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O Homem Invisível

Clássica história de ficção científica de HG Wells ganha nova adaptação e se transforma em um thriller psicológico bastante perturbador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Se você pensa que o novo remake do clássico sci-fi de HG Wells O Homem Invisível (The Invisible Man, Austrália/EUA, 2020 – Universal Pictures) é uma história de aventura e ficção científica, está redondamente enganado. Esta versão está muito mais para um thriller psicológico moderno, oportuno e incrivelmente perturbador.

Gaslighting é uma expressão usada para designar um tipo de abuso psicológico. Surgida com o filme À Meia-Luz (Gaslight, 1944), trata-se de uma violência sutil, manipuladora, por meio da qual a autoestima e autoconfiança da mulher são consumidas a ponto de invalidá-la como pessoa, gerando confusão e dúvida sobre tudo que acontece à sua volta. Em um primeiro momento pode não ficar claro, mas é exatamente sobre isso que este novo O Homem Invisível gira em torno.

Seguindo uma linha narrativa possivelmente inesperada, o longa, dirigido e escrito por Leigh Whannell, inteligentemente foca sua história em Cecilia Kass (Elisabeth Moss), vítima de um relacionamento abusivo que está tentando seguir em frente após o suposto suicídio de seu namorado, o cientista Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). Cecilia começa a ter sérias dúvidas em relação à morte do rapaz e acredita que ele não só está vivo, mas também seus abusos atingiram níveis ainda mais brutais. Cecília começa a perder a sanidade enquanto tenta provar que está sendo perseguida por alguém que ninguém pode ver.

O Homem Invisível emprega elementos da ficção científica para retratar um tipo de abuso que não tem espaço nas pautas de discussão da sociedade. De maneira habilidosa, o diretor e roteirista não apenas aborda o horror real que mulheres vivenciam como vítimas de violência, mas também sobre o quão difícil é provar a agressão. A analogia é clara.

Enquanto outros vilões clássicos da Universal mantiveram – na medida do possível – sua capacidade de aterrorizar, o personagem de Wells foi perdendo seu aspecto ameaçador com o passar do tempo, tornando-se quase cômico, com os óculos e curativos no rosto. Já era hora de alguém inovar o enredo e torná-lo assustador novamente. Ao invés de entregar seu homem invisível como o protagonista da trama, Whannell o transformou no antagonista de sua própria história. Ao contrário das versões anteriores, este longa é contado do ponto de vista da pessoa que o homem invisível está atormentando. Colocar o espectador vivendo no lugar da vítima do personagem-título, além de aumentar a plausibilidade e ansiedade da trama, foi uma sacada genial para tornar a narrativa aterrorizante para um público contemporâneo e transformar uma história da era vitoriana recorrendo a um medo muito atual e próximo do público. O tom inovador é tão oportuno que faz com que o último remake feito nos anos 2000 pareça uma relíquia.

Este O Homem Invisível é uma representação muito mais madura e íntima da fábula original. Com uma abordagem real e moderna, Whannell cria uma obra completamente excitante, profunda e intensa, conseguindo fazer quartos e corredores vazios ficarem inacreditavelmente assustadores. O longa é tenso e angustiante do início ao fim, com momentos de suspense beirando o insuportável, como já na cena inicial, em que Cecilia tenta fugir da casa de Griffin sem acordá-lo. É também um filme de terror que se desenrola na luz, o que pode ser muito mais desesperador, uma vez que tudo está ocorrendo, ironicamente, à vista de todos.

Apesar do sucesso de Whannell, grande parte do êxito desta produção se deve ao trabalho de sua protagonista. A excepcional interpretação de Moss faz o público acompanhar o solitário e cruel declínio de uma mulher em direção à loucura, transformando a ausência física do personagem-título em algo ainda mais convincente e torturante. Mesmo perdendo um pouco da força em seu último ato, com cenas apressadas que soam como se houvesse faltado tempo na produção para desenvolver a trama, a construção e o desenvolvimento do pavor são mais do que suficientes para perturbar.

O Homem Invisível não é apenas um dos thrillers mais angustiantes dos últimos tempos, mas é também um olhar totalmente pertinente e real sobre o pânico e os estragos deixados por uma relação abusiva. O filme deixa de ser apenas mais uma história sobre monstros assustadores quando aborda uma forma de violência muito perversa, contínua e sutil, que é tão frequente quanto invisível. Apresentando o personagem-título como a materialização do gaslighting, o denuncia uma sociedade que continua sem identificar a violência quando não há agressões físicas, não entendendo que, assim como o antagonista do longa, mesmo que seja algo aparentemente invisível aos olhos não significa que ela não esteja lá.

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Luta por Justiça

Hollywood volta a escancarar o racismo estrutural na sociedade norte-americana com cruel história verídica

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Warner/Divulgação

Não é de hoje que o cinema escancara a profunda discrepância social decorrente do preconceito. Filmes como Histórias Cruzadas (2011), Eu Não Sou Seu Negro (2016) e Infiltrados na Klan (2018), são exemplos de produções audiovisuais iluminando questões que as pessoas preferem esquecer. Baseado no livro autobiográfico de Bryan Stevenson, este longa soa como algo que já foi feito antes. Longe de ser inovador, o drama jurídico Luta por Justiça (Just Mercy, EUA, 2019 – Warner) pode não passar a sensação de algo inédito, mas é urgente e mais necessário do que nunca.

Dirigido por Destin Daniel Cretton, Luta por Justiça é silenciosamente comovente e em nenhum momento esconde para que veio: escancarar o racismo estrutural enraizado em um sistema socioeconômico fomentado desde a escravidão, que ainda carrega as consequências do passado. Não é agradável, não foi feito para ser. Seu objetivo é justamente deixar o espectador desconfortável, revoltado, impotente e muitas vezes com vergonha, e é muito bem sucedido em passar sua mensagem. Reativa a discussão sobre a pena de morte nos EUA que, assim como todos os problemas, afeta, principalmente, os menos favorecidos.

A história acompanha a vida de Bryan (Michael B. Jordan), um advogado idealista recém-formado em Harvard que chega ao Alabama no final dos anos 1980 com o sonho de mudar o mundo. Seu objetivo é amparar prisioneiros condenados à pena de morte que jamais receberam a devida assistência legal. Junto à ativista social Eva (Brie Larson), ele funda uma organização que fornece representação legal a prisioneiros que possam ter sido erroneamente condenados e garante a defesa de qualquer pessoa no estado num caso de pena de morte. Nesse contexto, Stevenson não está apenas desafiando uma única concepção, mas também o profundo legado que a escravidão deixou no país. Um de seus primeiros casos é o de Walter McMillian (Jamie Foxx), condenado pelo assassinato de uma jovem branca de 18 anos. Conhecido pela família como Johnny D, ele, a princípio, recusa o auxílio de Stevenson, desesperançoso porque vários advogados prometeram a McMillian coisas que nunca cumpriram.

Mesmo o advogado sendo um dos protagonistas da história, por sorte essa não chega a ser uma cinebiografia. Ainda que inevitável a admiração pela coragem e dedicação de Stevenson, os espectadores não necessariamente sentem que o conhecem. Jordan o interpreta como um homem de postura heróica, cujas motivações e caráter jamais serão questionados. Mas esse tipo de personagem vem com restrições. Como resultado da clássica jornada do herói hollywoodiano – em que o personagem principal, honrável, passa por grandes dificuldades até alcançar o reconhecimento e prestígio –, o foco da história acaba permanecendo muito no advogado “salvador da pátria” e pouco em quem talvez merecesse mais atenção. Para além da falta de representatividade efetiva de papéis femininos na produção (como Eva, que não só carece de um arco próprio como parece que entra em cena com o único objetivo de enaltecer o protagonista) e os conflitos pessoais de Minnie (a esposa de Johnny D, interpretada por Karan Kendrick), que, por sua vez, não são abordados ou desenvolvidos em um certo ponto da narrativa, é Stevenson quem recebe consolo de Johnny D e não o contrário. Além disso, ele nem sempre é marcante. Todos seus conflitos internos são anunciados por meio de discursos por vezes exagerados e momentos carregados de trilha sonora.

O roteiro propositalmente acessível de Cretton e Andrew Lanham deixa clara a denúncia contra as injustiças institucionalizadas na sociedade norte-americana e a real emergência no combate ao racismo enraizado em um país que se autoproclama “país de oportunidades iguais”. Seus momentos mais notáveis – além da excepcional atuação de Jamie Foxx e Rob Morgan como Herbert Richardson, outro preso à espera da execução – está nos toques poéticos mais sutis, nos silêncios que permitem com que a dor e o sofrimento quebrem a quarta barreira e cheguem até o espectador como um soco no estômago. O longa é salvo de ser um drama burocrático de tribunal quando sua vitalidade aparece, ironicamente, nas cenas do corredor da morte, quando é aprofundado pelas fortes performances de Foxx e Morgan, ainda que fraqueje na abordagem dos supostos crimes de Herbert e Anthony (O’Shea Jackson Jr). Mesmo que Foxx pareça subutilizado, o ator transmite a vulnerabilidade do personagem, sua essência, sua raiva, com pequenos e sutis gestos, deixando as cenas emocionais ainda mais marcantes. Mas é Morgan que causa maior comoção. Seu personagem é um veterano de guerra com TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) que não nega seus atos e a mistura de dor e sofrimento que ele sente é devastadora. 

Tentando manter-se fiel aos fatos reais, Cretton opta por permanecer dentro de limites bastante convencionais, com planos e estratégias narrativas comuns. A obra não pode ser considerada uma produção tecnicamente impressionante. É o clássico case de quando a mensagem se sobressai à forma. O cineasta decide-se pelo seguro, mas consegue apresentar um filme forte e comovente por conta da brutalidade de sua história verdadeira. É uma narrativa admirável, mas cinematograficamente limitada. Se tivesse sido mais ousada, mantendo a complexidade das cenas do corredor da morte, o resultado poderia ter sido uma obra extraordinária em todos os sentidos.

Luta por Justiça é construído para reter o público dentro de uma história que seria cruel demais para lidar. Felizmente, o filme não é uma simples declaração de que o racismo deve acabar. É uma sufocante e brutal representação, profundamente comovente, do trauma vivido pelas vítimas e praticantes desse preconceito. Mais do que constatar um fato ocorrido na história, confronta posições e ideais sociais. Nunca se fez tão necessário falar sobre os tabus que a sociedade quer esquecer. É no silêncio que a intolerância se torna normal. Por mais que a produção retrate um episódio do passado, infelizmente ela encontra diálogo direto com a nossa atualidade.