Movies

Roma

Oito motivos para cair de amores pelo novo longa-metragem escrito e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Netflix/Divulgação

Desde o último dia 14 de dezembro já está disponível na Netflix, o mis novo filme do diretor e roteirista mexicano Alfonso Cuarón. Primeira obra do artista após o badalado Gravidade, o novo longa-metragem também vem a reboque de um grande hype. Festejado pelos críticos de todo o mundo com as mais altas cotações de suas resenhas, Roma traz motivos de sobra para não apenas para o oba-oba em torno de si, mas também para as polêmicas a respeito de apontar para novos caminhos para o cinema, nem que, para isso, paradigmas sejam quebrados em todos os sentidos. Inclusive no de dar um toque mais artístico ao que é extremamente popular, propondo a saída do quadrado e uma luz que aponta para bem longe do que é simplesmente comercial. E o Mondo Bacana apresenta abaixo oito motivos para você cair de amors pelo filme.

Tom autobiográfico

Muito do que costura a história da babá Cleo e da família de classe média de quatro filhos e pais professores universitários veio das próprias vivencias e memórias do roteirista e diretor Alfonso Cuarón – tanto que ele não apenas se autorretrata em um dos meninos mais novos que habitam a casa número 21 da Rua Tapeji do bairro Roma, na Cidade do México como também dedica, antes dos créditos finais, a obra a Libo, a Cleo da vida real. Isso explica toda a ternura com que ele trata a personagem central. E nada mais atraente do que toda a sinceridade autobiagráfica imposta por Cuarón ao seu filme.

Yalitza Aparicio

Cleo é uma jovem analfabeta que mora nos fundos da casa de seus patrões e passa todos os dias em função dos afazeres em torno das quatro crianças da casa. Veio para a cidade grande ainda na adolescência para trabalhar na metrópole. Não perdeu a ingenuidade tampouco as referências de sua origem, a região pobre de Oaxaca, situada ao sul do país. Entretanto, impõe-se com simplicidade no dia a dia, mantendo a ordem de toda uma engrenagem sem nunca revelar a sua real importância para toda a estrutura, Para interpretar a personagem, Cuarón escalou Yalitza Aparicio, professora infantil também oriunda de Oaxaca e sem qualquer experiência anterior como atriz, tampouco havia visto ou sabia o nome de algum dos filmes anteriores do diretor. A sua Cleo pouco diz palavras durante as duas horas do filme. O silêncio pode imperar em boa parte do tempo, mas é inegável que olhares, postura e gestos falam muito. Yalitza acabou não sendo indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática e se ficar de fora das outras premiações da temporada (inclusive do Oscar) isso será uma grande injustiça. Outro detalhe: Yalitza fala várias vezes no dialeto mixtec, característico de sua região.

Roteiro oculto

Cuarón era a única pessoa no set a saber todo o roteiro e a direção que cada personagem tomaria. Os atores só recebiam as suas falas no próprio dia das filmagens, apenas um pouco antes da câmera começar a rodar.  O objetivo era garantir a maior espontaneidade possível de seu elenco, sobretudo quanto às reações ao que se passava em cena. O que se reflete de modo positivo durante todo o longa, sobretudo em alguns dos momentos decisivos da trama. Se você quiser conhecer mais a fundo o roteiro, ele foi disponibilizado por Cuarón, tanto em inglês quanto em espanhol, e pode ser lido aqui.

Nostalgia do cinema

Entre as reminiscências da infância de Cuarón o cinema aparece de maneira clara e cristalina dentro da história. Como válvula de escape para os problemas da vida, alguns de seus personagens vão duas vezes a um dos principais cinemas da Cidade do México. Yalitza é abandonada pelo namorado no meio de uma sessão de A Grande Escapada  (1966). Outra hora, fica bem claro o quanto o filme Sem Rumo no Espaço (1969) fascinou o futuro diretor de Gravidade. O mais legal é perceber o quanto uma ida ao cinema mexia com as pessoas. As instalações monumentais, a entrada glorificante, sempre cheia de pessoas e ambulantes ao redor (vendendo de pipocas a balões), e a ligação direta com a calçada e a grande avenida talvez não passem de meras elocubrações inverossímeis para uma geração que já nasceu mecanizada com a ida a um multiplex insípido incrustado em um shopping center ou mesmo o conforto total do streaming no sofá da sala ou na cama do quarto. Este último detalhe ainda se mostra um completo contrassenso quando vem a reflexão de que Roma é um filme que glorifica a experiência do cinema de rua que quase todo mundo verá sem precisar sair de casa.

Autorreferências

A citação a Gravidade (2013) pode aparecer de modo bem explícito lá pela metade final, mas não é a única autorreferência feita nele por Cuarón. A cena do parto de Cleo é similar à de Filhos da Esperança (2006). Outra coisa comum a Filhos da Esperança e Romaé o uso do mantra “Shantih Shantih Shantih” (“paz, paz, paz”). Além de marcar o retorno do diretor ao idioma e o cinema mexicano após dezoito anos, Roma também tem a ver com E Sua Mãe Também (2001) na hora em que a mãe reúne os filhos em um bar ao ar livre perto da praia para contar a eles que seu pai os abandonou.

Subtrama politizada

Halconazo é um dos mais tristes episódios sociopolíticos mexicanos no Século 20. Ocorreu no dia 10 de junho de 1971, durante as celebrações do feriado de Corpus Christi. Estudantes protagonizaram uma grande manifestação pública pelas ruas da Cidade do México, em protesto contra recentes medidas tomadas pelo presidente Luis Echeverría Álvarez e seus comparsas nos governos nacional e regionais. Cento e vinte manifestantes (número divulgado oficialmente, embora as suspeitas sejam de uma contagem ainda maior) foram cruelmente assassinados neste dia por membros de um exército paramilitar formado por civis exaustivamente treinados com artes marciais e armas de fogo para reprimir os opositores. Aos poucos, o Halconazo vai se desenhando na história de Cuarón. Primeiro quando Cleo retorna a Oaxaca e acaba assistindo um grande treinamento coletivo realizado em um campo de futebol de várzea e que, de certa forma, acaba se esgueirando rumo ao ridículo. Depois, no clímax desta subtrama, envolve-se como testemunha em um chocante caso de disparos à queima-roupa em um líder estudantil que tenta, em vão, salvaguardar sua vida escondendo-se na mesma loja de móveis em que a mãe de sua patroa a leva para escolher um berço para o bebê que carrega na barriga. O nome Halconazo vem de Los Halcones (Os Falcões, em espanhol), o grupo clandestino secretamente treinado secretamente – inclusive com a ajuda do governo dos Estados Unidos – para combater os frequentes protestos civis e estudantil realizados por todo o México naquela época. O uso do Halconazo em Roma serve como o clímax de uma série de denúncias de desigualdades sociais realizada no decorrer da trama.

Cinematografia de primeira

O convite fora feito inicialmente para o compatriota Emmanuel Lubezki, com quem já trabalhara antes em Gravidade e Filhos da Esperança. Diante da impossibilidade do amigo assumir o compromisso em Roma, Cuarón decidiu ele mesmo assinar pela primeira a fotografia de um filme. Não poderia ter feito a estreia em melhor estilo. Rodado em 70mm, Roma é um delírio para os olhos dos cinéfilos. Todo em preto-e-branco e com seu drama familiar espalhado por cenas cotidianas em casa ou nas ruas, começa sugerindo uma bela homenagem ao neorrealismo italiano e seus ícones (Visconti, Pasolini, Rosselini, De Sica). Não por acaso, o título faz uma ligação sináptica com o nome da capital desse país. Mas a fotografia de Roma vai além. Através de lentos e frequentes travellings, a câmera nunca para de os ambientes da história e transformando as locações em personagens tão importantes quanto os de carne e osso. Tanto quanto fixar-se nas ações e nos diálogos vale muito a pena deixar os olhos percorrerem tudo o que está ao redor e é dito apurada e silenciosamente por objetos, móveis, paredes, carros, aviões e figurantes.

Leão de Ouro

Impedido de ser inscrito em Cannes, que só permite filmes concorrentes que possam vir a ser lançados no cinema em um determinado intervalo de tempo posterior ao evento, Roma acabou abocanhando o Leão de Ouro, o prêmio máximo de outro importante festival europeu de cinema. Ao comentar a vitória em Veneza, ocorrida no mesmo dia de aniversário de Libo, Alfonso Cuarón disparou, em tom de brincadeira: “é seu presente e eu te cantaria ‘Parabéns Pra Você’, mas não vou ofender os ouvidos de toda esta gente”. No ano passado, o vencedor de Roma foi A Forma da Água, do também mexicano Guillermo Del Toro e que meses depois levou o Oscar de melhor filme. Aliás, a indicação de Roma aos Academy Awards já está sendo bastante esperada e é considerada a mais alta aposta já feita pelo serviço mundial de streaming, nos últimos anos “banido” da categoria principal pela rixa com os principais estúdios que ainda apostam nas bilheterias tradicionais.

Movies, Music

Verão

A história de dois ícones do rock da extinta União Soviética e seu amor incondicional por cantores e grupos anglo-americanos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Imovision/Divulgação

O rock nasceu com o DNA libertário e sempre será assim. Pode vir a indústria do entretenimento (isto é, a economia) tentar cooptar seus principais expoentes recém-surgidos de tempos em tempos. Podem vir governos austeros e com ímpetos totalitários (isto é, a política) tentar calar de alguma forma estas mesmas figuras de tempos em tempos. Contudo, uma coisa ninguém pode tirar dele: a vontade – e, consequentemente, a necessidade devido ao descontentamento contínuo – de questionar e transgredir o que está estabelecido. Pelo sistema. Pela família. Pela força. Pode ser nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Brasil. Pode ser em qualquer lugar, qualquer país. Foi assim inclusive na União Soviética cerrada pela cortina de ferro imposta pelo regime comunista até os anos 1980.

Verão (Leto, Rússia/França, 2018 – Imovision) surge como uma possibilidade de jogar luz nos olhos ocidentais a respeito de duas figuras fundamentais no rock soviético do começo dos anos 1980. Ambos vinham de Leningrado, cidade hoje rebatizada São Petersburgo, longe geograficamente da linha dura de Moscou o suficiente para que suas carreiras pudessem prosperar sem muitos incômodos governamentais. Ali Mike Naumenko era o rei de uma juventude ligada em guitarras e violões a tiracolo, cabelos compridos e um excelente casamento entre letras poéticas e doces melodias. À frente da banda Zoopark, realizava frequentes shows em pequenos auditórios de clubes da região. Suas fãs não podiam se levantar das cadeiras ou mesmo ostentar cartazes para se comunicar com os músicos, entretanto as autoridades locais estavam convencidas de que as mensagens transmitidas em seus versos eram dignas de glorificar uma identidade cultural soviética.

E era isso mesmo. Naumenko (Romam Bilyk, músico e ator russo que às vezes atende pela alcunha de Roma Zver) e sua turma não queriam derrubar a cúpula do Kremlin, não exaltavam o way of life dos “inimigos” ocidentais, não incitavam ninguém a iniciar qualquer revolução. Afinal, eles mesmos eram a própria revolução. Cantavam sobre a vida e tudo mais que estava ao redor. Celebravam uma tarde de verão na praia com os amigos. Falavam sobre medos, incertezas, frustrações e inseguranças típicas do início da juventude. Sobre as responsabilidades trazidas pelo mundo adulto em cuja entrada tanto tentavam adiar. Só que o combustível para isso tudo eram discos de vinil importados (mercado negro?) de heróis do rock anglo-americano. Velvet Underground, Lou Reed, Iggy Pop, David Bowie, T-Rex, Blondie, Talking Heads, Ramones, Sex Pistols, Who, Beach Boys, John Lennon e Mott The Hoople eram alguns dos nomes venerados por Naumenko, sua esposa Natasha (Irina Starshenbaum) e o círculo formado ao redor deles.

Um dos integrantes do círculo era Viktor Tsoi (Teo Yoo, ator de origem germânica  e descendência coreana), sete anos mais novo e discípulo confesso e disciplinado do ídolo. Com ele aprendeu as manhas de composição e técnicas de gravação em estúdio. Com ele até chegou a dividir, por alguns momentos românticos, a própria Natasha. Até se desgarrar de vez na identidade e partir para a liderança de sua própria banda, denominada Kino.

O filme, dirigido pelo “controverso” Kirill Serebrennikhov (há um ano mantido em prisão domiciliar pelo governo de Putin, a quem sempre se opôs ferrenhamente) é centrado toda essa ingenuidade sonhadora de Mike, Viktor e Natalya. Sua opção pelas imagens em preto e branco e câmera móvel entre as pessoas da cena reforçam a estética publicitária dos videoclipes. Não por acaso ele inclui na narrativa pequenos interlúdios musicais (“The Passenger”, “Psycho Killer”, “All The Young Dudes” e uma canção de Naumento chamada “Leto”, palavra que significa “verão” em russo) nada diegéticos para tentar revelar ao espectador o que estaria se passando na cabeça e coração dos personagens naquele momento. Aí entra uma linguagem mais fragmentada, com direito a cortes mais velozes, animações sobrepostas e várias referencias aos versos destas canções dividindo a tela com imagens coloridas. Inclusive, a versão feita pela banda russa Shortparis (em atividade desde 2012) para “All The Young Dudes” é tão arrebatadora que fica difícil não se lembrar dela constantemente após o fim da sessão.

Mike e Viktor não tiveram muito tempo para curtir a fama. Morreram jovens, entre 1990 e 1991, ainda no auge criativo – o primeiro de complicações provocadas por excessos alcoólicos e o segundo em um acidente de carro. Não puderam ver também o que viria depois: o fim da União das Repúblicas Socialistas soviéticas, a sombra de novos regimes autoritários de Yeltsin e Putin na Rússia, o crescimento da economia do país, a abertura à cultura ocidental ou ainda a inauguração da MTV russa. Ainda bem que as memórias escritas por Natasha serviram de base para que um tocante e belo filme como este pudesse ser feito em homenagem a eles dois.

Movies

Acrimônia

Caras, bocas e momentos de fúria de Taraji P. Henson são o melhor desta história que gira em torno de azedume e impulsos violentos

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Um bom resumo para explicar o que significa a palavra “acrimônia” é o modo de agir que reúne aspereza, azedume e um certo grau de violência, seja no verbal, no corporal ou mesmo apenas no olhar. Tal comportamento, repetido com certa constância, deixa a convivência insuportável com a pessoa.

Melinda é assim. Sempre foi assim. Desde a infância, até seus 40 e poucos anos. E é justamente torno desta questão que gira todo o filme escrito e dirigido por Tyler Perry. Duas décadas inteiras de puro azedume da protagonista. Talvez por isso não tenha sido uma escolha melhor para o papel principal que não a do nome de Taraji P. Henson. A atriz, mais conhecida no Brasil como a ardilosa empresaria e produtora musical Cookie Lyon da série de TV Empire – Fama e Poder, dá novamente um show tanto com suas expressões faciais de fúria, desprezo, revolta e decepção como nas cenas mais exasperadas, quando é capaz de chegar com muita facilidade às vias de fato.

Acrimônia (Acrimony, EUA, 20187 – Paris Filmes) retrata o passado e o presente de Melinda, a jovem que dedicou-se plenamente ao namorado que conheceu na faculdade, acreditou nele, apostou em seus sonhos, foi traída, deu chance a uma segunda chance, casou-se com ele, matou-se de trabalhar para que ele perseguisse os sonhos que tornaria o casal milionário e, de uma hora para a outra, viu tudo ruir até não ter mais condição de fazer outra coisa que não pedir o divórcio. Até boa parte da segunda metade do enredo, o espectador é guiado a partir do ponto de vista e, então, acredita piamente em tudo o que Melinda diz, conta ter passado e pensa.

Com muita destreza, Perry conduz reviravoltas que jogam com o destino de Melinda, o parceiro Robert Gayle (Lyriq Bent), suas duas irmãs (a casa herdada da mãe acaba sendo perdida para hipoteca porque o marido fracassa nas negociações de seu invento revolucionário) e os respectivos cunhados. Nesta torrente de emoções, em determinados momentos, o jogo se vira contra a personagem, que acaba suscitando pontos de dúvidas em relação às suas considerações e atitudes. Não por acaso a primeira cena do longa já a mostra como ré de um julgamento, recebendo do juiz a sentença de manter-se afastada do já ex-marido e a atual companheira dele.

Acrimônia vai bem até seu último plot twist. Depois, no ato final, descamba para uma sequência de exageros (alguns sem muita explicação de como acontecem de fato) para chegar a um momento que, embora impensável até o miolo do roteiro, acaba apresentando um desfecho plausível tanto para aquela que sempre se mostrou perturbada emocionalmente como também ao marido que, segundo a mesma, aproveitou-se de sua bondade e ingenuidade para tentar com que um golpe de sorte mudasse os rumos de sua vida. Tudo para que o espectador chegue até o final sem conseguir tomar o rumo da balança do julgamento e chegar à conclusão de quem sempre agiu de modo certo ou errado durante o relacionamento azedado por impulsos, instintos e emoções à flor da pele.