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Hurtmold

Depois de show intimista em Curitiba, banda fala ao Mondo Bacana sobre os 20 anos de carreira e os planos para um novo disco

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Texto e entrevista por Guilherme Motta

Fotos: André Calvente/Divulgação (banda) e Guilherme Motta (show)

Na véspera do feriadão de carnaval, Curitiba recebeu uma das bandas referência da música contemporânea brasileira. O Hurtmold, que está completando 20 anos de sua existência, apresentou-se na noite quente de quinta-feira (28 de fevereiro) no jardim do Veg Veg – Empório Vegano, que há algum tempo vêm nos trazendo algumas bandas do cenário independente. Quem conhece os proprietários sabe que eles sempre foram envolvidos com o cenário do punk e desde então vêm trazendo bandas para se apresentar na cidade.

O showcontou com pouco mais de 150 pessoas. Os ingressos eram limitados e isso tornou ainda mais especial, intimista e animador. O cuidado com o preparo do palco, equipamentos, luz e ambiente fez com que essa apresentação fosse uma das coisas mais bonitas que eu já presenciei na cena independente local. E palavras do próprio Fernando Cappi, guitarrista da banda, “Tocar aqui desta forma, para essas pessoas, foi uma das experiências mais bonitas e intensas que já tive”.

A apresentação durou em torno de uma hora. Tinha de acabar cedo, pois o espaço é aberto e há residências vizinhas ao entorno. Os caras executaram seus mais diversos temas instrumentais. O set list foi bem diversificado, com músicas dos trabalhos mais antigos até os mais recentes.

O público estava visivelmente muito empolgado em ver o sexteto paulistano ali, tocando num espaço pequeno. Como não pode faltar em apresentações como estas, entoaram um coro que deu orgulho quando a banda começou a tocar a música que é uma das minhas preferidas, “Chuva Negra”, emendando logo depois “Desisto”. Realmente muito emocionante.

Logo após o show, depois da adrenalina baixar, fumar alguns cigarros, trocar ideias com os integrantes pela calçada em frente ao local do show, sentamos tranquilos em uma mesas perto do palco. Ali os caras me concederam uma entrevista, que foi mais como uma conversa normal entre uns amigos falando sobre as bandas que gostam, rolês, amigos, discos, livros, etc. O texto que segue é um resumo sobre tudo o que conversamos. Afinal, foram algumas horas de conversa gravada e transcrever tudo isso seria impossível. Detalhe: não apenas um só integrante falou, mas todas as respostas estão creditadas à banda como um todo.

Hurtmold

São 20 anos de banda já… Vocês são amigos há quanto tempo? Como começou todo esse rolê de querer tocar e formar o Hurtmold?

Cara, são alguns núcleos na banda, alguns de nós nos conhecemos em 1995, estudando juntos, no primeiro colegial, o Marcão (Marcos Gerez) entrou no mesmo colégio no ano seguinte. O Fernando e o Mário são irmãos e o Maurício Takara a gente conheceu por volta de dois anos depois, ali em 1996/1997 porque fomos ensaiar no estúdio da família dele. E também a gente já meio que sabia quem era porque íamos em shows das bandas dele, do rolê hardcore/punk, bandas como o Againe, e o Small Talks. A gente estava procurando um estúdio pra ensaiar e achamos esse aí. Tinha uma galera que curtia Descendents. Tinha uns argentinos bem loucos. E quando chegamos lá eram os caras. Nisso começou nossa amizade.

Vamos lá, deixa eu ver se estou certo: nestes 20 anos já são seis álbuns, um split e dois demos?

Vish, cara! Você sabe melhor do que nós. Se você diz… é isso aí!

Está aqui, anotado! Vocês são uma das bandas mais influentes do cenário experimental.  E como é vocês olharem pra trás e verem tudo isso que fizeram, toda essa bagagem nas costas?

É meio natural, na real, porque a gente começou, continuou e estamos aí!. A gente tem a banda porque é amigo e não ao contrário. E isso é bem determinante no fator banda. É o bagulho mais legal do mundo, saca? Toda vez que a gente sai tocar junto e viajar é muito foda! Estamoa lá tocando e sempre pensamos “pô, que massa, está funcionando e é do caralho!”. Inclusive quanto mais velho a gente vai ficando e tocando, mais emocionado a gente fica com o rolê.

O intuito é sempre esse, né? Continuar fazendo um som com os amigos. fator mais importante pra mim também. Agora, passando para o ano de 2016… O disco Curado, com o Paulo Santos, ex-Uakti. O cara é a referência da música contemporânea no Brasil. Como foi esse processo? Vocês já tinham algo pronto e só chamaram ele ou entraram em estúdio e fizeram tudo do zero?

A gente já tinha feito alguns shows com o Paulinho uns anos antes. O contato começou quando alguém sugeriu uma participação e a gente topou. Então, ficamos nos comunicando por e-mail. Rolavam umas idéias e decidimos fazer a parada. E, porra!, no primeiro show que a gente fez juntos a gente não conhecia o cara pessoalmente e quando ele chegou a gente pensou: “nossa, mano, esse cara é tipo um truta nosso, facilmente andaria com a nossa galera se fosse do mesmo rolê!” (risos)E depois dali a gente já sabia que ia longe a parada. Foram uns anos tocando juntos quando resolvemos registrar a parceria. Aí saiu esse álbum. Foi bem natural o processo.

Legal, e o cara é punk, tiozinho punk. Essa é a real, não tem como dar errado na minha opinião… E não deu. Já se passaram três anos desse lançamento, vocês tocaram aqui em Curitiba hoje, na sequência no Psicodália. Então aí vai a famosa pergunta: vem coisa nova aí, vão gravar, estão compondo? Como que estão os projetos futuros?

Pô, vai sim, uma hora tem que sair! A gente conversou sobre isso, mas também não vai ser muito em breve. A gente tem o nosso processo, é devagar. Não tem nenhuma cobrança em cima disso. Dentro do nosso ritmo está acontecendo. Sempre que rola uma reunião criamos algo juntos. Então, é natural uma hora nós tenhamos material pra lançar.”

Isso que é massa: não ter obrigação de fazer uma parada e, se rolar, rolou. Agora, para finalizar, essa última pergunta é uma piração minha que eu curto saber da galera por aí. Quero que vocês de dêem o nome de três discos que fez tudo isso acontecer, desde a amizade de vocês até trazer influências para a banda.

Calma aí. A gente tem que decidir entre todo mundo aqui. Três discos? Beleza! Cara, tem um que é crucial, porque eu lembro até de ter comentado com o Farofa, o vocalista do Garage Fuzz, que na escola a primeira coisa que a gente trocou idéia de som foi sobre o Garage Fuzz. Por que a gente sempre ouvia os caras, a gente vivia nos shows e tal. Outra coisa é que a gente teve a chance de ver o Fugazi, conversar com os caras depois do show. E isso foi um divisor de águas para a gente. O Fugazi é uma banda muito importante. Isso ajudou a formar o núcleo do começo do Hurtmold. Então, acho que Repeater, do Fugazi, entra nessa lista. E outro disco que pode entrar também é o clássico A Love Supreme, do John Coltrane. Não é o mais importante pra todo mundo, mas a energia e a idéia do disco é a mesma.

Então é isso mesmo? Esses três?

Isso mesmo: 1) Garage Fuzz, Relax In Your Favorite Chair; 2) Fugazi, Repeater (mas pode colocar todos os discos deles aí também); e 3) John Coltrane, A Love Supreme.

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História do Rock: Buddy Holly + Ritchie Valens + Big Bopper – Parte 2

Desastre aéreo que matou três astros promissores da música jovem deixou o 3 de fevereiro de 1959 marcado como “o dia em que a música morreu”

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Buddy Holly e os Crickets

Texto por Abonico R. Smith

Fotos: Reprodução

>> Continuação da Parte 1 – para ler clique aqui

Nascido em 1930 em uma pequena cidade do Texas na divisa com a Louisiana, JP Richardson sempre foi um menino brincalhão e extrovertido envolvido com a música por gosto familiar. O que acabou refletindo cedo em suas escolhas profissionais. Acompanhou a era de ouro das big bands durante a infância e na adolescência já dava seus primeiros passos profissionais como disc-jockey. Ao voltar de um período servindo o exército, entre 1955 e 1957, retomou as atividades radiofônicas, desta vez incorporando um personagem chamado Big Bopper. O rock’n’roll já estava absorvido pela indústria cultural norte-americana e além de tocar os discos e falar ao microfone, Richardson passou também a compor algumas músicas gravadas por outros artistas.

Em maio de 1957, ele bateu o recorde de transmissão contínua no dial: ficou cinco dias, duas horas e oito minutos no ar. Tocou 1821 discos e aproveitava para tomar banho durante os intervalos de cinco minutos de blocos com notícias jornalísticas. Em 1958, gravou seu primeiro single, “Chantilly Lace”, que o projetou ao outro lado da fama: o de artista que é tocado pelos DJs das rádios. Para promover a música, apresentou-se no programa musical de TV apresentado por Dick Clark atuando como um personagem dentro de um roteiro e uma cenografia elaborada especialmente para as câmeras. Ele também propagava aos quatro cantos que filmes de curta duração seriam “o futuro da música” e que os discos passariam a ser filmados. Por conta própria, fez os vídeos de outras duas faixas, incluídas como lados B no compacto de “Chantilly Lace”. Tanto que chegou Portanto, não é exagero dizer que JP foi um precursor da estética que ficou conhecida posteriormente como videoclipe. Caso não tivesse morrido aos 28 anos de idade, poderia ter dado outras boas contribuições para a música, tanto na área da comunicação quanto como cantor e compositor. Entre os seus pertences achados no jatinho estavam uma caderneta com anotações de vinte composições, que ganharam o epíteto de “20 lost songs”.

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Big  Bopper

Nascido e criado em subúrbio latino de classe média-baixa de Los Angeles e de ascendência indígena mexicana, Richard Steven Valenzuela morreu com apenas 17. Ao completar esta idade, em maio de 1958, chamou a atenção do dono do selo Del-Fi, baseado em Hollywood, que procurava novos talentos do rock para, quem sabe, descobrir um outro Elvis Presley. Quando soube que havia um menino de um high school de Pacoima que era conhecido como “o Little Richard do vale de San Fernando”, não teve dúvidas e contratou Valenzuela. Mudou seu nome artístico para Ritchie Valens e lançou o primeiro single, com a canção autoral “Come On Let’s Go”. Na sequência, bancou um outro compacto, desta vez puxado pela balada romântica “Donna”, composta por Ritchie para sua namoradinha de colégio em um momento dor-de-cotovelo. Entretanto, a principal contribuição do astro precoce estava justamente “escondida” no lado B do disquinho em vinil.

Durante uma viagem a Tijuana, cidade mexicana mais perto da fronteira com a Costa Oeste, Valens apaixonou-se pela canção tradicional mexicana La Bamba e decidiu incorporá-la em seu repertório, com um arranjo rock’n’roll tendo o riff desenhado pelas guitarras. Bingo! Sucesso imediato e mais: a faixa tornou Valens um grande ídolo de toda a comunidade hispano-americana dos Estados Unidos, especialmente a espalhada pelo centro-sul da Califórnia. O baixista Don Tosti (do hit “Pachuco Boogie”) e o “humorista” Lalo Guerrero (“Pancho López”, uma adaptação do tema de Davy Crockett para a cultura de seu povo) já haviam popularizado anos antes o que se convencionou a chamar de gênero musical “chicano” (termo usado que denominar os descendentes de latinos na sociedade da época que, de um modo geral, servia como algo depreciativo e separatista). O garoto simpático e gorduchinho, que pulou dos assentos escolares para os palcos como um meteoro era, naquele momento, a grande aposta de um Estados Unidos que queria demonstrar a força da imigração latina, que, com o passar das décadas, viria a ser decisiva no mercado de música e entretenimento. Poderia ter tido uma carreira brilhante e, tal qual o companheiro de turnê Big Bopper, ter sido muito mais incisivo na questão do pioneirismo.

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Ritchie Valens

Curiosamente, este item também não faltava a Charles Hardin Holley, nascido em 1936 e outro texano (mas desta vez nascido para o norte do estado, na cidade de Lubbock, mais próxima do meio-oeste conservador (isto é, os estados de Oklahoma e Novo México) vindo de uma família que exercitava sua paixão pela música aprendendo e tocando instrumentos. Buddy Holly, com 16 anos de idade já fazia performances em emissoras locais de rádio e TV da região. Em 1956 começou a fazer suas primeiras gravações em estúdio, quase sempre assinado a autoria das mesmas músicas e coordenando em conjunto a produção artística. Pequeno gênio, encontrou no trio Crickets seu apoio musical e de quem nunca mais se separaria.

A união entre Holly e a formação de trio do Crickets acabaria por consolidar um formato até então nos arranjos de rock’n’roll: duas guitarras, um baixo e uma bateria. Antes era normal que houvesse piano, saxofone e violão. Depois de Buddy, as bandas de rock do mundo inteiro passariam a adotar este formato básico e nunca mais abandonado. Com influências de gospel, hillbilly rhythm’n’blues somadas às raízes caipironas texanas ainda deram a Holly um jeito original de cantar, compor e tocar denominado tex-mex.

Em apenas três anos de carreira deixou um legado de 50 canções distribuídas em três álbuns e 18 singles, como os hits “That’ll Be The Day”, “Rave On” e “Peggy Sue”. Até hoje este material permanece fresco, vivo e empolgante, inclusive sendo uma grande influência para o que se convencionou a chamar de indie rock ou rock alternativo que saudam até hoje o som cristalino de uma das guitarras e o vocal poderoso, sempre entoando versos de romantismo puro e outros sentimentos pessoas através de cativantes melodias. O visual carismático, típico de estudante nerd com cara de inteligente e óculos pretos de aro grosso preto também foi repetido posteriormente por gente como Elvis Costello e Rivers Cuomo (vocalista do Weezer). Aliás, não à tôa que um dos maiores hits do primeiro álbum do Weezer ganhou o título de “Buddy Holly”.

Fica impossível conjecturar o que mais Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper poderiam ter feito para o mundo da música caso não estivessem naquele pequeno avião destroçado logo após a decolagem no dia 3 de fevereiro de 1959. Mas fosse o que fosse que tivessem feito com certeza o rock teria sido mais rico e criativo.

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Meu Anjo

A resiliência emocional de uma garota de onze anos de idade frente ao abandono provocado pelo hedonismo excessivo de sua mãe

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

Muita gente pode se pegar, saindo das salas de cinema, após assistir a Meu Anjo (Gueule D’Ange, França, 2018 – Imovision) e se angustiar ao ver como Marlene trata a sua filha de onze anos, perguntando-se como uma mãe pode ser tão displicente, relapsa e egoísta assim. Contudo, o filme assinado pela diretora e roteirista Vanessa Filho toca em algo bem mais profundo e inquietante do que isso.

Meu Anjo trata, com lentes ampliadas em demasia, a dura falta de alternativas de uma menina que, no período final da infância, precisa lidar com os excessos e irresponsabilidades da mãe para lutar pela sobrevivência e achar um lugar emocionalmente seguro no mundo. A pequena Elli (Ayline Aksoy-Etaix, em interpretação brilhante, sobretudo nos olhares de tédio, cinismo e desaprovação em relação às atitudes de Marlene) não pode contar com ninguém. Sua mãe não está nem aí com ela. Interessada mais em seu hedonismo regado a sexo e bebidas, abandona-a por muitas horas e até dias. Nas ruas e no pátio do colégio a menina sofre, sem parar, com o bullying de colegas e vizinhos. Precisa se virar sozinha para fazer sua comida, comprar o que precisa na rua e tentar se amparar em uma racionalidade que possa sustentá-la e evitar que ela entre em parafuso por causa de sua dor, desespero e, sobretudo, pouca experiência de vida.

Com sua câmera inquietada e movimentada, que convida o espectador a se sentir in locoe por isso mesmo acaba acentuando ainda mais a perturbação provocada pela amoralidade de Marlene (Marion Cotillard, em atuação propositalmente discreta), Vanessa Filho retrata a crueldade de uma pré-adolescente desprotegida exposta a um mundo sem filtros, capaz de se identificar rapidamente com o filho do vizinho, um rapaz tão ignorado pelo pai quanto ela pela mãe, ou mesmo tratar a dependência etílica como algo tão natural a ponto de seus bichos de pelúcia também sofrerem com ela. Ok que o roteiro tenha certas inverossimilhanças acentuadas, como o fato da ausência completa de adultos ao redor (nem mesmo a direção da escola) incomodados pelo abandono parental de Elli ou ainda certas atitudes tomadas pela garota a partir da metade final da história.

Mais do que sentir desgosto ou repudiar as atitudes completamente inconsequentes da mãe, o espectador acaba é se identificando com o sentimento de “o que é que eu estou fazendo aqui?” deixado explícito o tempo inteiro pelos olhares da filha. No fundo, ela é mais adulta que sua progenitora ao se deparar com a necessidade de tomar conta dela mesma em um mundo escancaradamente selvagem. O que salva o filme de cair na vala do melodrama é a sua noção de realidade tão precocemente distorcida, deturpada e modificada. E faz você ficar pensando depois não em como podem existir pessoas por aí que agem de maneira tão destrutiva como Marlene, mas sim em almas tão fortes e resilientes como Elli.