e talentos alheios.

E quanto a mim? Como estou eu, dez anos depois daquele nublado sábado de 2011? Triste da mesma forma. Mas ainda mais triste por saber que a incólume lacuna aberta por Amy Winehouse permanece aberta dez anos depois. E quer saber? Ainda permanecerá assim por um bom tempo…

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