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Motorrad

Longa com personagens criados por cultuado quadrinista faz o jovem voltar a poder ver a si mesmo bem retratado no cinema nacional

motorradfilme2018

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Warner/Divulgação

Não houve época melhor para que a juventude brasileira se reconhecesse retratada no cinema nacional que o começo dos anos 1980. Muita gente bonita, elegante e sincera esbanjava sensualidade e jovialidade de dia (na praia) ou de noite (na balada) em um filme após o outro. Um deles, Menino do Rio, não só fez boa bilheteria na época de seu lançamento, como ainda bateu recordes de audiência quando foi exibido em horário nobre na Rede Globo – o que levou a emissora a criar a histórica série Armação Ilimitada, transmitir o Rock In Rio e apostar em vários programas para a faixa etária dos vinte e poucos anos.

O tempo passou e os longas-metragens nunca mais deram devido valor ao jovem. Depois de sua retomada criativa e econômica nos anos 2000, esta ficou uma categoria tratada com desleixo. Primeiro por causa de comédias meio sem graça com elenco formado por atores conhecidos pelo trabalho em TV. Nos últimos anos, com o domínio da comédia, a juventude virou um mero bando de personagens estereotipados inclusos em versões estendidas de programas de humor da Globo ou do Multishow. E só.

Mas eis que agora vem um filme que promete, enfim, redimir o jovem no cinema nacional. Motorrad (Brasil, 2018 – Warner) chega quietinho às salas de todo o país, sem fazer muito alarde, ao contrário do que mostra nas telas. Como o próprio nome indica – “motorrad” significa motocicleta na língua alemã – a trama trata de um grupo de amigos cuja grande paixão é a aventura vivida sobre duas rodas. E, o melhor, acertando ao ousar ao propor uma fusão de gêneros (thriller, terror, ação) e equilibrando o peso da dramaturgia (os atores são nomes emergentes no teatro e na TV) com funções técnicas como a caprichadíssima sound design (capaz de se arriscar em muito som ambiente e nos quase dez minutos iniciais de filme sem uma única emissão de voz humana) e a irresistivelmente bela fotografia em tons terrosos e muito contraste entre claro e escuro (as cenas foram rodadas na Serra da Canastra, em Minas Gerais).

O filme se passa no mais clássico arco de tempo de um enredo: um dia, uma noite e o dia seguinte. Não precisa recorrer a flashbacks ou explicações mirabolantes sobre o passado ou o futuro de seus personagens. Vários entram e saem misteriosamente da tela, até sem sequer mostrar a identidade. O espectador até pode ficar curioso para saber mais detalhes, mas isso não é tão necessário assim. O que importa, na mão do experiente cineasta Vicente Amorim, é viver e experimentar o aqui e agora. Tal qual os anseios dos millennials, que são os jovens dos dias de hoje.

Basicamente é o seguinte: um grupo de seis motoqueiros resolve se aventurar por uma trilha que envolve paisagens desconhecidas e um belo lago para se mergulhar, namorar e fumar unzinho. O líder é o cara mais velho, centrado, racional. Atrás dele vêm seu irmão mais novo (alguém mais introspectivo e emocional), um grande amigo e sua namorada, o amigo deste amigo e uma misteriosa morena que se junta a eles na hora. Esta morena já havia cruzado o caminho do irmão mais novo antes, quando este entrou de penetra em um ferro-velho para furtar um carburador para fazer andar a sua moto. É ela quem acaba conduzindo a trupe para onde eles não deveriam ir: um local dominado por quatro homens de preto, que nunca tiram o capacete e se divertem torturando e matando os outros da forma mais sádica possível (queimando vivo com gasolina; acorrentando e decapitando com adaga que nem o Estado Islâmico; asfixiando e pendurando de ponta a cabeça a muitos metros do chão, do alto de uma torre de transmissão de comunicação).

Os personagens foram desenvolvidos a partir da criação do quadrinista Danilo Beyruth. Ultimamente, este reverenciado nome da arte sequencial paulista teve seu trabalho destacado em revistas da Marvel (um dos títulos desenhados era justamente o do Motoqueiro Fantasma) e três graphic novels para lá de conceituais do personagem Astronauta, da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa. Muito do ritmo do filme guarda semelhança com as obras de Beyruth, como o fato de haver longos períodos sem falas e a exploração da amplidão do espaço externo.

Motorrad pode não reinventar a roda (ou melhor, as duas rodas) mas acerta em cheio ao trazer de volta às telas a verossimilhança a personagens que exalam juventude. E tem mais: este grupo de motoqueiros aventureiros pode ser formado por qualquer jovem de qualquer parte do país. Sem delimitações de ordem social, econômica, sexual ou política. Pode ser eu, você, irmãos, parentes, amigos, namorados, colegas de faculdade. Qualquer um. E o final “em aberto” (o famoso esquema cliffhanger dos roteiristas) ainda permite que possa vir algo a mais por aí no futuro. Conceitual, sem deixar de lado a veia comercial. Respeitoso, sem deixar de lado a faceta sonhadora. Excitante, sem deixar de lado questionamentos de temperamentos e atitudes nas entrelinhas.

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