Music

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote

Cantor e compositor lança novo disco de surpresa, no qual revisita algumas velhas músicas suas em dueto com o clarinetista criado na Bahia

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Sem alarde nem aviso prévio, Caetano Veloso lançou seu novo disco via streaming com nove versões de composições de sua autoria num dueto com o clarinetista Ivan Sacerdote. O álbum-surpresa também conta com participações do primogênito Moreno Veloso na percussão mais o sambista Mosquito e o violonista Cezar Mendes.

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote é fruto da casualidade e encantamento do baiano pelo som cativante de Ivan. Nascido no Rio de Janeiro mas criado na Bahia, o clarinetista tem formação universitária no instrumento, foi solista em rodas de choro e acompanhou nomes expressivos da MPB, como Rosa Passos. A parceria gerou um álbum despretensioso que realça o ápice do amadurecimento do cantor e músico de 77 anos de idade, seja no tom mais grave de sua voz ou na sutileza do dedilhado. O doce sopro da clarineta de Ivan abre o disco e acompanha o violão de Caetano, imprimindo uma vivacidade alegre e serena ao repertório com faixas lado B como “O Ciúme” (originalmente de 1987), selecionadas conforme a preferência dos envolvidos no trabalho. Ivan passeia à vontade pelas melodias do mestre tropicalista, com seus solos improvisados, como se estivesse pincelando notas num jardim recriado por Monet. É um trabalho belo, sutil, tranquilo, para se deleitar com os arranjos singelos que mesclam jazz, samba e bossa nova, e aproximam Caetano cada vez mais do gênio João Gilberto, sua fonte inspiradora no início da carreira.

A primeira faixa do álbum, de Uns (1983), foi um pedido de Ivan. Em “Peter Gast” (pseudônimo de Johann Heinrich Köselitz, amigo do filósofo Friedrich Nietzsche) Caetano filosofa “Eu sou um/ Ninguém é comum e eu sou ninguém”. Do premiado disco Livro, de 1998, surgem “Minha Voz Minha Vida” e “Manhatã”, em que o clarinetista nos proporciona a sensação de levitar.

As duas canções mais conhecidas são “Trilhos Urbanos”, de Cinema Transcendental (1979), e a belíssima “Desde Que o Samba é Samba” (com a participação de Mosquito), gravada por Caetano no álbum-marco Tropicália 2 (1993), e que abre o disco João Voz e Violão, com a refinada interpretação do mentor da bossa nova.

Como diz o primeiro verso da quinta faixa, “Você Não Gosta de Mim”, você pode não gostar de Caetano e toda a sua polêmica e imperatividade que por vezes lhe conferem um ar de errônea arrogância. Entretanto, é indiscutível o seu legado para a MPB. Ele sempre foi um contestador, seja encabeçando o movimento tropicalista ou cantando sobre os “ridículos tiranos” (na letra de “Podres Poderes”, de Velô, de 1984). A pouco de completar oito décadas de vida, Caetano se apropria da idade da serenidade e deixa de lado os discursos eloquentes para combater as trevas usando suas armas mais poderosas. Que são a sua voz e a sua arte.

Movies

Uma Aventura Lego 2

Sequência do sucesso de 2014 diverte todas as faixas etárias com humor apurado e muitas referências à cultura pop

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Uma Aventura Lego, lançado em 2014, emplacou sonoros 95% de aprovação segundo o site Rotten Tomatoes, tornando as expectativas para a continuação, que estreia nesta semana no Brasil, altíssimas. Esta animação, dirigida por Mike Mitchell, acompanha novamente Emmet (interpretado por Chris Pratt), e Lucy (Elizabeth Banks), desta vez tendo que resgatar seus amigos em um sistema espacial desconhecido.

Enquanto sua história é convencionalmente próxima de seu predecessor, Uma Aventura Lego 2 (The Lego Movie 2: The Second Part, EUA, 2018 – Warner) repete traços que solidificaram o sucesso do longa de 2014, como as impressionantes animações em stop-motionmontadas em Lego. As divertidas participações de personagens como Batman, membros da franquia Harry Potter e até figuras pop tipo o Bruce Willis, mantém o filme fluido, prendendo a atenção do espectador com senso de humor apurado. Não é raro se pegar rindo de tiradas que miram o público adulto, sobrando para Christian Bale, o protagonista de Duro de Matar e até a banda britânica Radiohead.

Uma Aventura Lego 2 é repleto de cenas musicais, arriscando perder parte do público, mas até nelas consegue encaixar boas risadas. O roteiro de Phil Lord e Christopher Miller, que também assinam o longa anterior, não foge da caixa embora também não erre, mantendo o ritmo saudável do filme com auxílio da montagem. A convencional “metáfora de amadurecimento” – que existe em grande parte dos filmes infantis – é eficiente mas passa longe de ser uma metáfora. Mesmo assim, a obviedade do tema não cansa nem subtrai o filme. As atuações da equipe de dublagem brasileira ainda são muito competentes, com uma ótima adaptação dos nomes, tanto de personagens quanto de locais e piadas.

Se você, assim como eu, quer levar seus filhos, sobrinhos, netos ou irmãos mais novos ao cinema sem arriscar perder cem minutos assistindo a um filme infantil lastimável, Uma Aventura Lego 2 é a melhor solução no momento. A quantidade de piadas pensadas ao público adulto é, talvez, até maior que o número de piadas infantis. Isso garante a diversão das crianças e de seus familiares encarregados de levá-las ao cinema.

Music

Silva – ao vivo

De volta à capital paranaense depois de quatro anos, o tímido capixaba mostrou uma fase menos pop e mais próxima à música brasileira

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Texto por Kevin Grenzel

Foto de Jocastha Conceição

Com um notável amadurecimento lírico, Silva voltou à capital paranaense após quatro anos. Era a turnê de seu novo álbum, Brasileiro, no qual abraça a musicalidade de nosso país e oferece conforto ao ouvinte que se perde nos sentimentos íntimos do compositor. E conforto pode ser muito bem a palavra que define o novo trabalho do cantor capixaba. Diferentemente de seu último trabalho autoral, Júpiter, Silva traz um refresco com faixas mais coesas e maior renovação, distanciando-se da essência pop e comercial do álbum de 2015.

A abertura foi realizada pelo Cidrais. O grupo curitibano é formado por três irmãos, possui letras sentimentais e aquela musicalidade minimalista nos recebia de braços abertos e fazia esquecer da imensidão da Ópera de Arame, trazendo uma tranquilidade singular e aquecendo os corações para a apresentação a seguir. Ao fim de cada uma das três musicas tocadas pelo trio, uma mensagem de amor e esperança, um recado necessário em um momento de polarização e insatisfação política. “Amar em tempos de ódio é um ato revolucionário”: foi com esse recado que o Cidrais abandona o palco, em um clima levemente melancólico mas de aconchego. Serviu para distrair de toda agitação que habita fora os portões do teatro.

Dando continuidade a essa mensagem de amor e empatia, Silva subiu ao palco com “Nada Será Mais Como era Antes”, primeira música de seu novo álbum. O ambiente se transformou. A melancolia se esvaiu e a euforia tomou conta do público, que cantava os versos com paixão. O primeiro ato foi conduzido com calma, sem grandes variações de ritmo, para que o publico degustasse cada nuance dos acordes e fosse criada uma atmosfera tranquila para a agitação que viria a seguir. A mudança veio com “Ela Voa”, que combinou o efeito oscilante da música a uma variação da iluminação que remetia ao efeito ondulatório do mar. No fim desta música ele se aproximou do publico com uma breve conversa, relembrando a ultima vinda a Curitiba, em 2014.

Era possível notar certa timidez no cantor, fosse pelas poucas palavras trocadas com o público ou o fato de recitar suas poesias de olhos fechados. Silva já confessou sua timidez e ansiedade antes dos shows –  ele mesmo disse “não ser muito bom com as palavras”. Mas nem precisava: sua música fala por ele e desvendar a particularidade de seus versos é um exercício gratificante ao espectador.

Após essa conversa, o show se tornou ainda mais minimalista, com arranjos formados apenas por violão e bateria. Destaque para a performance de “Milhões de Vozes”. A composição colaborativa entre Silva e Arnaldo Antunes é um grito de protesto discreto aos acontecimentos recentes. Conforme citado pelo artista, “essa música poderia se chamar “#EleNão” se fosse escrita atualmente”.

Essa parte da apresentação foi destinada principalmente a homenagens a influencias musicais e pessoas próximas ao artista, com elogios a Caetano Veloso, Arnaldo Antunes e Gal Costa. Silva apresentou aos curitibanos os dois músicos de sua banda (Lucas Arruda no baixo e Hugo Coutinho na percussão e programações). O cantor ainda interpretou a canção “Prova dos Nove” de autoria de seu sogro, Dé Santos, e sucintamente contou a relação estreante de Dé com a música, bem como rasgou alguns elogios a ele.

Próximo ao encerramento da performance, tivemos o momento de maior interação do publico durante a apresentação de “Duas da Tarde”, momento em que os fãs do capixaba ligaram as lanternas de seus celulares, transformando o teto do teatro em um céu estrelado.

Ao fim do show, Silva pediu para que todos ficassem em pé e tivessem a liberdade para dançar a última música da noite, “Guerra de Amor”, canção do novo álbum em que pode se notar as maiores influencias do samba e musica brasileira. Com um sorriso tímido, o musico se despediu e rapidamente fugiu dos holofotes.

Após os eufóricos gritos de “mais um”, Silva retornou ao palco, com ânimo e folego renovados. Apresentou aos fãs não apenas uma música, mas mais três canções, para então sim se retirar da Ópera de Arame, com uma despedida não com tanta pressa assim quanto a anterior.

Set list: “Nada Será Mais Como Era Antes”, “Let Me Say”, “Caju”, “Claridão/Janeiro”, “Guerra de Amor”, “Feliz e Ponto”, “Que Maravilha”, “Palavras no Corpo”,  “Ela Voa”, “Mais Cedo”, “Milhões de Vozes”, “(There Is) No Greater Love”, “Júpiter”, “Menino do Rio”, “Eu Sempre Quis”, “Beija Eu”, “Prova dos Nove”, “Duas da Tarde” e“A Cor é Rosa”. Bis: “O Show Tem Que Continuar”, “Fica Tudo Bem” e “Brasil, Brasil”.