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Verlust

Esmir Filho brinca com o suspense não verbal em trama com Andreia Beltrão e Marina Lima atuando e assinando a trilha sonora

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Elo Company/Divulgação

O suspense é um dos artifícios fílmicos com maior capacidade de nuances. Volta e meia, uma obra consegue trabalhá-las com frescor e eficiência. Longa brasileiro que estreou na Mostra Internacional de São Paulo deste ano, Verlust (Brasil, 2020 – Elo Company) é um bom exemplo não somente desse fenômeno, mas da qualidade de produção do cinema brasileiro.

A trama, escrita por Esmir Filho e Ismael Caneppele, gira em torno de uma produtora/empresária, Frederica (Andrea Beltrão), e sua cliente (e companheira) de longa data, a cantora Lenny (interpretada pela também cantora Marina Lima), enquanto o escritor João (representado por Caneppele) cria uma biografia da artista. Além dos três, moram numa modernista casa isolada na beira da praia o esposo e a filha de Francisca, Constantin (o chileno Alfredo Castro) e Tuane (Fernanda Pavanelli). É importante listar todos os cinco personagens, já que o foco do roteiro está nas relações que se desenvolvem entre eles, muito mais que qualquer discussão a respeito do livro ou das obras de Lenny.

A locação permite que a mise-en-scène de Esmir Filho, que assina a direção, assuma dimensões inicialmente grandiosas, que se minimizam, num bom sentido, à medida que os conflitos se tornam mais pessoais. O cineasta articula bem a linguagem, com o auxílio da fotografia de Inti Briones e a montagem de Germano de Oliveira, de forma a espelhar profundamente as relações em seus planos: elas são rígidas, porém fluídas. 

E é nessa atmosfera que Verlust revela-se um suspense fortemente não verbal. Ancorando seus conflitos no peso do passado e na falta de detalhes sobre seus protagonistas, o longa confunde (intencionalmente) paixões, expressa tensão quando se significa romance e carinho quando se demonstra fim. Além disso, brinca com o espectador ao inverter o papel de sua música. Quando acreditamos que ela é não diegética (isto é, artificial e embutida na montagem), ela se mostra diegética (ou seja, um elemento presente na cena – tal como um toca-discos, um violoncelo ou até mesmo a voz e música de Marina Lima, que assina tanto a trilha quanto as composições mais “convencionais” que figuram no filme). A banda sonora assinada por Marina é primordial para a construção da atmosfera estranha e tensa que permeia a história. Seus fortes graves e melodias desconcertantes contrastam com as batidas e letras chicletes das outras músicas presentes na obra.

Por fim, pode-se argumentar que Verlust não trabalha seus conflitos de maneira eficiente, mas tendo a discordar – as pontas soltas fazem parte da mitologia que Esmir Filho tenta construir, de relações fragmentadas e metáforas vivas (meu único comentário sobre aquilo que, se você já viu, sabe o que é). Toda a estilização que afoga os personagens em seus quadros pode ser uma das várias representações imagéticas que ilustram as relações que o roteiro parece tão interessado em explorar.

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O Diabo de Cada Dia

Religião, fé, bondade, barbárie, corrupção e violência estão intimamente ligadas nas narrativas paralelas que unem diversos personagens

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação

Os horrores se perpetuam de geração em geração na cidade de Knockemstiff, Ohio. É assim que o narrador apresenta a cidadezinha-cenário de O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, EUA, 2020 – Netflix). Dirigido por Antonio Campos, filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes, o longa-metragem é montado com narrativas paralelas que se cruzam até o fim. Como o nome já sugere, a trama mostra por meio de religião, assassinatos e outros atos chocantes que o mal é unanimidade do cotidiano.

O ponto de partida do enredo é a volta de Williard (Bill Skarsgard) para casa após a Segunda Guerra Mundial. Traumatizado pelos eventos do combate, o soldado acaba encontrando sua futura esposa (Haley Bennett), uma garçonete, em uma lanchonete. Paralelamente, no mesmo local o fotógrafo Carl (Jason Clarke) conhece outra garçonete, Sandy (Riley Keough). Williard e a mulher têm um filho chamado Arvin (Tom Holland).

Campos constrói uma atmosfera gótica para seu filme na qual as tragédias e os horrores parecem se acumular. A chegada do pastor interpretado por Robertt Pattinson à cidade é uma adição de qualidade à história. Em uma interpretação incrível, apesar do sotaque peculiar, o ator é responsável pelo personagem mais instigante do longa, mesmo que ele seja totalmente desprezível. 

A religião está presente no filme desde os seus minutos iniciais. Inclusive, ela é usada como justificativa para atos bárbaros. É muito relevante a dicotomia colocada na figura da instituição religiosa. Em momentos apaziguadora e reconfortante, em outros castigadora e munição para atrocidades. Em tempos de radicalização em que a fé vira arma ideológica e política, ver os perigos do extremismo e da corrupção são necessários. 

A construção da narrativa por meio de histórias paralelas precisa ser muito bem organizada. A quantidade de conteúdo prejudicou, aqui, o andar da história. O enredo do policial corrupto (Sebatian Stan) poderia ter sido trabalhado de outra maneira para contribuir melhor para o desenvolvimento das outras tramas. Quando sua história se choca com a de sua irmã Sandy é seu melhor momento no filme.

É longa a discussão entre se o ser humano é bom por natureza e a sociedade o corrompe ou se já ele já nasce corrompido. Em O Diabo de Cada Dia é muito mais simples: não importa em que momento acontece o desvirtuamento, o homem fará alguma maldade, nem que seja para a sua salvação.

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Ema

Perfeita introspecção mostrada no início da história não se sustenta no decorrer do novo filme dirigido pelo chileno Pablo Larraín 

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: MUBI/Divulgação

A MUBI, que já é uma plataforma pioneira em streaming, tornou-se precursora de uma alternativa atraente para a distribuição de filmes em meio à pandemia da covid-19. Ema (Chile, 2019), premiado novo longa de Pablo Larraín, teve sua estreia pela plataforma, que, mediante inscrição, disponibilizou o filme por 24 horas para assinantes e não-assinantes.

A trama de Ema, roteirizada por Guillermo Calderón e Alejandro Moreno, é o segundo crédito da dupla na área. Retrata a confusão da vida de sua protagonista (Mariana Di Girólamo), bem como daqueles a seu redor, enquanto lida com as consequências da devolução de seu filho adotivo, Polo. No roteiro, há uma clara tentativa de constituir uma narrativa cuja temporalidade é única, porém a inexperiência de seus escritores se destaca, tornando-a confusa e pouco envolvente. O ritmo da história (mas não da montagem) é vagaroso, atando sequências desconexas e criando outras que pouco adicionam à trama. Isso ocorre, também, pelo esforço do longa em ser multitemático; isto é, explorar uma pluralidade de temas em vez de focar seu discurso em um ou poucos. 

No entanto, tal esforço não provém somente do roteiro, como é possível enxergá-lo na maneira em que Larraín conduz a trama por sua direção. Munido da fotografia impressionante de Sergio Armstrong, o diretor cria uma série de signos cuja interpretação não escapa do óbvio. São cenas belíssimas, como as de Ema ateando fogo a praças públicas e a estonteante dança do início do filme, mas que falham em ser mais que isso. Durante grande parte de sua duração, Ema é um longa-metragem de encantadora embalagem, mas pouquíssima substância.

Devo dizer que não creio ser demérito do elenco, que parece, acima de tudo, dirigido para um caminho paradoxal. Enquanto Gael García Bernal está brilhante em uma aparente zona de conforto, retratando o diretor da companhia de dança de Ema e suas amigas ao mesmo tempo que o (ex-)esposo de pavio curto da protagonista, Mariana, que carrega o filme, está bastante contida – e é possível ter um vislumbre de seu potencial nas cenas em que lhe é permitida maior liberdade. Larraín parece buscar um caminho introspectivo para a personagem, enquanto Di Girolamo se destaca quando permite a Ema mostrar-se mais.

A introspecção de Ema é vital para os primeiros minutos do filme, em que Larraín parece conduzir-nos a uma história bastante diferente da que acabamos por assistir. Parte do sucesso dessa – como também de outras sequências ao redor do longa – é a sensacional trilha sonora de Nicolas Jaar, uma perfeita demonstração de como áudio e fotografia se entrelaçam para desenvolver a emoção e o significado da projeção fílmica. É uma pena que, ao desenvolver um discurso antielitista em favor do reggaeton, aliando sua dança à expressão livre do corpo sensual, o cineasta chileno opte por (paradoxalmente) utilizar a música experimental de Jaar bem nos momentos em que tal expressão tem seu maior significado. Após iniciar de maneira perfeita, com o equilíbrio perfeito entre substância e embalagem, Ema acaba se perdendo à medida que tenta alcançar mais do que consegue. Se os créditos viessem aos 16 minutos, o filme seria muito melhor do que se torna com sua uma hora e quarenta e sete minutos de duração.

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Pulsão

Documentário procura evidenciar a influência e o poder das redes sociais na política brasileira dos últimos anos

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Quando Guy Debord escreveu A Sociedade do Espetáculo, que serviu de base para os acontecimentos de maio de 1968, não poderia imaginar que a internet, seus algoritmos e o mar de fake news divulgados via WhatsApp potencializariam, algumas décadas depois, sua teoria sobre a submissão alienante proporcionada pela mídia. O livro é leitura fundamental para tentar compreender o mundo moderno do pós-guerra, quando a sociedade se viu dominada pela mercantilização das relações, sejam elas sociais, políticas e econômicas. 

Seguindo ideias marxistas que flertavam com o pensamento freudiano, Debord acreditava que o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre o proletariado. Alguns desses conceitos podem ser claramente percebidos no documentário Pulsão, dirigido, produzido e escrito por Diego “Di” Florentino em parceria com Sabrina Demozzi. A missão, aqui, é traçar uma retrospectiva que permite evidenciar a influência e o poder das redes sociais nos acontecimentos políticos dos últimos anos, desde as passeatas promovidas pelo Movimento Passe Livre em 2013 (e que eram organizadas via Facebook), passando pela operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o desfecho com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

O título do documentário, lançado diretamente no YouTube no último dia 4 de setembro, evoca a teoria freudiana das pulsões: a pulsão da morte, o thanatos, é o movimento em direção à morte, à destruição. Ou seja, entende-se pelo desenrolar da narrativa que, há sete anos, o Brasil vem sendo empurrado ladeira abaixo, depois dos casos de corrupção que provocaram o impeachment de um nome eleito pelo povo até culminar na eleição, também democrática, de um representante da extrema-direita, que desde o início de sua campanha eleitoral não escondeu sua paixão por armas de fogo e sua aversão às minorias. A eleição de Bolsonaro teria sido um tiro no pé disparado pelos brasileiros num comportamento do tipo “efeito manada”, estimulado pelas redes sociais e criação de perfis falsos e, claro, pela verdadeira elite formada por grandes grupos econômicos e midiáticos. Agora, os marqueteiros de plantão, experts em SEO, somam-se à Rede Globo no que coube até hoje, na história do país, tornar o povo massa de manobra. A mensagem é simples: não acredite em nada daquilo que você vê. Não acredite em Bonners nem em Kataguiris. 

Lançado na esteira do celebrado e premiado Democracia em Vertigem, de Petra Costa, Pulsão tem um quê de Cambridge Analytica, ao passo que mostra como o brasileiro se vê refém das redes sociais e suas fake news – além de reconstruir, passo a passo, como a sociedade abalada pelas denúncias de corrupção foi capaz de alçar ativistas políticos a políticos ativistas, elevar um juiz de primeira instância ao status de super-herói e eleger um presidente de extrema-direita. Neste ponto, a montagem de Rodrigo Baptista é extremamente eficiente ao confrontar imagens e discursos contraditórios resgatando material de arquivo de canais de tevê aberta (sobretudo Globo e TV Cultura) ou divulgado por outros canais de imprensa, além de conteúdo amador. Há uma sequência, por exemplo, em que uma jornalista elogia o fato de as passeatas serem pacíficas, enquanto a imagem mostra exatamente o oposto: um rapaz “de vermelho” sendo agredido ao atravessar a rua durante uma passeata. 

Também há o momento em que o então juiz Sergio Moro afirmava, durante uma palestra, que não tinha intenção de se envolver com a política. Outras cenas são patéticas, como a então jornalista Joice Hasselmann (ex-aliada de Bolsonaro e atualmente candidata a prefeita de São Paulo pelo PSL) bajulando Moro e, depois, tendo um ataque de histeria ao comemorar sua eleição como a deputada federal mais votada. É constrangedor!

A direção do longa-documental consegue empreender o ritmo ágil, inclusive pelo uso de recursos visuais que lembram o ambiente digital, e ainda linkar os acontecimentos de forma dinâmica durante pouco mais de uma hora. Um dos personagens principais desse doc é o celular, que se transforma em algo muito maior que um mero aparelho: uma arma de guerrilha, de disparos de informações falsas, de memes e discursos demagógicos.  

O tom didático, sobretudo por conta da narração em off de Cesinha Mattos (autor da trilha sonora), é uma das falhas. Com sua voz suave, parece que estamos diante de uma propaganda de maionese. O descuido na edição também incomoda. Ninguém lembrou-se de legendar os nomes das personalidades que aparecem no decorrer do documentário. Todo mundo sabe quem é Lula, mas nem todos são obrigados a saber quem é Marco Antônio Villa discursando com seu sotaque paulistano no microfone da rádio Jovem Pan. Também não há referência quanto à frase citada no desfecho do filme. É preciso recorrer ao “oráculo” Google para descobrir tais informações.

Outra questão é o caráter panfletário da obra, mesmo porque a ideia inicial do projeto era registrar o “Circo da Democracia”, evento ligado a entidades sindicais que reuniu em Curitiba diversas figuras políticas e acadêmicas de esquerda para debater a conjuntura política da época. Além disso, uma repórter do Intercept Brasil, veículo que publicou a série de vazamentos envolvendo Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, foi a responsável pela pesquisa ao lado de Sabrina. Mas ao contrário do que se costuma – ou costumava – aprender nas faculdades de Jornalismo, é impossível ser isento. O simples fato de eleger a sequência das imagens já se trata de um posicionamento.

Talvez se não estivéssemos num ano pandêmico, Pulsão teria outro alcance e engajamento da população. Movimentos populares se traduzem, na circunstância atual, em aglomerações nas praias, numa clara atitude displicente da população, condizente com o perfil do governante-mor brasileiro. De fato, as retóricas se confundem. O mesmo consumidor-cidadão-eleitor que acredita em fake news também parece acreditar que não será vítima de uma simples “gripezinha”. Resta saber se nessa massa sem máscara que invadiu as areias num final de semana de calor invernal estão apenas eleitores da esquerda ou direita. Para usar uma linguagem bem popular, para não dizer “dilmesca”, todos – seja lá qual lado for – são farinha do mesmo saco. Todos pagam o mesmo pato. À milanesa.