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A Mesma Parte de um Homem

Filme paranaense oscila entre o bom suspense da rápida mudança de uma dinâmica de uma família e o fraco desenvolvimento de seus personagens

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Olhar/Divulgação

A Mesma Parte de um Homem (Brasil, 2021 – Olhar) fez parte da programação da 24a Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada no fim de janeiro de forma online e gratuita. O filme foi uma das oito produções paranaenses selecionadas para as diversas mostras do festival.

Nele, acompanhamos o desenvolvimento misterioso da história de Renata (Clarissa Kiste), que vive com a filha Luana (Laís Cristina) e o esposo Miguel (Otávio Linhares), até a morte deste. A partir daí, no entanto, o roteiro assinado pela diretora Ana Johann e por Alana Rodrigues aposta no mistério por omissão e pouco se estabelece como dado. Com a chegada de um novo “marido” (Irandhir Santos), que substitui Miguel quase instantaneamente e é aceito de imediato, a dinâmica da casa muda. Com ela, as personagens se transformam.

Nossa visão enquanto espectadores é limitada a planos claustrofóbicos, com forte enfoque nos rostos do elenco. A narrativa, portanto, é reflexo de sua atuação, com poucas nuances apresentadas pela totalidade da mise-en-scène. A direção de Johann, que assina seu primeiro longa, busca arquitetar uma atmosfera de tensão e mistério. De fato, ela consegue concretizá-la, a despeito do desenvolvimento de suas personagens.

Por ser um filme vago, isto é, que não explica seus pressupostos muito menos busca explicitar seus conflitos, A Mesma Parte de um Homem é naturalmente ambíguo, sendo que se possa entendê-lo sob diversas óticas. Acredito não ser a melhor abordagem a apresentação de possíveis interpretações (mas você, que lê esse texto, pode ter uma impressão radicalmente diferente da minha, que trabalharei agora). A falta de desenvolvimento do casal original (que conta somente com uma interação antes da morte de Miguel), aliada ao imediato reconhecimento e adoção de Lui (Santos) como “pai” e “marido”, dá a entender que este é uma extensão daquele. Lui aparece na pequena fazenda de Renata sem memórias de seu passado recente, mas se lembra de sua esposa e sua filha. Isso, que por si só causaria estranhamento, é dado sem desconfiança ou resistência por parte de Renata e Luana. 

Assim, a trama se desenvolveria por meio de um retrato psicológico de Renata, uma mulher oprimida pelo medo que encontra libertação com a chegada de seu novo marido. Estranho, não? A utilização do sexo como veículo para a emancipação de sua protagonista torna o filme raso e o tempo investido nas dinâmicas sexuais do novo casal subtrai a capacidade de desenvolvê-la em si mesma. É difícil trabalhar outra descrição para a personagem de Renata, que embora seja a protagonista e carregue consigo grande parte do peso emocional do longa, é apresentada ao espectador apenas pela lente patriarcal que o longa, em uma interpretação política, buscaria problematizar. Não nos é certo se Lui ou Miguel são a mesma pessoa ou aquele é um mero substituto desse. Ainda assim temos mais consciência de sua personalidade e história que de Renata ou Luana – outra personagem que sofre da mesma caracterização plana que enfraquece a compreensão de seu arco. 

A falta de um conflito convencional, de um desenvolvimento padronizado na dinâmica de heroína e vilão, é um ponto alto do suspense palpável que inunda a tela com perguntas e nenhuma resposta. No entanto, as questões que o filme levanta, em muito, resultam em uma compreensão problemática de si mesmo. A suposta emancipação feminina precisa passar pela introdução de uma nova figura masculina? Renata só se desvencilha de seu medo dentro do esquema patriarcal que a sufoca?

Embora A Mesma Parte de um Homem seja tecnicamente interessante, seu discurso se enfraquece quanto mais é confrontado. Se o suspense é palpável e pesa no ar, o desenvolvimento é raso e problemático. Se as atuações são convincentes e sinérgicas, somente seu peso não é suficiente para carregar a emoção da trama.

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