Music

Iron Maiden – ao vivo

Agora com um shopping center de produtos ligados à sua marca, o sexteto nunca decepciona, mesmo sem qualquer novidade no repertório

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Texto por Fábio Soares

Foto: Midiorama/Divulgação

No primeiro dia de agosto do já longínquo ano de 1992, um moleque de 16 anos se dirigia à finada cancha Palestra Itália, do Palmeiras, para o seu primeiro concerto do Iron Maiden. O show da turnê do álbum Fear Of The Dark foi espetacular! “Be Quick Or Be Dead!” foi o pontapé inicial para um inesquecível par de horas que jamais saiu da memória daquele imberbe guri.

Bem, o piá era eu e 27 anos depois novamente me dirigi a um estádio de futebol para um concerto do Maiden (agora no Morumbi, em 6 de outubro último). Se em 1992 a identidade visual do grupo restringia-se ao mascote Eddie em camisetas pretas, agora a alcunha está associada a um verdadeiro shopping center: cerveja, linguiça, jogo de videogame e de pinball, mochilas, canecas, bandanas, e (se vacilar) shampoo, condicionador, sabonete e desodorante. Com mais de quatro décadas de carreira, o Maiden há muito transpassa o simples rótulo de banda de heavy metal: é uma instituição cultural que arrasta fervorosos fiéis, sobretudo na Latino América. No Brasil, essa devoção atinge patamares de religião. Com certeza há aficionados pelo Iron em Xapuri, no Acre; nos Lençóis Maranhenses; e em Uruguaiana, no Rio Grande.

Dois dias antes, a banda já havia levado a tour Legacy Of The Beast ao Rock In Rio, com ingressos esgotados. Pouco menos de 48 horas depois, lá estava o “conglomerado” pronto a labutar novamente desta vez contando com abertura da banda Raven Age, mais um daqueles 44.856 grupos de metal melódico do qual ninguém se lembrará daqui a dois anos. Havia ali, porém, um plus: seu guitarrista, George Harris, é filho do manda-chuva (e ditador) Steve Harris, baixista do Maiden. Chato ao extremo, o som do Raven Age me proporcionou tempo suficiente para uma ida ao banheiro e uma visita à banca de merchandising do Iron para aquisição de uma camiseta.

Voltando às arquibancadas, a visão das pistas comum e premium impressionava: pouquíssimos espaços vagos no gramado comprovam que show do Iron Maiden no Brasil é certeza de lucro fácil. Um pouco antes das 20h30, um vídeo promocional do homônimo jogo eletrônico alusivo à turnê começou a rolar nos telões. Depois, uma canção incidental antecedeu a inconfundível introdução de “Aces High”, que veio acompanhada pela espetacular alegoria de um avião da segunda guerra a flanar sobre o palco. Mesmo após tanto tempo de carreira, o sexteto de ferro que possui quase quatro séculos de idade com seus integrantes somados impressionava pela disposição no palco.

Mas devemos isso a um fator preponderante: Steve Harris, Dave Murray, Nicko McBrain, Adrian Smith e Janick Gers não seriam ninguém sem o carisma, energia e voz de Bruce Dickinson. Quando o vi em 1992, ele tinha joviais 34 anos e nada mais natural que corresse pelo palco como os diabos. Mas neste domingo de 2019, Bruce me deixou de boca aberta: aos 61, não para um só segundo e alcança inimagináveis agudos mesmo tendo enfrentado um câncer nas cordas vocais recentemente. A belíssima “The Clansman”, pinçada do obscuro Virtual XI (de 1998, que trazia os vocais do HORROROSO Blaze Bayley, substituto de Bruce por sete anos), trouxe ares de catedral ao Morumbi com hipnotizantes oito  minutos de duração. Preparação de terreno para o que viria a seguir: “The Trooper” é o arrasa-quarteirão que toda banda gostaria de ter. Nela, brilharam os solos do multi-homem Adrian Smith, um dos maiores da história quando o assunto é heavy metal. Em “Trooper”, o mascote Eddie surgiu no palco como um metaleiro boneco de Olinda. Alvejado pelo vocalista com um pseudodisparo, deixou o recinto não sem antes ouvir Bruce dizer “See you later, Eddie!”

Em “The Wicker Man”, Dickinson regeu seus súditos que, a esta altura já estavam a seus pés. Incontáveis pedidos de “scream for me, São Paulo!” foram prontamente atendidos por uma audiência fiel, ávida e entregue. O clima “ópera-rock” prosseguiu com a sempre bela “Sign Of The Cross”. Empunhando uma cruz coberta por leds luminosos que acendiam e apagavam ao seu comando, Bruce provocava: “Porque então Deus ainda está me protege mesmo quando não mereço?”. O destaque era a cenografia no palco: uma belíssima projeção em vermelho com cruzes espalhadas pelos quatro cantos, dando ao espectador o inferno da dúvida de um homem cristão em relação à sua fé.

Piece Of Mind, a matadora bolacha de 1983, seria representada a seguir pela maravilhosa “Flight of Icarus”. Um incansável Dickinson percorreu o palco armado com um minilança-chamas enquanto uma gigantesca figura alada surgia em cena. Momento deveras emocionante com novo magistral solo de Adrian Smith, que manteria a atmosfera em suspenso para a execução de “Fear Of The Dark”. Numa escancarada referência ao Fantasma da Ópera, Bruce voltou vestido de fraque e com o rosto coberto com eternizada máscara usada pelo personagem criado por Gaston Leroux no mais famoso romance gótico da história. Como de praxe, o público se transformou no sétimo integrante da banda ao entoar o tema da canção como um estrondoso grito de torcida de futebol.

A seguir, a familiar fala introdutória do lendário Barry Clayton anunciava a chegada do clássico maior: “The Number Of The Beast” não perdeu sua energia nem por um decreto, mesmo após 37 anos de seu lançamento. Êxtase! Era impossível não se emocionar ao ver Harris, Gears, Murray e Smith perfilados no centro do palco praticamente reverenciando Dickinson à frente do quarteto. Memorável era pouco! Para o bis, o único equívoco do set list. “The Evil That Men Do” soou deslocada demais. E por que, bulhufas, “Can I Play with Madness” não foi executada é algo que custarei a entender. “Isso aqui não é 1992!”, certamente diria Bruce, se pudesse indagá-lo.

Seguiu, então, o jogo para o duo final: “Hallowed Be Thy Name” foi mais uma prova de fogo para as cordas vocais de Dickinson. Nem precisava, também. O público sabia o refrão de cor e salteado e fez as vezes do backing vocal. Sete minutos que desceram como água para o último ato. “Run To The Hills” ganhou ares de celebração a estes senhores que tantas vezes foram acusados de oportunistas e aproveitadores de um gênero que não ajudaram a forjar mas que sabiamente deram uma banana a seus detratores.

Quanto à relação da banda com o Brasil, Bruce foi mais do que claro em sua fala de despedida: “Voltaremos aqui quantas vezes forem precisas pelo resto de nossas vidas”. Portanto, pode começar a guardar dinheiro desde já. Daqui a no máximo três anos o conglomerado Iron Maiden retornará, não nos mostrará nenhuma novidade em seu repertório. Só que ninguém, absolutamente NINGUÉM, reclamará…

Set list: “Aces High”, “Where Eagles Dare”, “2 Minutes To Midnight”, “The Clansman”, “The Trooper”, “Revelations”, “For The Great Good Of God”, “The Wicker Man”, “Sign Of The Cross”, “Flight of Icarus”, “Fear Of The Dark”, “The Number Of The Beast”, “Iron Maiden”, “The Evil That Men Do”, “Hallowed Be Thy Name” e “Run To The Hills”.

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