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Max & Iggor Cavalera – ao vivo

Espinha dorsal da formação clássica do Sepultura volta a Curitiba para tocar faixas dos dois álbuns que levaram a banda ao reconhecimento mundial

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Texto por Guilherme Motta

Foto: Renata Kalkmann/Divulgação

Quantos de vocês estavam naquele show debaixo de chuva torrencial e raios do Sepultura em 1994 na Pedreira Paulo Leminski?

Bom, eu não estava, infelizmente. Mas grande parte das pessoas presentes no último 13 de junho (quinta) na Usina Cinco, na capital paranaense, com certeza estavam lá 25 anos atrás. Desde aquele dia, os curitibanos nunca mais viram o Sepultura com a formação “clássica”, que contava com Max (vocais e guitarra) e Iggor Cavalera (bateria), ao lado de Paulo Jr (Baixo) e Andreas Kisser (guitarra) – pois Max deixaria o grupo cerca de pouco tempo depois.

Passado um quarto de século, os irmãos subiram juntos ao palco em Curitiba, para tocar especialmente os dois históricos albuns de thrash metal que levaram o Sepultura ao reconhecimento mundial: Beneath The Remains (1989) e Arise (1991). Particularmente falando, eu achei que nunca na minha vida ouviria essas músicas ao vivo, muito menos sendo executadas por esses dois juntos – vale ressaltar que em 2015 Max e Iggor vieram à cidade mas com o repertório do Cavalera Conspiracy.

O show começou relativamente cedo e sem muito atraso. Por volta das 22h15 o quarteto já estava despejando riffs nos que ali se encontravam. O set list foi aberto com “Beneath the Remains” e “Inner Self”. Assim que Marc Rizzo – também integrante do Soulfly e do Cavalera Conspiracy – tocou o primeiro acorde, formou-se imediatamente um enorme circle pit em meio aos espectadores. E ssim se seguiu até o último chiado do amplificador.

Foram aproximadamente duas horas de show comandadas pela espinha dorsal do velho Sepultura. Ainda em plena química e forma, mesmo sem ter tocado muitas destas músicas por muito tempo juntos. E quem estava esperando ouvir apenas os dois albuns que intitulam a turnê se enganou. As lendas tocaram ainda uns covers: “War Pigs” (Black Sabbath), “Ace Of Spades” e “Orgasmatron (Motörhead), “Hear Nothing See Nothing Say Nothing” (Discharge) e mais a sempre surpreendente “Polícia” (esta, dos Titãs, assim como “Orgasmatron”, regravada pelo Sepultura). Tocaram também algumas faixass de outros discos, como “Refuse/Resist”, do album Chaos A.D. (1993), e a clássica “Roots Bloody Roots”, de Roots (1996). Para os fãs bem mais antigos, também “Troops of Doom” do disco de estreia do Sepultura, Morbid Visions, lançado em 1986.

Com toda a certeza, esta foi a noite mais emocionante dos últimos anos para a comunidade headbanger curitibana, os quatro integrantes estavam visivelmente muito empolgados e satisfeitos com o que viram e sentiram naquela noite. Max, Iggor, Marc e o baixista Mike Leon (também membro do Soulfly) deram aula de como fazer uma performance de metal da melhor qualidade. Claro que nós, curitibanos, como sempre, demos outro show de como apreciar um espetáculo de música extrema.

Set list: “Beneath The Remains”, “Inner Self”, “Stronger Than Hate”, “Mass Hypnosis”, “Slaves Of Pain”, “Primitive Future”, “Arise”, “Dead Embryonic Cells”, “Desperate Cry”, “Altered State/War Pigs”, “Infected Voice”, “Orgasmatron” e “Ace Of Spades”. Bis 1: “Troops Of Doom”, “Refuse/Resist” e “Polícia”. Bis 2: “Roots Bloody Roots”, “Hear Nothing See Nothing Say Nothing” e “Beneath The Remains/Arise/Dead Embryonic Cells”).

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Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

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Marina Lima e Letrux – ao vivo

Na Virada Cultural de SP, cantora resgata velhos hits e mostra uma parceria simbiótica com a nova musa indie brasileira

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Texto e foto por Fábio Soares

Virada Cultural paulistana, 18 de maio de 2019. Às 19h, o Palco República, dedicado à diversidade, recebe Marina Lima. A primeira parte de sua apresentação é dedicada ao seu mais recente trabalho, o fraco Novas Famílias, álbum lançado no ano passado e evidenciou o que, infelizmente, não dá para esconder: Marina se arrasta no palco. Nada a ver com sua forma física, que vai muito bem, mas sim com o principal instrumento de trabalho: suas cordas vocais, lesionadas devido a um malsucedido procedimento médico, fazem com que a performance da cantora “agonize” em cima do palco. Comovente, porém, é a postura dela diante do problema: não se vitimiza, tenta manter o bom humor e entreter a plateia.

O segundo terço, porém, é dedicado ao que o público quer ouvir: os sucessos oitentistas. Com o violão como parceiro, inicia uma pocket trip à sua época mais áurea com “Pessoa”. Mesmo 36 anos após o lançamento, o clássico composto por Dalto segue a emocionar plateias por onde passa. Ao final da execução, Marina reclama da parte técnica .”Vamo arrumar isso aqui, por favor? Não tô ouvindo nada” diz , referindo-se ao inoperante retorno. “Preciso Dizer Que Te Amo” vem a seguir e a cantora poupa a garganta ao ver o público assumir os vocais.

O último terço da apresentação vem a seguir com a participação da carioca Letrux. A nova musa indie brasileira recebe, desde o primeiro momento em que pisa no palco, gigantescos elogios de sua anfitriã. “Que Estrago” e “Puro Disfarce” evidenciam a simbiose da dupla. O discurso empoderado mais uma vez se faz presente. No clássico xingamento da plateia à figura do presidente, Letrux emenda com ironia: “Gente, o próprio nome do Bolsonaro já é um palavrão. Tomar no cu pode ser uma coisa muito boa. Ele, por si, já é sinônimo de coisa ruim”. “Mãe Gentil”, mais uma parceria da dupla, encerra a participação de Letrux com direito a touca ninja e uma jaqueta com a inscrição #LIBERDADE. Com batida eletrônica lembrando o big beat, o peso da faixa é excelente e merece audição mais apurada.

Para o fim, Marina traz mais releituras eletrônicas de antigos sucessos. “Ainda É Cedo” e “Pra Começar” dão um ar apenas protocolar para o final de um show que evidenciou dois aspectos: o repertório de Marina Lima é de uma grandeza só e sempre jogará a seu favor. Já a triste condição de seu principal instrumento coloca a cantora numa encruzilhada de até quando seguir com medianos trabalhos e praticamente se “arrastar” nos palcos até a correta (e sensata) hora de parar.