Music

Corinne Bailey Rae

Oito motivos para não perder o show da cantora inglesa, que passa por três capitais brasileiras antes do Rock in Rio

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Não é todo dia que uma cantora vencedora do Grammy se apresenta em turnê pelo Brasil. Pois esse já é um dos motivos para conferir o show de Corinne Bailey Rae, que aproveita sua passagem pelo Rock in Rio 2022 (dia 8 de setembro) para se apresentar antes em Curitiba (1), Belo Horizonte (3) e São Paulo (5) – mais informações sobre locais, preços, ingressos você encontra clicando aqui.

Muita gente, entretanto, não associa o nome à voz da cantora britânica. Ou seja, é possível que você indague a alguém se conhece a Corinne Bailey Rae. E é bem provável que essa pessoa responda que nunca ouviu falar! Se  isso acontecer, deve ser refeita a pergunta “Sabe aquela música da novela Páginas da Vida, chamada “Put Your Records On”?” e comece a cantarolar. Aí, sim! O gatilho é automático.

Nascida na cidade inglesa de Leeds, Corinne alcançou o estrelato em 2006 com seu autointitulado álbum de estreia (que chegou ao número 1 em vendas no Reino Unido), apresentando os sucessos globais “Put Your Records On”, que hoje tem quase 500 milhões de reproduções apenas no Spotify, e “Like A Star”. Apesar de ter apenas três discos lançados, ela não pode ser considerada uma artista one hit wonder. Corinne, dona de uma das vozes mais doces de sua geração, já assinou composições com produtores famosos e teve uma guinada na carreira depois de perder o marido Jason Rae, um saxofonista escocês com quem se casara em 2001. Ele foi encontrado morto em 2008, com suspeita de overdose. Ela conseguiu superar a fase do luto e, pouco tempo após a morte do marido, lançou outro trabalho, batizado The Sea. O último disco da cantora veio seis anos depois e se chama The Heart Speaks in Whispers

Portanto, para aquecer os corações no finzinho deste inverno, o Mondo Bacana lista oito motivos para não perder a passagem desta britânica de linda voz por terras brasileiras.

Cantora premiada

Corinne já ganhou dois Grammy, dois Mobos, além de ter recebido várias indicações para o Brit e o Bet Awards. O primeiro Grammy veio em 2008 na categoria Álbum do Ano, ao participar de River: The Joni Letter, de Herbie Hancock. O segundo veio com o EP Is This Love, pelo qual recebeu o prêmio de Melhor Performance de R&B. Já o álbum The Sea foi indicado ao Mercury Music Prize, o prêmio máximo da indústria fonográfica britânica.

Sucesso de crítica

Corinne é muito querida pela crítica musical, especialmente a britânica. Tanto é que, em 2016, o jornal The Guardian considerou o álbum The Heart Speaks in Whispers o melhor disco de R&B daquele ano. O trabalho incluía a impressionante “Green Aphrodisiac”, nomeada pela Billboard como uma das dez melhores músicas de R&B de 2016  e selecionada pelo então presidente Barack Obama para sua famosa playlist anual de verão.

Flerte com vários gêneros

Filha de mãe inglesa e um pai caribenho, a cantora começou cantando em coros na igreja, assim como várias intérpretes da soul music. Depois passou a se aventurar a mesclar outros estilos como o jazz e o pop.

Versões fofinhas

No show de Corinne, podemos esperar uma mistura de canções, das mais intimistas às mais alegres. Certamente haverá espaço para alguma cover famosa, como “Is This Love”, de Bob Marley. Esta faixa está presente no EP The Love, no qual também regravou “My Love” (Paul McCartney), “Low Red Moon” (Belly), “I Wanna Be Your Lover” (Prince) e “Que sera sera (Whatever Will Be Will Be)”, (imortalizada na voz de Doris Day). Bailey Rae ainda gravou a versão de “The Scientist” (Coldplay) para a trilha sonora do filme 50 Tons Mais Escuros, e participou do álbum Instant Karma, tributo a John Lennon, interpretando “I’m Losing You”. 

Parcerias de peso

A cantora continua a colaborar e se apresentar com artistas de vários gêneros musicais, incluindo nomes como Paul McCartney, Mary J Blige, Al Green, Herbie Hancock, KING, Kele Okereke (Bloc Party), ?uestlove, Salaam Rami, RZA, Tyler The Creator, Paul Weller, Stevie Wonder, Tracey Thorn, Logic e Mick Jenkins.

Voz de veludo

Ela já foi comparada a de Billie Holiday, Lauryn Hill e Macy Gray. Foi definida pelo The Guardian como sendo “calorosa e intimista”. Lady Gaga, certa vez ,disse que, ao ouvir Corinne pela primeira vez, ficou enlouquecida e queria saber de quem era aquela voz “brilhante”. 

Gosto pela música brasileira

A cantora se inspira na música brasileira e disse que a bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim é uma grande influência na sua música. Além disso, disse em uma entrevista à imprensa brasileira que também é fã de Elis Regina. 

Tire o atraso da pandemia

Depois do período crítico da covid-19, os shows voltaram a acontecer e estão jorrando por aí em demanda represada. Portanto, vista seu jeans desbotado e aproveite seu encontro com Corinne Bailey Rae!

Music

Rodrigo Amarante

Oito motivos para não perder Drama, a nova turnê do cantor e compositor que passará pelo Brasil em setembro

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Julia Brokaw/Divulgação

Rodrigo Amarante está de volta ao Brasil após o hiato pandêmico no mundo dos shows ao vivo. O ruivo volta ao país natal pela primeira vez depois da turnê de 2019 com o quarteto que o revelou, Los Hermanos. Morando em Los Angeles há muitos anos, ele já produziu dois discos em solo estadunidense. O mais recente lançamento, o álbum Drama (2021), já foi levado para a América do Norte e a Europa. Agora em setembro, o show passará, entre os dias 9 e 23, pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Fortaleza (mais informações sobre locais, datas, horários e ingressos você pode ter clicando aqui).

Por conta disso, o Mondo Bacana preparou oito motivos para não perder o retorno de Amarante aos palcos tupiniquins e, principalmente, a estreia de “Drama” por aqui.

Eterno hermano

Los Hermanos é uma das maiores bandas brasileiras deste século 21, que mesmo sendo tocada há anos no piloto automático, sem discos e somente com turnês esporádicas, solidificou sua importância e influência no rock independente do país ao longo das duas primeiras décadas. Passado é passado, é verdade, mas essa é uma distinta marca na carreira de seus membros que não pode ser ignorada. Ao lado dos outros barbudos, Amarante compôs alguns de seus maiores sucessos. Embora priorize suas canções autorais desde o lançamento do álbum anterior Cavalo, é de se esperar que revisite em solo brasileiro marcos como “Condicional”. Canção, aliás, que rearranjou na turnê em que trouxe Cavalo para cá em formato voz e violão. 

Cavalo

É justamente o primeiro álbum solo da carreira de Amarante, um dos maiores motivos para acompanhar a vinda do artista ao Brasil. São músicas como “The Ribbon” e “Irene” que escancaram a maturidade de sua composição, enquanto “Hourglass” e “Mon Nom” são atestados de sua inventividade e verdadeira dedicação às artes. Agora, oito anos após o lançamento do debut, Amarante explora outras facetas e timbres para temas que marcam sua expressão e se permite alçar vôos distintos sem perder de vista o estilo que marcou Cavalo.

‘Drama’ recalcado

O violão branco é o mesmo, o sotaque carioca também, mas algo de muito importante mudou nos sete anos que distanciam Cavalo de seu sucessor Drama. Ele, que sempre abraçou o onírico em suas obras, alça aqui a subjetividade a uma luz muito mais solar, mas não por isso menos sóbria. “Tango” e “Maré” entregam um frescor mais expansivo, gostoso de dançar à obra, sem perder a melancolia em “I Can’t Wait” e “Um Milhão”, que já era conhecida por suas versões ao vivo. E se o experimentalismo em três (mas pode-se considerar quatro) línguas do debut pareceria constranger Drama, que só conta com composições em português e inglês, essa parece uma forma mais madura e autorrealizada do artista. O disco, que irrompe como “resposta a um corte de cabelo de trinta anos atrás”, é uma jornada lírica de raízes muito mais estabelecidas que o cosmopolitismo de Cavalo. Interessado em montar o álbum com a estrutura de um drama narrativo, Amarante arquiteta um jogo formal que revela sua multiplicidade lírica de maneira muito rica. O resultado, então, é uma obra menos introspectiva e muito, mas muito mais ancorada no arranjo de uma banda.

Banda completa

Não à toa, Rodrigo Amarante não virá em seu formato acústico, em que o músico se apresenta acompanhado pelo violão e, quando muito, um piano. Ao contrário: sua turnê contará com bateria, percussão, baixo, guitarra, piano e violoncelo, num encontro de seis musicistas contando com o protagonista da noite. Músicas como “Sky Beneath” e “Eu Com Você” dependem de uma formação completa de banda para imprimir o tom vivaz que têm em Drama. De Cavalo, os elementos de samba de “Maná” não seriam os mesmos sem bateria e percussão somadas. Tocarão com Rodrigo Amarante os músicos Nana Carneiro da Cunha (piano e cello), Pedro Sá (guitarra), Alberto Continentino (Baixo) e Daniel Castanheira (percussão). Completa o time uma presença um tanto ilustre. Rodrigo Barba, ex-companheiro de Los Hermanos, conduz a bateria para o amigo, assim como fizera na turnê que trouxe Cavalo para o Brasil.

Reencontro com Barba

Contudo, a turnê de Cavalo não foi a última apresentação da dupla, que viajou o Brasil e passou por Buenos Aires com o Los Hermanos 2019. O reencontro mais recente do quarteto deixou um gostinho de quero mais com a performance dos clássicos e o lançamento de apenas uma nova faixa, “Corre Corre”. A sinergia alegre e despreocupada do grupo deixou os fãs com a esperança de mais lançamentos, mas a expectativa não se concretizou até agora. No entanto, a parceria de longa data não se desfez e três anos (e uma pandemia) depois os Rodrigos sobem juntos ao palco. 

Little Joy e Orquestra Imperial

Engana-se quem pensa que a trajetória musical de Rodrigo Amarante se resume à carreira solo e à caminhada com os Hermanos. Além de colaborações estelares com nomes como Marisa Monte, Norah Jones e Gal Costa, o artista participou da big band de gafieira Orquestra Imperial e, já nos Estados Unidos, do Little Joy, banda formada com Fabrizio Moretti (baterista dos Strokes, também nascido no Rio de Janeiro) e Binki Shapiro. E essas jornadas costumam dar as caras nos shows de Rodrigo. Entre elas, foram performadas recentemente a contemplativa “Evaporar” (Little Joy) e o samba “Pode Ser” (Orquestra Imperial). Na ocasião, sem banda completa, embora estas presenças nos repertórios deste ano seja um bom prenúncio.

Músicas inéditas

Amarante também é conhecido por tocar versões iniciais de futuros lançamentos em suas apresentações ao vivo. O exemplo mais emblemático pode ser “Um Milhão”, que teve sua estreia ainda nos palcos do Los Hermanos, em 2012. De lá pra cá, a canção estourou e foi tocada em múltiplas ocasiões, mas só pudemos ouvir uma versão de estúdio com o lançamento de Drama. Este também é o caso de “Tara”, que foi gravada ao vivo assim como “Carta”, e “The End”, uma nova abordagem à demo “That Old Dream Of Ours”. Já nos shows, Amarante tocava “Maré” antes mesmo da pandemia de Covid-19. Ainda é cedo, já que Drama tem pouco mais de um ano, mas será que podemos esperar uma palhinha do que virá logo mais?

Uma noite de poesiaEmbora os sete motivos anteriores apelem aos fãs e entusiastas de Rodrigo Amarante, não se pode deixar de estender um convite a quem ainda não tem tamanha familiaridade com sua carreira autoral. Se há uma certeza de como a turnê, que está prestes a começar, vai se dar, ela é a de uma boa noite para quem gosta de música. É comum que Amarante interaja com a plateia em seus shows no Brasil, assim como é comum que sua plateia grite, converse e aproveite muito suas apresentações. Sua maleabilidade rítmica e também poética garante uma apresentação dinâmica, repleta de grandes canções e mudanças de dinâmica entre elas – esta pode ser a oportunidade perfeita para conhecer ou se aprofundar na obra de um músico. Reouvir músicas pouco escutadas ou até mesmo tê-las reveladas pela primeira vez aos seus ouvidos é uma experiência singular, que deve ser aproveitada sempre que possível. Então, sendo um dos que aguardam ansiosos a volta de Amarante aos palcos brasileiros ou sabendo muito pouco do que esperar, a promessa é de que será uma noite ímpar, com muita poesia nas letras e arranjos deste que, cada vez mais, desponta como um dos maiores nomes da música brasileira em atividade.

Music

Pabllo Vittar + Gloria Groove – ao vivo

Drags esquentam uma das noites mais frias do ano de Curitiba com uma festa de diversidade, orgulho, figurinos, dança e música pop de qualidade

Pabllo Vittar

Texto por Ana Clara Braga

Fotos: Caroline Hecke/Divulgação

As eleições são apenas em outubro, mas se fosse realizada uma prévia entre fãs de Gloria Groove e Pabllo Vittar, Bolsonaro perderia de lavada. O evento Divas realizado em Curitiba no último dia 13 de agosto, no espaço Expo Unimed, foi um um borbulho de diversidade e manifestações políticas. O público de maioria LGBTQIA + sabia as músicas de cor e cantou a noite inteira os hits das cantoras.

Pabllo e Gloria são dois jovens gays de partes diferentes do Brasil que encontraram na música e na arte drag uma forma de se expressarem. Quebraram barreiras de público e gênero se consolidando como dois dos maiores atos pop do país. Afinal, existe alguém que não conheça ao menos uma música das duas? Dominando os streamings e as rádios online nos últimos anos, Pabllo e Glória misturam ritmos nacionais e internacionais dando ao Brasil um tipo de música no mesmo nível de uma grande popstar americana.

Gloria Groove foi a primeira a subir no palco, pontualmente às 23h seu show começou com “Bonekinha”, o primeiro single do seu aclamado disco Lady Leste. Com muita energia, coreografias e vocais inabaláveis, a sequência de hits animou o público. Gloria trocou de figurino três vezes, acompanhando a versatilidade das próprias canções.

Muito simpática, conversou com a plateia em diversas oportunidades, puxando coro e anunciando a próxima música. Em devido momento, escalou a plateia para um feat: era o aguardado momento das lud sessions, gravação acústica que fez com Ludmilla e estourou no Brasil. Os presentes responderam prontamente e cantaram e derramaram lágrimas ao som da sofrência.

Um dos momentos mais aguardados do show foi “A Queda”, megahit que alavancou a carreira de Groove no país. Com figurino e iluminação especiais, a cantora performou a música de maneira teatral, simulando o clipe. Voltando ao palco de vermelho, Gloria levou a mão para o alto com os dedos em L, levando a plateia ao delírio e puxou “Vermelho”, uma das músicas mais famosas de seu último álbum. “Quem é essa menina de vermelho?” cantava, enquanto mantinha o L no ar. GG fechou o set com a triunfal “Sobrevivi”, parceria com Priscilla Alcântara, e se despediu do público.

Gloria Groove

Pabllo Vittar começou com tudo com “Buzina”, o eterno quase hino de carnaval. Trajada de vermelho, por coincidência ou não, a drag escolheu seus melhores hits para animar a gélida madrugada curitibana. PV também entregou alguns dos vocais mais altos e certeiros de sua carreira, não deixando nem mesmo a coreografia atrapalhar a voz. A cada agudo, a plateia, surpreendida, gritava e aplaudia. Estavam todos em êxtase.

Ao contrário de Gloria, Pabllo conversa bem menos com o público. Porém, isso não deve ser confundido com antipatia. É que a artista incorpora mais uma diva no palco, sem nunca perder a pose. Em “Salvaje”, as luzes e os movimentos eram certeiros criando uma imagem belíssima no palco. Altíssima, ela era uma amazona, girando, cantando e trabalhando todos os cantos do pequeno espaço.

Cantando músicas em inglês, espanhol e português, mostrou toda sua elasticidade. Ficar parado era impossível, a energia era contagiante. “Zap Zum” e “Ultra Som”, duas músicas de seu mais recente trabalho de estúdio, colocaram fogo na pista. Já “Disk Me”, balada romântica de 2018 transformou o público em backing vocal da drag mais idolatrada do planeta. Pabllo encerrou o show com aquela que é sua maior canção até hoje: “K.O.”. Exausto de tanto dançar, o público ainda teve fôlego para berrar o hino-mor a plenos pulmões.

As duas drags colocaram Curitiba para dançar e cantar e transformaram em boate uma das noites mais frias do ano na cidade. Gloria, com todo seu carisma, mostrou versatilidade e o que faz ser querida por tantas faixas etárias e idades. Pabllo já é uma estrela consolidada. Uma popstar made in Brazil que brilha nos olhos de qualquer pessoa que saiba apreciar talento na música.

Set list Gloria Groove: “Bonekinha”, “Arrasta”, “Jogo Perigoso”, “Fogo no Barraco”, “Bumbum de Ouro”, “Apenas um Neném”, “Modo Avião”, “A Tua Voz, “700 por Hora”, “Radar”, “Provocar”, “Greta”, “Pisando Fofo”, “Leilão, “LSD” (interlúdio), “A Queda”, “SFM”, “Vermelho”, Coisa Boa”. Bis: “Sobrevivi”.

Set list Pabllo Vittar: “Buzina”, “Flash Pose”, “Nega”, “Ele é o Tal”, “Bandida”, “Ultra Som”, “Open Bar”, “Disk Me”, “A Lua”, “Problema Seu”, “Corpo Sensual”, “Clima Quente”, “Salvaje”, “Tímida”, “Amor de Que”, “Rajadão”, “Zap Zum”, “Parabéns”, “Energia (Parte 2)”, “Fun Tonight”, “Sua Cara”, “Follow Me” e “K.O.”.

Movies

Não! Não Olhe!

Jordan Peele volta à telas com um thriller recheado de suspense e reflexões sobre a perversidade da indústria do entretenimento

Texto por Carolina Genez

Foto: Universal/Divulgação

O longa-metragem acompanha os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald Haywood (Keke Palmer) no vale Santa Clarita, nos arredores de Los Angeles. Os dois vivem em um rancho herdado do pai Otis Haywood Sr (Keith David), que trabalhava como domador de cavalos que eram utilizados pela indústria cinematográfica. Eles querem continuar com os negócios, porém enfrentam muitos desafios, inclusive tendo de vender diversos animais para conseguir manter a propriedade. Até que um dia OJ e Emerald se deparam com fenômenos inexplicáveis que passam a acontecer por lá. Tentando sair da crise financeira, querem filmar e registrar esse mistério com estratégias cada vez mais elaboradas.

Assim como os irmãos, Ricky “Jupe” Park (Steven Yeun), também se interessa em lucrar em cima desses eventos estranhos. Jupe é dono do rancho vizinho dos Haywood, o Jupiter’s Claim, que é um parque temático no estilo da Corrida de Ouro da Califórnia. Ele ficou conhecido por ter sido astro mirim, mas teve sua carreira marcada por uma tragédia que ocorrera em uma série da qual participava. 

Em Não! Não Olhe! (Nope, EUA/Japão, 2022 – Universal) Jordan Peele volta a surpreender o espectador em seu terceiro longa. Depois do sucesso de Corra! (2017) e Nós (2019), o diretor e roteirista apresenta mais uma vez com um thriller recheado de tensão. Apesar dos três filmes terem características marcantes do diretor e roteirista, as obras são muito diferentes entre si. Dessa vez, explora o território da ficção científica e traz reflexões sobre a indústria do entretenimento, o espetáculo envolvido na mídia e toda violência e oportunismo presente na área. 

E uma das formas mais claras dessa violência do showbiz é o próprio personagem Jupe, que, mesmo traumatizado por seu passado, vê na sua tragédia exposta exacerbadamente em tabloides uma forma dele mesmo lucrar, criando uma espécie de museu sádico. Com isso, o filme também traz críticas aos consumidores desses tipo de conteúdo “espetacular”, já que a maioria das ações dos personagens são justificadas pelo retorno, já que eles sabem que tal tipo de mídia rende muita visibilidade. 

Ainda nesta questão, o longa critica à própria exploração desse meio em relação às pessoas e principalmente aos animais – essas “criaturas” são constantemente humilhadas e destratadas para garantir entretenimento. a crítica fica ainda mais forte nas ações de Jupe com OJ. O primeiro enxerga os animais como objetos, talvez refletindo a forma que o mesmo era tratado quando ator-mirim, quando o lucro era visado acima de qualquer outra coisa. Já o segundo, de fato, cria uma relação com cada um dos animais, tendo cuidado e respeito com os bichos.

Uma das características em comum com as obras anteriores de Peele é a construção da tensão feita de forma impecável, realmente trazendo o espectador para dentro da trama e dando a ele a oportunidade de sentir o mesmo que os personagens, prendendo a atenção do começo até o fim graças ao suspense em tela. Parte disso é gerada pelo resgate da essência dos blockbusters vintage, trazendo uma história que à primeira vista parece simples e explorando-a de forma compreensível, interessante e de certa forma trazendo um novo ponto de vista e algo cheio de aventura. Não à toa que o filme lembra muito Contatos Imediatos de Terceiro Grau, feito em 1977 por Steven Spielberg, construindo o suspense em cima do medo do desconhecido também por parte do público. 

Essa sensação de aventura também é intensificada na trilha sonora. As músicas fazem referências aos grandes filmes de faroeste do passado mas ainda assim apresentam melodias sinistras, que conseguem arrepiar e assustar. Além disso, os movimentos de câmera e enquadramentos também impressionam. Peele, embora se utilize de técnicas já costumeiras dos filmes de terror, aposta em uma fotografia mais colorida (tais cores se destacam na vastidão do deserto em que a trama se passa) e grandes espaços abertos durante o dia (quesito que lembra muito o assustador Midsommar), conseguindo trazer o medo de maneira palpável para o público. E, completando esses aspectos, a imersão fica ainda mais completa pelo uso da tecnologia IMAX.

As atuações, apesar de não serem o principal destaque do filme, também impressionam. Keke Palmer e Daniel Kaluuya tem uma dinâmica muito interessante agindo de forma convincente como irmãos. Os personagens também são muito reais e verdadeiros com suas ações que não só são condizentes com suas personalidades, mas também com a própria realidade. Suas reações muito naturais que, embora engraçadas às vezes, condizem com o que a audiência sente no mesmo instante, o que os torna ainda mais humanizados aos olhos de quem os acompanha na tela. 

Kaluuya dessa vez vivendo um personagem mais quieto, trabalhador e introspectivo, ao estilo Clint Eastwood. Muito bondoso e descolado, OJ tem um carinho enorme pela empresa montada pelo pai e está disposto a fazer de tudo para manter o legado. Já Palmer traz alguém muito informal, divertida e falante, quase o completo oposto do irmão e o que rende as cenas mais engraçadas do longa. Sua Emerald é muito carismática e consegue com facilidade conquistar a empatia do público.

Por tudo isso, Não! Não Olhe! é um dos grandes lançamentos do cinema em 2022. É um thriller que, como as outras obras do diretor e roteirista, provoca medos e reflexões, deixando o espectador à beira do assento durante os 130 minutos de duração.

Books, Comics, Series, TV

The Sandman

Cultuada graphic novel de Neil Gaiman é transformada em série para o streaming pelas mãos de seu próprio criador

Texto por Taís Zago

Foto: Netflix/Divulgação

Considerada “inadaptável’’, The Sandman (Reino Unido, 2022) , o carro-chefe das produções de Neil Gaiman para a DC Comics/Vertigo, ficou guardada na gaveta e nos desejos de fãs, roteiristas e diretores de cinema e TV por quase três décadas. Ninguém parecia querer assumir o risco de desfigurar uma das grandes obras-primas do universo sombrio das graphic novels. Então, eis que o próprio Gaiman resolveu arregaçar as mangas e tomar para si a tarefa árdua de transformar o mundo fantástico e mitológico de seu Morpheus em uma série para o canal de streaming Netflix. 

A obra de base em questão é extensa: são 13 volumes, sendo um para cada arco da história, onde foram agrupadas as 75 edições de Sandman. O mundo do senhor dos sonhos de Gaiman é multifacetado e multidimensional. Nele não faltam representações oníricas, filosóficas, religiosas, reflexivas e referências culturais da época em que foram publicados os quadrinhos originais – entre janeiro de 1989 e março de 1996. Posteriormente se juntaram a essa lista uma edição especial e alguns contos também publicados pelo Vertigo, o selo “adulto” da DC. O estrondoso sucesso de The Sandman, que elevou Gaiman ao olimpo dos autores do gênero, também fez com que até hoje ainda sejam (re)publicadas compilações, algumas bastante luxuosas, da coleção. A base de admiradores deo artista só aumentou com o passar dos anos. 

A primeira temporada teve a difícil tarefa de sintetizar em apenas dez episódios os dois primeiros volumes compilados da saga, os quais reúnem as 16 primeiras edições da HQ, chamados Prelúdios e Noturnos Casa de Bonecas. Talvez aqui já comece a dificuldade para os não iniciados na obra do autor, pois engloba uma grande diversidade de temas, personagens, épocas e tramas relacionadas. Porém, bem antes de se aventurar nessa sua nova empreitada televisiva, Gaiman viu algumas de suas publicações virarem filmes, uns menos e outros mais bem sucedidos, como foi o caso da animação Coraline, de 2009, baseada no livro de mesmo nome. Mas foi somente há cinco anos, com American Gods, que Neil se rendeu às possibilidades de produção, longa duração e liberdade de criação que os grandões do streaming podem oferecer. Satisfeito com o resultado e o sucesso de público, ele voltou a emplacar mais um hit com Good Omens, de 2019. Ambas as séries estão disponíveis no canal Amazon Prime.

Para o papel de Morpheus em The Sandman foi escalado o ator britânico Tom Sturridge, conhecido pela série Sweetbitter (2019) e filmes como Velvet Buzzsaw (2019). Tom recebeu críticas pelo seu trabalho, inclusive diretamente de Gaiman que pediu para que ele fosse “menos Batman” na sua entrega. Não é uma atuação perfeita, admito, mas é o mais próximo que já vi do personagem dos quadrinhos – lembrando que já houve outra tentativa em representar o papel, como no curta Sandman: 24 Hour Diner (2017), onde o mestre dos sonhos recebe um tratamento caricato e pouco convincente, em parte pela péssima qualidade do resultado na procura por mimetizar a imagem dos quadrinhos. Isso não ocorre com Tom. Naturalmente magro e pálido, sua figura esguia foi reforçada com a ajuda de filtros, seus cabelos são desalinhados sem parecerem uma peruca exagerada, seus olhos não são representados como duas bolinhas de gude de turmalina negra. O Sandman de Gaiman foi inspirado no músico Robert Smith, vocalista do Cure:  tem um estilo claramente gótico e um temperamento depressivo, desconectado e entediado, típico de rockstars. Tom representa isso e vai além. Ainda consegue incluir um pouco mais de dor nos gestos, de dúvida nas atitudes e de humildade diante do que não compreende. O Sandman dos quadrinhos é torturado por sua quase total incompreensão do significado de humanidade. Um ser superior que constrói e destrói universos, mas que começa a perceber qual a real dinâmica de poder em sua existência. 

Assim como seus irmãos, os “Perpétuos” (The Endless, no original em inglês), ele compartilha da letra D como inicial: ele é Dream, o Sonho. Os outros se chamam Death, Despair, Desire, Dellirium, Destiny e Destruction. Nessa primeira temporada, conhecemos apenas Death, muito bem incorporada pela atriz Kirby Howell-Baptiste (de Killing Eve), e os gêmeos Despair e Desire, esse último brilhantemente interpretado por Mason Alexander Park (de Cowboy Bebop). Outras muitas criaturas míticas e personagens surgem representadas pelo estrelato hollywoodiano, como Gwendoline Christie (de Game Of Thrones) no papel de Lucifer; Boyd Holbrook (In The Shadow Of The Moon) como Corinthian; o corvo Matthew, feito pelo comediante Patton Oswalt; Stephen Fry, sensacional como Gilbert; Mark Hamill (o eterno Luke Skywalker de Star Wars) como Mervyn Pumpkinhead; ou David Thewlis (Zack Snyder: Justice League) como John Dee. Menção honrosa aqui vai para o multitalentoso John Cameron Mitchell (Hedwig and the Angry Inch), no papel do dono de pensão/drag queen Hal Carter, que nos presenteia com um show de performance nos seus números musicais.

 Neil Gaiman acompanhou a produção com olhos de águia. Envolveu-se em todas as etapas, quer fosse como criador, roteirista ou produtor. E isso é bastante perceptível na fidelidade das representações e dos diálogos. Por vários momentos me vi gritando de contentamento, falando com a TV ou aplaudindo (de pé!). Episódios como 24/7, o quinto da temporada, foram adaptados quase que exatamente como eu tinha em mente. Aos poucos o medo de que uma paixão fosse destruída se dissipa conforme avançamos nos capítulos. Gaiman protegeu a sua visão até onde teve poder para tanto, e conseguiu isso sem abdicar de um aumento da representatividade no elenco como a contratação do artista não-binárie Mason Alexander Park para o papel de Desire e a inclusão de atores pretos e pardos como Sandra James-Young no papel de Unity Kinkaid e Vanesu Samunyai como Rose Walker. 

Gaiman também alterou para o feminino personagens que eram, até então, masculinos – Vivienne Acheampong (The Witches) assumiu como Lucienne e Jenna Coleman (The Serpent) como Johanna Constantine. Na obra original, o braço-direito de Morpheus era o bibliotecário Lucien, uma espécie de conselheiro e voz da consciência de seu chefe. Na série, Vivienne incorpora perfeitamente o papel e ainda dá a ele um pouco de sabedoria maternal (uma acertada decisão!). Infelizmente, o mesmo não ocorre com o papel dado a Jenna. Por questões legais, o personagem John Constantine não foi autorizado a fazer parte da série. Como peça fundamental da trama, não poderia ser omitido. A solução encontrada por Gaiman foi, portanto, criar um novo personagem, desta vez feminino. Mas o resultado da decisão ficou muito aquém das expectativas. John Constantine não é apenas um coadjuvante em The Sandman, ele tem seu próprio universo nos quadrinhos Hellblazer (DC Comics/Vertigo), criado por outro gigante da arte sequencial, Alan Moore. Jenna Coleman não conseguiu arranhar nem a superfície de Constantine com sua interpretação, que pouco se difere do trabalho que fez em Victoria, sobre a rainha inglesa. John é uma alma perdida, ora conman ora altruísta. Sua marca registrada é o constante sarcasmo por meio de um humor cáustico e tremendamente autodepreciativo. Constantine está além dos códigos morais ou aspectos pequeno-burgueses da vida em sociedade. Fuma vários maços de cigarro por dia, usa drogas e é alcoólatra. É um punk bruxo que usa sempre o mesmo trenchcoat encardido, dorme onde consegue um pouso e que viaja entre planos e entre lençóis. É um andarilho dos mundos sobrenaturais. Um niilista nato. A Johanna de Coleman mais parece uma colegial ao estilo Sabrina, é uma punk de butique. 

O tratamento visual dado é quase sempre bastante convincente, levando em conta a atualização dos fatos e tecnologias para o ano 2022 e o imenso budget do projeto. Aqui deixo registrada uma pequena crítica ao abuso de CGI onde outras soluções mais “analógicas” talvez surtissem melhor resultado. Não perdendo de vista, claro, a imensa dificuldade técnica de transpor o mundo fantástico dos sonhos, muitas vezes lisérgico e abstrato, que define os quadrinhos. Apesar disso, o resultado é satisfatório e não deve decepcionar os fãs. Outro ponto de crítica seria a eventual heterogeneidade da temporada, mas nesse ponto é importante lembrar que ela engloba dois arcos distintos da narrativa e em cada arco ainda existem jornadas diferentes, que, à primeira vista, parecem não estar conectadas. A ideia, a princípio, é que venham outras temporadas da série para que possamos ligar alguns pontos no grande quebra-cabeça que aqui foi criado.

The Sandman é uma série feita com amor e sob medida para os fãs da obra de Neil Gaiman. Seria impossível omitir esse fato, o que não exclui de forma alguma o alcance para um público muito maior. O único pré-requisito exigido aqui é permitir-se sonhar.