Movies

Alice Júnior

Longa-metragem curitibano acerta em cheio ao tratar sobre tolerância e diversidade sexual para o público-alvo de jovens e adolescentes

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

É lamentável que em pleno 2020 os termos sexismo, discriminação de gênero e transfobia ainda estejam tão em voga, mesmo depois da aparição de Roberta Close e Rogéria décadas atrás nos principais veículos de imprensa nacionais. Se por um lado o salto evolucionário tecnológico alcança Marte, o ranço conservador persiste no núcleo de muitas famílias e governos. Por isso um filme como Alice Júnior (Brasil, 2020) – que estreou em cinemas drive-in e agora chega à Neftlix, depois de também ficar disponível no YouTube e em outros serviços de VOD e streaming – é tão necessário. Ele abre a mente dos caretas e afaga o coração dos liberais, dando aquele gostinho de quero mais.

A premiada produção que brotou da “República de Curitiba” é dirigida pelo paranaense Gil Baroni e tem roteiro assinado por Luiz Bertazzo e Adriel Nizer Silva. No bate-papo com os jornalistas do coletivo Jaccu (Jornalistas Autônomos Culturais de Curitiba), veiculado no YouTube do Canal Pausa Dramática (assista ao episódio e escute o podcast nos links abaixo), Bertazzo – que também é ator e DJ – revelou que teve o insight de rodar um filme com a temática trans durante uma festa. O roteirista compartilhou sua ideia a Baroni, que prontamente disse querer dirigir a história. E assim surgia Alice Júnior, nome da protagonista interpretada pela recifense Anne Celestino Mota.

O próximo passo, então, seria justamente encontrar uma atriz trans que se enquadrasse na proposta para conferir veracidade à trama sem que soasse caricata como muitos Crôs por aí. Com o apoio da mãe, Anne, que já atuava como YouTube, soube do teste de elenco e… #partiuCuritiba. Após ser sabatinada por Baroni e Bertazzo, a jovem foi escolhida para o papel e, de quebra, fazer história no cinema brasileiro. Por conta disso, o roteiro sofreu uma série de intervenções, incorporando experiências vividas e observadas por ela. 

Ao tratar um tema sério de um jeito leve, o longa-metragem conquistou a plateia de importantes festivais (como Berlim) e Anne levou o candango em Brasília. Uma emoção semelhante àquela vivenciada pelo ator Silvero Pereira, o cangaceiro queer Lunga de Bacurau, que vem abocanhando prêmios e desfilou pelo tapete vermelho de Cannes montado como o alterego Gisele Almodóvar.

Assim como Lunga, Alice não vive no País das Maravilhas. Pelo menos não é pobre e tem o apoio e afeto do pai, fato que não ocorre com muitas jovens trans. Na história, o viúvo francês Jean Genet (Emmanuel Rosset) é bioquímico e foi contratado por uma indústria de perfumes para inventar uma nova fragrância. O único porém é que a tal fragrância é encontrada numa longínqua e conservadora Araucárias do Sul (esta seria um alterego de Curitiba?) e Alice precisa acompanhar temporariamente o pai na nova empreitada. Aqui ainda fica evidente a ironia implícita no roteiro que alude a símbolos tipicamente curitibanos: Jean é francês, assim como vários conterrâneos seus que vieram trabalhar numa montadora de veículos na região metropolitana da capital paranaense, onde também foi erguida uma famosa fábrica de perfumes. 

Em Recife, Alice já havia batalhado para conquistar amizades mais um crush em quem estava prestes a dar seu primeiro beijo, além de ter saído vitoriosa num reality show e desfilado para um estilista famoso. No Sul, a garota precisa enfrentar novamente tortos olhares de preconceito, risadas maliciosas e muito bullying para conquistar seu espaço, assim como acontece com dezenas de adolescentes como ela. Contudo, em vez de se vitimizar e ficar chorando pelos cantos, a protagonista encara como um rolo compressor o período de adaptação à nova escola, onde passa a desfilar com o queixo erguido e ganhar, pouco a pouco, a simpatia de todos. No fim das contas, a garota trans empoderada (que é o termo da moda, aliás!) torna-se um exemplo de autoestima não só para o universo LGBTQ+ mas para todos que já sofreram algum tipo de discriminação, independentemente de gênero ou orientação sexual, origem geográfica e classe socioeconômica.

Como Anne já atuava como vlogueira, houve o prerrequisito da aproximação do olhar do diretor ao mundo digital, o que acaba deixando tudo mais atraente para o público-alvo de produtos populares como Malhação. Indispensável ainda é a trilha sonora deste filme teen. O fato de Bertozzi ser DJ colaborou bastante para a escolha do repertório, que traz nomes não muito costumeiros em soundtracks de obras nacionais, como Karina Buhr, Barbara Eugênia, a banda Verónica Decide Morrer e a cantora curitibana Surya Amitrano. No filme, aliás, Surya interpreta uma das novas melhores amigas de Alice. E  também soma-se ao elenco da história Katia Horn, da tradicional família curitibana de artistas de mesmo sobrenome, fazendo o papel de uma divertida mãe bicho-grilo.

Agora é esperar que Alice Júnior e toda a sua diversidade nos mostre que existe esperança de um mundo mais tolerante no fim do arco-íris. Enquanto isso fica a torcida de que a gente, de alguma maneira, já esteja bem perto de onde ele termina.

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Pulsão

Documentário procura evidenciar a influência e o poder das redes sociais na política brasileira dos últimos anos

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Quando Guy Debord escreveu A Sociedade do Espetáculo, que serviu de base para os acontecimentos de maio de 1968, não poderia imaginar que a internet, seus algoritmos e o mar de fake news divulgados via WhatsApp potencializariam, algumas décadas depois, sua teoria sobre a submissão alienante proporcionada pela mídia. O livro é leitura fundamental para tentar compreender o mundo moderno do pós-guerra, quando a sociedade se viu dominada pela mercantilização das relações, sejam elas sociais, políticas e econômicas. 

Seguindo ideias marxistas que flertavam com o pensamento freudiano, Debord acreditava que o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre o proletariado. Alguns desses conceitos podem ser claramente percebidos no documentário Pulsão, dirigido, produzido e escrito por Diego “Di” Florentino em parceria com Sabrina Demozzi. A missão, aqui, é traçar uma retrospectiva que permite evidenciar a influência e o poder das redes sociais nos acontecimentos políticos dos últimos anos, desde as passeatas promovidas pelo Movimento Passe Livre em 2013 (e que eram organizadas via Facebook), passando pela operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o desfecho com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

O título do documentário, lançado diretamente no YouTube no último dia 4 de setembro, evoca a teoria freudiana das pulsões: a pulsão da morte, o thanatos, é o movimento em direção à morte, à destruição. Ou seja, entende-se pelo desenrolar da narrativa que, há sete anos, o Brasil vem sendo empurrado ladeira abaixo, depois dos casos de corrupção que provocaram o impeachment de um nome eleito pelo povo até culminar na eleição, também democrática, de um representante da extrema-direita, que desde o início de sua campanha eleitoral não escondeu sua paixão por armas de fogo e sua aversão às minorias. A eleição de Bolsonaro teria sido um tiro no pé disparado pelos brasileiros num comportamento do tipo “efeito manada”, estimulado pelas redes sociais e criação de perfis falsos e, claro, pela verdadeira elite formada por grandes grupos econômicos e midiáticos. Agora, os marqueteiros de plantão, experts em SEO, somam-se à Rede Globo no que coube até hoje, na história do país, tornar o povo massa de manobra. A mensagem é simples: não acredite em nada daquilo que você vê. Não acredite em Bonners nem em Kataguiris. 

Lançado na esteira do celebrado e premiado Democracia em Vertigem, de Petra Costa, Pulsão tem um quê de Cambridge Analytica, ao passo que mostra como o brasileiro se vê refém das redes sociais e suas fake news – além de reconstruir, passo a passo, como a sociedade abalada pelas denúncias de corrupção foi capaz de alçar ativistas políticos a políticos ativistas, elevar um juiz de primeira instância ao status de super-herói e eleger um presidente de extrema-direita. Neste ponto, a montagem de Rodrigo Baptista é extremamente eficiente ao confrontar imagens e discursos contraditórios resgatando material de arquivo de canais de tevê aberta (sobretudo Globo e TV Cultura) ou divulgado por outros canais de imprensa, além de conteúdo amador. Há uma sequência, por exemplo, em que uma jornalista elogia o fato de as passeatas serem pacíficas, enquanto a imagem mostra exatamente o oposto: um rapaz “de vermelho” sendo agredido ao atravessar a rua durante uma passeata. 

Também há o momento em que o então juiz Sergio Moro afirmava, durante uma palestra, que não tinha intenção de se envolver com a política. Outras cenas são patéticas, como a então jornalista Joice Hasselmann (ex-aliada de Bolsonaro e atualmente candidata a prefeita de São Paulo pelo PSL) bajulando Moro e, depois, tendo um ataque de histeria ao comemorar sua eleição como a deputada federal mais votada. É constrangedor!

A direção do longa-documental consegue empreender o ritmo ágil, inclusive pelo uso de recursos visuais que lembram o ambiente digital, e ainda linkar os acontecimentos de forma dinâmica durante pouco mais de uma hora. Um dos personagens principais desse doc é o celular, que se transforma em algo muito maior que um mero aparelho: uma arma de guerrilha, de disparos de informações falsas, de memes e discursos demagógicos.  

O tom didático, sobretudo por conta da narração em off de Cesinha Mattos (autor da trilha sonora), é uma das falhas. Com sua voz suave, parece que estamos diante de uma propaganda de maionese. O descuido na edição também incomoda. Ninguém lembrou-se de legendar os nomes das personalidades que aparecem no decorrer do documentário. Todo mundo sabe quem é Lula, mas nem todos são obrigados a saber quem é Marco Antônio Villa discursando com seu sotaque paulistano no microfone da rádio Jovem Pan. Também não há referência quanto à frase citada no desfecho do filme. É preciso recorrer ao “oráculo” Google para descobrir tais informações.

Outra questão é o caráter panfletário da obra, mesmo porque a ideia inicial do projeto era registrar o “Circo da Democracia”, evento ligado a entidades sindicais que reuniu em Curitiba diversas figuras políticas e acadêmicas de esquerda para debater a conjuntura política da época. Além disso, uma repórter do Intercept Brasil, veículo que publicou a série de vazamentos envolvendo Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, foi a responsável pela pesquisa ao lado de Sabrina. Mas ao contrário do que se costuma – ou costumava – aprender nas faculdades de Jornalismo, é impossível ser isento. O simples fato de eleger a sequência das imagens já se trata de um posicionamento.

Talvez se não estivéssemos num ano pandêmico, Pulsão teria outro alcance e engajamento da população. Movimentos populares se traduzem, na circunstância atual, em aglomerações nas praias, numa clara atitude displicente da população, condizente com o perfil do governante-mor brasileiro. De fato, as retóricas se confundem. O mesmo consumidor-cidadão-eleitor que acredita em fake news também parece acreditar que não será vítima de uma simples “gripezinha”. Resta saber se nessa massa sem máscara que invadiu as areias num final de semana de calor invernal estão apenas eleitores da esquerda ou direita. Para usar uma linguagem bem popular, para não dizer “dilmesca”, todos – seja lá qual lado for – são farinha do mesmo saco. Todos pagam o mesmo pato. À milanesa.

Music

Chico Bernardes

Um papo sobre passado, presente, futuro, tecnologia, influências diversas e as comparações com o irmão Tim e o pai Mauricio Pereira

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Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Zoé Passos/Divulgação

Quando se nasce numa família musical, é natural tomar o mesmo rumo na vida. Chico Bernardes não se incomoda com o sobrenome. Pelo contrário. Ser conhecido como o irmão de Martim, o Tim, cantor e compositor d’O Terno que também desenvolve carreira solo, é motivo de orgulho. Chico é o caçula da família Bernardes Pereira e, assim como Tim e a irmã, a atriz Manuela Pereira, herdou a veia artística do genial músico paulistano e vanguardista Maurício Pereira, jornalista e criador do duo Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra. Maurício foi também crooner da Banda Fanzine, do saudoso programa apresentado por Marcelo Rubens Paiva na TV Cultura, numa época quando ainda fazia sentido assistir a uma televisão de sinal aberto de boa qualidade.

Portanto, aquela história que os pais costumam dizer aos filhos, a de que “não faça música porque não dá dinheiro”, simplesmente não cola numa família extremamente criativa com essa. Chico até tentou resistir, mas a arte foi maior que ele. Cinco anos após começar a tocar e compor, o garoto de cabelos volumosos e estilo hipster já é multiinstrumentista (violão, piano, bateria). Em junho de 2019, aos 20 anos de idade, lançou seu álbum de estreia Chico Bernardes, autoral, sincero e com arranjos elaborados, que traz canções folk ao estilo Nick Drake, um de seus mestres inspiradores. As letras são poéticas reflexivas, existenciais, com versos de um romantismo doce, porém bastante maduros para a idade dele. Como “Um Astronauta” (“Um astronauta de bom coração/ Demorou muito pra reconhecer/ Que as estrelas que tanto estudou/ Brilham bem menos do que as que deixou/ Em seu planeta”) ou sua primeira canção, “Vago”, escrita aos 15 anos (“Eu não sei o que deu em mim/ De repente eu vi o mundo assim/ De um jeito mesclado de informações/ Complexos gostos e opiniões/ Absolutas verdades em expressões).

Recentemente, Chico pegou seu violão e viajou pela primeira vez sozinho, sem assessores ou amigos, com destino a Curitiba, onde apresentou um show intimista na Casa Quatro Ventos para um público restrito. Foram 11 músicas no set list, com apenas duas covers: “True Love Will Find You In The End”, de Daniel Johnston (falecido em setembro do ano passado) e regravada por gente como Beck e Wilco, e uma delicada versão de “Maria”, de Gilberto Gil. Ao final da apresentação, ele recebeu calorosamente a reportagem do Mondo Bacana para conversar sobre passado, presente e futuro.

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PASSADO

Como foi que você resolveu trilhar o mesmo caminho que seu pai e irmão?

Quando eu era pequeno, não tinha intenção alguma em fazer música. Falava não. Meu irmão já estava começando a carreira, já estava estudando. E eu falava que já tinha  músico demais na família, que não iria ser músico. Mas, aos 15 anos, comecei a tocar bateria numa banda com os amigos e a gostar de tocar violão. Depois, comecei a compor. E então fiquei meio maravilhado. Com 17 me formei e tive de decidir o que eu ia fazer. Prestei Jornalismo, mas não estava muito a fim. Pensei em Psicologia, mas também não estava muito a fim. Entrei em Música e decidi que ia focar nessa área.

A música então está em seu DNA? Você chegou a resistir a trabalhar com isso, mas foi algo mais forte?

Existe a influência também de ter acesso muitos recursos para fazer música. Porque não é de uma hora para outra que você escolhe fazer música. E também não é necessariamente um dom. Na minha casa, tenho pai e irmão músicos e instrumentos soltos. Estamos sempre ouvindo música. Até minha mãe, psicanalista, sempre teve um carinho muito grande pela música. Então, o fato de viver num ambiente musical foi o que me levou a isso, mais até do que o fato de meu pai ou irmão serem músicos. Foi de estar ali num ambiente que a música estava rolando e que eu negava. Falava “não, não vou ser músico”. Mas depois eu gostei e fui…

O que você ouvia em casa? Quais são suas referências? 

Muito Beatles. Minhas primeiras lembranças são das viagens de carro que a gente fazia e ia ouvindo música. Lembro de ouvir Beatles, Bob Marley, Police, Chuck Berry, Los Hermanos.

Por falar nisso, o trecho “além do que se vê” na canção “Astronauta” é uma referência a Los Hermanos? 

Acho que foi inconsciente. Só depois que me liguei. Até porque eu ouvia o CD no carro com 7 anos de idade e não lia as letras. Depois que eu vi o encarte e o nome da música, me toquei.

Você nasceu na época do CD e dos iPods. Hoje ouvimos música por streaming. Você acha importante resgatar o estilo retrô de consumir música, como vinil ou fita cassete por exemplo? 

Sim. Lá em São Paulo, estão vendendo pôster, que é só o encarte, sem o CD.

Sua vibe mesmo é bem retrô, pelo seu jeito de se vestir e estilo que decidiu seguir que é o folk. Foi em parte influência do Tim?

Acho que tem um pouco de influência do meu irmão, pelas referências que ele me mostrava quando eu estava na sexta, sétima série. Eu era pequeno e ouvia um monte de coisa, era bem eclético. Daí eu pedi para ele encher meu iPod com algumas músicas. E a partir daí, comecei a gostar de folk. Ele colocou Fleet Foxes, Bob Dylan, que eu escuto até hoje. Mas o engraçado é que as coisas que me pegam não são as mesmas pra ele. Dentro das referências dele, tem coisas que eu incorporei mais.

E de MPB, o que você escuta? 

Depois que eu entrei na faculdade, comecei a ouvir mais MPB. Ouvia muita coisa de fora. Conhecia Caetano, mas pouco. Só depois fui tocar violão e estudar compositores na faculdade que passei a ter mais contato com vários estilos. Teve um semestre que estudei Gil, outro Caetano, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Adoniran Barbosa…

PRESENTE

Como é seu processo criativo?

Pelo fato de eu fazer faculdade de música, posso dedicar meu tempo exclusivamente a isso. Em casa, sento na frente do piano e surgem as ideias. Começo a gravar e vou juntando tudo. Por isso, eu já tenho uma abertura grande. Não é como se eu estivesse, por exemplo, fazendo Administração e no meu tempo vago eu fizesse música. Quando me bate a inspiração, já estou a postos.

Você disse que estava lendo no aeroporto. A leitura te influencia a compor?

Eu não leio muito, mas o que eu leio me marca. Trouxe um livro de contos da Clarice Lispector. Recentemente li O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe.

Clarice Lispector disse que escrever é se expor. Você tem algum receio quanto a isso? É preciso muita coragem para fazer arte?

Antes de me lançar como artista, eu estava com medo do que as pessoas iam achar pelo fato de me sentir exposto, analisado. Mas ao mostrar meu trabalho cada um ouviu e interpretou da sua maneira. Por mais que sejam músicas em primeira pessoa, uma galera coloca o fone e ouve e se vê protagonista. Isso me tranquilizou, mesmo porque meu disco tem temas que todo mundo vive de alguma forma, cada um do seu jeito.

Você se incomoda em ser comparado e rotulado como sendo o irmão do Tim Bernardes?

Eu vejo isso numa boa. Antes eu estava com um pouquinho de medo de ouvirem meu som e falarem “olha aí o irmão do Tim!”. Mas as pessoas estão dizendo: “olha o Chico! Como ele tem coisas diferentes do Tim e do Maurício!”. Estou feliz por ver essa diferença. Porque sempre vão comparar, pois Tim é meu irmão. A gente cresceu na mesma casa e justamente ele montou parte do meu iPod. Ele me ensinou muita coisa. Eu sou o caçula, ele é o mais velho. A gente cresceu junto. Eu vendo de baixo pra cima. Ele vendo de cima para baixo.  Admiro muito o trabalho do meu irmão, assim como o do meu pai. Tenho sua influência, mas o trabalho é diferente, porque temos personalidades muito diferentes. Meu irmão é superfamoso. Muito conhecido por aí, então é normal. Às vezes tem gente que sabe que eu sou irmão dele e fala assim: “gosto muito do seu som e do seu irmão”. Às vezes tem gente que nem sabe quem eu sou, que gosta muito do som dele mas não me conhece. Tem gente que fala também: “gosto muito do som do seu irmão, cheguei no seu som e adorei, tô ouvindo direto”. Acho que é uma ponte também. Existe muito mais vantagem do que desvantagem.

Você disse durante o show em Curitiba que curte fotografar com câmera analógica. Como consegue equilibrar o offline e o online?

Sou meio contra a corrente. Os eletrônicos, em geral, me deixam meio confuso. Fui fazer aula de guitarra antes de tocar violão e é outra relação com instrumento, sempre ligado na tomada, energia elétrica, e volume… Uma coisa alta, botar um pedal de distorção, uma coisa barulhenta. E eu ia tocando violão ao mesmo tempo. Com o violão, você pode ir a qualquer lugar. Já era. Pronto. Eu e minha família viajamos muito para o campo. Eu sempre levo o violão e fico tocando. Componho muito nessas viagens. Tenho tempo de ficar sozinho e refletir. Gosto muito de estar desconectado, olhar em volta. Não ficar preso a certas tecnologias. Depois disso, fui buscando outras coisas, como tirar foto com câmera analógica. Também tenho uma máquina de escrever, que eu acho muito gostoso de usar. Tocar piano também. São pequenas coisas que deixam o dia menos saturado de informação. Mais orgânico.

Quando ouvi o seu album, tive a sensação de “flutuar”, de estar “desplugada” deste mundo frenético em que vivemos…

Tem gente que acredita em signos também. Eu sou geminiano e dizem que geminianos são uma galera meio avoada. Por isso voltei a ouvir vinil. Porque no Spotify eu escutava uma música, ouvia 20 segundos e clicava em outra. Vinil você ouve inteiro, escolhe a ordem e ouve como foi feito, numa ordem pensada. Você não pega, por exemplo, a cena favorita de um filme e coloca na frente das outras. A música também é uma obra que tem justamente seus momentos organizados.

FUTURO

Como você percebe os jovens da sua geração quanto ao engajamento na arte e na política por exemplo?

Bom, não vou entrar em pormenores de política, mas genericamente quando a gente se vê em tempos tão sombrios é um momento que esse contramovimento faz com que a arte cresça, porque toda essa repressão continua gerando sentimento e os artistas continuam produzindo. Então, por mais que a gente passe por tempos difíceis, os artistas estão produzindo. Por exemplo, se o nosso presidente fala uma cagada sobre o público LGBT, tem músicos, atores, drags, muitas figuras que podem representar esse pessoal e ir contra isso. Esse movimento de resistência ajuda também a nos unir nesse mundo tão solto e tão bagunçado. Acho que na música também tem isso, muitos estilos e gêneros, mas cada um tem sua voz adquirida. Como o pessoal da voz LGBT. O pessoal mais famoso, que tem visibilidade grande, como o Caetano, que está sempre tentando trazer movimentos, como para a questão da Amazônia, e aproveita o sucesso do passado pra realmente se posicionar. O Felipe Neto também tem grande visibilidade e está usando isso pra fazer alguma coisa.

E da atual geração de músicos, como você, quem vai substituir os grandes nomes da MPB?

Não sei, porque sou protagonista da minha vida. Não me vem esse delírio de querer ser uma imagem grande da música, mas de construir a minha história. Acho que a imagem que os outros têm de mim não é o que eu construí exatamente. É algo muito idealizado. Acho que essa ideia de ir construindo uma trajetória é muito mais importante. O sucesso pra mim é construir o que eu acho bonito e ir sempre melhorando. E não o sucesso que outros consideram, como ficar famoso, aparecer na TV. Claro que eu quero também conversar com o público, trazer meus feedbacks, ter uma troca. Mas meu objetivo não é atingir muitas pessoas, até porque é uma exposição muito grande. Sou artista pequeno, tenho visibilidade pequena. Vou fazer um show e, no meio desse caos todo, tão maluco, eu busco tentar fazer algo que saia de mim pra tranquilizar as pessoas, deixá-las confortáveis. Fazer com que elas pensem e tentem atingir um relacionamento delas consigo mesmas. Justamente o que eu falei no show, porque está tudo tão corrido e não conseguimos parar para olhar para nós mesmos. Muita gente evita esse sentimento. Passa a semana inteira trabalhando, faz um monte de coisas, final de semana vai para o bar, enche a cara e não confronta de fato os problemas internos.

Hoje em dia as pessoas terminam relacionamentos via WhatsApp e escolhem parceiros pelo Tinder.

Igual ao iFood. Assustador…

Como você lida com esse mundo digital?

Acho que toda tecnologia tem algo interessante, que avança. Você pode achar alguém interessante no Tinder por acaso. Se não fosse por ele, você não acharia.  Então, é um recurso que pode tornar algo viável. Mas acho que tudo, o Instagram, as mensagens, estão ali para ajudar a gente a ver como estão as pessoas, nossos amigos. Mas aí a gente acaba sabendo tanto que quando a gente se encontra pessoalmente não tem graça. Tem um vídeo que eu vi outro dia com a minha irmã, do Porta dos Fundos, que é um pessoal da firma reunido para jantar. Alguém ia contar uma história e aí todo mundo começou a falar as mesmas palavras porque a pessoa já tinha postado. Ou seja, você já postou. Eu já sei o que está acontecendo. Não é nenhuma novidade pra mim. Isso eu acho que passa um pouco do limite, mas, claro, a tecnologia ajuda a gente. Só não podemos abusar muito dela, porque fica meio confuso.

O Instagram e o Facebook são ferramentas importantes para divulgar o seu trabalho?

Sim, o Instagram eu uso geralmente para divulgar o trabalho. O Facebook eu uso para evento e trabalho da faculdade, quando o pessoal cria grupo. Mas não fico mais lá perdendo tempo. Depois, quando a gente precisa desse tempo, você se pergunta o que aconteceu lá atrás e o que você fez.

Movies, Music

Adoniran: Meu Nome é João Rubinato

Artista conhecido por imortalizar personagens reais de São Paulo em suas  “crônicas sociais do submundo” ganha documentário

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Pandora/Divulgação

Adoniran Barbosa está para São Paulo assim como Noel Rosa está para o Rio de Janeiro. O filho de imigrantes italianos nascido em Valinhos, cidade perto de Campinas, no interior do estado, imortalizou a capital mais cosmopolita do país e tornou-se um de seus mais populares cronistas. Retratava em versos a imagem sem filtros do cotidiano de um povo trabalhador, do imigrante, do caipira e do crioulo, todos com pouco acesso à educação. Ele mesmo abandonou os estudos para entregar marmita e ajudar a família no sustento. Por isso suas letras cheias de erros de português (“nóis fumo”, “nóis vortemo”, “adifício”, “frechada”, “taubua”), foram barreira para que as composições emplacassem no rádio.

Não há como cantar São Paulo sem lembrar dos sambas genuinamente paulistas, interpretados pelo Dêmonios da Garoa, como “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Tiro ao Álvaro”, esta imortalizada na voz da também saudosa Elis Regina. Não há como passar por locais como Brás, Bixiga, Mooca, Lapa, e, claro, por Jaçanã sem se lembrar de Adoniran, que nasceu João Rubinato em 1910, mesmo ano de Noel. Foi com “Filosofia”, samba do Poeta da Vila, que o artista emplacou a carreira depois de ter sido desclassificado de concursos por causa da voz fanha que foi se tornando cada vez mais rouca, machucada pelo álcool e cigarro, seus parceiros fieis até a morte em 1982. Morreu pobre, deixando de herança apenas uma casa, e quase esquecido. Boêmio por natureza, Adoniran foi se entristecendo cada vez mais com o progresso da sua musa São Paulo.

É a partir da morte do artista que começa o documentário do diretor e roteirista Pedro Serrano, Adoniran: Meu Nome é João Rubinato (Brasil, 2019 – Pandora). O filme, que conta como João virou Adoniran e resgata a memória de um dos mais populares cancioneiros do Brasil, segue em cartaz no Cine Passeio em Curitiba, sendo uma ótima pedida para assistir neste carnaval. Afinal, “Trem das Onze”, um de seus maiores sucessos, foi a grande premiada no carnaval do Rio de Janeiro de 1965.

Fã de carteirinha do compositor paulista, Serrano já havia homenageado o sambista no curta-metragem Dá Licença de Contar, no qual Paulo Miklos dá vida ao compositorPara o documentário, o cineasta fez uma vasta pesquisa sobre a vida e obra de Adoniran, resgatando imagens raras de arquivo, reportagens publicadas em jornais da época e entrevistas a programas de televisão (como a Fernando Faro no Ensaio). Também há o depoimento de personagens fundamentais na carreira e vida do sambista: familiares, amigos, produtores, parceiros (como Carlinhos Vergueiro), o autor da biografia do compositor (Celso de Campos Jr) e, claro, do conjunto Demônios da Garoa, que impulsionou a obra de Adoniran.

O diretor opta por uma linguagem tradicional, simples, assim como era Adoniran, que quando jovem foi entregador de marmita, balconista, garçom até começar a frequentar programas de calouros da rádio Cruzeiro do Sul. Com sua veia para comédia, o artista, além de cantar, atuava em radionovelas e dava vida a personagens como um chamado Charutinho. Participou de filmes e novelas na Record e Tupi, sempre encarnando os personagens da vida real, fazendo a “crônica social do submundo” (expressão que estampou uma notícia de jornal).

O documentário recupera preciosidades – um poema que o cantor Antônio Marcos escreveu na ocasião da morte do compositor – e relembra encontros com Elis Regina e Clementina de Jesus, além da parceria de anos com Osvaldo Moles. Serrano vai em busca de causos pitorescos, como as várias versões que cercam os versos de “Samba do Arnesto”. Aliás, o tal Arnesto é um dos entrevistados.

Tal qual nos sambas de seu ídolo, o diretor mostra imagens de São Paulo através do tempo, dos anos 1930 aos 1980, sobrepondo-se às letras das canções, cujos erros atraíram críticas de gente importante como Vinícius de Moraes (alias, Adoniran mais tarde musicou um poema do Poetinha!). A reputação foi aliviada por conta do texto do intelectual Antônio Cândido na capa do LP em homenagem aos 70 anos do sambista, em que Elifas Andreato retratou o sambista como um palhaço triste.

Serrano faz um belo serviço ao resgate da memória musical brasileira, mas poderia ter acrescentado a essa homenagem mais uma personagem: a voz do próprio povo paulistano, matéria-prima da obra eterna de Adoniran Barbosa/João Rubinato.

Music

Rita Ora

Oito motivos para não perder o show da cantora, que aproveitará a vinda ao Lollapalooza Brasil para se apresentar pela primeira vez em Curitiba

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Divulgação

Rita Ora irá se apresentar pela primeira vez em Curitiba no dia 2 de abril. Aproveitando sua visita ao país para o festival Lollapalooza, a cantora estenderá a estadia e fará uma visita a capital paranaense (mais informações sobre este evento você tem aqui). Por isso, o Mondo Bacana elaborou uma lista com oito motivos para não perder o concerto “solo” da popstar de etnia albanesa, nascida em Kosovo e radicada no Reino Unido desde o primeiro ano de idade.

Chancela de Jay-Z

Em 2008, quando Rita estava procurando por uma gravadora foi feita uma reunião com o rapper Jay-Z, dono da Roc Nation. O magnata do hip hop gostou tanto da cantora que assinou contrato com ela no mesmo dia e vendeu sua imagem como a de “nova Rihanna”.

Nova oportunidade no país

Sua primeira e última visita ao Brasil foi sete anos atrás, mas foi uma passagem bem apagada. Sua vinda foi por conta da ação de marketing de uma loja. O que deixou a cantora com vontade de fazer mais apresentações no país.

Muitas parcerias

Além de faixas solo, Ora também coleciona um grande número de parcerias. Requisitada e respeitada por seus companheiros de profissão, já participou de gravações de Iggy Azalea, Sofia Reyes, Tiësto, Avicii, Charli XCX e contou com a participação de Liam Payne, Cardi B, Bebe Rexha, Kygo e Chris Brown em músicas de sua autoria.

O novo álbum

Seis anos após o lançamento de Ora, Rita soltou em 2018 seu segundo disco, Phoenix. Já em uma nova gravadora, a cantora recebeu muitas críticas positivas da mídia especializada, incluindo a nota geral de 76 no Metacritic.

Set list equilibrado

Além da divulgação das músicas de seu mais novo trabalho de estúdio, também podemos esperar a execução dos maiores hits de Rita Ora. Faixas do início de carreira como “This Is How We Do (Party)”, “R.I.P.” e “I Will Never Let You Down” devem figurar no set list dos shows por aqui.

Vocais impecáveis

Não é incomum o público se decepcionar com as performances ao vivo dos cantores. Entretanto, este não é o caso de Ora. Ela já provou diversas vezes ter a mesmo gogó nos estúdios e nos palcos, proporcionando sempre um completo espetáculo.

Padrão estético

Não é possível saber qual será o formato do show que a cantora trará para Curitiba, mas é certo que seguirá o belo padrão estético dos outros que faz na Europa e Estados Unidos. Luzes, projeções, roupas combinando se juntam às músicas, tornando a experiência mais interessante e imersiva

Interações com o público

Rita Ora é muito conhecida por sua simpatia. Quando está cantando, também dedica muito tempo para conversar com seus fãs, contar histórias, dividir um pouco mais sobre sua vida. Tudo para deixar a plateia mais próxima dela.