Music

Flogging Molly – ao vivo

É impossível não sair feliz de um show que mistura punk, folk, polca e música celta mais a sabedoria de um velho e festeiro irlandês bêbado

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Texto e foto por Abonico R. Smith

É só juntar cerveja e música para um irlandês que não tem erro: a noite é sinônimo de festa e diversão. Ainda mais se esse irlandês for o frontman de uma banda de mistura veia punk old school, batida de polca e elementos da música celta. Está aí a receita de sucesso de todo e qualquer show do Flogging Molly, banda norte-americana que acaba de passar mais uma vez pelo Brasil.

O show em Curitiba, na sexta 5 de outubro, foi o primeiro de três apresentações marcadas para o final de semana do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. O que se viu no Hermes Bar nem de longe refletia a polarização de opostos que predomina nas ruas e redes sociais de todo o país. Pelo contrário. Dentro da casa o clima era de pura confraternização sob o comando do irrequieto Dave King, o tal do ruivo irlandês, que já sobe ao palco segurando uma lata de cerveja. A partir da primeira música fica impossível não se sentir magnetizado por ele. Por mais que a performance de outros músicos pedisse atenção – especialmente a do acordeonista Matt Hensley, o aniversariante do dia, que se mexe o tempo inteiro em poses e mais poses com seu instrumento – King monopoliza os olhos da plateia. Faz chifrinhos com os dedos colados na testa, oferece latas para os fãs do gargarejo, ensaia um duckwalk com seu violão, fala sem parar antes de cada música e estabelece uma sintonia imensa com a plateia como um mestre de cerimônia deve fazer. Já na segunda canção, pede para todo mundo bater palmas em acompanhamento, é atendido de prontidão e ganha a noite para todo o resto.

O Flogging Molly é uma espécie de grupo punk de sucesso às avessas. Nunca teve um hitestourado nas paradas, não toca nem nas rádios rock brasileiras, tem um violão dando uma base folk a todas as canções e começou a trajetória quando seu líder e fundador já havia passado dos 30 anos de idade e cantado em um grupo heavy metal, com Eddie Clarke, guitarrista da formação clássica do Motörhead. Entretanto, carrega seu séquito particular de fãs onde quer que passe. Em Curitiba, tocando pela primeira vez, não foi diferente. Volta e meia passava alguém pela pista com uma camiseta de turnês anteriores e o número de gente que cantava de cor música após música era impressionante – inclusive pessoas cujo visual nunca entregaria serem elas fanáticas por punk rock.

King e sua banda divertem pela estranheza e bizarrice. Os multiinstrumentistas Bridget Regan (rabeca, violino, flauta) e Bob Schmidt (Banjo, bandolim) já dão um molho de timbres e escalas celtas todo especial aos arranjos. As letras enormes de King falam de coisas tão díspares quanto um lendário campeão de boxe sem o uso de luvas ou a colonização inicial do México ou ainda a adolescência sofrida vivida em um bairro residencial de classe média baixa na Irlanda. De vez em quando ele ainda acrescenta enxertos curiosos de músicas que você nunca esperaria ouvir o vocalista cantar em um show de punk rock, como “Freedom” (George Michael), “Respect” (Aretha Franklin), “We Will Rock” (Queen) e “Sunday Bloody Sunday”(U2).

Dividindo a base do set list entre os dois primeiros álbuns e o mais recente (Life Is Good, lançado em 2017, após um intervalo de seis anos), King literalmente deitou e rolou frente aos curitibanos extasiados com sua performance incontrolável. Para completar, mal terminou o bis e o cara foi o único da banda a não querer deixar o palco. Segurando outra latinha de Guinness (claro!), ele ficou solitário ao microfone ainda ligado, dançando desengonçadamente, assoviando e cantando junto com a gravação de “Always Look On The Bright Side Of Life”, do Monty Python, estrategicamente programada para ser tocada logo após a última canção tocada pela banda em todos os shows.

Naquela altura, Dave endossava comediante, roteirista, ator e compositor da canção Eric Idle, um dos seis integrantes do histórico grupo inglês de humor. “Algumas coisas na vida são ruins/ Isso pode realmente te deixar louco/ Outras coisas só fazem você xingar e amaldiçoar/ Quando você está mastigando a cartilagem da vida/ Não resmungue, dê um assovio/ Isso vai ajudar as coisas a darem o melhor/ E sempre olhe para o lado positivo da vida/ Sempre olhe para o lado da luz da vida” é o que dizem os versos iniciais da música de encerramento do longa-metragem A Vida de Brian. E quem somos nós para duvidar da sabedoria de um velho e festeiro irlandês bêbado?

Set list: “(No More) Paddy’s Lament”, “The Hand Of John Sullivan”, “Drunken Lullabies”, “The Likes Of You Again”, “Swagger”, “The Days We’ve Yet To Meet”, “Requiem For a Dying Song”, “Life In a Tenement Square”, “Float”, “The Spoken Wheel”, “Black Friday Rule”, “Life Is Good”, “Rebels Of The Sacred Heart”, “Devil’s Dance Floor”, “If I Ever Leave This World Alone”, “What’s Left Of The Flag”e “Seven Deadly Sins”. Bis: “Crushed (Hostile Nations)” e “Salty Dog”.

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