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Aves de Rapina – Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Colorida trama estrelada e produzida por Margot Robbie fala sobre a emancipação feminina em um mundo governado por homens

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Warner/Divulgação

Força e feminilidade por vezes soam como duas palavras antagônicas: uma só existe se a outra não estiver presente. Entretanto, o longa Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fabulosa (Birds of Prey And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, EUA, 2020 – Warner) veio para libertar o público deste estereótipo e mostrar que é possível, sim, ser as duas coisas ao mesmo tempo. E é no meio desse amálgama de libertações que o filme toma forma.

A produção, estrelada e produzida por Margot Robbie, celebra diversas formas do feminino e – assim como explicita o título – de emancipação de um grupo de mulheres em um mundo governado por homens. Emancipação: substantivo feminino; qualquer libertação; alforria, independência. Diferente das idealizadas Mulher-Maravilha e Capitã Marvel, as personagens de Aves de Rapina têm habilidades modestas e problemas comuns, buscando a própria voz em um mundo que só tem ouvidos para a unissonância masculina. Tudo isso dá ao filme um propósito realista, que funciona muito bem para aproximar o público de uma realidade palpável, ainda que cartunesca e fantasiosa. A relação entre Harley Quinn e seu sanduíche de ovo, por exemplo, diz muito mais ao espectador do que uma luta do bem contra o mal.

Com uma nova perspectiva, o longa captura a essência energeticamente anárquica de sua protagonista. No cenário atual, vê-la sendo abusada enquanto promete seu amor ao agressor logo se torna insustentável. Ela, por sorte, deixa de lado o papel de coadjuvante em Esquadrão Suicida para reivindicar, quatro anos depois, o lugar de protagonista de sua própria história.

O longa dirigido por Cathy Yan traz inúmeras formas de emancipação para compor o arco de cada personagem. Assim, o espectador acompanha a história de Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Renée Montoya (Rosie Perez) e Cassandra Cain (Ella Jay Basco) em suas buscas particulares por liberdade e autonomia. Com o roteiro de Christina Hodson, Aves de Rapina consegue abordar assuntos complexos, como machismo e violência física e psicológica, de uma maneira descontraída. Ainda que cartunesco, com um cenário brilhante e colorido, o filme passa longe de ser infantil. Ele continua sendo sobre mulheres que precisam se libertar de alguma maneira, seja de alguma coisa ou alguém.

Entre outras tentativas de tentar fazer da produção uma extensão da embaralhada mente de Harley, que mais parece um jogo de pinball, está a narrativa não linear. Ainda que ousado como sua protagonista, com cenas de luta deslumbrantemente coreografadas, o longa perde ritmo e torna-se inconstante em algumas cenas e diálogos finais. O enredo, narrado pela agitada personagem principal, vai e volta no espaço e no tempo para preencher a história de todos. Quebrando constantemente a quarta parede, é a própria Harley quem controla o filme – e também sua cronologia – servindo como uma outra forma de emancipação. Mas, por mais prazeroso que seja assisti-la narrando sua história, as diversas idas e vindas no roteiro resultam em uma narrativa confusa. Embora a escolha tenha sido proposital, para transparecer a incompreensibilidade de Harley, tecnicamente não funciona.

Felizmente, o filme acerta ao humanizar sua extravagantemente desequilibrada protagonista, mostrando que ela é muito mais do que apenas uma subjugada do “Mr. J”. Ela é dona de sua história. A anti-heroína começa a perceber o mundo como uma mulher independente e é com esse enfoque que Aves de Rapina tem seu êxito. Sendo assim, as melhores interações da personagem são com a jovem Cassandra Cain, a primeira que enxerga a protagonista como alguém que existe por si só e não inevitavelmente ligada ao Coringa – justamente por não saber quem ele é.

Apesar de se atrapalhar no desenvolvimento da trama relativamente simples, a obra é intencionalmente um caleidoscópio de acontecimentos. Um filme com personalidade, que expõe mulheres brigando por seu espaço, evidenciando que a força, independentemente do gênero, é a luta pela própria autonomia e a compreensão de que garota nenhuma precisa de alguém para ser alguém. Aves de Rapina é mais do que uma história em quadrinhos sobre heróis e vilões, é sobre várias maneiras de se emancipar, encontrar a própria voz. Seja você quem for.

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